terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 4º Domingo do TC – 03 de fevereiro de 2019


Leitura Orante – 4º Domingo do TC – 03 de fevereiro de 2019

A FORÇA DE UMA PALAVRA INSPIRADA

 “Ao ouvirem Jesus, 
todos na sinagoga ficaram furiosos” (Lc 4,28)


Texto Bíblico: Lucas 4,21-30


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo é inspirador: as pessoas se admiram com as “palavras cheias de encanto que saíam da boca de Jesus”. Palavras que despertam assombro nelas; palavras diferentes que ativam suas vidas, palavras que não deixam ninguém indiferente; palavras provocativas porque carregam o impulso do novo; palavras que incomodam porque lhes faziam perguntar por suas próprias palavras, seu modo habitual de ser e de viver...

A primeira reação dos ouvintes foi de admiração pela pessoa de Jesus e por sua mensagem. Mas, rapidamente, passaram da admiração à surpresa: quem pensa ser ele, para dizer tais coisas? «Não é este o filho de José”?  Reduzem-no assim à sua herança natural; não haviam entendido que, dali em diante, têm à sua frente um novo Jesus, o Filho muito amado do Pai. A única razão que dão para rejeitar as pretensões de Jesus é que Ele é simplesmente mais que um do povoado, conhecido de todos.

Isto é revelador por parte do evangelista Lucas. No início de sua vida pública, Jesus se revela como uma presença original, pois sendo “um entre tantos”, no entanto, sua presença despertava perguntas, dúvidas e até incompreensões e discussões. Todo seu povoado o via como um homem a mais, um galileu a mais. 

Mas, sendo “um entre tantos”, começou a pensar, viver e agir com um estilo único que o diferenciava de todos. A grandeza de Jesus está justamente em que, sendo um no meio de tantos, foi capaz de descobrir o que Deus esperava d’Ele. 

Jesus não é um extraterrestre que traz poderes especiais de outro mundo, mas um ser humano que tira da profundidade de seu ser o que Deus colocou no coração de todos. Fala daquilo que encontrou no seu interior e nos convida a descobrir em nós o mesmo que Ele descobriu.


2 – O que o texto diz para mim?
Sua vida começou a desconcertar as pessoas; seu modo original de falar desconcertava a todos; sua liberdade de espírito e seus critérios desconcertavam as pessoas. Diante d’Ele só lhes restava fazer perguntas: quem é Ele? Como explicar sua proposta de vida?

Jesus não quis deixar o mundo como o encontrou; Ele não veio ao mundo para deixá-lo tal como estava; Jesus veio mudar as coisas e deixar-nos um mundo diferente; não um mundo com soldas e remendos, mas um mundo mais habitável. Por isso, no início de sua vida pública, Ele se revela como uma presença  diferente, apresentando a proposta de um mundo diferente. 

Tudo o que era antigo chegou ao fim; um mundo novo está aberto, diante de todos. 

Pois, agora, a hora chegou. Os ouvintes de Jesus entendem que vão ter de mudar, de transformar-se. E isto é inquietante: estavam tão tranquilos até aquele momento.

As pessoas de sua comunidade viviam mergulhadas na inércia, no costumeiro e não queriam se abrir ao novo, às mudanças. Preferiam a vulgaridade de ser como todo o mundo à originalidade de ser diferente; preferiam a monotonia de viver como todos e passar desapercebido na massa, sem despertar a atenção para uma original e provocativa presença.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os moradores de Nazaré estavam fechados à presença divina. E me oferece, assim, uma imagem daquilo que, com frequência, também vivo: o julgamento que faço dos outros, o meu preconceito e a minha intolerância diante de quem pensa, sente e vive de maneira diferente.

As palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré questionam, também hoje, o sentido que minhas palavras têm; elas me fazem tomar consciência daqueles que se sentem movidos por minhas palavras, me fazem perguntar sobre a inspiração e a força das palavras que brotam do meu interior.

Quantas palavras eu disse ou escrevi hoje? Talvez tenha enviado um correio; ou feito um comentário no WhatsApp ou no blog de um amigo; ou tenha conversado junto a uma mesa de bar, partilhando conselhos, trocando ideias...; ou tenha falado com minha mãe pelo telefone...

Vivo saturada de palavras. Elas me assaltam nas canções, estão nos perfis virtuais, nos livros, em mil e uma conversações. Falo, digo, escrevo, escuto, leio... 

E de tanto usá-las, talvez as palavras tenham perdido o sentido.  Estou tão acostumada a proferi-las que não me dou conta do muito que significam. Então falo, mas não vivo; digito palavras, mas não transmito calor humano. Assusta me converter a palavra em palavreado crônico.

