terça-feira, 26 de março de 2019

Leitura Orante – 4º Domingo da Quaresma – 31 de março de 2019



Leitura Orante – 4º Domingo da Quaresma – 31 de março de 2019

DESCOBRIR O PAI QUE NOS HABITA

“Quando ainda estava longe, seu pai o viu e,  
tomado de compaixão, correu, abraçou-o e o beijou afetuosamente.” (Lc 15,20)


Texto Bíblico: Lucas 15,1-3.11-32


1 – O que diz o texto?
As parábolas mais belas que saíram dos lábios de Jesus, elaboradas nas profundezas de seu coração, foram aquelas nas quais deixou transparecer a todos a incrível misericórdia de Deus. 

A compreensão da “parábola do amor paterno-materno de Deus” pode ser para nós uma verdadeira iluminação. Ela revela não só o “coração compassivo” de Deus, mas também vemos refletida nela, de maneira sublime, tudo o que devemos aprender sobre o “falso eu” e o nosso verdadeiro ser. 

Os três personagens representam diferentes aspectos de nós mesmos.

A “parábola dos dois filhos” trata de uma denúncia implacável contra a espiritualidade farisaica. Em primeiro lugar, tanto o filho mais novo como o primogênito habita em cada um de nós; podemos encontrar em cada um deles, elementos que nos levem a identificar-nos com ambos.

Temos considerado a parábola como dirigida aos “filhos pródigos”. O “filho mais novo” simboliza nossa natureza egocêntrica e narcisista que nos domina enquanto não descubramos o que realmente somos. Dá por suposto que todos têm muito do filho mais novo, que é aquele que rompeu a aliança e se distanciou da casa paterna. A verdade é que a atitude do filho mais velho também deveria ser objeto de uma atenção mais cuidada. É relativamente fácil sentir-nos “filho pródigo”. É fácil tomar consciência de ter dilapidado um capital que nos foi entregue sem ter merecido. É fácil cair na conta que temos rompido com o pai e com a casa, que temos desejado que ele estivesse morto para herdar seus bens, temos renegado o entorno no qual se desenvolveu nossa existência. Tudo para potenciar nosso egoísmo, para satisfazer nosso hedonismo à custa daquilo que nos foi entregue com amor. O fracasso do filho mais novo e a desesperada situação à qual chegou, facilita a tomada de consciência de que tomou o caminho equivocado.

É difícil descobrir em nós o “irmão mais velho” e, no entanto, todos têm mais traços deste que do filho mais moço. Com frequência, não entendemos o perdão do Pai para com os pródigos, nos irrita que outra pessoa que se comportou mal seja tão querida como nós; não percebemos que rejeitar o irmão é rejeitar o Pai; caímos facilmente na queixa que envenena e no julgamento que mata. Não só não nos sentimos identificados com o Pai, mas buscamos, por todos os meios, que o Pai se identifique conosco; coisa que não se passa na cabeça do irmão mais novo. A partir desta perspectiva, tampouco descobrimos que precisamos de conversão e temos de regressar ao Pai. Por isso, a parábola deixa em um suspense inquietante a resposta do irmão maior; não nos diz se ele acolheu o apelo do Pai e se incorporou à festa. Isto nos faz pensar.


2 – O que o texto diz para mim?
A mais cativante, com certeza, é a parábola do “pai misericordioso”. Aqueles que a escutaram pela primeira vez certamente ficaram surpreendidos. Não era isto o que eles ouviam dos escribas ou dos sacerdotes. A insistência “moralista” no pecado faz interpretar esta parábola de uma maneira unilateral. É incorreto chamar o relato de “parábola do filho pródigo”. Ela não é dirigida aos pecadores para que se arrependam, mas aos fariseus e mestres da lei para que mudem sua ideia e imagem de Deus. 

Nesta parábola, Jesus justifica sua postura para com os publicanos e pecadores, desvelando quem é o Deus de misericórdia para todos, sejam “bons” e “maus”. Na maneira de atuar com os dois filhos, o pai da parábola torna visível o rosto do Deus compassivo revelado por Jesus e não o “deus legalista do templo”; a maneira como Jesus acolhe os pecadores e excluídos, torna presente o Deus que ama a todos indistintamente.

Jesus não fala nunca de um Deus indiferente ou distante, esquecido de suas criaturas ou interessado por sua honra, sua glória ou seus direitos.  No centro de minha  experiência religiosa não me encontro com um Deus “legislador” procurando governar o mundo por meio de leis, nem com um Deus “justiceiro”, irritado ou irado diante dos pecados dos seus filhos e filhas. Para Jesus, Deus é compaixão, e a compaixão é o modo de ser de Deus, sua primeira reação diante de suas criaturas, sua maneira de ver a vida e de olhar às pessoas, o que move e dirige toda sua atuação. Deus sente para com suas criaturas o que uma mãe sente para com o filho que leva em seu ventre. Deus me carrega em suas entranhas misericordiosas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A descoberta de que sou a irmã ou irmão mais novo e, ao mesmo tempo, a irmã ou irmão mais velho, me faz perceber o objetivo da parábola, que é o Pai. Todos têm de deixar de ser “irmão mais novo” e “irmão mais velho” para converter-se finalmente em “Pai”.

