terça-feira, 26 de março de 2019

Leitura Orante – 4º Domingo da Quaresma – 31 de março de 2019



Leitura Orante – 4º Domingo da Quaresma – 31 de março de 2019

DESCOBRIR O PAI QUE NOS HABITA

“Quando ainda estava longe, seu pai o viu e,  
tomado de compaixão, correu, abraçou-o e o beijou afetuosamente.” (Lc 15,20)


Texto Bíblico: Lucas 15,1-3.11-32


1 – O que diz o texto?
As parábolas mais belas que saíram dos lábios de Jesus, elaboradas nas profundezas de seu coração, foram aquelas nas quais deixou transparecer a todos a incrível misericórdia de Deus. 

A compreensão da “parábola do amor paterno-materno de Deus” pode ser para nós uma verdadeira iluminação. Ela revela não só o “coração compassivo” de Deus, mas também vemos refletida nela, de maneira sublime, tudo o que devemos aprender sobre o “falso eu” e o nosso verdadeiro ser. 

Os três personagens representam diferentes aspectos de nós mesmos.

A “parábola dos dois filhos” trata de uma denúncia implacável contra a espiritualidade farisaica. Em primeiro lugar, tanto o filho mais novo como o primogênito habita em cada um de nós; podemos encontrar em cada um deles, elementos que nos levem a identificar-nos com ambos.

Temos considerado a parábola como dirigida aos “filhos pródigos”. O “filho mais novo” simboliza nossa natureza egocêntrica e narcisista que nos domina enquanto não descubramos o que realmente somos. Dá por suposto que todos têm muito do filho mais novo, que é aquele que rompeu a aliança e se distanciou da casa paterna. A verdade é que a atitude do filho mais velho também deveria ser objeto de uma atenção mais cuidada. É relativamente fácil sentir-nos “filho pródigo”. É fácil tomar consciência de ter dilapidado um capital que nos foi entregue sem ter merecido. É fácil cair na conta que temos rompido com o pai e com a casa, que temos desejado que ele estivesse morto para herdar seus bens, temos renegado o entorno no qual se desenvolveu nossa existência. Tudo para potenciar nosso egoísmo, para satisfazer nosso hedonismo à custa daquilo que nos foi entregue com amor. O fracasso do filho mais novo e a desesperada situação à qual chegou, facilita a tomada de consciência de que tomou o caminho equivocado.

É difícil descobrir em nós o “irmão mais velho” e, no entanto, todos têm mais traços deste que do filho mais moço. Com frequência, não entendemos o perdão do Pai para com os pródigos, nos irrita que outra pessoa que se comportou mal seja tão querida como nós; não percebemos que rejeitar o irmão é rejeitar o Pai; caímos facilmente na queixa que envenena e no julgamento que mata. Não só não nos sentimos identificados com o Pai, mas buscamos, por todos os meios, que o Pai se identifique conosco; coisa que não se passa na cabeça do irmão mais novo. A partir desta perspectiva, tampouco descobrimos que precisamos de conversão e temos de regressar ao Pai. Por isso, a parábola deixa em um suspense inquietante a resposta do irmão maior; não nos diz se ele acolheu o apelo do Pai e se incorporou à festa. Isto nos faz pensar.


2 – O que o texto diz para mim?
A mais cativante, com certeza, é a parábola do “pai misericordioso”. Aqueles que a escutaram pela primeira vez certamente ficaram surpreendidos. Não era isto o que eles ouviam dos escribas ou dos sacerdotes. A insistência “moralista” no pecado faz interpretar esta parábola de uma maneira unilateral. É incorreto chamar o relato de “parábola do filho pródigo”. Ela não é dirigida aos pecadores para que se arrependam, mas aos fariseus e mestres da lei para que mudem sua ideia e imagem de Deus. 

Nesta parábola, Jesus justifica sua postura para com os publicanos e pecadores, desvelando quem é o Deus de misericórdia para todos, sejam “bons” e “maus”. Na maneira de atuar com os dois filhos, o pai da parábola torna visível o rosto do Deus compassivo revelado por Jesus e não o “deus legalista do templo”; a maneira como Jesus acolhe os pecadores e excluídos, torna presente o Deus que ama a todos indistintamente.

Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante, esquecido de suas criaturas ou interessado por sua honra, sua glória ou seus direitos.  No centro de minha  experiência religiosa não me encontro com um Deus “legislador” procurando governar o mundo por meio de leis, nem com um Deus “justiceiro”, irritado ou irado diante dos pecados dos seus filhos e filhas. Para Jesus, Deus é compaixão, e a compaixão é o modo de ser de Deus, sua primeira reação diante de suas criaturas, sua maneira de ver a vida e de olhar às pessoas, o que move e dirige toda sua atuação. Deus sente para com suas criaturas o que uma mãe sente para com o filho que leva em seu ventre. Deus me carrega em suas entranhas misericordiosas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A descoberta de que sou a irmã ou irmão mais novo e, ao mesmo tempo, a irmã ou irmão mais velho, me faz perceber o objetivo da parábola, que é o Pai. Todos têm de deixar de ser “irmão mais novo” e “irmão mais velho” para converter-se finalmente em “Pai”.

Sou chamada(o) a deixar de ser irmão(a) identificar-me com o Pai, como Jesus (aqui posso descobrir um profundo significado da frase de Jesus: “Eu e o Pai somos Um”). Minha maturação pessoal acontece quando deixo transparecer em mim a figura do Pai. “Sede misericordiosos como vosso pai é misericordioso”. A parábola de hoje me faz tomar consciência que sempre haverá, em minha vida, etapas a serem superadas, na direção do coração compassivo do Pai.

Permanecer distanciada de meu verdadeiro ser é me afastar de Deus e caminhar na direção oposta à minha plenitude. 

Daí a necessidade de interpretar a parábola não a partir da perspectiva de um Deus externo a mim, mas a partir da perspectiva de um Deus que se revela dentro de mim mesma. Eu mesma sou o Pai - Mãe que perdoa, acolhe e integra tudo o que há em mim de fragilidade e engano. Ser verdadeira filha ou filho não é viver submetido ao pai ou afastado dele, mas imitá-lo até se identificar com ele.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o “pai” é meu verdadeiro ser, minha natureza essencial, o divino que há em mim. É a realidade que tenho de descobrir no fundo de meu ser. Não faz referência a um Deus que me ama a partir de fora, mas ao que há de Deus em mim, formando parte de mim mesma. É o fogo do amor compassivo que derrete a frieza no meu relacionamento, queima toda pretensão de julgamento e intolerância, e ativa o impulso ao contínuo retorno à casa paterna.  Essa realidade fundante tudo abarca e tudo integra nela mesma.

Para redescobrir o “pai-mãe que me habita”, não supõe ignorar minha condição de “irmã ou irmão mais novo” e “mais velho”; é preciso aceitá-la, é preciso saber conviver com o que ainda há em mim de fragilidade e imperfeição. Devo buscar superá-la, mas enquanto esse momento não chega, é preciso aceitá-la e ultrapassá-la, ativando o amor incondicional do Pai. Tanto o irmão mais novo como o irmão mais velho que há dentro de mim, deve ser objeto do mesmo amor. A parábola não exige de mim uma perfeição absoluta, mas que eu caia na conta de que me resta um longo caminho a percorrer. O que ela pretende é me colocar no caminho da verdadeira conversão: a superação do auto-centramento e do perfeccionismo.

Falta-me dar o último passo no desprendimento do ego para identificar-me com o que há de divino em mim, o Pai. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Eu e o Pai somos Um”: é a melhor expressão de quem foi Jesus.

Eu também sou “Um com Deus”, mas talvez não tenha me inteirado disto.

Descobrir se esta frase saltará do mais profundo do meu ser. 

Descobrir o que há em mim do irmão mais novo: deixar-me levar pelo hedonismo individualista, buscar o mais fácil, o mais cômodo, o que o corpo pede... Seu objetivo é satisfazer as exigências do meu falso “eu”.

Descobrir o que há em mim de irmão mais velho: distante do coração do pai, fechado na queixa amarga e incapaz de expressar um gesto de acolhida.

Descobrir as marcas do Deus Pai - Mãe nas profundezas de meu ser: cheio de compaixão, festeiro, aberto à vida...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 15,1-3.11-32
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O filho pródigo – fx 13
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:54


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