Há palavras que se gastam de tanto serem usadas; há afirmações que, de tanto serem repetidas, perdem sua força. Palavras que perdem seu valor, caindo no terreno comum das “coisas baratas”. Pronunciar, sem enrubescer, palavras que deveriam ser ditas com extremo cuidado como compaixão, justiça, amor, vida... É bonito pensar no poder das palavras, ou em meu poder e responsabilidade ao pronunciá-las.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor eu sei que o ser humano chegou a ser o que é graças a esse dom evolutivo que é a palavra; ela me permite pensar, dar nomes às coisas, aos outros seres, às emoções que sinto dentro de mim e comunicar eficazmente com meus semelhantes.

Claro que, como sou um ser complexo, esse dom, que é minha capacidade verbal, pode ser usada para diferentes fins. Posso utilizá-la para reconhecer e transmitir o que de verdade sinto ou penso ou enganar a mim mesma e aos meus interlocutores.

A diferença radical está no fato de que com a palavra posso cuidar, acariciar, conhecer, irradiar consolo ou amor, ser artífice de paz e sossego... Ou, posso gerar ódio, rancor, alimentar preconceitos e julgamentos, provocar invejas, trair, dividir...

Nas “sinagogas pós-modernas” (redes sociais) tenho a oportunidade de proferir palavras que ampliam a vida, elevam o outro, abrem horizontes de sentido...; elas também se revelam como o espaço onde escutar palavras oriundas de um coração e uma mente diferente, que despertam mudanças, a busca do novo... Infelizmente, como nos tempos de Jesus, também este ambiente tem sido o local da expressão de palavras ásperas de julgamento e de indiferença, carregadas de preconceito e intolerância. Ali encontro a soberba disfarçada de verdade, o conservadorismo farisaico que cria distâncias, o medo camuflado de firmeza, as inseguranças alimentando divisões... Estas atitudes nunca deixam espaço para o novo, a renovação torna-se impossível e a inovação se extingue... Nesses ambientes disfarçados de ortodoxia, fundamentalismo, moralismo, legalismo... nem o Espírito tem espaço para atuar e inspirar “palavras de vida”. 

Jesus foi “deletado de sua comunidade” porque ousou pensar de maneira diferente; o seu anúncio e as suas opções rompiam com esquemas mentais arcaicos e petrificados.

“Por isso, dentro de minha sinagoga atual, é preciso alimentar mais sobriedade frente à “falação” vazia”; mais sinceridade frente à mentira; mais acolhimento frente à indiferença...

Talvez o silêncio pode ser algo novo quando não se tem uma palavra diferente que dizer. Mas é certo que se chego a dizer algo novo, algo meu, há uma terra sedenta que espera ansiosa essa chuva.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Estar atenta diante das palavras que brotam de minha sinagoga interior...

Quantos se sentem tocados pelas minhas palavras? 

Quantos daqueles que as escutam se sentem animados, vibrantes, curados? 

Até onde falo daquilo que vivo? 

Minhas palavras despertam o coração das pessoas?

Quantos daqueles que me escutam se sentem entendiados e cansados diante de meu palavreado crônico, de minhas críticas ácidas, de meus julgamentos preconceituosos?



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,21-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Com poucas palavras – fx 01
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:59


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 3º Domingo do TC – 27 de janeiro de 2019


Leitura Orante – 3º Domingo do TC – 27 de janeiro de 2019

MAIS CORAÇÃO NAS MÃOS

“Para pôr os oprimidos em liberdade, 
para proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19)


Texto Bíblico: Lucas 4,14-21


1 – O que diz o texto?
O Espírito conduziu Jesus para a experiência do deserto; agora, o mesmo Espírito do Deus do Reino impele Jesus para o deserto da existência humana, ou seja, ser presença inspiradora e comprometidos em favor dos últimos, dos mais pobres, dos excluídos e marginalizados da sociedade. Os primeiros a experimentarem essa vida mais digna e livre que Deus quer para todos são justamente aqueles para os quais a vida não é vida. 

Podemos, então, dizer que a primazia dos últimos inspirou sempre a atividade de Jesus a serviço do reino de Deus. Para Ele, os últimos são os primeiros. Ser compassivo como o Pai exige buscar a justiça de Deus começando pelos últimos.

Só estaremos em sintonia com o coração do Deus de Jesus se estivermos com “o coração nas mãos”, comprometidos com a causa da “massa sobrante” (D. Luciano). Caso contrário, estaremos nos relacionando com um ídolo. Uma religião, conivente com qualquer tipo de exclusão e violência, é idolátrica.

Não podemos esquecer esta verdade: a “opção pelos pobres e contra a pobreza”, tal como aparece no evangelho, não é uma questão ideológica, filantrópica ou político partidário, nem uma moda posta em circulação depois do Vaticano II e Medellin. É a opção do Espírito de Deus e que anima a vida inteira de Jesus na busca do Reino e sua justiça. Deus não pode reinar no mundo sem fazer justiça aos últimos.