Sou chamada(o) a deixar de ser irmão(a) identificar-me com o Pai, como Jesus (aqui posso descobrir um profundo significado da frase de Jesus: “Eu e o Pai somos Um”). Minha maturação pessoal acontece quando deixo transparecer em mim a figura do Pai. “Sede misericordiosos como vosso pai é misericordioso”. A parábola de hoje me faz tomar consciência que sempre haverá, em minha vida, etapas a serem superadas, na direção do coração compassivo do Pai.

Permanecer distanciada de meu verdadeiro ser é me afastar de Deus e caminhar na direção oposta à minha plenitude. 

Daí a necessidade de interpretar a parábola não a partir da perspectiva de um Deus externo a mim, mas a partir da perspectiva de um Deus que se revela dentro de mim mesma. Eu mesma sou o Pai - Mãe que perdoa, acolhe e integra tudo o que há em mim de fragilidade e engano. Ser verdadeira filha ou filho não é viver submetido ao pai ou afastado dele, mas imitá-lo até se identificar com ele.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o “pai” é meu verdadeiro ser, minha natureza essencial, o divino que há em mim. É a realidade que tenho de descobrir no fundo de meu ser. Não faz referência a um Deus que me ama a partir de fora, mas ao que há de Deus em mim, formando parte de mim mesma. É o fogo do amor compassivo que derrete a frieza no meu relacionamento, queima toda pretensão de julgamento e intolerância, e ativa o impulso ao contínuo retorno à casa paterna.  Essa realidade fundante tudo abarca e tudo integra nela mesma.

Para redescobrir o “pai-mãe que me habita”, não supõe ignorar minha condição de “irmã ou irmão mais novo” e “mais velho”; é preciso aceitá-la, é preciso saber conviver com o que ainda há em mim de fragilidade e imperfeição. Devo buscar superá-la, mas enquanto esse momento não chega, é preciso aceitá-la e ultrapassá-la, ativando o amor incondicional do Pai. Tanto o irmão mais novo como o irmão mais velho que há dentro de mim, deve ser objeto do mesmo amor. A parábola não exige de mim uma perfeição absoluta, mas que eu caia na conta de que me resta um longo caminho a percorrer. O que ela pretende é me colocar no caminho da verdadeira conversão: a superação do auto-centramento e do perfeccionismo.

Falta-me dar o último passo no desprendimento do ego para identificar-me com o que há de divino em mim, o Pai. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Eu e o Pai somos Um”: é a melhor expressão de quem foi Jesus.

Eu também sou “Um com Deus”, mas talvez não tenha me inteirado disto.

Descobrir se esta frase saltará do mais profundo do meu ser. 

Descobrir o que há em mim do irmão mais novo: deixar-me levar pelo hedonismo individualista, buscar o mais fácil, o mais cômodo, o que o corpo pede... Seu objetivo é satisfazer as exigências do meu falso “eu”.

Descobrir o que há em mim de irmão mais velho: distante do coração do pai, fechado na queixa amarga e incapaz de expressar um gesto de acolhida.

Descobrir as marcas do Deus Pai - Mãe nas profundezas de meu ser: cheio de compaixão, festeiro, aberto à vida...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 15,1-3.11-32
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O filho pródigo – fx 13
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:54


quarta-feira, 20 de março de 2019

Leitura Orante – 3º Domingo da Quaresma – 24 de março de 2019


Leitura Orante – 3º Domingo da Quaresma – 24 de março de 2019

O CÍRCULO INFERNAL DA CULPA

Pensais que eram mais culpados do que todos os habitante de Jerusalém?” (Lc 13,4)


Texto Bíblico: Lucas 13,1-9

1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo, exclusivo de Lucas, apresenta uma reflexão sobre a conversão, em forma de parábola, a partir de dois acontecimentos trágicos que causaram comoção no povo judeu.

O relato traz à tona este eterno problema: é o mal consequência de um pecado? Assim pensavam os judeus no tempo de Jesus e assim continuam pensando a maioria dos cristãos hoje. Ou seja, uma “visão distorcida” de Deus, leva a acreditar que tudo o que acontece é manifestação de sua vontade. Os males são considerados castigos e os bens são considerados prêmios.

Para entender a “novidade” da resposta de Jesus, é preciso saber que, na mentalidade judaica, a enfermidade e o mal, em geral, eram consequência do próprio pecado. A ausência do mal, pelo contrário, era considerado sinal da benção divina.

Por isso, aqueles que sofriam qualquer calamidade ou enfermidade se convertiam automaticamente em objeto de juízo condenatório por parte dos outros; diante do olhar preconceituoso e julgador, eles se sentiam acuados por um angustiante sentimento de culpabilidade e desesperança. A desgraça os limitava; a culpabilidade os afundava.

Jesus se declara completamente contra essa maneira de pensar. Ele se distancia dessa ideia tradicional, desatando o nó “religioso” entre sofrimento e pecado, entre culpa e o mal.

