quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 8º Domingo do TC – 03 de março de 2019


Leitura Orante – 8º Domingo do TC – 03 de março de 2019

CORAÇÃO DIVINIZADO

“O homem bom, do tesouro bom de seu coração, tira o bem...” (Lc 6,45)


Texto Bíblico: Lucas 6,39-45


1 – O que diz o texto?
A antropologia bíblica considera o coração como o interior do ser humano em um sentido muito mais amplo que o das línguas latinas, que evocam a vida afetiva, a sede dos sentimentos... 

O coração é o centro de nosso ser, o nosso cerne mais íntimo, o coração do coração, que consiste, sobretudo, no lugar do encontro com Deus. 

“O sentido de nossa vida não é outro que a busca deste lugar do coração(Olivier Clément).

Ou seja, no centro de nós mesmos, unificando nosso ser, está o coração, o “cofre” onde se guarda/oculta o que é mais nobre em nós. Por isso Jesus dava tanta importância ao coração: “a boca fala daquilo que o coração está cheio” (Lc 6,45); “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).

É no “coração”  que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o qual foi chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de si, a sede das decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida.

O coração do ser humano é a própria fonte de sua personalidade consciente, inteligente e livre. É o lugar de suas escolhas decisivas, da lei não escrita e da ação misteriosa de Deus. Trata-se do centro existencial que permite à pessoa orientar-se como um todo e plenamente em direção a Deus e ao bem.

No coração está gravada a imagem divina oculta, “o homem de coração oculto” (1Pd 3,4). São  Serafim de Sarov o denomina “o altar de Deus”.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqueles que descem às profundidades do seu interior ficam fascinados pelo esplendor daquilo que contemplam. O coração de cada um está habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; aqui, todo ser humano sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos...; sente ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se atraído por um desejo irreprimível de auto-transcendência...

Por ser livre e responsável, o ser humano é capaz de decisões e de realizações, de ser artífice de seu destino e de sua história. Ele sente por dentro o impulso para a expansão de si; ele escuta por dentro o chamado a viver e a viver em plenitude.

Nesse sentido, o “coração” é de minha parte, o espaço divino por excelência. “Só o amor pode adentrar-se no Deus que é amor”.

Assim, a descoberta do próprio ser profundo  aproxima cada um do autor da vida: Deus.

É no coração, “última solidão do ser”, que a pessoa se decide por Deus e a Ele adere. Aqui Deus marca “encontro” com cada um. “Deus é mais íntimo a cada um de nós do que nós mesmos” (S. Agostinho).

Chegar ao lugar do coração é dom de Deus: “Eu lhes darei um coração para conhecer-me; saberão que eu sou o senhor. Eles serão meu povo e eu serei seu Deus; eles se converterão a mim com todo seu coração” (Jer 24,7).

Eis o “lugar” onde posso estar em segurança, profundamente repousada.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Um coração que vibra harmoniosamente, de modo coerente, “com ondas de frequência elevada”, me permite perceber a realidade de um modo igualmente harmonioso; sua energia radiante, transmissora de paz, de quietude, de confiança, de abertura, alcança os outros, tornando possível o sonho da unidade entre eu e aqueles que estão ao meu redor.

Para os antigos monges, o contrário desta abertura de coração é a “sklerokardia”, ou seja, a “dureza de coração”, que impede a entrada em si mesmo e o encontro com os outros e com Deus. O coração pode palpitar ao ritmo da soberba ou da humildade, do amor ou do ódio, do egoísmo ou da generosidade. E está cheio de mesclas: de trigo e de joio. 

Quando meu coração está “fechado”, meus olhos não veem meus ouvidos não ouvem, meus braços e pés se atrofiam e não se movimentam em direção ao outro; vivo voltada sobre mim mesma, insensível à admiração e à ação de graças. Quando meu coração está “fechado”, em minha vida não há mais compaixão e passo a viver indiferente à violência e injustiça que destroem a felicidade de tantas pessoas. Vivo separada da vida, desconectada. Uma fronteira invisível me separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia. 

A viagem para a própria interioridade, para a terra sagrada do coração, necessita de um hábil discernimento para conhecer as armadilhas e os “inimigos” que aparecem ao longo do percurso.

