quarta-feira, 24 de abril de 2019

Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019


Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019

EXPERIÊNCIA DE RESSURREIÇÃO: 

tocar as chagas da humanidade

“...mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20)


Texto Bíblico: João 20,19-31


1 – O que diz o texto?
Os relatos das Aparições nos advertem de que não se trata de uma crônica de acontecimentos. O que João quer nos comunicar são vivências internas dos discípulos reunidos; o que ele quer nos transmitir está mais além daquilo que entra pelos sentidos ou podemos imaginar.

Destacamos algumas das expressões do relato de João para formular a no Crucificado - Ressuscitado. 

O relato deste domingo se revela como uma catequese muito rica em conteúdo. Por uma parte, vincula a ressurreição com a paz, o dom do Espírito, o perdão, a fé, a missão...  Por outra, parece querer responder aos cristãos da “segunda geração”, que já não haviam conhecido o Jesus histórico, nem haviam participado daquela primeira experiência “fundante”. É a eles, representados na figura de Tomé, que lhes é dito: 

“Bem-aventurados aqueles que creram sem terem visto!”

São muitos os que se sentem escandalizados com o Evangelho deste 2º Domingo de Páscoa. Não é possível que Jesus Ressuscitado conserve as chagas no seu corpo! Pode-se tocá-lo como se tocam as feridas sangrentas de um torturado, as mãos frias de um moribundo, os pés feridos de um imigrante?

Frente aos riscos de um falso espiritualismo que quer esquecer-se da “carne”, frente a todas as tentativas de entender a Páscoa como pura mudança de consciência, o Evangelho de João quis ressaltar a corporalidade do Cristo Ressuscitado e o faz desta forma, ou seja, dando um destaque especial às chagas das mãos e do lado aberto; o mesmo corpo do amor vivido e da entrega, o corpo ferido com cravos e lança, se converte assim em um sinal visível de Ressurreição, sinal que continua presente na realidade das pessoas.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte de Jesus não foi um acidente de percurso, não é algo que se esquece, sinal de sua condição humana; o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que leva em suas mãos e em seu lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os que sofrem no mundo. 

Como cristãos, professamos: “o Ressuscitado é o Crucificado”; por isso é necessário “tocar suas feridas”, ali onde Ele sofre naqueles que sofrem. Portanto, contemplar o Ressuscitado chagado impulsiona a continuar encontrando o mesmo Jesus nas chagas de todos os sofredores da história.

É surpreendente que o evangelho de João tenha conservado o registro da experiência de Madalena; mas, mais surpreendente ainda é o fato de que tenha recolhido a experiência de Tomé, para assim revelar-nos que a Páscoa significa tocar com mais força, de um modo mais profundo, as chagas de Jesus ressuscitado.

Maria Madalena havia “tocado em Jesus” no horto pascal, porque o amava e pela alegria de saber que Ele estava vivo. Mas, depois teve que deixar de tocá-lo fisicamente (“não me toques”), a fim de tocá-lo e conhecê-lo de um modo diferente, levando a mensagem da Vida de Jesus aos discípulos, fechados numa casa. Ela que o tocou com amor, foi à primeira das ressuscitadas com Jesus no jardim de Vida da Páscoa.

À diferença de Madalena, Tomé precisou aprender a ativar os sentidos: olhar, escutar, tocar...; precisou descer do pedestal dos seus dogmas, das ideias separadas, para retomar a experiência concreta do amor de Jesus, que é a vida entregue pelos outros, amor chagado. Não basta crer em Jesus, separado de sua vida de compromisso em favor da vida; para crer nele é preciso querer tocar suas chagas, que são as chagas do mundo ferido por falta de amor.

Tomé começou sendo o apóstolo de uma espiritualidade sem compromisso social, sem entrega profética, sem solidariedade com os pobres e excluídos. Não era um apóstolo “cristão” de Jesus crucificado, mas um praticante da religião desencarnada que alguns, ainda hoje, continuam defendendo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Tocar” em Jesus, colocar o dedo em suas chagas e a mão no seu lado aberto, é descobrir a ferida sangrenta da história humana, vinculando assim a ressurreição com a dor dos homens e mulheres oprimidos(as), torturados, enfermos, assassinados...

Jesus Ressuscitado continua levando em suas mãos e em seu peito a ferida da história, não só as chagas dos cravos e o corte da lança em seu próprio corpo, mas a chaga dos enfermos e expulsos, dos famintos e oprimidos e a infinidade de pessoas que continuam sofrendo ao nosso lado.

