quarta-feira, 17 de julho de 2019

Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de JULHO de 2019.


Leitura Orante – 16º DOMINGO TEMPO COMUM, 21 de JULHO de 2019.

TRABALHO CONTEMPLATIVO

“Maria, que,  sentada aos pés do Senhor, ouvia sua  palavra” (Lc 10,39)


Texto Bíblico: Lucas 10,38-42


1 – O que diz o texto?
Neste domingo, a liturgia nos desloca até Betânia, a viver Betânia, a ser Betânia, lugar de acolhida e hospitalidade; ali somos convidados a entrar em casa de Marta e Maria, junto com Jesus, para deixar-nos impactar por tudo o que acontece nesse ambiente tão familiar e humano.  

Betania, “casa do pão”, simboliza um lugar de nutrientes, de alimento em sentido amplo: afeto, distensão, sensibilidade, cuidados, atenção, presença e ternura.

Para Jesus, Betânia é um lugar de intimidade e de descobertas; busca acolhida na casa das duas irmãs, nesse anseio tão humano de companhia, hospitalidade e contato. É frente às suas amigas de Betânia que Jesus deixa transparecer, de um modo mais explícito, a dimensão feminina de sua vida.

Quando Jesus passa e se permite o encontro, as pessoas são transformadas. Ao hospedar-se na casa de Marta e Maria surge a novidade: uma mulher senta-se aos pés do mestre em horário dos trabalhos domésticos. As palavras de Jesus embelezam o coração mediante os ouvidos atentos de Maria. Ela bebe do poço profundo do “novo” ensinamento. A Jesus também não lhe interessa outra coisa que não seja formar mais uma discípula.

Se quisermos compreender mais profundamente o verdadeiro sentido do texto deste domingo, não devemos esquecer o contexto do evangelho de Lucas. Situado dentro da viagem a Jerusalém, este relato procura revelar o perfil daqueles(as) que querem seguir Jesus. Durante essa subida, Ele vai formando os(as) seus(suas) discípulos(as).

Lucas é o único que relata este episódio em Betânia e não é casualidade que, uma vez mais, se sinta interessado em destacar a importância das mulheres na vida pública de Jesus. 

Não tem nenhum sentido extrair deste relato uma distinção ou uma oposição entre a vida contemplativa e a vida ativa; tampouco deixa transparecer a pretendida superioridade de uma sobre outra.

Não é correto interpretar este evangelho como proclamação de dois tipos de cristãos: uns que se dedicam à vida ativa e outros à contemplativa.


2 – O que o texto diz para mim?
À luz deste relato, abre-se uma nova perspectiva para a mulher. Maria, é acolhida por Jesus como interlocutora privilegiada. Talvez seja o relato mais subversivo do evangelho. “Sentada aos pés de Jesus, escutava sua palavra”. Maria está ali como discípula. A parte essencial, que não lhe será tirada, é a marca dessa experiência aos pés de Jesus. 

Isto desloca toda uma concepção machista da época que não permitia às mulheres serem discípulas de um mestre. Mas, para Jesus, a mulher também precisa desenvolver sua interioridade, precisa ativar seus recursos internos para o seu enriquecimento como pessoa humana. Quando se elimina a gratuidade do encontro e da acolhida, a vida pode perder seu sabor e seu sentido.

Na atitude de Maria, Jesus convida todas as mulheres a desenvolver seus valores espirituais; Maria, por sua vez, oferece a ocasião para Jesus desvelar tudo isso.

Poderia dizer que esta imagem caseira do encontro amistoso entre Jesus e as irmãs revela uma atitude sensata na vida, de acordo com a tradição sapiencial: “Tudo tem seu momento, e cada coisa seu tempo” (Ecle 3,1). Jesus não censura Marta por trabalhar; o que Ele censura é a sua inquietação, a sua preocupação, o fato de andar agitada no seu “tarefismo”, “com um olhar atravessado” para sua irmã, a quem se queixa e clama uma intervenção de Jesus.

Jesus chamará Marta por duas vezes, como Moisés foi chamado por Deus diante da sarça ardente, porque o lugar que ela pisa, sua própria casa, é sagrado e há nela um fogo que não se consome. Ele a chama para que não se identifique com sua função, nem com seus afazeres, mas que vá progredindo em direção ao seu “eu profundo”, que saia da dinâmica das comparações e se atreva a ser “Marta completa”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O que Jesus censura em Marta é, sobretudo, o seu estrabismo. Dois olhos que olham, cada um para uma direção diferente. No entanto, “uma única coisa é necessária”. Com efeito, Marta tenta olhar, ao mesmo tempo, para Jesus e para a irmã; dessa forma, não consegue enxergar o único Bem-Amado. 