Para Jesus, a relação de Deus conosco se situa numa dimensão mais profunda.

Devemos deixar de interpretar como atuação de Deus aquilo que é próprio das forças da natureza ou consequência da maldade e violência humana. Nenhuma desgraça que possa nos alcançar devemos  atribuí-la a um castigo de Deus.

Devemos romper com essa ideia de Deus, senhor ou patrão soberano que, a partir de fora nos vigia e exige seu tributo. De nada serve camuflá-la com estas sutilezas: “Pode ser que Deus não castigue nesta vida, mas castigará na outra vida”; “Deus nos castiga, mas é por amor e para salvar-nos”; “Deus castiga só os maus”; “Merecemos o castigo, mas Cristo, com sua morte, nos livrou dele”.

Pensar que Deus nos trata à base de pancadas e prêmios, é ridicularizar a Deus e ao ser humano.


2 – O que o texto diz para mim?
Sou tecida pela culpa desde o nascimento; sou acompanhada por ela durante toda a vida.

Ela me prende facilmente em suas teias, impedindo a manifestação da força vital que há em mim.

Sei que o sentimento de culpa pode ser paralisante, ameaçador, freio e obstáculo tanto para o desenvolvimento de uma comunidade humana quanto para o crescimento de uma pessoa; está centrada no próprio eu, fica “ruminando” seus limites e fracassos, caindo no desespero e não percebendo nenhuma saída para sua situação.

O sentimento de culpa causa sérios danos que acabam afundando existencialmente as pessoas: isso gera a irresponsabilidade que infantiliza, a passividade que leva ao fanatismo, a atrofia da criatividade, o medo paralisante, o sentimento de indignidade... 

Também a imagem do Deus Amoroso, do Deus vivo e prazeroso, do Deus livre e libertador, fica diminuída segundo o tamanho de minha consciência e inconsciência, marcadas pela culpabilidade.

Por obra e força da culpa, “Deus” converte-se em “deus” de morte, em “deus” oprimido e opressor, em “deus onivigilante”, que investiga morbidamente minha interioridade para captar e julgar qualquer desvio. A este “deus” nada escapa: ele vê tudo, escuta tudo, controla tudo...

A mensagem alegre do Evangelho se perverte e a vivência cristã deixa-se invadir por um mal-estar difuso, uma tristeza, uma angústia, um pesar... que muitas vezes tornam difícil reconhecer no anúncio de Jesus uma mensagem da Boa Nova.

“Assim como Deus me libertou do pecado... torna-se urgente libertar Deus da culpa” (Dominguez Morano). Um “Deus de vida” me foi revelado, mas minha culpa o transformou num “Deus de morte”. “Libertar Deus da culpa” significa “deixar Deus ser Deus”, abrir espaço para que Ele manifeste sua presença providente e amorosa.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A atitude sadia, portanto, é a da responsabilidade, como sentimento maduro de quem entende a vida como “resposta” (essa é sua etimologia) coerente com as diferentes situações que se apresentam. É a responsabilidade que desperta pesar e dor nas ocasiões em que, me afastando da fidelidade ao melhor de mim mesma, provoco dano aos outros ou aos que estão próximos a mim. Mas esse pesar doloroso, diferente da culpabilidade, não paralisa nem afunda, senão que mobiliza para a mudança.

A consciência responsável, de modo especial, me move para a cura, a reparação; ao longo da experiência, com a ajuda da Graça e em constante discernimento, poderei experimentar a contrição que leva à  mudança, à busca de alternativas melhores de comportamentos e atitudes, a assumir modos de agir que tornem possível uma vida mais plena e amorosa. Só quando tomo consciência do dano feito é possível restaurar as condições que favoreçam logo um viver  mais feliz e pleno.

É esta responsabilidade que posso associá-la com a conversão, pedida pelo evangelho de hoje. Porque o “perecer” de que fala não deve ser entendida em chave de ameaça nem castigo, mas simplesmente como a consequência de uma atitude e um comportamento desajustados.

“Se não vos converterdes, todos perecereis”. A expressão não traduz adequadamente o grego “metanoia”, que significa “mudar de mentalidade, ver a realidade a partir de outra perspectiva”. 

Jesus não diz que aqueles que morreram nas duas tragédias não eram pecadores, mas que todos somos igualmente pecadores e precisamos mudar de rumo. Sem uma tomada de consciência de que o caminho que faço me leva ao abismo, nunca estarei motivada para evitar o desastre. Se for eu que vou caminhando para o abismo, só eu posso mudar de rumo. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, todos devem assumir a responsabilidade de suas ações. Não sou  marionete nas mãos de Deus, mas pessoa, ou seja, ser autônoma que deve assumir minha responsabilidade. A melhor tradução seria: “se não aprendes, inclusive com os erros, perecerás”.

Dizendo de um modo mais simples: se não sou responsável, se não respondo humanamente aos diferentes desafios que a vida me apresenta, estarei fechando a saída, alimentando infelicidade para mim mesma, tornando a convivência impossível e destruindo o planeta; ou seja, estou provocando meu próprio desastre.