Esta afirmação traz consigo o seguinte: o amor aos pobres e contra a pobreza é dom de Deus.

O amor aos empobrecidos nasce do encontro vivo e existencial com o Senhor Jesus, que rico se fez pobre (2Cor 8,9). Deus ama os pobres simplesmente porque eles são pobres, “porque assim é do seu agrado” (Mt 11,25). E os pobres, os preferidos de Deus, são empobrecidos efetivos, reais e concretos, vítimas de estruturas sociais e políticas injustas. Ou seja, a opção de Deus pelos pobres é absolutamente gratuita. Também a nossa opção, que é uma resposta à interpelação do rosto do empobrecido, nasce da absoluta gratuidade de Deus e é chamada a manifestar esta gratuidade.

“Nosso compromisso de seguir o Senhor pobre, naturalmente nos faz amigos dos pobres” (S. Inácio).


2 – O que o texto diz para mim?
Lucas apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré, aplicando-se a si mesmo as palavras do profeta Isaías (62,1-2). Aqui Jesus apresenta seu “projeto com vida”, ou seja, começar sua missão resgatando a vida dos últimos, para torná-la mais sadia, mais digna e mais humana.

Fala-se aqui de quatro grupos de pessoas: os “pobres”, os “cativos”, os “cegos” e os “oprimidos”. Eles resumem e representam a primeira preocupação de Jesus: aqueles que Ele carrega no mais profundo de seu coração de Profeta do Reino.  Ele quer deixar claro que os últimos são os prediletos de Deus.

O Deus de Jesus não é o aliado de uns poucos, nem é o Deus dos piedosos, dos poderosos e dos sábios. É, sobretudo, o Deus dos marginalizados, dos excluídos, dos enfermos e pecadores. O caminho para um mundo mais digno e ditoso para todos começa a ser construído a partir deles. Esta primazia é absoluta; é Deus que quer assim. Não deve ser menosprezada por nenhuma política, ideologia ou religião.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Como cristã, sou seguidora de uma pessoa e não de uma religião, de uma doutrina, de uma moral. O seguimento de Jesus, escola de liberdade cristã, dá ao amor preferencial pelos pobres, por todos os pobres, a verdadeira dimensão e o verdadeiro sentido da minha existência cristã; sem esse amor pelos pobres caio numa prática religiosa estéril, desprovida de humanização.

A opção pelos empobrecidos não significa assumir o lugar deles; trata-se de devolver a eles o protagonismo de sua história e a autonomia de seu destino.

O envolvimento com o “outro” (excluído, pobre, marginalizado...) me conduz à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para partilhar e receber e a uma imensa felicidade.

O encontro com o “outro” marginalizado dá um toque especial à minha espiritualidade e minha espiritualidade faz minha ação mais radical – mais enraizada em si mesma e vai mais a fundo nas raízes da injustiça. Aproximar-me do empobrecido e deixar-me “afetar” pelo seu sofrimento torna-se a maior fonte de minha espiritualidade.

Na experiência de “convivência” com os empobrecidos adquiro os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade... Eles tem um jeito de me trazer de volta para o essencial da vida. Eles são uma fonte de esperança, de autenticidade. Eles se tornam meus amigos.

Suas “fraquezas” suscitam em mim o melhor de mim mesma e, ao me envolver afetivamente em sua vida, fazem com que eu viva um misto de ternura e indignação,  a que chamo compaixão.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, na medida em que o seguidor, a seguidora de Jesus se vê interpelado pelo rosto do empobrecido e age, esta sua ação revela a compaixão de Deus. A minha ação deve fazer resplandecer a compaixão de Deus pelos últimos e excluídos. 

Quem é possuído pelo ágape de Deus é sensível e comprometido com o mundo dos empobrecidos.

O amor preferencial pelos empobrecidos é divino, antes de ser humano. E o ser humano só pode assumi-lo como seu porque antes o contemplou na prática salvadora e amorosa de Jesus Cristo, e porque este amor foi por Deus colocado no mais profundo do seu coração.

Nos Evangelhos, Jesus Cristo é o pobre e o servidor por excelência, Aquele que, a partir de sua condição divina, se encarna, se esvazia e assume o lugar dos últimos. O seguimento de Jesus pobre é a única via de acesso ao mistério glorioso do amor de Deus. A opção pelos pobres e contra a pobreza, tal como aparece na Igreja latino-americana é, portanto, uma opção de amor.

Seguir Jesus hoje é prolongar, criativamente, a sua presença e o seu compromisso junto aos mais excluídos, vítimas da ganância humana. Sou, portanto, chamada a construir uma “cultura da solidariedade e partilha”. Significa viver de modo que a solidariedade constitua um pilar em meu projeto de vida.