Compara-se com a irmã, está possuída pelo que os antigos chamavam o “demônio da comparação”.

Trata-se de uma tendência, presente em todos nós, de nos comparar, nos avaliar, viver incessantemente equiparando-nos aos outros. Esse “demônio” é sempre atual e acaba por envenenar múltiplas relações.

Quando comparo, passo ao largo do único necessário. A comparação faz com que eu não perceba “a única coisa necessária”. A “melhor parte” não é somente a contemplação, é não ver Jesus. A melhor parte é olhar em direção a Ele, é ter o desejo orientado para o Senhor.

E se meu desejo é orientado para o Senhor, eu posso ter momentos de contemplação e momentos de ação.  Não são momentos opostos. A não dualidade entre ação e contemplação, trabalho e repouso, encontra-se nessa unificação ou nesse despertar do olhar em direção ao Único.

A qualidade da ação e da contemplação depende da orientação do coração e da inteligência em direção Àquele que mantém unidas todas as coisas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a cena de Betânia me está dizendo: que eu sou, ao mesmo tempo, Marta e Maria. Sentindo-me, com frequência, ansiosa, angustiada, dispersa e tentada a fazer da eficácia minha principal preocupação. Mas, vivo também a experiência do sossego e da unificação, que me faz ordenar minhas prioridades e viver centrada no essencial. E, uma vez mais, sou convidada a saborear a Palavra que, no mais profundo de mim mesma, se converte em uma fonte de assombro e de prazer e me reenvia a um serviço mais generoso e mais livre.

Marta representa um lado meu que calcula, que mede e que compara. É preciso reencontrar Marta em união com Maria. Não é nada fácil manter o equilíbrio, integrando-as. Marta e Maria são como os dois olhos de um olhar, ou as duas faces do mesmo rosto. Os dois olhando em direção ao Único. Significa unir em mim, Marta e Maria, a contemplação e a ação, o silêncio e a palavra.

A “melhor parte” está por todo lado: é o Senhor que deve ser acolhido em minha ação e em minha contemplação, no trabalho e no descanso.

Ser humano é ser capaz de ação e ser capaz de contemplação. Mas o único necessário nesta ação ou nesta contemplação, no trabalho ou no repouso, é amar o Senhor.

Em cada momento devo buscar alcançar meu “eu profundo” – exatamente onde jorra a vida – e formar uma só coisa com essa Vida que atua incessantemente no meu interior. Estar centrada na Fonte: eis a melhor parte.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Entrar em minha “Betânia interior”: verificar se ela é lugar de integração, unidade e pacificação. 

“Betânia interior” se projeta na “Betânia exterior”: pedir a Deus a graça de poder transformar a minha casa em nova Betânia: casa da acolhida, da amizade, da partilha solidária, da convivência sadia...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Ele está em você – fx 09
Autor: Padre Ezequiel Dal Pozzo
Intérprete: Padre Ezequiel Dal Pozzo
CD: Quando encontrei – Padre Ezequiel Dal Pozzo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:28



segunda-feira, 8 de julho de 2019

Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de JULHO de 2019


Leitura Orante – 15º DOMINGO TEMPO COMUM, 14 de JULHO de 2019.

SOLIDARIEDADE: o amor como êxodo solidário

“Na tua opinião, 
qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes” (Lc 10,36)


Texto Bíblico: Lucas 10,25-37


1 – O que diz o texto?
Em todo ser humano sempre há reservas e redutos de bondade e compaixão, adormecidas muitas vezes, mas que podem ser ativadas diante do sofrimento dos outros. Nas pessoas sofredoras, nos crucificados da história, nos excluídos da dignidade, há algo que atrai e convoca, que nos inquieta, que nos pode fazer sair de nós mesmos; aí está a origem da solidariedade. Junto ao sentimento ético de fazer algo, aparece o mais profundo e decisivo: o sentimento de proximidade com as vítimas deste mundo.

A parábola do Bom Samaritano é uma parábola sem palavras e com muita vida: há silêncios que dão significado aos gestos oferecidos ou negados, à decisão de acudir ou fechar os olhos frente ao homem ferido. Os gestos falam da força do amor que vai mais além de todos os credos e culturas, transformando o outro estranho em próximo.

No evangelho deste domingo, diante da pergunta do especialista em leis - “quem é o meu próximo?” -, Jesus responde, invertendo e reformulando a pergunta: “quem se torna próximo?”.

Contudo, dentro da pergunta do “quem se torna próximo?”, Jesus responde à pergunta de “quem é o meu próximo?”: uma pessoa “qualquer”, sem nome, que passa ao nosso lado e que, independentemente de qualquer ligação de afinidade ou de pertença, cai em desgraça e clama por auxílio.

A “proximidade” se define pela “travessia” em direção à margem do sofrimento e da exclusão.