O Ressuscitado se faz reconhecível, é o mesmo Jesus, é o crucificado, é seu corpo chagado. Trata-se de crer no Crucificado. Suas feridas são inseparáveis da morte e da entrega a uma causa: o Reino. Não é a passagem a uma condição superior à do ser humano, mas a mesma condição humana levada a seu cume, assumindo sua história anterior.

As chagas, sinal de seu amor extremo, evidenciam que é o mesmo que morreu na cruz. Já não há lugar para o medo da morte. Ninguém poderá tirar de Jesus a verdadeira Vida, nem tirá-la dos seus discípulos. 

A permanência dos sinais de sua morte indica a permanência de amor; elas são as cicatrizes de um compromisso com a vida. Além disso, elas garantem a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, posso dizer que a experiência de Tomé, que é também a minha, tem um valor importante para eu que sou seguidora do Ressuscitado.

Hoje, ressuscitado, Jesus continua expondo-se, deixando-se tocar sem resistências, mostrando suas feridas, permitindo que, como Tomé, “coloco o dedo na ferida”. Quê paradoxo! Os sinais da Ressurreição se encontram aí onde antes se encontravam os sinais de dor e morte. Só quando assumo esta realidade, poderei testemunhar, como os primeiros discípulos, que o “Crucificado ressuscitou!”

São estas suas feridas e chagas nas mãos e no lado aberto os sinais que o Ressuscitado me mostra para que eu possa reconhecer as cicatrizes que também carrego em meu corpo. São estes os sinais que Ele me mostra para que eu possa pôr também minhas mãos na ferida que continua aberta em meu mundo, nas mãos e lados de tantas irmãs e irmãos, de tantos povos, de mim mesma. O Ressuscitado continua carregando todas as chagas e me convida a tocá-las, a acariciá-las, a acolhê-las, a me reconciliar com aquelas que ainda não foram integradas e pacificadas, a me empenhar na transformação daquelas que são fruto da injustiça e do mal.

Páscoa é tocar e acompanhar Jesus nos chagados da vida. 

Páscoa é também (ao mesmo tempo) sentir nas mãos e nos dedos, no coração e no olhar, o abraço de amor de todas as pessoas. Não há Páscoa de Jesus sem corpo-a-corpo de intimidade e proximidade, de homens e mulheres, de crianças e idosos, nos diversos tipos de encontro e comunhão, não para possuir, mas para compartilhar, não para impor-se, mas para juntos abrir caminhos sempre novos de respeito e admiração. Assim me toca Jesus, assim se deixa tocar por mim.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Trago gravada em minha geografia corporal infinitas pequenas mortes e feridas; às vezes tão pequenas que não deixam cicatrizes visíveis, mas estão aí, cravadas em meu corpo. 

Contemplando as chagas do Ressuscitado, ser capaz de reconhecer que fui criada para ressuscitar, com as minhas feridas integradas, pacificadas, iluminadas....

Minha sensibilidade será ativada o suficiente para poder reconhecer esses mesmos sinais de dor em outros corpos e rostos.

“Fazer memória” das cicatrizes da minha história corporal, unindo-as às “feridas do Ressuscitado”.

Isso já é ressurreição, plenitude do mistério da comunhão através dos gestos, da proximidade, do abraço...

A cada abraço sentido, uma ressurreição também vivida!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:37


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019


Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019

RESSURREIÇÃO: pedra angular da vida cristã

“...e viu a pedra retirada do sepulcro” (Jo 20,1)


Texto Bíblico: João 20,1-9


1 – O que diz o texto?
A escuridão da madrugada desaparece e desponta a Luz que dá início à nova Criação e à nova história. 

Depois do silêncio, renasce a Palavra. Parecia o fim e, no entanto, aquele silêncio era o mesmo que precedeu à Palavra criadora: “Faça-se a luz”! O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança. 

Não há razão para o medo e a tristeza, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

Arrancados do silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor”! 

Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio e ecoará por toda a eternidade.

A pedra que fora removida do túmulo de Jesus revelou a Madalena uma novidade que seu coração buscava, uma novidade que espanta, enche o interior do desejo de procura: “Ele vive”.

O caminho de Madalena em direção ao túmulo é símbolo da coragem de atravessar o escuro da madrugada para ver resplandecer uma nova aurora em sua vida, pela força criadora da única Presença que tudo sustenta tudo recria e enche de amor: a presença do Cristo Ressuscitado.

Ressurreição: experiência de afastamento das pedras que travam o fluir da vida.

“Nossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Essa vida quer se expandir. Vida que vem de Deus, vivida em Deus e que desemboca, como um rio, no Grande Oceano da Vida.

A experiência da Ressurreição permite transformar todas as pedras da entrada do túmulo em pedra fundamento, sobre a qual construir nossa vida. A ressurreição tudo integra, tudo pacifica, mesmo as pedras que bloqueavam a vida.