Quando, numa visão mais profunda de mim mesma e do mundo, me vejo como criatura que surge do amor de Deus, e quando essa visão é fruto de uma vivência interior e transbordante, começa a brotar no coração humano um movimento de unificação para Deus.

Esse movimento é feito de confiança, de canto, de amor, de entrega, de serviço...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Por ser imagem de Deus, e porque “Deus é Amor”, o coração do ser humano é capaz do melhor: tem dada por Deus como dom da Criação, a potencialidade de amar aos outros com o mesmo amor com que Deus lhe ama, ou seja, com um amor gratuito e generoso.

Senhor, por ser uma imagem ofuscada pela limitação e pela fragilidade, o coração humano é também capaz do pior: de negar sua origem e sair ao encontro com a realidade a partir de suas potencialidades  necrófilas (forças de morte); de viver dando as costas a Deus e distorcendo a imagem essencial de seu Criador; de se preocupar com o “cisco” no olho do outro, assumindo atitudes intolerantes e julgadoras...

Quando meu coração está centrado em Deus, ou seja, quando ele se percebe que vem d’Ele, vive para Ele e para Ele retorna, tudo está em seu lugar, tudo vai bem. É “árvore boa que dá bons frutos”. 

As “coisas” não são obstáculos, e as pessoas muito menos. Nem sequer o meu próprio e ambíguo “eu” é tentação.

Até meus instintos mais primários ficam integrados nessa corrente de amor recebido e amor entregue.

Mas quando se produz um descentramento do coração, dá-se um corte com a Fonte e, portanto, com seu destino; quando o coração é presa do “diábolos” (aquele que desune que divide), então tudo começa a desandar: o “eu” inflado se converte num depredador; os instintos básicos se transformam em obsessões; a vida fica fragmentada e dispersa. Tudo se petrifica. O coração torna-se “oxidado”, pois seus impulsos oblativos não são ativados. “Não se colhem figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas”.

É a deriva do coração humano, a inversão de sua vocação mais profunda.

Faz-se urgente reconectar se com a Fonte, onde o coração é continuamente gerado, sustentado, alimentado pelo amor de Deus que o irriga, que o restaura. O coração profundo pode estar desprezado, adormecido, fechado, mas não pode morrer.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A oração é o caminho interior para que eu possa chegar até o meu próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo de mim mesma, mas o próprio Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde eu sou chamada a mergulhar no silêncio, à escuta de todo o meu ser.

Nas profundezas do meu coração, acolher, escutar e reconhecer o murmúrio da voz de Deus, que, como um rio calmo e ao mesmo tempo vivaz, me acompanha da nascente ao mar aberto.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 6,39-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quando a gente encontra Deus – fx 10
Autor: Pe. Zezinho, scj
Solo: Pe. Zezinho, scj
CD: Quando a gente encontra Deus
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:57


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 7º Domingo do TC – 24 de fevereiro de 2019


Leitura Orante – 7º Domingo do TC – 24 de fevereiro de 2019

MISERICÓRDIA: DEUS AMA A FUNDO PERDIDO

“Sede compassivos  como vosso Pai é compassivo”  (Lc 6,36)


Texto Bíblico: Lucas 6,27-38


1 – O que diz o texto?
Tornar presente o Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda a sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade.

Jesus, que encarna e torna visível no mundo a misericórdia do Pai, se faz também misericordioso. Anuncia aos pecadores que eles não estão excluídos do amor do Pai, mas que Ele os ama com infinita ternura. O Evangelho só aparece como Boa-Nova se compreender esta novidade introduzida por Jesus. 

Ele, em sua presença misericordiosa, revela um Deus desprovido de dogmatismos, de controle e de poder. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar; o seu Deus é o Deus da misericórdia, da bondade sem limites e da paciência para com todos.

Jesus propõe um modo de ser humano inseparável da misericórdia do Pai:

“Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36)

Ser misericordioso “como” Deus constitui o mais elevado convite e a mensagem mais profunda que o ser humano recebe sobre como tratar a si mesmo e aos outros.

Deus, em sua misericórdia reconstrutora,  libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria misericórdia. A força criativa do seu amor misericordioso põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

A experiência de misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. O Deus misericordioso cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de Sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça.