2 – O que o texto diz para mim?
Todo ser humano, dotado de “valor” e de “riquezas pessoais”, é também, em sua essência, um ser fraco e necessitado que, como criança recém-nascida, é carente de proteção e ternura.

O infeliz da parábola lucana é o paradigma do ser humano que, em sua realidade constitutiva e mais profunda, é ser de necessidade que grita e espera auxílio. Ele é o representante da alteridade nua e radical, onde o outro se ergue diante do eu não mais como “corpo em forma” mas “ferido” que, em sua carência, questiona o meu eu, impelindo-me para o êxodo da responsabilidade.

A parábola do samaritano revela um sentido ainda mais profundo: do silêncio do corpo daquele infeliz  de quem não se sabe o nome, não se vê o seu rosto e nem sequer se diz que pediu ajuda - levanta-se uma “voz” que, em sua dramaticidade, interrompe o caminho dos passantes e os convoca à responsabilidade urgente; responder positivamente àquele grito, assumindo-o na compaixão, ou então se negar a isso, permanecendo agarrado ao próprio eu – eis a questão.

O sacerdote e o levita viram bem e entenderam o que tinha acontecido, através de um olhar de banda, carregado de suspeita, receio e desconfiança. Seguramente se perguntaram: “Que pode acontecer comigo se me aproximo dele e o ajudo?” Seu comportamento teria sido certamente diferente se se perguntassem: “Quê pode acontecer a este homem, se me aproximo dele e o ajudo?”

O pecado deles é o da omissão: não fazem nada, nem mau nem bom. São piedosos, mas insensíveis; praticam o culto e a liturgia, mas não adoram a Deus em espírito e verdade; enganam-se pensando que se chega a Deus pelo caminho vertical, e não por um caminho estreito e horizontal por onde se encontram as pessoas mais vulneráveis e necessitadas; amam a Deus só de palavras e de boca, e não com obras e segundo a verdade; não se dão conta que só no amor ao próximo é que se revela o amor a Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Viram” o ferido, porém, não se deixaram afetar. O amor a Deus foi incapaz de se expressar como amor ao próximo. Julgavam-se estar muito unidos a Deus mas, na verdade, estavam muito distantes do irmão sofredor. A desconectou-se da ética.

Além disso, o “legalismo” falou mais forte que a lei da vida no coração dos dois responsáveis pela religião. Invocando a lei da pureza ritual (proibia o contato com cadáveres), sentiram-se dispensados de acudir o outro necessitado. A obediência ritual superou o apelo moral.

Mais contrastante foi a atitude do samaritano: “chegou perto, viu e sentiu compaixão”.

É a dinâmica da misericórdia! Tudo começa com o “aproximar-se”. É impossível ser afetado pelo outro sem proximidade. Enquanto o sacerdote e o levita se desviaram do homem caído no chão, o samaritano “achegou-se”. A proximidade física permitiu-o “vê-lo” de fato.

O “ver” do samaritano vem depois de chegar junto ao ferido; aproximar-se é o primeiro passo; se alguém não se aproxima não pode ver, e a originalidade e qualidade desta visão é o despertador da própria consciência e é aquela que dá passagem à ação solidária. O samaritano também conhecia as leis sobre a impureza legal, mas optou pelo mandamento do amor.

Portanto, o “ver” do sacerdote e do levita foram qualitativamente distintos do “ver” do samaritano.

A qualidade deste olhar provém da “compaixão”.

A experiência cristã se constitui como uma “mística de olhos abertos” (J.B. Metz), que, tal como um colírio, dilata as pupilas dos olhos para captar o horror tremendo do inferno da pobreza e da exclusão.

A espiritualidade cristã me ajuda a transitar pelos cenários humanos com os olhos abertos, e me oferece uma nova fonte de conhecimento que brota da indignação diante de tanto sofrimento inocente e injusto que me fere.

Olhar-me com os olhos do outro que me visita supõe uma autêntica revolução interior. O olhar do outro me arranca do “ensimesmamento” que me cega e desmascara a enfermidade raiz de minha cultura atual:  a indiferença e a cínica apatia diante da dor dos pobres e marginalizados.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é aqui que a parábola do samaritano desvela seu significado último e perturbador: o “outro” é o lugar originário no qual Deus me fala e me encontra, convocando-me para a responsabilidade e solidariedade.

Por ser presença de uma linguagem, o corpo é o outro em seu ser de necessidade, a alteridade em sua dignidade que me desperta de meu isolamento e dos meus projetos intimistas.

“Onde está Deus?” Não está entre os conhecedores de Sua identidade, não está nas instituições que o representam, mas está lá, onde ninguém o espera: quem não é “nada” O hospeda e O aponta.