A ressurreição nos faz sair da estreiteza da vida e renascer para coisas maiores, do alto.

“Há um risco de acostumarmos e conviver com os sepulcros” (Papa Francisco).

Sepulcro é passagem: é como ventre materno. Há um tempo para germinar, potencializar a vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Posso dizer que a Ressurreição é a “pedra angular” da minha vida de fé. Pedra sobre a qual a fé pode se construir, base sólida que fundamenta a minha vida.

Diferença entre a Pedra angular e a pedra rolada na entrada do túmulo (que impede o fluir da vida): pedra na entrada no túmulo é sinal de morte, pois se fixa no passado; pedra angular é sinal de vida, base sobre a qual se constrói um futuro inspirador.

Há muitas pedras na entrada do meu coração, travando a vida (tristeza, fracasso, crise, trauma...); só a experiência de encontro com o Ressuscitado pode rolar estas pedras, integrando-as e dando um novo significado. A experiência de Ressurreição permite transformar a pedra da entrada do túmulo em Pedra angular.

No evangelho de hoje, a experiência dos três personagens (nossos espelhos), revelam pedras na entrada de seus corações. Madalena, vai ao sepulcro sozinha, de madrugada, busca um corpo, carrega uma pesada pedra de tristeza, fracasso e dor pela perda do amigo. Encontra a pedra do sepulcro removida e fica assombrada diante deste fato. A pedra do seu coração também começa a ser removida (vai culminar no encontro com Jesus); ela entra em outro movimento: sai de sua solidão e vai avisar os outros discípulos, embora não tenha clareza do que está ocorrendo.

Sua vida foi uma longa noite até que o encontro com Jesus a libertou e lhe abriu um novo horizonte, restituindo-a em sua dignidade de filha de Deus e potenciando-a para iniciar uma nova vida e formar parte do grupo dos mais achegados a Jesus. Madalena, a “apóstola dos apóstolos”, é uma de minha grande mestra na noite e na crise que supõe a passagem pelo Sábado santo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Pedro e João também carregam a pedra do medo (estavam trancados em casa, como se fosse sua sepultura). Com o aviso de Madalena, começa um movimento interior neles: saem do esconderijo correndo e vão ao encontro do túmulo.

João, talvez com uma pedra menor, corre mais veloz. Foi o único apóstolo fiel até o fim.

Pedro, que carrega pedra até no nome, permanece na dúvida.

João corre e chega primeiro; não entra de imediato no túmulo: precisa de tempo para processar a novidade da pedra removida. Ele é mais místico e se deixa impactar pela surpresa que encontra. Por isso, quando entra no túmulo, mergulha no mistério: viu e acreditou. Bastou alguns sinais (faixas de linho no chão e sudário enrolado), mas foi o suficiente para compreender o que estava acontecendo. Se não houvesse encontro com o Ressuscitado, para ele bastariam os sinais.

Pedro, primário na sua reação, entra abruptamente no túmulo: vê os mesmos sinais, mas ainda permanece na dúvida. Mas ambos, Pedro e João, sentem que as pedras interiores começam a ser afastadas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “A pedra tinha sido removida”: debaixo de cada pedra que parece amassar-me, há vida que quer ressuscitar. À luz da ressurreição não há pedra que seja capaz de sufocar o impulso vital.

O sepulcro vazio é um convite, a saber, olhar com o coração para descobrir, nas faixas e sudários de minha vida, a presença do Ressuscitado. Só o amor me capacita para um olhar contemplativo; por isso, o amor corre mais depressa que a autoridade. Para quem têm olhar contemplativo, as faixas já representam um grande sinal: apontam para uma vida destravada e plena.

“Viver como ressuscitados” é a marca que identifica os seguidores e as seguidoras de Jesus.

Estar atentos às faixas e sudários de meu cotidiano: elas apontam para a vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Vou, no dia de hoje, acompanhar Maria Madalena em seu itinerário da morte à vida, vou fazer o caminho com ela da nostalgia à fé, do luto à esperança, do vazio à comunidade, do silêncio ao anúncio.

Vou assumir como minha as suas perdas, seu pranto e seu desconsolo, e identificar neles também minhas perdas e as de todos os povos.

Vou pedir ao Deus de todo consolo que, com sua ternura e cuidado, regue as sementes de minhas perdas, minhas frustrações, meus ceticismos, minhas expectativas fracassadas, para que engendrem vida nova e não amargura e nem desespero.

Acompanhando Maria Madalena em seu percurso de luto, farei memória dos meus lutos e os de meu povo e pedir a Deus para ser consolada, e assim poder ser testemunha da consolação em meio a tantos fracassos históricos, como estão acontecendo em meu mundo e em meu ambiente cotidiano.

“Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce...” (S. Inácio de Loyola)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Aleluia 
Autor: G.F Handel - D.P  
Intérprete: Instrumental
CD: Aleluia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:03

Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019


Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019

SÁBADO SANTO: 
“descer” com Jesus aos “infernos” interiores e sociais

“As mulheres, tendo regressado, preparam aromas e perfumes” (Lc 23,56)

* Como se pode passar da SEXTA-FEIRA SANTA ao primeiro DIA da semana sem unir-nos a Cristo no SÁBADO SANTO?


Texto Bíblico: Lucas 23,50-56


1 – O que diz o texto?
É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, o(a) seguidor(a) de Jesus se apresenta no sepulcro de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

Nossa experiência, como cristãos e como seres humanos, se parece bastante à experiência do Sábado Santo. Não é uma experiência de morte, como a da Sexta-feira Santa; não é tampouco uma experiência de luz, nem de vida, como a do domingo de ressurreição. O Sábado Santo é o dia da ausência e do vazio, o dia do luto, o dia das dúvidas e também das esperanças. É terra de penumbra, tempo de vigília. É um caminho que nos afasta da morte, mas não sabemos para onde nos leva. O Sábado Santo oferece duas possibilidades: ou habituar-nos à ausência, ou arriscar-nos a esperar o “desconhecido”.

O sepulcro é o lugar do silêncio e da espera, onde parece que nada acontece. Há muitos espaços em nosso mundo e em nosso interior que se assemelham a este; muitos lugares onde temos a sensação de apalpar a derrota e o fracasso. Pois bem, esse sepulcro onde jaz a Vida a ponto de explodir, onde a Palavra espera para voltar a ser proclamada com nova força, é hoje o ícone de esperança para todas essas realidades vencidas e atravessadas, que continuam esperando que se faça a luz. Ensina-nos a sentir que, embora não a vejamos, a pedra que cobre tantas realidades está a ponto de romper-se.

Aqui evocamos a palavra talvez mais estranha e misteriosa do Credo: “desceu aos infernos”, ao lugar onde todos os humanos estão unidos no destino comum da morte. Jesus penetrou nesse abismo, chegando assim ao que a Igreja chama “os infernos”, o sub-mundo da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O Credo afirma que Jesus “desceu” ao lugar ou estado desse inferno, para libertar os humanos da morte, oferecendo-lhes sua ressurreição (a tradução em português do Credo afirma: “desceu à mansão dos mortos”). Dizendo que “desceu aos infernos” o Credo destaca o abismo de dureza, destruição e morte onde Jesus revelou sua máxima solidariedade com os humanos. 

Dessa forma Ele se fez solidário com os mortos, radicalmente. Só é solidário quem assume a situação dos outros. Descendo até à tumba, sepultado no ventre da terra, Jesus se converteu no amigo daqueles que morrem, iniciando, precisamente ali, o caminho ascendente da vida.

Jesus penetrou no abismo da morte e sua presença solidária removeu as entranhas do inferno, como diz Mt 27, 51-52: “a terra tremeu e as pedras se partiram, os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram”. Dessa forma, realizou radicalmente sua missão messiânica.

Jesus já tinha descido ao inferno dos loucos, enfermos, violentados pela miséria, aqueles que estavam angustiados pelas forças do abismo; assumiu a impotência daqueles que padeciam e pereciam arrastados pelas forças opressoras da terra, chegando dessa forma até o inferno da morte.

Havia sobre o mundo outros infernos de injustiça, solidão e sofrimento; mas só o inferno da morte era total e decisivo. Mas Jesus derrubou suas portas, abrindo assim um caminho que conduz para a plena liberdade da vida (à ressurreição), na dimensão da graça. A este nível posso falar de reconstrução da realidade, salvação definitiva. Por isso, em princípio, estão (estamos) todos salvos pelo Cristo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus “desceu até o inferno” para encarnar-se plenamente, partilhando a sorte daqueles que morreram. Mas, ao mesmo tempo, “desceu” para anunciar-lhes a vitória do amor sobre a morte, revelando-se como Grande Evangelista que proclama a mensagem de libertação definitiva, visitando e libertando os cativos do inferno.

Quando afirmamos que Jesus “desceu aos infernos” estamos falando desta realidade radical de não vida, onde Ele revela uma presença “iluminante”, abrindo um horizonte de luz a todos que “jazem na sombra da morte”. A morte redentora de Jesus estende sua influência até o espaço misterioso dos mortos. Não se trata de uma influência externa; foi Jesus mesmo quem partilhou o estado da morte, do inferno. Sua solidariedade simplesmente é anúncio de Evangelho, é salvação, é extensão inesperada da Misericórdia de Deus.

