quarta-feira, 6 de março de 2019

Leitura Orante – 1º Domingo da Quaresma – 10 de março de 2019


Leitura Orante – 1º Domingo da Quaresma – 10 de março de 2019

QUARESMA: tempo precioso para afinar nosso interior 

“Não somente de pão viverá o homem” (Lc 4,4)


Texto Bíblico: Lucas 4,1-13


1 – O que diz o texto?
Antes da Quaresma, carnaval...; o carnaval é o tempo dos disfarces, o tempo das máscaras, quando ninguém quer mostrar seu próprio rosto e cada um se esconde detrás de seu próprio disfarce. Às vezes, temos a impressão que é preciso sempre estar usando máscaras, trocando-as de acordo com as circunstâncias.

Somos os mesmos, mas disfarçados. Somos os mesmos, mas dissimulando nossa identidade e revestindo-nos de qualquer outro personagem. Debaixo da aparente segurança, pulsa um rosto temeroso; detrás de uma face risonha há uma expressão de dor.

Agora, quando se apagam os ecos do carnaval, é tempo de tirar as “maquiagens”. Começamos o tempo quaresmal, o tempo do “desvelamento” (tirar o véu, ou a máscara), tempo privilegiado para deixar transparecer nossa verdade mais profunda e nossa real identidade.

Mas, o mais curioso é que a Quaresma começa também com um “disfarce”. Com as tentações, percebemos que elas não são outra coisa senão o disfarce do “demônio” para enganar e enredar Jesus. Se examinarmos bem qualquer das três tentações, nos daremos conta de que são “disfarces do mal” “sob a aparência de bem” (S. Inácio).

A tentação tem muito de sedutora e maliciosa; aí está precisamente sua força de atração. A tentação é uma sedução que atrai irresistivelmente nossa liberdade, exerce uma fascinação que nos deslumbra.

Acaso alguém quer o mal pelo mal? Acaso alguém quer afastar-se de Deus livre, voluntária e conscientemente? A mentira reveste-se de algo que a esconda e a apresente como verdade.

A tentação necessita revestir-se do bem para que nós a aceitemos livremente.

A tentação nunca apresenta o rosto descoberto. Sempre aparece escondida e disfarçada. E assim foram também as tentações de Jesus. Tratava-se de demonstrar que realmente era Filho de Deus; ou de fazer-se poderoso e dono do mundo; 

ou simplesmente demonstrar que nada lhe iria acontecer e que ganharia a admiração de todo o mundo se pulasse da parte mais alta do templo.

Mas, onde está o verdadeiro “disfarce” das tentações de Jesus? Está justamente no fato de procurar justificá-las com a Palavra de Deus. Portanto, utilizar Deus como uma justificação e legitimação para alimentar o ego, para fazer-se o centro, para dominar...  E esta é a pior tentação e o pior dos disfarces.


2 – O que o texto diz para mim?
Os evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) colocam o relato das tentações de Jesus no início de sua atividade pública. Talvez, com isso, eles estejam dizendo que, antes de começar o percurso quaresmal, é necessário confrontar-se com os próprios “demônios interiores”.

Sem ter passado por aí, o mais provável é que eu comece  a ver “demônios” nos outros, ou que esteja  à mercê dessas forças que permanecem ocultas, mas bem ativas, em mim, conduzindo-me aonde eu não queira ir.

Os “demônios” dos quais o relato evangélico deste domingo fala são três e que caracterizam bem o meu ego: o ter, o poder e a vaidade (aparentar). É neles onde o ego se entrincheira e onde se apega para sentir-se que é “algo”. Bens materiais e consumismo, poder e influência, imagem e prestígio: eis aí os interesses do ego. Então, é quando o instinto de viver se transforma em obsessão pela saúde e pela vida longa; o instinto de ter se transforma em cobiça de acumular sempre mais; o instinto de valer, em obsessão pelo prestígio e pelo poder. É a deriva do coração humano, a inversão de sua vocação mais profunda.

Se me dou conta, o que se busca detrás deles, é uma mesma coisa: segurança. Precisamente por isso, a maneira de “desmascarar” esses “demônios” é reconhecer suas artimanhas e descobrir a falsidade de suas promessas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O relato das tentações de Jesus não é “história”, mas teologia; não é crônica de um acontecimento, mas as tentações são descaradamente reais. Empregando símbolos conhecidos por todos, os evangelhos me querem fazer ver uma verdade espiritual fundamental: a vida humana se apresenta sempre situada entre dois movimentos internos opostos: um, de saída de si, de vida expansiva, aberta a todos, comprometida...; outro, de retração, de medo, de fechamento no próprio “ego”. Trata-se do “joio” e do “trigo”, presente nas raízes de meu ser. A questão fundamental é esta: “qual dos dois dinamismos alimento em minha vida?” 

Que as tentações sejam três, não é casual. Trata-se de uma síntese perfeita de todas as relações que o ser humano pode desenvolver. A tentação consiste em entrar numa relação equivocada comigo mesma, com os outros e com Deus. Uma autêntica relação humana com os outros depende, eu queira ou não, de uma adequada relação comigo mesma e com Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
1ª  tentação: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. A tentação permanente é me deixar levar pelos instintos, pelos apetites, pelas “afeições desordenadas”. Ou seja, fazer em todo momento o que o ego exige. É negar-me continuar crescendo e superando a mim mesma, porque isso exige descentrar-me, sair do círculo fechado do “eu autossuficiente”.

Minha grande tentação hoje é converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte de minha vida à satisfação de minhas necessidades, viver obcecada por um bem estar sempre maior ou fazer do consumismo indiscriminado e sem limites o ideal quase único de minha vida.

Estou vendo claramente que uma sociedade que arrasta as pessoas para o consumismo sem limites e para a autossatisfação não faz outra coisa senão gerar o vazio e o sem sentido nas pessoas e alimentar o egoísmo, a falta de solidariedade e a irresponsabilidade na convivência.

2ª tentação: “Se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”. O poder, em qualquer de suas expressões, é a idolatria suprema. O poder traz sempre consigo a opressão, nunca é mediação de libertação. Adorar a Deus não significa incensar um “deus exterior”. Trata-se de descobrir o que de Deus há em mim e viver em sintonia com Ele. Meu autêntico ser não está no ego aparente, mas no “eu profundo”. Se eu descobrir meu ser essencial, não me importar em esvaziar meu falso eu e, em vez de buscar o domínio sobre o outros, buscarei o serviço para com todos. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
3ª tentação: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo”! 
Realizar um ato verdadeiramente espetacular, para que todos vejam o quão grande sou. Todos exaltarão e minha soberba chegará ao limite. 

A resposta é esta: 
Deixar Deus ser Deus. 

Aceitar minha condição de criatura e, a partir disso, alcançar a verdadeira plenitude.

Afinar o meu interior. 

Ser mais sensível à realidade que me cerca.

Atravessar o meu próprio deserto.

Buscar as pegadas de Deus que me conduz ao seu encontro.

Deixar me alcançar pela graça de um Pai que deseja a felicidade e a alegria. 

A “terra prometida” já está aí, do outro lado de meu falso eu. 

Manter-me em silêncio, até que se derrube o muro que me separa de mim mesma: o muro do poder, da vaidade, da riqueza... 

Deixar que a luz, que já está em meu interior, iluminar por completo. Serei feliz e farei felizes àqueles que vivem junto a mim


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,1-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Os dois caminhos – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:56



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