Jesus deslocou Deus, transferindo seu habitat do templo para o corpo daquele que está à “beira da estrada”. O excluído é doravante, a revelação da Sua presença.

O motivo pelo qual o lugar de onde Deus fala é o excluído da vida é porque é desse lugar que Ele convoca o eu para “fazer estrada”, viver o êxodo permanente, gerando-me continuamente para a responsabilidade como pura gratuidade e generosidade. Libertando-me do auto-aprisionamento, o eu tem acesso a uma nova proximidade carregada de compaixão. 

O “próximo” é todo homem e toda mulher através de quem o amor de Deus encontra o meu “eu”, chamando-me para sair de sua terra e caminhar em direção ao outro. É o rosto que derruba o “eu” de seu pedestal e de seus preconceitos e o convoca à bondade, à santidade, à compaixão e à generosidade. Importa “re-inventar” com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida...; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclusão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Alguns sociólogos têm estudado um fenômeno pós-moderno, a “invisibilida-de urbana”. 

Hoje nos acostumamos com a miséria, com a violência, com o sofrimento e exclusão... e essas realidades não nos chocam. É como se não víssemos. “Caímos na globalização da indiferença. Nós nos habituamos ao sofrimento do outro” (Papa Francisco).

Considerar a “invisibilidade” das pessoas nas estradas da vida...

Considerar a gratuidade do samaritano: “ele viu, sentiu compaixão e cuidou do ferido”. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,25-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Samaritano – fx 02
Autor: Versão popular e melodia de Reginaldo Veloso
Intérprete: Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfuri
CD: O fascínio das parábolas  do Reino
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 07:30



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Leitura Orante – 14º Domingo do Tempo Comum, 07 de JULHO de 2019.


Leitura Orante – 14º Domingo do Tempo Comum, 07 de JULHO de 2019.

ESTAR NO MUNDO À MANEIRA DE JESUS

“...e os enviou à sua frente, dois a dois, 
a todo povoado e lugar para onde ele pretendia ir.” (Lc 10,1)


Texto Bíblico: Lucas 10,1-12.17-20


1 – O que diz o texto?
Ainda carregamos resquícios de uma falsa visão da santidade como afastamento do mundo e de seus perigos e buscar refúgio no deserto, nas montanhas ou nos conventos. Os(a) santo(a) não se afasta do mundo para encontrar a Deus; ele(ela) faz a “experiência” do Deus agindo no mundo.

Aí O encontra e caminha com Ele; o(a) santo(a) é aquele(a) que faz o que Deus faz neste mundo, aquele que faz com que este mundo seja justo, santo, salvo. O mundo não é só o “habitat” da sua missão: é sobretudo a fonte da sua espiritualidade, o lugar certo para encontrar a Deus e escutar o Seu chamado. 

Pondo-nos na escola do Evangelho, é aqui, neste mundo, que Jesus nos chama a estender o Reinado do Pai, trabalhando cada dia como amigos seus que passam, observa, curam, se compadecem, ajudam, transformam, multiplicam os esforços humanos.

Apaixonados pelo Reino nos apaixonamos pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, simplicidade, profundidade, fragilidade, sabedoria... nos fala com novos traços do Deus que buscamos com desvelo. E amando e investigando tudo o que é do mundo, adoramos o Deus Santo que habita em tudo. 

O(a) santo(a) seguidor(a) de Jesus é aquele(a) que, na liberdade, afirma: “Fora do mundo não há salvação”. Ele(ela) descobre na realidade do mundo e da história os “sinais dos tempos” e entra em comunhão com tudo, porque tudo é “diafania” de Deus. Enraíza sua convicção nesta visão, nesta mística da presença de Deus em sua obra, na contemplação de um mundo chamado a reconverter-se em justo e belo, verdadeiro e pacífico, unido e reconciliado, entranhado em Deus, como no primeiro dia da Criação.

A vocação à santidade ativa em nós a paixão pelo Reino, mobilizando-nos a levar adiante a missão, a ir aos lugares do mundo onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.

Como seguidores(as) de Jesus, movidos(as) por um olhar novo, entramos em comunhão com a realidade tal como ela é. Trata-se de olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, compassivo e por isso gerador de misericórdia; olhar que compromete solidariamente.

O(a) discípulo(a) missionário(a) não é aquele(a) que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador.


2 – O que o texto diz para mim?
Para realizar esta nobre missão não pode permanecer sentada. Seguir Jesus exige de mim uma dinâmica continuada, um colocar-me a caminho em direção às margens. Não posso viver o chamado do “Rei Eterno” a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade, o despojamento e a mobilidade são exigências básicas.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; posso construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Todos podem terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitadas, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver a santidade no mundo de hoje me move a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a minha própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar minhas próprias absolutas e me deixar impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouço penetra na minha própria vida; isso significa me implicar afetivamente, me relacionar com pessoas, não com etiquetas. Acolher na minha própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração.