Nesse contexto social em que vivo, o inferno continua se expressando nas diversas opressões da história humana (desde a fome ao cárcere, da exclusão social à enfermidade, da injustiça à intolerância...). 

O Papa Francisco nos fala cada dia da necessidade de “descer aos infernos da história humana” (lugares de opressão, bolsões de fome, violências, exclusões...) para libertar os homens e as mulheres dos infernos atuais do mundo, esperando a grande libertação de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o pior inferno é aquele alimentado justamente pelos que se dizem seguidores e seguidoras de Jesus, mas que assumem atitudes preconceituosas e intolerantes, fazem apologia da “posse de armas”, criam guetos sociais, políticos, religiosos..., onde a morte continua tendo a primazia. Neste inferno se situam aqueles que preferem fechar-se em sua violência, de maneira que não aceitam, nem neste mundo nem no novo mundo da páscoa, a graça messiânica e o amor universal de Jesus. Sei que Jesus não veio para condenar ninguém; mas se alguém se empenha em manter-se em seu egoísmo e violência, pode converter-se, ele mesmo (apesar da graça de Jesus) em inferno perdurável.

Só acredita n’Aquele que “desceu aos infernos” quem está disposto a descer com Ele e comprometer-se a tirar do inferno tantas pessoas oprimidas, torturadas, violentadas...

Não ter pressa no Sábado Santo. Não passar tão rapidamente da Sexta-feira Santa ao Domingo da Ressurreição. Deixar o Sábado Santo estender suas sombras em meu interior. Reconhecer, então, que essa é a chave para entender o que me acontece e o que acontece na manhã de Páscoa.

Com Jesus, que desce aos “infernos” da humanidade, sou também movida a descer em direção aos meus “infernos interiores” (lugar dos traumas não pacificados, das vivências não integradas, das feridas não curadas). Na sombria obscuridade interior há pontos de luz que são alimentados pela presença de Jesus que, na morte e descida, integra tudo e tudo redime. Nada do que é humano é descartado.

Meu interior, a terra, a humanidade, o cosmos… estão grávidos de Ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Como as mulheres, me afastar do túmulo para preparar aromas e perfumes. As orações são aromas que o Espírito recolhe em sua taça. A esperança é o perfume que faz ultrapassar a putrefação das intolerâncias e preconceitos. 

Na noite do Sábado Santo me proponho dormir pouco e me levantar muito cedo, porque algo surpreendente vai acontecer. A Luz está para chegar. O Espírito ficou sem palavra, mas já sussurra. A voz do silêncio já geme; nele vislumbra-se a chegada da Vida. Algo grandioso está sendo gestado.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto das mulheres esperançosas; a transparência feminina da “Ruah” me mantém no ritmo da espera.

Aproximam-se os rumores de ressurreição. É Páscoa.

Não basta renascer; é preciso assumir minha condição de responsável de uma Nova Vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,50-56
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:  
Música: Proclamação da Páscoa
Autor: D.P.
Intérpretes: Marcos e Roselene
CD: Cantos da Semana Santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:15


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019

SEXTA-FEIRA SANTA: 
contemplar a Cruz e os crucificados

Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, 
a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena...” (Jo 19,25)


Texto Bíblico: João 19,16-30

1 – O que diz o texto?
Na história do cristianismo tivemos sempre duas grandes tentações: eliminar a cruz ou exaltá-la. A cruz não tem a última palavra no Evangelho, mas é uma página incômoda que não podemos saltar, como tampouco podemos negar nem ocultar a densidade do sofrimento. Negá-lo é negar o humano.

Há algo muito perturbador na ideia de um “Deus crucificado”. Escândalo para uns, contradição para outros, absurdo para muitos... Onde fica a grandeza, a força, o poder? Que sentido tem ainda hoje em dia ajoelhar-se ou fazer reverência diante do crucificado? Como olhar a face da derrota? Como aceitar a morte do Justo? Como compreender o silêncio do Pai diante da morte do Filho? 

E aí surge a eterna pergunta pela questão do mal, pelo sofrimento dos inocentes, pela tragédia que atravessa a criação. Como é possível? E um grito se eleva ao céu, entre a queixa e a incompreensão: “por que?”