A solidariedade implica encontrar-se com o “mundo do sofrimento, da injustiça, da fome... e não ficar indiferente”. A solidariedade, que nasce da compaixão, leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.

Isto pede de mim uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-me em seu lugar, deixar-me questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, redescobrir com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida, frente a um contexto social e político que alimenta o que é mais funesto no ser humano: o impulso da violência covarde que se visibiliza na “posse de armas”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência de encontro com Jesus na sinagoga de Nazaré desperta em mim a compaixão para com o outro que é excluído, marginalizado, pobre... 

Sou chamada a viver a solidariedade como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus.

Frente ao mundo dos empobrecidos, minha vida deve transbordar compaixão, compromisso, acolhida... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,14-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O amor torna tudo novo – fx 02
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:47


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 2º Domingo do TC – Bodas de Caná, 20 de janeiro de 2019


Leitura Orante – 2º Domingo do TC – Bodas de Caná, 20 de janeiro de 2019

O MELHOR VINHO ESTÁ DENTRO DE NÓS

“Tu guardaste o vinho bom até agora!” (Jo 2,10)


Texto Bíblico: João 2,1-11


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo parece estar fora de contexto. Estamos no tempo litúrgico “Ano C” e deveríamos ter presente algum texto do evangelista Lucas. O motivo é que, antigamente, na festa da Epifania, celebrava-se três acontecimentos: a adoração dos Magos, o Batismo de Jesus e as Bodas de Caná.

Atualmente, no dia da Epifania só se celebra o encontro dos Magos com o Menino Jesus; e a liturgia continua celebrando os outros dois acontecimentos nos dois domingos seguintes (1º e 2º dom do Tempo Comum). Por esta razão, lemos o evangelho de João, que é o único que relata as Bodas de Caná. 

O evangelista João não diz que Jesus fez “milagres” ou “prodígios”. Ele os chama “sinais”, porque são gestos que conduzem a realidades profundas e decisivas para nossa transformação interior, e que nossos olhos  nem sempre conseguem perceber. 

Concretamente, os “sinais” que Jesus realiza, orientam para sua pessoa e nos fazem descobrir sua força salvadora. Nessa “transformação da água em vinho” nos é proposta a chave para captar o tipo de transformação salvadora que Jesus realiza e que, em seu nome, seus seguidores devem oferecer.

O mais surpreendente, no evangelho de hoje, é que João usa a imagem de um casamento para falar-nos das relações de Deus com a humanidade. Tudo acontece no contexto de um casamento, a festa humana por excelência, o símbolo mais expressivo do amor, a melhor imagem da tradição bíblica para evocar a comunhão definitiva de Deus com o ser humano.

A salvação de Jesus Cristo deve ser vivida e oferecida por seus seguidores como uma festa que dá plenitude às festas humanas, quando estas ficam vazias, “sem vinho” e sem capacidade de preencher o desejo de felicidade total.

“Nosso Deus sempre vem a nós em festa. Deus é festa”.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus se manifesta em todos os acontecimentos que me instiga a viver com mais sabor; Ele não quer que eu renuncie a nada do que é verdadeiramente humano. Deus quer que eu viva o divino naquilo que é o cotidiano e o normal da vida. A ideia do sofrimento, da mortificação e da renúncia como exigência divina não tem espaço na experiência evangélica. Deus está presente onde os homens e mulheres se amam se atrevem a iniciar a travessia da vida na intimidade solidária, em bodas íntimas, mas abertas à solidariedade universal. 

Ali, nas bodas de Caná, pode-se fazer memória, sem medo e sem mentira, do Deus de Jesus.

Deus é “festeiro” e, certamente, a festa das Bodas de Caná é uma ocasião privilegiada para “sentir e saborear” a presença amorosa d’Ele em minha vida. Tal celebração deixa transparecer que Deus não está presente só nos ritos religiosos externos (mais missas sem o pão abundante, mais novenas sem compromissos, mais sacrifícios sem espírito solidário...), mas na festa da vida, no pão e no vinho compartilhados com todos, começando pelos mais pobres e excluídos...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
À semelhança do amor, a festa tem caráter de gratuidade dentro de um mundo mercenário e ingrato que me cerca; uma gratuidade sem pressas e sem urgências. O ápice da festa é gratuito. Justamente por isso a festa tem algo a ver com o mistério da vida; é esta vida, plena e plenificante, que brota gratuitamente do meio da festa. Por isso, festa não é superficialidade, mas manifestação do mais profundo da vida; ela traz à tona o sentido daquilo que se vive e daquilo que se espera.

A festa verdadeira é subversiva: nasce da vida e remete à vida.