O encontro com o diferente possibilita também o encontro consigo mesma, ou seja, encontrar a própria verdade. Isso implica em se perguntar pela própria identidade, por aquilo que dá sentido à própria vida, o impulso por viver de uma maneira cristificada, conforme os valores do Reino.

Para que haja verdadeiro encontro com o outro, o deslocamento expõe quem se desloca, deixa-o vulnerável e “contaminado” pela realidade que encontrou. Quando alguém se desloca e se aproxima de realidades diferentes, é para encontrar, encontrar-se e aprender.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, como discípula missionária de Jesus, meu desafio não é fugir da realidade, mas aproximar dela com todos os meus sentidos bem abertos para olhar e contemplar, escutar e acolher, percebendo no mais profundo dela a presença ativa do Deus que me ama com criatividade infinita, para encontrar-me com Ele e trabalhar juntos por seu Reino. O mundo precisa de místicos(as) santos(as) que descubram onde está Deus criando algo novo, para proclamar esta boa notícia. 

Eu cristã honro a santidade universal sem fronteiras de raça, de credo, de cultura...

Santidade é dizer sim à vida; é um caminho a ser percorrido “de dois em dois”.

Por que esta insistência em fazer o caminho ao menos junto a outro(a)? Do envio dos discípulos e discípulas de dois em dois, posso tirar duas consequências: uma para os momentos de fragilidade, de cansaço e de desânimo; a outra para quando me sobrevém inesperadamente a luz, a alegria...

Preciso fazer o caminho em companhia para poder estender a mão quando caímos, para aprender a sustentar mutuamente... E, também de “dois em dois” para ter alguém ao meu lado com quem poder brindar, porque é uma ação que não é possível realizá-la sozinha. Celebrar, agradecer, brindar a vida... para isso, quanto mais companheiros e companheiras de estrada, melhor. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida estreita para entrar no amplo espaço de vida proposto por Jesus.Diante de Jesus, que “passa e chama” assumir  essa  vida que vivo  hoje, na missão, no trabalho, no meu ambiente, na minha comunidade.

Dar mais sentido à minha própria vida.

Gastar minhas forças, capacidades na missão.

Viver, no meu cotidiano, minha vocação de discípula missionária.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 10,1-12.17-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O tesouro – fx 03
Autor: Benedikit
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de Ti – Antonio Cardoso
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07

terça-feira, 25 de junho de 2019

Leitura Orante – PEDRO e PAULO, 30 de JUNHO de 2019.


Leitura Orante – PEDRO e PAULO, 30 de JUNHO de 2019.

PEDRO E PAULO: diferenças que se encontram

“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?” (Mt 16,13)


Texto Bíblico: Mateus 16,13-19


1 – O que diz o texto?
A Igreja, ao unir numa só celebração, duas figuras humanas tão diferentes - Pedro e Paulo - nos indica o quê pretende com esta festa: manifestar a obra comum que Deus realizou através deles. Com certeza, a liturgia descobriu a complementariedade desses dois homens; são um claro exemplo de que personalidades tão diferentes se revelaram autênticos seguidores de Jesus. 

Foram completamente diferentes na formação pessoal: Pedro era simplesmente um pescador, sem nenhuma preparação, mas teimoso e sincero. Paulo era um intelectual. Havia passado pela escola rabínica, onde se envolveu no estudo profundo da Lei. Um com sua simplicidade e espontaneidade e o outro com sua agudeza intelectual, constroem a única Igreja. Tanto em Cesaréia de Filipe (Pedro), como no caminho de Damasco (Paulo), Jesus desvela a originalidade e a diferença de cada um deles (rocha), sobre as quais vai fundamentar sua nova comunidade. Nada do que é humano foi anulado, mas integrado no horizonte do seguimento. 

Cada um deles seguiu Jesus à sua maneira por isso, Pedro e Paulo foram considerados como as colunas da Igreja. Eles são como duas referências permanentes para a comunidade dos(as) seguidores(as) de Jesus; são exemplo de fé cristã, no seguimento do Mestre de Nazaré. No final os dois rubricaram sua fidelidade entregando a própria vida como testemunhas de Jesus Cristo. 

A Igreja, corpo de seguidores(as) de Jesus Cristo, plural e diversa em seus membros, também é chamada à comunhão na diversidade. Somos conscientes de viver a difícil alteridade no interior da mesma Igreja.

A fé cristã em Deus, que é uno e trino, aparece como o primeiro fundamento para acolher a diferença. 

O modo original de ser e viver de Jesus também nos motiva a sair de nós mesmos para acolher o outro diferente como revelação de Deus, assumir a mudança e encontrar na Eucaristia, o sinal e a fonte da união.