Libertada do “círculo infernal da culpa”, agora sim, posso aderir à novidade do Reino, na plenitude da alegria e da festa. Tenho diante mim a nobre missão de transformar a realidade em Reino, e isso não será possível enquanto eu viver aprisionada nas malhas da culpa; enquanto a lei, o pecado e a culpa me enredarem, não será possível perceber a novidade do Reino, que conduz à própria liberdade e à dos outros, à própria aceitação de si mesmo e à aceitação e ao amor aos outros.

O “Deus de Jesus” é Aquele que me descentra e me lança à realidade, com toda a dureza que esta pode me apresentar em muitos momentos de minha existência; em lugar de solucionar os problemas, Ele prefere me dinamizar para que eu mesma trabalhe na busca de soluções. Deus é a plenitude de todas as aspirações humanas. Não há porque temer o Deus de Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Examinar com cuidado a origem dos sentimentos de culpa, pode produzir um grande avanço no caminho da saúde interior e espiritual. 

Esclarecer, desmascarar a culpa, pode ser muito libertador, pois fortalece minha titude esperançosa; minha  relação com  Deus, com o mundo e com os outros revela-se mais transparente e otimista.

Que a minha relação com Deus possa ter a marca da confiança amorosa.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 13,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Dois riscos – fx 05
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções para o sol maior
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:04





quarta-feira, 13 de março de 2019

Leitura Orante – 2º Domingo da Quaresma – 17 de março de 2019


Leitura Orante – 2º Domingo da Quaresma – 17 de março de 2019

A TRANSPARÊNCIA DE UM ROSTO

“Enquanto orava, o aspecto de seu rosto mudou, 
e suas vestes tornaram-se de um branco deslumbrante.” (Lc 9,29)


Texto Bíblico: Lucas 9,28-36    


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo recorda a Transfiguração de Jesus no monte (o Tabor da vida), face a face, diante do Pai e diante de seus três amigos, revelando assim seu rosto diante de todos. Ele quer que o vejam que todos o vejamos (com Moisés e Elias), descobrindo assim o rosto do “Deus invisível” no rosto dos homens e das mulheres, para compartilhar com eles e elas vida e conversação.

O evangelista Lucas insiste em centrar a atenção do rosto de Jesus, que “muda de aparência”, se ilumina e aparece como revelação de Deus. Neste tempo quaresmal, Jesus nos faz subir ao monte e se transfigura (se desnuda e se reveste de glória), para que descubramos seu rosto, para que o vejamos, o contemplemos, de forma que saibamos quem Ele é, e possamos dialogar com Ele, em admiração, beleza e compromisso de seguimento evangélico. Pois bem, esse rosto de Deus que se ilumina em Jesus sobre a montanha se estende e se encarna no rosto de cada ser humano, sobretudo dos mais pobres e excluídos.

Dessa forma, Jesus identifica a estética (beleza do rosto) com a ética: move-nos a descobrir Deus nos rostos dos outros, acolhê-Lo presente nestes rostos e dialogar com Ele; deixar-nos interpelar por cada um destes rostos (enfermo, encarcerado, estrangeiro, excluído...), pois eles são em Cristo (sobre o Tabor da história) a beleza e presença suprema de Deus. 

É muito frequente na Bíblia a menção à Face de Deus para indicar a sua presença e o reconhecimento recíproco entre Ele e o ser humano. “É tua face, Senhor, que eu procuro não me escondas tua face” (Sl 27,8).

A face humana tem sempre muito a dizer; por isso, é preciso iluminá-la com a transparência da Face de Deus. E, assim, a face humana se tornará, cada vez mais, face divinizada.


2 – O que o texto diz para mim?
A revelação bíblica, ao afirmar que Deus se “fez rosto” e que o ser humano é imagem de Deus, privilegiou o rosto humano. No entanto, hoje, a “deformação do rosto de Deus” ameaça essa face humana, desprezada pela violência preconceituosa, pela intolerância e pelo anonimato das grandes cidades.

Daí a urgência de uma reflexão sobre o rosto que se abre à eternidade, ao inesgotável, e que me conduzirá ao “Rosto dos rostos”, o de Deus “humanizado”, para permitir-me decifrar nele a face humana e o ícone do ser humano divinizado. Além disso, todo rosto, por mais desgastado ou destruído que esteja, revela-se  único e inimitável, para quem consegue ver com o olhar do coração.

Conheço os rostos, tenho familiaridade com os rostos, aprendo a colher as suas expressões e nelas ler o interior da pessoa. Na realidade, não vejo, com os olhos, vejo com o meu rosto.

Dizendo de outro modo: o “olhar” não se encontra nos olhos, mas no rosto. Os olhos nada dizem, mas o rosto com que olho guarda um segredo. É o rosto que desvenda o mistério do olhar. O rosto da mãe revela à criança o segredo do seu olhar. E o rosto da criança revela à mãe o segredo do seu olhar.