O Deus crucificado é, junto à ressurreição, a intuição mais radical de nossa fé. Fala-nos da fragilidade humana, assumida pelo mesmo Deus; fala-nos da paz como único caminho, frente a outras sendas construídas sobre o rancor, a violência ou a lei implacável; fala-nos do amor como a maior transgressão em um mundo que etiqueta muitas pessoas como indignas de serem amadas; fala-nos da dor de Deus, um Deus que não é distante, alheio nem indiferente à criação que saiu de seu coração; um Deus próximo até o ponto de esvaziar-se em nós, conosco, por nós; fala-nos das entranhas de misericórdia d’Aquele que se comove diante dos sofrimentos humanos; fala-nos de compromisso, de uma aliança inquebrantável, e de risco; fala-nos de vítimas inocentes e verdugos inconscientes que não sabem o que fazem. 

Mas, nem para verdugos nem para as vítimas a Cruz há de ter a palavra definitiva. Tudo isso, e muito mais, é o que podemos ver quando contemplamos o Crucificado. 


2 – O que o texto diz para mim?
Gólgota, o monte da Cruz, do Amor e do pranto. Um lugar carregado de densidade. Nele está o amor fiel e atravessado de uma mãe, a fidelidade de um discípulo e a coragem das mulheres que não abandonam nem fogem; ali se expressa a esperança ferida de um bom ladrão, o reconhecimento assombrado de um centurião, a zombaria daqueles que não são capazes de compreender e pedem provas, a indiferença daqueles que repartem as roupas do crucificado; e, sobretudo, Gólgota desvela uma morte que é consequência de uma vida de entrega, feita de gestos, palavras e obras; desvela uma vida que se fez doação radical nas mãos daquele que se revela Misericórdia.

A vida de Jesus é inseparável de sua execução, de sua morte. Estas são consequência de seu modo de ser e de estar na vida e com as pessoas, sendo misericórdia em ação, misericórdia em relação.

O Crucificado é a expressão máxima da ternura entregue até o extremo na missão de aliviar o sofrimento dos últimos. Por isso, a ternura é também subversiva, porque inverte a ordem “colocando como primeiros os últimos” (Mt 20,16). A ternura vivida até o extremo, à maneira de Jesus, tem repercussões sociais e políticas e por isso se faz insuportável para aqueles que “fazem de sua força a norma da justiça” (Sb 2,1-17) e “reprimem a verdade com a injustiça” (Rom 1,18).

Jesus é condenado porque sua atuação e sua mensagem sacodem na raiz o sistema organizado a serviço dos poderosos do império romano e da religião do templo. A vida de Jesus se havia convertido em um estorvo que era necessário eliminar, como as vidas de tantas pessoas que hoje se tornam molestas ao sistema ou que são consideradas “presenças perigosas”. Este é o mistério que hoje estamos contemplando.

A liturgia da Sexta-feira Santa me ajuda a abrir os olhos diante dos crucificados de hoje e a impotente proximidade de Deus com eles.

É preciso olhar sempre a Cruz por dois lados: o dos crucificadores e o das vítimas. Do lado dos crucificadores, a cruz é morte. “Maldita seja a cruz”. Nós cristãos já temos nos acostumado a cantar “Ó Cruz, tu nos salvarás”, e esquecemos que há cruzes que não são cristãs, mas legitimadoras da dor e da injustiça que recai sobre as vidas das pessoas mais feridas e excluídas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A Cruz nunca vai me poupar da dor, mas me dá lucidez. Ela me impede cair em espiritualidades evasivas, depura minhas imagens de Deus, às vezes demasiado burguesas e light, que não suportam a prova do fracasso, da obscuridade e do silêncio.

A violência e a injustiça geram vítimas e contam com minha cumplicidade. A Boa Notícia do evangelho se manifesta a partir do reverso da história e assume a miséria, a debilidade humana, o limite físico e psíquico, o fracasso. Por isso, a sexta-feira santa me revela também os aspectos mais obscuros de minha condição humana.

Há lugares e situações de vida diante dos quais não posso deixar de exclamar: “Sempre é sexta-feira Santa!”: miséria, exaltação da violência, relações centradas na intolerância, solidão, sonhos quebrados...

Se aproximar de cada um desses lugares é tocar as chagas do Crucificado, chagas que crio e gero com minha indiferença e minha omissão; chagas que me molesta porque cheira mal, porque grita e me desmascara, me devolvendo à minha verdade mais íntima.

Adentrar-me em suas vidas é também apalpar o mistério, o mistério do mal e da injustiça, o mistério de uma Vida com maiúsculas que sempre é mais e que brota a partir de baixo e a partir de dentro para dar à luz a esperança, embora eu, muitas vezes, não saiba percebê-la.