A festa de hoje se apresenta como oportunidade privilegiada para aprofundar o sentido da “diferença” no interior da comunidade cristã e na convivência social. Estamos inseridos num contexto religioso e social carregado de muita intolerância e indiferença, onde prevalece o medo diante de quem é diferente.

 “A diferença é inerente à comunhão na Igreja. É um elemento da comunhão. A Igreja não é nem eliminação nem soma das ‘diferenças’, mas comunhão nas mesmas” (J.M Tillard).

Assim, ser cristão significa ser aberto, acolhedor da diferença, sensível à diversidade.

Afinal, somos humanos, seres em caminho, buscadores de sentido, buscadores da verdade e habitados pelo mesmo Deus, que atua em tudo e em todos.

O princípio de alteridade está fundado no princípio de identidade: podemos nos compreender apesar de sermos diferentes, porque todos somos seres criados e agraciados por Deus, chamados a ser habitados por uma verdade que está para além de uma ideia ou doutrina.

Esta é a vocação fundamental de todo ser humano: alimentar uma relação mútua em cada encontro. Todos trazemos dentro de nós ricas possibilidades que só podem ser colocadas em movimento quando alguém se encontra conosco e nos chama à vida, numa verdadeira relação. Somos relação, e nos fazemos ou desfazemos na relação.  

Não há um “eu sem um tu” que nos complementa com a comunhão, que nos une na diferença; esse movimento desvela nossa própria originalidade, abrindo-nos ao desconhecido e à riqueza do outro. Tanto a comunhão como a diferença são espaços de crescimento mútuo.

A diversidade nos permite enriquecer-nos, adquirir mais humanismo. Diferença é expressão inerente ao ser humano, é modo de pensar, de dizer, de trabalhar, de existir e de conviver. A humanidade diferenciada torna-se mais dinâmica; o tesouro está precisamente em sua diversidade criadora. A humanidade é profundamente diversificada em seus talentos, valores originais e em sua vitalidade. 

Daí a importância de aprender a ver o melhor de cada pessoa e de cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas de todo tipo de racismo, xenofobia, desprezo, preconceito, dominação...


2 – O que o texto diz para mim?
Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade.

Cresce hoje a consciência sobre a diferença do ser humano como atração, e não como rejeição. A humanidade pós-moderna exige a diversidade de convivência sócio-cultural. Não posso permanecer trancada em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. A humanidade deixou de ser distante para tornar-se mais próxima, mediante as diferenças, os diálogos e as convergências. O mundo globalizado não pode ser apenas econômico. É chamado também a respeitar e a cultivar as diferenças entre as pessoas, as raças, as sociedades e as nações. 

A diversidade racial, cultural, religiosa... supera a monotonia e oferece a criatividade de muitas formas. A harmonia fecunda entre as pessoas está na diversidade das diferenças, não na repetição mecânica. 

O conformismo repete cópias, mas não facilita a união autêntica. Sem as diferenças entre pessoas, a sociedade seria apenas um marasmo. Por isso, as diferenças pluralistas são valores, não anomalias. Além disso, são sedutoras, não amedrontadoras. A diferença pessoal mantém certo fascínio.

A diversidade é uma forma de aproximação entre os seres humanos. E deve ser vista como estimulo, não como estorvo. A diferença do “outro” deve ser motivo para o encontro e para o enriquecimento mútuo. 

Segundo o pensador E. Levinas é a diferença que gera alteridade. O outro é diversificado e não repetitivo. A visão da diferença mostra que cada ser pessoal é original. Massificar as pessoas é uma forma de silenciá-las e dominá-las.

Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é próprio e também o que é diferente, me esforçando para não transformar as diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diferença não dispersa nem divide, mas provoca convergência crítica. Promove a unidade lúcida e criativa.

Por isso é valor a ser preservado e a ser desenvolvido, é potencial a ser explicitado.

A questão da «diferença cristã» não toca apenas à relação entre o cristianismo e o espaço não-cristão. O problema situa-se no interior mesmo do cristianismo. Viver como «comunidade» implica saber conjugar a diversidade na unidade. Assim, o cristianismo revela uma multiplicidade de textos, de ritos, de movimentos, de escolas de espiritualidade, de perspectivas teológicas; mas também de funções e vocações no interior da comunidade. A fidelidade, no cristianismo, passa por uma capacidade de integrar a diversidade.

Sou Igreja, Casa e Povo de Deus, que vive a acolhida positiva e respeitosa da diversidade de pessoas, carismas, ministérios, funções e expressões da fé. O reconhecimento desse pluralismo no interior da comunidade me instiga a viver uma eclesiologia da comunhão.