A palavra é a linguagem dos pensamentos, o rosto a linguagem das emoções, uma linguagem universal, não ensinada e não aprendida em parte nenhuma, mas por todos e todas compreendida. As emoções falam a mesma língua em todos os tempos e lugares.

A face humana é carregada de sentido. Fala, sem utilizar palavras; diz, sem soltar a voz. De repente, a face humana apresenta-se, comparece inesperadamente.

A face humana é mistério. Ata e desata segredos. É presença. Está exposta a todos. É patente. Está aí. Pode ser vista, pode ser comentada, pode ser seguida. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As expressões do semblante, o olhar, a voz, o sorriso, é uma linguagem na linguagem, um dizer no dizer, um texto inconsciente, nascido das profundezas, que se insere no texto verbal consciente. Palavras e expressões do rosto andam juntas e se interpenetram. As expressões do rosto falam mais do que as palavras, porque manifestam inúmeros significados a partir da personalidade humana; elas completam, confirmam e por vezes contradizem o que é dito com palavras e revelam, muitas vezes melhor que as palavras, a veracidade da pessoa. Acrescentam um complemento inconsciente de cor e de verdade às palavras, às vezes absolutamente contra a vontade de quem fala. A sua espontaneidade imediata precede as intenções.

A linguagem do rosto vem do fundo. Falo do “rosto interior”; nas suas expressões aflora o íntimo do indivíduo, o mundo dos seus estados de ânimo, os quais, sendo intrinsecamente não verbais, fogem à linguagem articulada. E é uma linguagem verdadeira porque as emoções não mentem. Na face humana, escondem-se mensagens intrigantes. A face expressa à identidade da pessoa; ela revela o universo humano, é cenário de certezas, de decisões, de dúvidas, de aspirações, de dramas, de temores, de arte...

Nesse sentido, a transfiguração revela outra realidade de Jesus e minha; este “mistério” me desvela e me move a ultrapassar minhas “falsas imagens” e encontrar-me com a luz que me habita. Posso “entrar” dentro de mim mesma porque em mim está a dimensão de eternidade, de transparência, de divino.

A transparência é algo mais estável e faz referência à luz, à vida interior, ao conhecimento próprio, ao desejo de deixar-se ver, à pureza de intenção, à simplicidade e ao deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus. Tem a ver com a capacidade de conhecer-se a si mesmo e de comunicar aos outros a verdade de si mesmo, que se visibiliza no rosto iluminado.

Tomo este conceito como aquela qualidade de uma pessoa que vive e se manifesta aos outros por atos e por palavras, de maneira que fica clara sua verdade, seu sentido de pertença à comunidade dos seguidores de Jesus e sua confiança nos demais membros da mesma comunidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, não basta contemplar rostos humanas; importa deixar-se interpelar por eles. É preciso ser perspicaz para ler e interpretar o sentido da face humana. Só quem é transparente, possui um olhar límpido para captar o “mistério” escondido no rosto do outro. Ao contemplar um rosto, o olhar chega ao coração humano, ali onde se encontra o sabor divino mais genuíno na vida da pessoa. E quando sou capaz de olhar em profundidade o rosto do outro, com simplicidade posso encontrar no coração dele uma “imagem” de meu próprio coração. O olhar transfigurado deve ser portador do bom aroma que atrai ao encontro e à fraternidade.

Em meu corpo, o “rosto” tem uma importância muito especial: através dele e de seu olhar, me mostro e sou percebida e encontrada. O rosto, o olhar, dá ao meu corpo sua beleza verdadeira, tão diferente da beleza postiça dos cosméticos, das joias e vestimentas. É a beleza de um rosto que me leva para a transcendência, a santidade. Quem se unifica e se dilata encontra, sem buscá-lo, seu verdadeiro rosto, porque a beleza do rosto é “epifania da pessoa”. O verdadeiro rosto nasce do coração, quando este se transfigura.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Deixar o Espírito me conduzir até onde meus medos não ousam chegar, dentro da luz, da verdade, e da vida plena.

É dentro de uma luz mais clara que o meu verdadeiro rosto se revela, se refazem todos os caminhos e se superam todos os conflitos.

Colocar-me diante de tantos rostos humanos: 

Fazer um “percurso”, começando pelos rostos mais próximos e familiares; lentamente, ir ampliando minha visão acolhendo os rostos dos mais distantes, excluídos, rostos desfigurados, sofridos, rostos que sofrem preconceitos, julgamentos... 

Por detrás da aparência de cada rosto, captar a presença do “rosto divino”.

Entrar em sintonia e comunhão com todos os rostos, constituindo o grande painel do rosto universal da humanidade. 

Em cada rosto humano, sentir ressoar a voz do Pai: “este é o meu filho escolhido e esta é minha filha escolhida”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 9,28-36    
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05
Autor: Zé Vicente
Intérprete: Zé Vicente
CD: Zé Vicente da Esperança
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:25

quarta-feira, 6 de março de 2019

Leitura Orante – 1º Domingo da Quaresma – 10 de março de 2019


Leitura Orante – 1º Domingo da Quaresma – 10 de março de 2019

QUARESMA: tempo precioso para afinar nosso interior 

“Não somente de pão viverá o homem” (Lc 4,4)


Texto Bíblico: Lucas 4,1-13


1 – O que diz o texto?
Antes da Quaresma, carnaval...; o carnaval é o tempo dos disfarces, o tempo das máscaras, quando ninguém quer mostrar seu próprio rosto e cada um se esconde detrás de seu próprio disfarce. Às vezes, temos a impressão que é preciso sempre estar usando máscaras, trocando-as de acordo com as circunstâncias.