2 – O que o texto diz para mim?
A misericórdia é não só o atributo primeiro de Deus, mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.

A misericórdia presente em mim é modelada e alimentada pela Misericórdia divina, que se visibiliza no perdão, na compaixão, no consolo, na ternura, no cuidado...

Minha atitude misericordiosa me configura à imagem do Deus misericordioso. É onde sou mais semelhante a Ele. A misericórdia como estilo de vida cristã me descentra de mim mesma e me faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia me torna realmente livre, e isso me proporciona profunda alegria interior.

Uma misericórdia superabundante, generosa... é gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: ser “presença misericordiosa”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteressada da doação. É a partir da misericórdia que a pessoa é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que a odeiam, de bendizer os que a amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem esperar recompensa, de perdoar sem limites...

A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. 

Essa Misericórdia é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a misericórdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação. Ela brota das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de proximidade, acolhida e compaixão.

Misericórdia é exatamente: “ter coração” para o outro, dando preferência aos pequenos e pobres.

A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

Em hebraico, a palavra “misericórdia”“rahamim”, significa ter entranhas como uma mãe. 

É comover-se diante da situação de fragilidade do outro; é sentir-se intimamente afetado e, por isso, com a disposição de ser magnânimo, clemente e benevolente para com ele.

A misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece nem se escandaliza com sua miséria. 

"Devo ser presença misericordiosa como pecadora, e não como juiz”.

A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a redescoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso) e ao mesmo tempo desata nele as ricas possibilidades de vida que estavam latentes.

Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.

A misericórdia é expansiva, ela abre um novo futuro e ativa os melhores recursos no interior de cada um. Ela não se limita ao erro, mas impulsiona o outro a ir além de si mesmo.

Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Pedir maior consciência do Amor Misericordioso do Pai.

Deixar-me surpreender pelo Amor criativo do Deus Pai - Mãe e participar em sua festa de reconciliação.

Pedir um coração “desarmado”, pronto a recriar (perdoar é recriar, é dar oportunidade para alguém viver de novo).

Entrar no “fluxo” da misericórdia divina: ser canal por onde ela circula para chegar até os outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 6,27-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Rahamim – Fx 9 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Solo: Andreia Zanardi 
CD: Cuida bem da palavra
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:46

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 6º Domingo do TC – 17 de fevereiro de 2019



Leitura Orante – 6º Domingo do TC – 17 de fevereiro de 2019

A FELICIDADE ESCONDIDA NAS BEM-VENTURANÇAS 

“E, levantando seu olhar para seus discípulos, disse: ‘Bem-aventurados...” (Lc 6,20)


Texto Bíblico: Lucas 6,17.20-26


1 – O que diz o texto?
“Ser feliz”: não há outra meta mais importante na vida de todos nós. De fato, é tão importante que se converteu em um desejo que repetimos de maneira muito frequente e, de forma especial, para as pessoas que mais amamos. Proferimos os votos de felicidade em qualquer evento, em todos os aniversários, no início de cada ano... Não podemos desprezar o excesso de nossas felicitações, por mais rotineiras que nos pareçam. Elas expressam um desejo profundo, talvez o desejo mais íntimo de nós mesmos. 

“Que sejas feliz!” Que melhor sentimento que isso pode desejar a alguém, seja ele ou ela quem for?

A proposta evangélica de felicidade tem algo a nos dizer em nosso momento atual?

A impressão que temos é que a vivência de muitos cristãos está longe de apresentar a Deus como amigo da felicidade humana, fonte de vida, alegria, saúde; na experiência de fé de muitas pessoas, o seguimento de Jesus, muitas vezes, não se associa com a ideia de “felicidade”. 

Predomina, em certos ambientes ou grupos cristãos, uma doutrina dolorida e uma catequese afastada da busca humana da felicidade. O cristianismo se apresentou, durante muito tempo, como a religião da cruz, da dor, do sofrimento, da renúncia, da repressão ao prazer e à felicidade neste mundo.

Diante de tal situação, Jesus, no Evangelho de hoje, afirma categoricamente: “Felizes sois vós!”