A mensagem do evangelho de hoje é muito simples, mas provocadora. Nem os ritos e nem as abluções podem purificar o ser humano. Só quando saboreia o vinho-amor do seu interior, ele ficará todo limpo e purificado. Quando ele descobre Deus presente e atuante dentro de si mesmo e identificado com todo o seu ser, será capaz de viver a imensa alegria que nasce desta profunda unidade. Portanto, o melhor vinho está para ser servido e está escondido no centro de cada um.

Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é o seu “mistério”  íntimo e pessoal.

Na adega interna existe um vinho guardado que procura se expressar (sentimentos, emoções, atitudes e valores, crenças, percepções, motivações...). O melhor de cada pessoa é gestado na profundeza de sua vida; às vezes demora tempo em aflorar, mas está aí latente, esperando um olhar ou uma voz que venha despertá-lo. Quanto mais ela mergulha no seu íntimo, mais percebe esta riqueza. 

Só quando a pessoa se deixa “habitar” por Deus, a água interior vai se transformando num delicioso vinho. E quando o vinho é provado, canta no coração. O vinho é sempre da melhor qualidade, sempre próximo e fácil. É o vinho presente no “eu profundo” que plenifica tudo o que a pessoa é e faz, que dá um sabor especial à sua vida e ao seu compromisso.

“Sentir e saborear interiormente” é expressão da mística inaciana; só quem é capaz de saborear o “vinho interior” de suas riquezas, dons, intuições, inspirações... estará mobilizado para “sentir e saborear” a realidade habitada pela presença d’Aquele que é Fonte dos Vinhos mais nobres.

Por isso, é preciso “habitar a própria casa”, aprender a se conectar com as fontes profundas da Vida que nutrem a existência e acalmam a sede de vida plena que pulsa em todos os corações.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o vinho que brota do coração me purifica continuamente,  me transforma, dá um impulso vibrante à minha vivência cristã e, ao mesmo tempo, fornece o elemento vital necessário para que eu alimente novas festas. Não se trata simplesmente de fazer banquetes, mas ser banquete de refeição e amor, de vinho para todos, uma mesa redonda como o mundo: abrir um espaço e tempo de bodas sobre o universo de Deus, sobre o amplo solo da terra, com Jesus como convidado (ensinando-me a transformar a água em vinho), com Maria como animadora, os convidados como comunidade festiva.

O decisivo é ter acesso ao vinho interior de recursos e energias que procuram chegar à tona, mas muitas vezes encontram resistências e dificuldades.

É preciso “descer” até às profundezas para descobrir uma nova fonte para a minha vida; é “descendo” que poderei revitalizar a vida que se tornara vazia, ressequida e sem sabor.

Somente quando escuto a voz que vem lá de dentro e lhe dou a devida atenção é que poderei encontrar o verdadeiro sabor da vida. Somente ali poderei recomeçar uma nova relação com Deus e com os convidados; somente ali poderei sentir quem é Deus e o que é a Sua Graça. Ali me situo como realmente sou, mergulho nas intenções mais profundas e puras, encontramo-me cara a cara, como que feitos para a eternidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A água transformada em vinho é símbolo de festa, de partilha...

Chegou o dia da festa para todos, de uma festa que não acaba. A alegria é sem fim porque Deus sempre tira mais e mais vinho para brindar.

Fazer a experiência de Deus, viver e sentir no ritmo cotidiano de minha vida.

Crer somente no Deus de ternura, o Deus da vida e da festa...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 2,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Deus mandou Jesus – fx 09
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Grupo Ir ao Povo – Beto, Betinho e Sonia Mara
Coro: Dalva , Karla , Sueli, Luan e Vanessa
CD: Dois interiores – TRIO IR AO POVO
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:40



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 1º Domingo do TC – Batismo de Jesus, 13 de janeiro de 2019


Leitura Orante – 1º Domingo do TC – Batismo de Jesus, 13 de janeiro de 2019

BATISMO: pulsar o coração em sintonia com o coração de Deus

“...também batizado, estava rezando, o céu se abriu, 
o Espírito Santo desceu sobre Jesus...” (Lc 3,21-22)


Texto Bíblico: Lucas 3, 15-16.21-22


1 – O que diz o texto?
Terminado o “tempo natalino”, começamos hoje o “tempo comum” (Ano C), ou seja, a vida pública de Jesus, sua missão como Filho em favor dos filhos e filhas. O relato do batismo – que marca a passagem da vida em Nazaré para a vida peregrina – faz referência a uma experiência fundante de Jesus: confirmado pelo Pai, impulsionado pelo Espírito, Ele descobre o sentido de sua vida e a missão que devia realizar.

batismo de Jesus significou uma profunda experiência espiritual, muito ligada à sua atitude humilde de aproximar-se do rio Jordão, onde as pessoas simples do povo buscavam no batismo de João uma purificação de seus pecados.