Somos os mesmos, mas disfarçados. Somos os mesmos, mas dissimulando nossa identidade e revestindo-nos de qualquer outro personagem. Debaixo da aparente segurança, pulsa um rosto temeroso; detrás de uma face risonha há uma expressão de dor.

Agora, quando se apagam os ecos do carnaval, é tempo de tirar as “maquiagens”. Começamos o tempo quaresmal, o tempo do “desvelamento” (tirar o véu, ou a máscara), tempo privilegiado para deixar transparecer nossa verdade mais profunda e nossa real identidade.

Mas, o mais curioso é que a Quaresma começa também com um “disfarce”. Com as tentações, percebemos que elas não são outra coisa senão o disfarce do “demônio” para enganar e enredar Jesus. Se examinarmos bem qualquer das três tentações, nos daremos conta de que são “disfarces do mal” “sob a aparência de bem” (S. Inácio).

A tentação tem muito de sedutora e maliciosa; aí está precisamente sua força de atração. A tentação é uma sedução que atrai irresistivelmente nossa liberdade, exerce uma fascinação que nos deslumbra.

Acaso alguém quer o mal pelo mal? Acaso alguém quer afastar-se de Deus livre, voluntária e conscientemente? A mentira reveste-se de algo que a esconda e a apresente como verdade.

A tentação necessita revestir-se do bem para que nós a aceitemos livremente.

A tentação nunca apresenta o rosto descoberto. Sempre aparece escondida e disfarçada. E assim foram também as tentações de Jesus. Tratava-se de demonstrar que realmente era Filho de Deus; ou de fazer-se poderoso e dono do mundo; 

ou simplesmente demonstrar que nada lhe iria acontecer e que ganharia a admiração de todo o mundo se pulasse da parte mais alta do templo.

Mas, onde está o verdadeiro “disfarce” das tentações de Jesus? Está justamente no fato de procurar justificá-las com a Palavra de Deus. Portanto, utilizar Deus como uma justificação e legitimação para alimentar o ego, para fazer-se o centro, para dominar...  E esta é a pior tentação e o pior dos disfarces.


2 – O que o texto diz para mim?
Os evangelhos sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas) colocam o relato das tentações de Jesus no início de sua atividade pública. Talvez, com isso, eles estejam dizendo que, antes de começar o percurso quaresmal, é necessário confrontar-se com os próprios “demônios interiores”.

Sem ter passado por aí, o mais provável é que eu comece  a ver “demônios” nos outros, ou que esteja  à mercê dessas forças que permanecem ocultas, mas bem ativas, em mim, conduzindo-me aonde eu não queira ir.

Os “demônios” dos quais o relato evangélico deste domingo fala são três e que caracterizam bem o meu ego: o ter, o poder e a vaidade (aparentar). É neles onde o ego se entrincheira e onde se apega para sentir-se que é “algo”. Bens materiais e consumismo, poder e influência, imagem e prestígio: eis aí os interesses do ego. Então, é quando o instinto de viver se transforma em obsessão pela saúde e pela vida longa; o instinto de ter se transforma em cobiça de acumular sempre mais; o instinto de valer, em obsessão pelo prestígio e pelo poder. É a deriva do coração humano, a inversão de sua vocação mais profunda.

Se me dou conta, o que se busca detrás deles, é uma mesma coisa: segurança. Precisamente por isso, a maneira de “desmascarar” esses “demônios” é reconhecer suas artimanhas e descobrir a falsidade de suas promessas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O relato das tentações de Jesus não é “história”, mas teologia; não é crônica de um acontecimento, mas as tentações são descaradamente reais. Empregando símbolos conhecidos por todos, os evangelhos me querem fazer ver uma verdade espiritual fundamental: a vida humana se apresenta sempre situada entre dois movimentos internos opostos: um, de saída de si, de vida expansiva, aberta a todos, comprometida...; outro, de retração, de medo, de fechamento no próprio “ego”. Trata-se do “joio” e do “trigo”, presente nas raízes de meu ser. A questão fundamental é esta: “qual dos dois dinamismos alimento em minha vida?” 

Que as tentações sejam três, não é casual. Trata-se de uma síntese perfeita de todas as relações que o ser humano pode desenvolver. A tentação consiste em entrar numa relação equivocada comigo mesma, com os outros e com Deus. Uma autêntica relação humana com os outros depende, eu queira ou não, de uma adequada relação comigo mesma e com Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
1ª  tentação: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. A tentação permanente é me deixar levar pelos instintos, pelos apetites, pelas “afeições desordenadas”. Ou seja, fazer em todo momento o que o ego exige. É negar-me continuar crescendo e superando a mim mesma, porque isso exige descentrar-me, sair do círculo fechado do “eu autossuficiente”.