Jesus, ao “descer à planície”, promulga seu programa “com” vida, fundado não numa ética de “deveres e obrigações”, mas numa ética de “felicidade e ventura”.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqui está a surpreendente novidade do projeto oferecido por Jesus. Sem sombra de dúvida, o significado das bem-aventuranças e, portanto, do programa de Jesus, é algo mais humano, mais próximo e mais ao alcance de ser entendido e vivido por qualquer pessoa de boa vontade.

O Evangelho, a “boa notícia”, é o tesouro que enche o ser humano de uma felicidade indescritível. 

Com efeito, a primeira característica que aparece nas “bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus é um programa de felicidade”. Cada afirmação de Jesus começa com a palavra “makárioi”, “ditosos”. Essa palavra significa, em grego, a condição de quem está livre de preocupações e atribulações cotidianas.

As bem-aventuranças substituem os mandamentos que proíbem por um anúncio que atrai para a felicidade. E a promessa de felicidade não é para depois da morte. Jesus fala da felicidade nesta vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Conheço duas listas de Bem-aventuranças: a de Lucas e a de Mateus. São bastante distintas, porque uma fala dos pobres e a outra fala dos pobres “em espírito”; uma fala de fome e outra de fome de “justiça”... Costuma-se dizer que as Bem-aventuranças de Lucas são bem-aventuranças “de situação”, e as de Mateus são “de atitude”. Ou seja, enquanto Lucas diz: os que se encontram assim, os que estão nesta situação, são bem-aventurados (os que estão chorando, os que têm fome, os que são pobres...), Mateus diz: os que reagem desta maneira diante dos que choram, dos que são pobres, dos que tem fome... são bem-aventurados. É como a atitude que se toma frente aqueles que Lucas descreveu.

Antes de proclamá-las, Jesus vive intensamente as bem-aventuranças; elas são a expressão daquilo que é mais humano no seu interior; elas são seu auto retrato. Jesus é o bem-aventurado. Ele personaliza tais atitudes: é o pobre, aquele que se comoveu diante da dor e misérias humanas, que expressa uma fome e sede de plenitude e humanização, que é incompreendido e perseguido por causa dos seus sonhos.

O Jesus que os Evangelhos me apresentam deixa transparecer, permanentemente, um sentimento sereno e agradecido diante da vida. Ele vive apaixonado pelo Reino do Pai; Ele é um homem aberto e próximo das pessoas, com uma enorme capacidade de relação, de maneira especial diante dos mais pobres e excluídos. Mostra uma infinita confiança nas pessoas que encontra, seja qual for sua situação existencial. Ele é o portador definitivo de boas notícias. O evangelho da salvação chega até às barreiras e fronteiras humanas. Seu tempo é tempo de alegria; é a festa das bodas. Jesus me convida a entrar na nova vida de felicidade e fraternidade. As bem-aventuranças são o caminho da felicidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, as bem-aventuranças me revelam que sou habitada por um impulso que me torna “buscadora de felicidade”. A sociedade de consumo que invadiu tudo realça a felicidade como a meta imediata de minhas buscas, algo ao qual tenho direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcanço, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja... e de novo empreendo minha busca. Assim, pois, a felicidade me escapa quando a busco “fora”, como fim em si mesmo, para saciar meu ego insaciável.

A felicidade nasce dentro de mim: daquilo que sinto, que valorizo que vivo...

Por isso, as bem-aventuranças não são algo externo, mas atitudes que plenifica meu coração.

A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de meu ser. O que me tira a energia e me torna impotente é o afastar desse princípio vital que é o Divino em cada ser.

Ser o que sou em serenidade e profundo sentido. A felicidade, tal como a verdade e a beleza, ao se revelar a mim, desata a potencialidade daquilo que sou e de tudo o que é. 

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um “estado de espírito”; felicidade é viver sem chegada, sem partida; é experimentar uma sensação de renascimento de satisfação interior... ou sentir despertar em si um potencial de bondade, de compaixão, de solidariedade... muitas vezes desconhecida. 

A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir, cada dia, que a vida se inicia novamente em cada amanhecer; é fazer da mesma vida uma grande aventura...