Isso me move a fazer a contínua passagem de uma Igreja que discrimina os que pensam diferentes, os diversos, os outros... a uma Igreja que respeita os que seguem sua própria consciência, as outras religiões, os ateus, as minorias excluídas...; uma Igreja de portas abertas, atenta aos novos sinais dos tempos, que abra caminhos novos em meio às diferenças, que saia às margens sociais e existenciais...; uma Igreja jovem e alegre, fermento na sociedade, com a alegria e a liberdade do Espírito, com luz e transparência...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu deveria pensar mais sobre a importância das diferenças entre os seres humanos.  

Eu deveria admirar as diferenças pessoais e grupais, e não lamentá-las. É necessário evitar tudo o que deforma as diferenças e desenvolver a verdadeira coexistência pessoal, social, científica, religiosa, ética. 

Eu deveria remover abusos e vícios que anulam a diferenças. Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa.

Valorizar o diferente e os diferentes implica tratar com cortesia, saber interagir, trabalhar juntos, respeitar...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Deus me criou “diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao meu encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. 

Deixar-me surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas.

Perceber o que prevalece em mim diante de quem pensa, sente e ama de maneira “diferente”. Intolerância, sectarismo, preconceito, mixo-fobia (medo de se misturar), xenofobia (medo do estrangeiro); ou acolhida, proximidade, convivência...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 16,13-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 0pção 01
Música: São Pedro – Fx 04
Autor: Pe. Geraldo C. da Silva e pe. Joãzinho, scj
Intérprete: Toninho e Jonas
CD: Santos do Povo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:46


Sugestão: 0pção 02
Música: São Paulo – Fx 06
Autor: Pe. Geraldo C. da Silva
Intérprete: Silvio Brito
CD: Santos do Povo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:20


quinta-feira, 20 de junho de 2019

Leitura Orante – 12º Domingo do Tempo Comum, 23 de JUNHO de 2019.


Leitura Orante – 12º Domingo do Tempo Comum, 23 de JUNHO de 2019.

“PESOS MORTOS” QUE TRAVAM O SEGUIMENTO

“Quem quiser vir após mim negue-se a si mesmo...” (Lc 9,23)


Texto Bíblico: Lucas 9,18-24


1 – O que diz o texto?
Depois do longo e intenso percurso pascal, retomamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum”, seguindo o evangelista Lucas (Ano C).

A cena do evangelho deste domingo é muito conhecida, pois ela é relatada nos três evangelhos sinóticos, embora com grandes diferenças. Os discípulos já levam um bom tempo acompanhando Jesus. Por que o seguem? Jesus quer saber qual é a motivação presente no interior de cada um deles. Por isso, dirige uma pergunta ao grupo: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 

Esta é a pergunta que também deve ter ressonância em nosso interior; afinal, dizemos ser seguidores e seguidoras de Jesus. Seguimos, de fato, uma pessoa ou seguimos uma doutrina, uma religião, uma moral...? Não é suficiente repetir fórmulas aprendidas na catequese. Aqui se trata de expressar uma identificação profunda com a vida e com o modo de ser do Profeta da Galileia. Por que o seguimos? Não basta afirmar que Ele é o “Messias de Deus”; é preciso dar passos no caminho aberto por Ele, acender também hoje o fogo que Ele quis espalhar no mundo. Como podemos falar tanto dele sem sentir sua sede de justiça, seu desejo de solidariedade, sua vontade de paz?

Na experiência humana ressoa, desde sempre, a marca ou o chamado a transcender-se, a ir além de si mesmo. O seguimento de Jesus pressupõe a pessoa capaz de sair de si mesmo, de descentrar-se. Deixar ressoar a voz do chamado no próprio interior implica um investimento de toda a pessoa. O ouvido se abre, o olhar se aclara, a mente se expande, o coração compreende, o corpo se ergue e a vida se reinicia.

Vida aberta e sempre em movimento, pronta para acolher e viver as surpresas.

Estamos inseridos numa cultura onde as entregas são vividas pela metade, as opções são de fôlego curto e os projetos não tem consistência.

Vivemos a chamada “cultura líquida” onde tudo parece que nos escapa das mãos. Não há solidez nas decisões, pois elas são apressadas e superficiais, porque o horizonte está obscuro.

Jesus não impõe nenhuma condição, não quer gente que busque carreiras ilustres, riquezas, prestígio... Quer pessoas que sejam capazes de descentrar-se, de renunciar ao próprio ego, de desapegar-se daquilo que as atrofia e as limita para investir numa proposta de vida que dê direção e sentido à própria existência. Este é o lema de Jesus: “renunciar a si mesmo, tomar a cruz cada dia e segui-Lo”


2 – O que o texto diz para mim?
O que significa “renunciar a si mesmo”. Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que sou o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; nem sequer vê a tua vida a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-a a partir de tua verdadeira identidade, onde há uma unidade profunda, mas sem apego nem comparações”.