Minha grande tentação hoje é converter tudo em pão. Reduzir cada vez mais o horizonte de minha vida à satisfação de minhas necessidades, viver obcecada por um bem estar sempre maior ou fazer do consumismo indiscriminado e sem limites o ideal quase único de minha vida.

Estou vendo claramente que uma sociedade que arrasta as pessoas para o consumismo sem limites e para a autossatisfação não faz outra coisa senão gerar o vazio e o sem sentido nas pessoas e alimentar o egoísmo, a falta de solidariedade e a irresponsabilidade na convivência.

2ª tentação: “Se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”. O poder, em qualquer de suas expressões, é a idolatria suprema. O poder traz sempre consigo a opressão, nunca é mediação de libertação. Adorar a Deus não significa incensar um “deus exterior”. Trata-se de descobrir o que de Deus há em mim e viver em sintonia com Ele. Meu autêntico ser não está no ego aparente, mas no “eu profundo”. Se eu descobrir meu ser essencial, não me importar em esvaziar meu falso eu e, em vez de buscar o domínio sobre o outros, buscarei o serviço para com todos. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
3ª tentação: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo”! 
Realizar um ato verdadeiramente espetacular, para que todos vejam o quão grande sou. Todos exaltarão e minha soberba chegará ao limite. 

A resposta é esta: 
Deixar Deus ser Deus. 

Aceitar minha condição de criatura e, a partir disso, alcançar a verdadeira plenitude.

Afinar o meu interior. 

Ser mais sensível à realidade que me cerca.

Atravessar o meu próprio deserto.

Buscar as pegadas de Deus que me conduz ao seu encontro.

Deixar me alcançar pela graça de um Pai que deseja a felicidade e a alegria. 

A “terra prometida” já está aí, do outro lado de meu falso eu. 

Manter-me em silêncio, até que se derrube o muro que me separa de mim mesma: o muro do poder, da vaidade, da riqueza... 

Deixar que a luz, que já está em meu interior, iluminar por completo. Serei feliz e farei felizes àqueles que vivem junto a mim


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,1-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Os dois caminhos – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:56



segunda-feira, 4 de março de 2019

Leitura Orante – QUARTA-FEIRA DE CINZAS – 06 de março de 2019


Leitura Orante – QUARTA-FEIRA DE CINZAS – 06 de março de 2019

QUARESMA: receber o perfume de nossas cinzas

“Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto...” (Mt 6,17)


Texto Bíblico: Mateus 6,1-6.16-18


1 – O que diz o texto?
Quaresma é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmo.

No Evangelho fala-se das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Quê sentido tem, para nossa cultura, estes três gestos que são propostos para uma vivência fecunda da Quaresma?

Em primeiro lugar, são três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã. A vida é um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mistério de Deus (oração) e ser capaz de ordenar e dirigir a própria existência (jejum).

É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.

Vividos a partir da identificação com Jesus Cristo, os valores da oração, da esmola e do jejum esvaziam nosso “ego” para nos aproximar dos pobres e excluídos, encher-nos de compaixão e misericórdia, exercitar-nos na prática do bem e da bondade, acolher o outro com sinceridade, perdoar gratuitamente, cuidar com ternura e admiração tudo o que nos cerca, encantar-nos com o mistério da vida, deixar-nos envolver pela graça e permitir que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância. 

Trata-se de um “modo de proceder” permanente, não só para o tempo quaresmal.

“quaresmas” na vida que nos atingem “fora do tempo”, em qualquer momento do ano; quaresmas que não queríamos viver e que sabemos que não nos resta alternativa a não ser passar por elas: enfermidades, momentos de crise, etapas de ruptura, tempos de luto por um ente querido que se foi...

Mas há quaresmas que são a vida mesma, o tempo cotidiano de muitas pessoas, especialmente dos mais empobrecidos e sofredores de nossa sociedade. Todas estas realidades não são mudas: fazem chegar seus gritos a cada um de nós e nos falam de nossa limitação, de nossa fragilidade, de nosso pecado...


2 – O que o texto diz para mim?
Quando os fiéis entram na fila para receber, sobre suas cabeças, um pouco de cinzas, na quarta-feira que dá início à Quaresma, eles não estão fazendo um ato derrotista, nem expressando uma tristeza inútil, nem  mergulhando na escuridão daquilo que o fogo destruiu. Eles estão fazendo uma profissão de fé na força da esperança. Mesmo que tudo pareça arruinado, há uma potência interior que não permite ao ser humano desistir de si mesmo nem dos outros. Ela recobra a energia do perdão, o ânimo para prosseguir no caminho da vida, a confiança nas pessoas, a amizade que ficou ameaçada. 

Nossas cinzas tem um valor muito diferente segundo sua origem. A imagem de uma mulher abatida diante do incêndio de sua casa e que perdeu todos os seus pertences, não é igual à cinzas de uma chaminé da casa de campo. “Cinzas: de quê?” Essa é a questão.