No Crucificado, Deus me mostra a densidade mais profunda de seu mistério. Um Deus que não só está a favor das vítimas, mas que, à mercê de seus verdugos, revela sua máxima solidariedade e proximidade para com “os sem poder”, com aqueles que “desfigurados, nem pareciam homens” (Is. 52,14).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, quando acompanho Jesus na paixão, também “vou sendo talhada” pelas cenas que contemplo, com o coração aberto à dor e à aflição. Essa dor esvazia minha auto suficiência e purifica minha auto imagem triunfal, humanizando-me. Ao contemplar o amor redentor de Deus revelado em seu Filho Jesus, eu me pergunto onde está Ele no sofrimento. Há aqui uma inversão de perguntas: 

Para responder à interrogação -“Onde está Deus nas situações de sofrimento e morte?”, Deus me desafia a responder essa própria questão: “Onde está você no meu sofrimento?”.

Contemplando o Crucificado vou pedir ao Senhor neste dia que me ajude a permanecer solidária nas situações onde a “Divindade se esconde” (S. Inácio), que me ajude a olhar a Cruz e escutar o grito dos crucificados nela; escutar os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, da violência, da injustiça e do desamor. A Cruz é um grito no qual cabem todos os gritos da humanidade, desde o primeiro choro de uma criança até o último suspiro de um moribundo.

Escuto neste dia os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, os gritos dos empobrecidos, o grito dos povos e culturas condenadas à exclusão...; todos esses gritos unidos ao grito da mãe-terra, destruída em seus ecossistemas e explorada pela ganância.

Escuto grito das vítimas do bilionário negócio da venda das armas; o grito dos “descartados” e de todos aqueles que o sistema considera como sobrantes: os sem teto, sem terra, sem trabalho; o grito daqueles que são julgados por leis injustas em tribunais que, como Pilatos, lavam as mãos...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Nos Gólgotas deste mundo, continuar apostando, gritando e proclamando Vida, apesar daqueles que investem na cultura da morte.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 19,16-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Lamento do Senhor – fx 11
Autor: Pe. Ximenes
Intérprete: Marcos
CD: Cantos da semana santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:12



segunda-feira, 15 de abril de 2019

Leitura Orante – QUINTA-FEIRA SANTA – 18 de abril de 2019


Leitura Orante – QUINTA-FEIRA SANTA – 18 de abril de 2019

“...E TUDO COMEÇA EM TORNO À MESA”

Durante a ceia” (Jo 13,2)


Texto Bíblico: João 13,1-15


1 – O que diz o texto?
Na Quinta-feira Santa celebramos o Amor de Jesus até o extremo, a radicalidade de sua ternura que se faz cuidado até o ponto de identificar-se com a humanidade mais ferida.

Não é só o “dia do amor fraterno”, mas do amor pleno, em todas as suas dimensões, tal como se revelou na vida e mensagem de Jesus, culminando neste dia através de quatro expressões:

- É Amor de Ceia, compartilhar o pão e o vinho (Eucaristia), em gesto de comunhão aberta a todos os homens e mulheres da terra, amor que protesta contra a fome e marginalização de milhões de pessoas.

- É Amor de Lava-pés, ou seja, de serviço concreto aos outros, na casa, no trabalho, nas relações... É lavar os pés, dar dignidade a quem está próximo ou distante, em gesto concreto de compromisso e ajuda humana.

- É o Amor do Novo Mandamento, o único mandato de Jesus, que marca a identidade dos seus seguidores.

- É Amor que se institui em forma de Ministério concreto de serviço aos demais. Este é o dia do sacerdócio, que não é posição de poder sobre os outros, mas um modo de viver, acompanhando e ajudando os outros, homens e mulheres, em gesto concreto de amor (“como eu vos tenho amado” e “vos lavei os pés”).

Enfim, Jesus pede aos seus que amem assim, que se lavem os pés, que se ajudem e sirvam a todos. Esta é sua Páscoa de Quinta-feira Santa. E tudo isso junto a uma mesa, despojada e provocativa.


2 – O que o texto diz para mim?
Modelada pelo ser humano, a mesa, ao mesmo tempo modela todo aquele que dela se aproxima; na perspectiva cristã, a mesa desperta em mim aquela sensibilidade e delicadeza de servidora, como Jesus teve, ao se prostrar, com o avental, aos pés dos apóstolos para lavar-lhes os pés.

Jesus, antes de se deixar no sacramento do pão, “desejou ardentemente” cear com os seus, ou seja, Ele teve fome, desejo ardente, motivação para...

A mesa e a refeição foram o “lugar sagrado” do pão, dos afetos, dos desejos de relações livres, de compromisso, de justiça e de solidariedade vividos por Ele durante sua peregrinação, passando de mesa em mesa, até se fazer alimento, numa mesa de refeição e de festa: a da sua Páscoa.