Não é a renúncia o que me salva, mas o desenvolvimento e a expansão da vida em direção à plenitude.

A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando faço por algo melhor. O apego a mim mesmo, às coisas ou às pessoas, me impede de mover com facilidade. Perco o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. 

Na vida cristã, o seguimento é questão de sedução, de paixão, de atração, de coração...; isso significa que Jesus Cristo é de fato o “amor primeiro”, aquele que antecede a qualquer outro, de maneira especial o amor a si mesmo. Daí nasce a harmonia interior. Quando o seguimento torna-se o eixo central, todos os elementos da vida, todas as afeições, todas as potencialidades do espírito, encontram-se em “seus lugares”, estabelecendo uma deliciosa experiência de paz. Os afetos “orientados” e “ordenados” à pessoa de Jesus cria um novo referencial, um novo centro afetivo. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Se quiser fazer caminho com Jesus precisa acolher suas condições e entendê-las como Ele as entende. “Renunciar a si mesmo” é descentrar-se, não ser já o centro de seu próprio projeto. É pôr a vida inteira a serviço do outro, neste caso o projeto de Jesus. A isto Jesus chama “perder a vida por sua causa”. E quem assim fizer, “ganhará”, salvará sua vida. A condição que Jesus propõe para segui-lo não pretende negar minha autonomia, mas orientar minhas energias e valores para a construção do Reino que Ele iniciou, renunciando, também Ele, a si mesmo, para cumprir em tudo a vontade do Pai.

Na medida em que me desprendo de todo apego, incluído o apego à vida, a favor dos outros, estarei amando de verdade e, portanto, crescendo como ser humano. Minha Vida com maiúscula se potenciará, e a vida com minúscula, adquirirá, então, todo seu sentido.

A resposta à pergunta de Jesus (“e vós, quem dizeis que eu sou?”) implica adesão à pessoa d’Ele e ao seu projeto, o Reino; significa fazer o caminho com Ele, colocar-se onde sempre se colocou, na margem, na periferia... Isso acarreta oposição, perseguição, cruz. 

Em quê consiste “carregar a Cruz?” É acaso suportar tudo sem reclamar como se toda contrariedade me é mandada pelo Deus mesmo? É submeter-se à dor pela dor, como se a dor fosse um valor em si mesmo?

Algo ou muito disto tenho entendido assim e não tem nada a ver com a condição que Jesus propõe para que eu siga seus passos. Ele quer dizer que todos devem estar dispostos a viver da mesma maneira que Ele viveu, embora sabendo que este estilo de vida pode acarretar a perseguição e talvez a morte. Tomar a Cruz significa prontidão, estar preparado, mobilizado...

Essa é a cruz de Jesus e também deve ser a minha. Não inventar cruzes sob medida, não colocar cruzes sobre mim mesma ou sobre os outros. Seguir os passos de Jesus, assumindo seu estilo de vida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Nesse sentido, a cruz de Jesus não é um “peso morto”; ela tem sentido porque é consequência de uma opção radical em favor do Reino. A Cruz não significa passividade e resignação; ela nasce de sua vida plena e transbordante; ela resume, concentra, radicaliza, condensa o significado de uma vida vivida na fidelidade ao Pai, que quer que todos possam viver intensamente. 

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora.

Aquele que acompanha Jesus vai também tomando consciência que a opção pela vida pode conduzi-lo à Cruz.

Mas não basta carregar a Cruz; a novidade cristã é carregá-la como Jesus. Essa é a nova maneira de carregar a Cruz que Jesus me ensina: transformá-la em sinal e fonte de amor e de entrega.

A palavra “cruz” – em grego “staurós” – vem do verbo “ficar em pé”. “Tomar sua Cruz” não é, portanto, suportar passivamente a própria vida, tornar-se escravo de um destino tirânico; significa prontidão, estado de vigilância... para passar de uma vida suportada para uma vida escolhida.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Quem é Jesus para mim?” 

Pergunta instigante que me ajuda a captar a originalidade de Sua vida, a escutar a novidade de Seu chamado, a me deixar atrair pelo Seu projeto, me contagiar por Sua liberdade, me empenhar por viver seu caminho.

Devo me colocar diante de Jesus, me deixar olhar diretamente por Ele e escutar, a partir do mais profundo de mim mesma, Sua pergunta: “Quem sou Eu realmente para você?”

A esta pergunta responde-se mais com a vida que com palavras sublimes.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 9,18-24
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Até aqui o Senhor nos conduziu – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ana Paula Ramalho e Edicleia Tonete
CD: Ouço tua voz – Grupo Chamas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09