Jesus foi reconhecido pelos pastores e magos, mas não pelos que compartilhavam com Ele a fila dos pecadores. Uma fila que margeava o rio Jordão, constituída por aqueles que queriam receber o batismo das mãos de João. E ali se pôs Jesus, entre eles, em silêncio. Não era um a mais, mas parecia ser.

Quê foi que levou Jesus a tomar esta decisão? Quê esperava encontrar com o batismo de João? Quais foram os sentimentos que o acompanharam durante este percurso de mais de 100 quilômetros desde Nazaré até o lugar onde recebeu seu batismo? Foi uma viagem solitária ou a fez em companhia de alguns amigos e amigas que também buscavam o mesmo?

Embora não reconhecido pelas pessoas, ao entrar nas águas do Jordão, Jesus foi reconhecido e confirmado pelo Pai. E fez isso com uma voz potente para que todos se dessem conta de que o Filho queria compartilhar a situação da humanidade. E o Pai lhe deu carta branca para estar entre nós sem privilégios, continuando o despojamento que lhe supôs entrar em nosso mundo. 


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus “desce” ao Jordão; este gesto resume sua descida do céu à terra, sua “kénosis”, seu esvaziamento radical. É uma “descida” às águas da humanidade; por isso, sobre Ele “desce o Espírito”. 

O Espírito não “desce” sobre aquele ou aquela que “sobe” ao pedestal da vaidade, do poder, da intolerância, do preconceito... Ali, o “ego inflado” não abre espaço para se deixar inspirar pelo mesmo Espírito que conduzia Jesus. É preciso “descer” às águas da própria existência, “entrar na fila solidária” da fragilidade humana, passar pelas águas da renovação vital e sair do outro lado, purificado e humanizado.

batismo comove Jesus por dentro, o transtorna, parece que lhe invadem uma compaixão e ternura infinitas. O Deus dos pais se revela a Ele como Fonte de Vida, como Misericórdia e Compaixão, como fonte de dignificação e perdão.

O Céu deixa de estar em silêncio, o Céu não se compraz na Lei e no Templo, o Céu se compraz em Jesus, e, a partir de sua profunda percepção do Deus como Ternura e Fonte da Vida, sua vida vai se revelar como Boa Notícia para os abatidos de toda a humanidade.

Jesus não será mais o mesmo; o “filho do carpinteiro” foi tocado pelo Compassivo e sua vida vai se converter em visita de Deus a seu povo, em causa de liberdade para os oprimidos, em saúde para os enfermos, em perdão para os indignos, em inclusão para os excluídos, em festa para os tristes...

A Bíblia me convida a tomar consciência que os lugares de encontro de Deus com o ser humano não são unicamente os sagrados, institucionais ou majestosos, mas, principalmente, os lugares da “margem”, do cotidiano, das experiências de fragilidade e limite, das obscuridades e dúvidas... enfim, das fendas da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
E foi das “fendas da humanidade” que o próprio Jesus entrou em comunhão com o Pai. 

Segundo o evangelho de Lucas, Jesus se faz presente na “fenda’ mais profunda da terra, no Jordão, e é precisamente ali onde Ele escuta a voz do Pai indicando-o como o Filho amado em quem “põe o seu bem-querer”“. A partir desse momento, Jesus se descobre portador dessa “complacência divina” e vai fazendo-a presente nos diferentes lugares por onde se desloca com uma mobilidade surpreendente: do deserto à Galiléia, onde anuncia a chegada do Reino; às margens do mar, chamando os primeiros discípulos; em Cafarnaum onde exerce seu ministério terapêutico; às portas das casas, acolhendo uma multidão de enfermos; no descampado onde oferece a grande mesa da partilha; nos territórios fronteiriços, onde acolhe e entra em diálogo com o diferente...

Não são lugares “sagrados”; é sua presença que os converte em “teofânicos” (manifestação da presença divina), porque ali onde Ele se faz presente, os céus se “rasgam” e Deus “se deixa ver” em seu Filho, e Suas palavras continuam ressoando e me convidando a escutá-lo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, viver a vocação batismal ativa minha sensibilidade mais profunda, fazendo-me entrar em sintonia com Deus e com a realidade. Deus age diretamente no coração e me conduz com delicadeza, com carinho e com liberdade, preparando-me para o grande “salto” na vida. E meu coração aberto, atento, sintonizado com a ação de Deus, dispõe-se, coopera e responde à Graça divina, empenhando-se por encontrar “o que tanto deseja”.

Essa é a experiência mística da vida: “sentir Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”.