Essas cinzas são uma recordação da fragilidade na qual me movo na vida: o que perco, desperdiço da vida que me foi dada; o amor aos outros que queimo inutilmente; a terra calcificada de minhas indiferenças e de minhas cumplicidades; os sonhos que não permito que cheguem a ser realidade, queimados pela chama da minha intolerância; os bons desejos que deixo à beira do caminho, destruídos lentamente pelos pavios fumegantes...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tudo isso me reveste; isso é o que carrego sobre minha cabeça, que se inclina com humildade, ante o gesto sagrado. A sorte que tenho é que me é anunciado também um caminho novo, abre-se diante de mim um caminho para percorrer, despertar o fogo novo do amor, ativar uma nova energia criativa, mobilizar inéditos recursos internos... para dar uma nova feição ao meu seguimento de Jesus.

Portanto, no sentido bíblico, a cinza é força, espírito, vida, projeto, síntese e realidade carregada de futuro. É esperança, é ressurreição; é renovação e conversão, de tudo o que é meu e dos outros. É comunhão e renascimento. A cinza é purificação. 

A finalidade da imposição das Cinzas e a vivência das práticas quaresmais (oração, jejum e esmola) é me ajudar a fazer uma “travessia interior”. Não se trata de viver a Quaresma só retocando, com certa “maquiagem cristã”, o exterior de minha vida. É preciso deixar que a Graça de Deus encontre liberdade para transitar pelos recantos mais “escondidos” do meu eu profundo. “E o teu Pai, que vê o que está escondido, te dará a recompensa”. Meu coração há de empapar-se desta Graça, desse afeto a Jesus e ao seu Reino, que me conduzirá até à alegria da Páscoa. 

Preciso de tempos, silêncios, espaços..., para criar um ambiente favorável para o encontro verdadeiro com Aquele que sempre vem ao meu encontro; é preciso sair do espaço cotidiano, rotineiro, para entrar em outro espaço, amplo, provocativo, surpreendente... e deixar-me afetar pelas coisas de Deus.

Redescobrir o próprio lugar interior é sinal de maturidade e sabedoria de vida.

Esse lugar nada tem a ver com o êxito social, ou o reconhecimento dos outros. É um lugar interior, uma atitude de prontidão em ultrapassar todas as camadas exteriores de mim mesma e chegar à dimensão mais profunda, que nem sequer tenho palavras para expressá-la. Um lugar no qual não importa nem o que os outros opinam a respeito de mim, nem sequer a ideia que faço de mim mesma. Um espaço íntimo, lugar de serenidade e de intimidade, a partir do qual a Graça tem plena liberdade de atuar.

Esse lugar só se pode indicar como “o escondido”, onde aprendo a decifrar a vida, onde tenho acesso aos recursos e às riquezas mais nobres que desvelam minha verdadeira identidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ali, “no escondido”, é onde devo acudir para orar, para tornar possível a emergência do “Deus escondido” em mim e nas transformações de minha vida. Um lugar onde não contam os reflexos e as imagens, mas a realidade primeira, a que fica desvelada a partir do coração, o meu interior, o centro vital que sou e a partir do qual me nutro e vivo.

“Entrar em casa” expressa bem uma atitude de movimento de fora para dentro, da rua onde transito indiferente para o lugar onde vivo a “mística do encontro”. Além disso, “entrar no quarto” indica um sinal especial de intimidade recolhida: é ali, onde é preciso fechar a porta e esperar pacientemente “Aquele que mora no escondido”.

Trata-se de fazer a experiência de entrar no “escondido”, na gruta do Horeb, na fenda das rochas do Sinai, no interior da tenda do deserto, no coração e centro da vida... Ali é onde uma visão nova e diferente da vida é possível: a d’Aquele que vê no “escondido” e sabe derramar graças como uma medida sacudida e ampla: seu próprio Coração.

Preciso reavivar minhas pobres práticas quaresmais: fazer do coração um espaço humilde e rico; de minhas mãos, carícia e ternura; de meus pés, desejo de proximidade e comunhão, para ungir com o azeite e vinho de minha fragilidade tantos feridos e quebrados que se encontram às margens dos meus caminhos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Orar é um exercício de ida ao centro, encontrar-se consigo mesmo na essência do ser, e ali encontrar-se com Aquele que é o mais íntimo: o próprio Deus.

Portanto, orar nunca foi e nem será obrigação, regra, norma, lei, mandamento, ou outra coisa qualquer que uma pessoa se sinta forçada a fazer. No dizer de S. Inácio: “orar é uma conversação entre amigos”. Orar é um exercício das pessoas que querem se encontrar, centralizar-se, para sempre agir a partir do seu centro, e não a partir de outros centros (opinião alheia, costumes, moda, meios de comunicação, conveniência, tradição, etc.). Orar é um exercício disponível àqueles que querem ter vida a partir de sua própria vida, junto com o Autor da vida, levando vida a todos.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 6,1-6.16-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Orar costuma fazer bem – fx 05
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções em fé maior
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:11