Posso dizer que a mesa tem um “quê” de mistério pascal, pois ela me capacita para acolher o inesperado que vem: o “outro” em sua aflição, em sua fome, em sua dor.

Nela, o coração humano encontra repouso, alento, força e vigor para caminhar com sentido de viver no mundo que o cerca, ora em sua paixão, ora em sua morte, mas também em sua ressurreição, até que toda a Criação seja plenificada em Deus.

Palco da realidade cotidiana, a mesa da refeição e da festa transforma-se num grande teatro, onde o personagem principal é a vida e suas aventuras.

Nesse teatro cotidiano, eu conto, reconto e me reconecto com a minha própria história, muitas vezes enterrada pelo esquecimento. Como ser pensante e pulsante, é sempre desafiador, junto à mesa, a compor uma nova história.

O importante é estar à mesa da refeição sempre inteira, para que nada seja perdido, alienado aos meus olhos, mas sim resgatado, redimido pelo “mistério do encontro”.

Mesa criativa, solo de onde brota o alimento material, emocional, psíquico e espiritual em suas múltiplas formas, cores, aromas e sabores do Reino do Pão e da Festa da Vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A grande e sublime refeição foi a Última Ceia que se apresenta como o cume de todas as refeições que Jesus participara com diferentes pessoas, porque nela desembocam as aspirações de todos os tempos.

Na Eucaristia, estão à mesa, a comida e a bebida, os comensais, sem exclusão de ninguém, provocando, como na mesa humana, a partilha, o encontro, a troca, a comensalidade, a união e a comunhão.

O altar se torna o móvel sagrado por excelência, em torno do qual se reúne a povo peregrinante, que marcha para o festim do Reino, mesa definitiva, preparada para todos aqueles que ouviram e atenderam o convite do Senhor. A mesa do Senhor oferece pão e vinho, os quais são distribuídos sem distinção de pessoas.

A eucaristia reúne os participantes na comensalidade divina, recordando-lhes o grave compromisso que os une a todos os homens e mulheres. Unir-se a Cristo é unir-se a toda e qualquer pessoa.

Quê fazia e quê queria fazer Jesus na Última Ceia?

A chave de resposta está no evangelho de hoje; a única forma de compreender a Eucaristia é entender o Lava-pés. O gesto escandaloso de Jesus revela um enfoque nem sempre percebido em seu sentido último. Jesus não faz um gesto teatral; Ele revela aos apóstolos um “novo ângulo” ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à mesa.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o gesto de Jesus convida a me deslocar, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quê novidade se percebe a partir deste lugar?

Quando me situo no lugar fora da mesa, a primeira coisa que percebo é que falta um lugar junto à mesa, precisamente o meu lugar.

Suponho que os comensais me admitam à mesa e arrumem um lugar para mim. Automaticamente se revela um problema: redistribuição de espaço, de alimentos, etc...

Portanto, olhar a refeição a partir do ângulo de quem não participa muda totalmente às perspectivas.

Assim fica claro que não é normal que haja pessoas excluídas da refeição, quando todos foram criados para sentarem como irmãos e irmãs na mesma mesa do Pai. 

Enquanto houver excluídos não será o banquete que Jesus quis, e, portanto, será necessário cair-se na conta da exigência de mudança para que todos eles possam participar. Somente fazendo-se solidários da promoção e libertação daqueles que não se sentam à mesa comum poderá realizar, na verdade, a prática do sacrifício de Jesus.

Esse era o desejo que habitava o mais profundo do coração d’Ele: reunir todos os homens e mulheres ao redor de uma mesa, sem exclusões e nem marginalizações.

Não é possível reconhecer o Corpo do Senhor presente na Eucaristia se não reconhecer o Corpo do Senhor na comunidade onde alguns passam necessidades. 

Pois, se fechar os olhos às divisões e às desigualdades mentirá ao dizer que Cristo está presente na Eucaristia.

Enquanto eu não me mobilizo a mudar minha sociedade de maneira que mais pessoas aceitem a alegria de compartilhar o pão e a vida, faltará algo em minha Eucaristia. 

Essa “ferida” o cristão deve sempre tê-la presente.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Cristificar minha mesa cotidiana”; e ao participar dela descobrir solidária com todo o povo que caminha; ao mesmo tempo, ela prolonga em minha casa a “mesa do Senhor”, quebrando em mim qualquer solidão ou muralha e me ajudando a acolher as pessoas, a amá-las na sua diferença. A “mesa cristificada” desperta em mim outras fomes: justiça, solidariedade, compaixão... 

Jesus, companheiro de mesa, me convida a ser mesa de acolhida e de partilha.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nesta mesa sou mais livre 
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Cantigas de Eucaristia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:27