Ser seguidora de Jesus é fazer a experiência da intimidade, da presença, da comunhão, da proximidade de Deus na própria vida. É viver embriagado de vida, viver como um peixe nos oceanos de Deus, dizendo um profundo sim às ondas, ao vento, ao sol, à existência... É sentir-se cativada, envolvida, amada, sintonizada, habitada por Deus de tal maneira que meus olhos, gestos, atitudes, palavras, coração, existência, transbordam Deus. Sentir-se envolvida pela “onda” de Deus e sintonizar-se com o Seu coração. Tal experiência é incomunicável; ninguém pode vivê-la por mim.

A vivência batismal implica um contínuo “estar presente” diante do Deus Presente. E estar presente é estar “acordada”, no sentido de desperta atenta, e também no sentido musical de estar afinada, “em acorde”, sintonizada com a Presença que se revela de maneira “sempre nova e inesperada”.  

Dentro de mim existe uma música, uma melodia, uma nota do divino. É preciso criar espaço para que ela possa fluir em forma de canto, de dança, de louvor...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
No meio desse mundo confuso e dividido é necessário encontrar um princípio integrador; é preciso compor uma sinfonia, buscar a “consonância” das diferentes vozes e instrumentos presentes ao meu redor. O compromisso batismal é esse momento delicado que me ajuda a recuperar o “som primordial”, e, portanto, a unidade do sentido da minha existência.

Por isso, “viver a vocação batismal” não é evento, mas sintonia com o coração de Deus; é estar “antenada” no modo de agir de Deus e corresponder a essa ação divina. 

Faz-se necessário, portanto, um contínuo discernimento para deixar-se conduzir pelo Espírito e prolongar o modo original de ser e viver de Jesus.

Deixar me levar como se estivesse num rio e observar com um olhar interior, escutar, sentir...

O Batismo implica expandir os espaços interiores, romper com tudo aquilo que atrofia a vida para acolher o novo: nova missão, novo compromisso, nova presença solidária, acolhida do diferente...

Renovar meu compromisso batismal: ser presença diferenciada em meio a um mundo carregado de morte e violência.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 3, 15-16.21-22
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Águas eternas – Fx 13
Autor: Padre Zezinho, scj
Interprete: Padre Zezinho, scj
CD: Sereno e forte
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:38

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Leitura Orante – Solenidade da Epifania do Senhor, 06 de janeiro de 2019


Leitura Orante – Solenidade da Epifania do Senhor, 06 de janeiro de 2019

EPIFANIA É ABRIR CAMINHOS

“...voltaram para sua terra por outro caminho” (Mt 2,12)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
Por que é que os homens se deslocam em vez de ficarem quietos”? Esta pergunta do escritor Bruce Chatwin nos reconduz ao centro do mistério do próprio ser humano.

Somos seres de travessia. As viagens nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente no espaço geográfico que o ser humano viaja. Isso significaria não perceber toda sua a profundidade; deslocar-se implica uma mudança de posição, uma ampliação do olhar, uma abertura ao novo, uma adaptação a realidades e linguagens diferentes, uma expansão da sensibilidade, um confronto, um diálogo tenso ou deslumbrado..., que deixam necessariamente impressões muito profundas.

A experiência da viagem é a experiência de fronteira e do horizonte aberto, de que o ser humano precisa para ser ele mesmo. Nesse sentido, a viagem é uma etapa fundamental da descoberta e da construção de sua própria identidade e do conhecimento do mundo que o cerca. É a sua consciência que perambula, descobre cada detalhe do mundo e olha tudo de novo como da primeira vez. A viagem é uma espécie de propulsor desse novo olhar. Por isso, é capaz de introduzir na vida elementos sempre inéditos que o incitam a uma mudança contínua. Nada mais anti-humano que uma vida estabilizada em posições fechadas, ideias atrofiadas, visões limitadas pelo medo do diferente...

Mais do que viajantes, aos poucos vamos descobrindo peregrinos.

Quando fazemos uma peregrinação, muitas vezes nos interrogamos onde é que ela termina, porque uma das coisas que experimentamos é que, à medida que caminhamos, a realidade torna-se sempre mais aberta e nós nos enriquecemos muito mais. A peregrinação não tem propriamente um fim: tem uma extraordinária finalidade. No caso dos Magos é o encontro com o “Rei de Israel”.

Na noite de Natal, Jesus se manifestou aos pastores, homens pobres e humildes, que foram os primeiros a se deslocarem para levar um pouco de calor à fria gruta de Belém. Agora são os Magos que chegam de terras longínquas, também eles atraídos misteriosamente por essa Criança. Os pastores e os Magos são muito distintos entre si; mas uma coisa tem em comum: o céu.

Os pastores de Belém foram correndo para ver o menino Jesus não porque fossem particularmente devotos, mas porque velavam de noite e, levantando os olhos ao céu, viram um sinal e escutaram uma mensagem.