Por isso, a felicidade está relacionada com a gratuidade e com a gratidão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Jesus, ao proclamar “bem-aventurados” os pobres, os famintos, os que choram os que são perseguidos... jamais quis sacralizar a dor humana. Ao contrário...

São bem-aventurados, sim, os pobres, porque, vazios de apegos e cheios de esperança, anunciam o sonho de Deus para a humanidade, uma nova sociedade baseada na solidariedade e na partilha...

São bem-aventurados, sim, os famintos, porque trazem nas entranhas a fome de liberdade e sabem que o ser humano e o mundo carregam infinitas possibilidades de crescimento...

São bem-aventurados, sim, os que choram porque suas lágrimas demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são verdadeiramente os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um mundo novo...

São bem-aventurados, sim, os que são perseguidos porque seguem corajosamente a estrela do Reino e é sinal de grande transformação realizada por Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 6,17.20-26
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Bem-aventurados
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:55


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 5º Domingo do TC – 10 de fevereiro de 2019



Leitura Orante – 5º Domingo do TC – 10 de fevereiro de 2019

VIVER EM REDES... SEM ENREDAR-SE

“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes...” (Lc 5,4)


Texto Bíblico: Lucas 5,1-11

1 – O que diz o texto?
Indiscutivelmente, Jesus é o misterioso visitante que cada dia chega até nós para advertir que precisamos nos libertar do tedioso cotidiano, quando ele se torna convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante... Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo, bloqueando o desenvolvimento pessoal e comunitário.

O encontro com Jesus nos arranca da rotina, do “sempre fizemos assim” e nos desafia a “pescar” de maneira diferente; sua presença alarga nossa mente e nosso coração instigando-nos a sair dos nossos estreitos mares e entrar no movimento do vasto mar que Ele nos oferece.

Em quê grau Sua presença nos desperta para aquilo que devemos ser como seus seguidores e suas seguidoras?

São grandes os riscos de vivermos em mares tão estreitos; é cômodo perceber, delimitar, defender e fechar-nos no próprio mar. Isso faz de maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está para além da margem onde nos estabilizamos. 

Tal estreiteza de vida aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgente. O próprio espaço se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

“Rema mar adentro!”, ressoa a voz de Jesus. A multidão permanece em terra; somente Pedro e seus companheiros se adentram no mar profundo. Este apelo de Jesus é muito simbólico. Em grego “bados” e em latim “altum” significam profundidade (alto mar); só nas profundezas é que se pode extrair o mais autêntico do ser humano, o que é mais nobre e divino. 

Tudo o que, em vão, buscamos na superfície, está dentro de nós. Mas, ir mar adentro não é tão fácil como pode parecer. Exige ultrapassar as seguranças do “eu superficial” e adentrar-nos nas incontroladas águas de nosso ser profundo. Confiar naquilo que não controlamos exige uma fé confiança autêntica. Dizia Teilhard de Chardin: “Quando descia ao profundo de meu ser, chegou um momento em que não ‘dava mais pé’ e parecia que me deslizava para o vazio”.


2 – O que o texto diz para mim?
Hoje, o lago de Tiberíades se converteu numa grande rede que abarca o mundo inteiro. Mas, o que as pessoas buscam nessa grande rede? E, sobretudo, os quês estão oferecendo nela para evangelizar?

Com um só click posso chegar a milhões de pessoas, posso fazer muito bem, mas também posso criar muita confusão e inclusive repulsa, posso levar a mensagem de Jesus ou simplesmente fazer transparecer todo o meu ego inflado, cheio de si mesmo. 

As redes sociais têm seus perigos, mas também tem suas grandes oportunidades que não posso desperdiçar. Vou me dando conta que, enquanto não evangelizo a partir dos meios eletrônicos modernos, não poderei encher minhas redes de peixes. O seguimento de Jesus implica hoje a necessidade de evangelizadores nas redes sociais.

Tendo as ferramentas em mãos (minha pobre barca e rede) e sendo portadora de uma mensagem de vida (o evangelho) sou movida por Jesus a “ser pescadora do humano”.

No mar das redes sociais ressoa mais uma vez o apelo de Jesus: “fazei-vos pescadores do humano”.

Frente a esta nova realidade, quê tipo de profecia responde melhor a minha peculiar forma de cooperar na missão do Espírito do Abbá e de Jesus.

Estou no mundo das telas: através delas me interconecto, transmito informações, saberes. As diversas telas tendem à convergência: com um só dispositivo, fixo ou móvel, posso falar enviar e receber fotos, música, vídeos e qualquer tipo de arquivo; com o “boom” das redes sociais posso fazer isso com o grupo que administro ou participo em cada momento.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Se há algo que caracteriza meu tempo é a nova consciência de ser rede, comunhão, interconexão, unidade. Encontro-me em um tempo surpreendente: as espetaculares inovações tecnológicas me convidam a entrar numa inimaginável rede de informações, imagens, conexões... Meu planeta está dotado de uma complexíssima textura de comunicações. Com apenas alguns clics oferece-se, diante de mim, um mundo complexo, de graça e maldade, de alianças para o bem e para o mal, de luzes e trevas. 

E aí estou eu, seguidora de Jesus, “enredada”, perguntando por minha identidade cristã, na vivência do Evangelho e na missão de me fazer presente neste “novo mundo”.

E sei que tudo está interconectado: a globalidade é interação. Lentamente vai-se tomando consciência de que faço parte de um todo. A realidade vai se revelando como um manto sem costuras, sem fraturas, onde eu estou implicada e comprometida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o mar era o símbolo das forças do mal. “Pescar homens” era um dito popular que significava tirar alguém de um perigo grave. Não quer dizer, como se entendeu com frequência, fazer proselitismo ou converter as pessoas à força para a religião cristã. Aqui quer dizer: ajudar as pessoas a sair de todas as opressões que lhe impedem crescer e desenvolver suas potencialidades. Só pode ajudar o outro a sair da influência do mal aquele que encontrou o que é mais verdadeiro e nobre dentro de si mesmo.

Neste contexto atual, onde corro o risco de me converter em pessoa “grudada” a uma tela, se faz mais necessário que nunca humanizar a rede para “pescar o humano” que está escondido no oceano interior de cada um. Esta humanização requer, em primeiro lugar, muita responsabilidade.

Tudo isto me leva a pensar que na rede há uma grande necessidade de silêncio (“silêncio na rede”), precisamente para que eu possa ouvir a verdade com amor. Há excessivas palavras que afogam notícias falsas, “bullings”, campanhas desqualificadas e comentários feitos com extrema má educação. Sobretudo nas páginas religiosas, precisa de um silêncio construtivo para que se escute a verdade que liberta.

Silêncio construtivo significa utilizar uma linguagem propositiva, compreensiva, que estenda pontes de diálogo, que escute o outro que é diferente, que leve em conta o que “o outro” diz, talvez um aspecto da realidade que me tinha escapado.

Silêncio construtivo significa tomar partido pelos mais fracos e excluídos; significa usar uma linguagem que sare as feridas, que reconstrua os vínculos quebrados. Uma página (mensagem) que só busca condenar, que só revela intolerância e preconceito, não pode ser evangélica. Literalmente, “há demasiado disparos” que desumanizam. Precisa do azeite do consolo que cura as feridas, o vinho da esperança que une como irmã acima das diferenças, o pão da compaixão que alimenta e eleva... 

É preciso fazer a “travessia” do estreito mar da vida, onde minhas inúteis barcas e redes só “pescam” futilidades e lixo, para o grande oceano que Jesus me oferece, carregado de vida e vida em plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Remar mar adentro e descer ao profundo de meu ser!” 

É um convite dirigido a mim e a todo ser humano. Sem essa profundidade, não é possível a plenitude humana. A contemplação é o único caminho.

“Não é necessário que eu percorra os mares buscando alimentos; aprender a pescar em meu próprio mar interior; o que com tanto afinco busco fora de mim, já tenho ao alcance das mãos, dentro de mim.”

Se não tenho pescado nada, o quê oferecer ao outro? 

Se não tenho aprendido a pescar, como poderei ensinar a outros? 

“Dar verdadeiro sentido à minha vida e ajudar os outros a atingir o mesmo”. (cf. Fray Marcos)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Comece – Fx 02
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Part.: Karla Fioravante
Vocal: Dalva Tenório, Luan , Vanessa, Suely
CD: Mistério, amor e sentindo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:13