Assim também os Magos: investigavam os céus, viram uma nova estrela, interpretaram o sinal e se puseram a caminho. Os pastores e os Magos nos ensinam que para encontrar Jesus é necessário saber levantar o olhar para o céu, não fixar-nos em nós mesmos, ter o coração e a mente abertos ao horizonte de Deus, que sempre nos surpreende saber acolher suas mensagens e responder com prontidão e generosidade.


2 – O que o texto diz para mim?
O termo “magos” tem uma considerável gama de significados; mas, certamente, em Mateus são sábios cuja sabedoria religiosa e filosófica os põe em caminho; é a sabedoria que leva a Cristo. Somente homens de certa inquietude interior, homens de esperança, em busca da verdadeira estrela da salvação, seriam capazes de colocar-se em caminho e percorrer a longa distância entre Oriente e Belém.

Chama à atenção a prontidão da resposta dos Magos. Com simplicidade expressam como no preciso momento em que perceberam a indicação do céu, imediatamente reagiram e a seguiram. 

A estrela que os guiava era uma estrela nova, superior, peregrina, que despertava assombro e atraía àqueles que a contemplavam. Os caminhos deste novo astro orientam à salvação divina para toda a humanidade.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A experiência dos Magos me exorta a não me contentar com a mediocridade, a não permanecer adormecida e estática, mas a buscar o sentido das coisas, a perscrutar com paixão o grande mistério da vida. Eles me ensinam a não me escandalizar frente à pequenez e à pobreza, mas a reconhecer a majestade na humildade e saber ajoelhar diante dela. O deslocamento dos Magos ajuda a me deixar guiar pela estrela do Evangelho para encontrar Aquele que é Luz, e despertar a luz que habita em mim. Assim, poderei levar aos outros um raio de sua luz e compartilhar com eles a alegria do caminho.

Os Magos vêm do Oriente e caminham para a luz. Estão orientados. Oriente significa onde nasce o sol, a luz. A desorientação é a perda do sentido, do caminho, é viver na escuridão. A verdadeira luz está mais presente na gruta despojada que nos palácios e templos de Jerusalém. 

Epifania, portanto, é abrir caminhos; Epifania é buscar e caminhar para a luz.

Mateus termina seu relato notando que, uma vez que os magos se encontraram com o Menino Jesus, “regressaram por outro caminho”. E não mudam de caminho para evitar Herodes, mas porque encontraram o Caminho: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”.

Deus, a Luz, não está presente nos caminhos e pretensões de Herodes (e existem muitos Herodes e faraós soltos pela história), mas naquele que é frágil e está deitado em um presépio.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, como os Magos, levanto e volto à casa por outro caminho!

Quem se encontra com Jesus voltará à sua casa, ao seu trabalho, às suas ocupações, mas já não será o mesmo. Voltará de outra maneira, por outro caminho, com um coração dilatado e um espírito renovado. Quem se encontra com a Criança de Belém, dá-se conta de que os caminhos de Herodes, do poder, do prestígio, da riqueza, são caminhos que levam à morte. E Epifania é o caminho da vida, da acolhida e do encontro.

O itinerário espiritual, portanto, pode ser descrito como uma viagem da cabeça ao coração; é uma viagem longa, difícil, mas apaixonante.

Por diferentes motivos, também hoje vivo uma grande mobilidade; preciso ser esperta em me mover entre o diferente, o que me confunde o mistério, o que me questiona... 

Sempre caminhando. Esta é a atitude daquele que segue um Deus sempre maior, sempre surpreendente, que está sempre mais além de onde estou. Então, seguir, sempre adiante... mas fazer isso junto com as pessoas, sem deixar ninguém fora!

Este e o dinamismo que deve perpassar minha vida: da instalação ao crescimento, da acomodação ao deslocamento contínuo. Partir da realidade de que a tendência natural é amparar nas “zonas de conforto”; elas me dão mais segurança; é mais cômodo; requer menos energias. 

A inércia leva a viver o ordinário, o repetitivo; custa-me admitir e saborear o excepcional, o extraordinário; muitas vezes me movo em meio a certo ceticismo vital, sem paixão pela vida e pela missão. Mas o caminho da fé me leva de assombro em assombro, de graça em graça, de alegria em alegria.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esse “outro caminho” é o caminho que devo direcionar para Deus minha vida.

Conservar-se em movimento interior, sempre; nada de roteiros rígidos que sufocam o Espírito, matam a criatividade, prendem à rotina e empobrecem o dinamismo de uma vida em transformação.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do meu corpo, e esquecer os caminhos, que me levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousar fazê-la terei ficado, para sempre, à margem de mim mesma” (Fernando Pessoa).



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 



Sugestão: 
Música: Entrega teu caminho ao Senhor – fx 05
Autor: Adilson Freire
Interprete: Juliana de Paula
CD: Obra de arte
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:41