quinta-feira, 16 de maio de 2019

Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019


Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019

NO PRINCIPIO ESTÁ O AMOR

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, 
se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35)


Texto Bíblico: João 13,31-35


1 – O que diz o texto?
A revelação bíblica afirma que Deus é o Criador e Senhor, que envolve a criação com seu Amor dinâmico e criativo. É um Deus ativo, providente, fonte de vida, que realiza obras admiráveis e santas. Em seu Amor Oblativo, Ele vem ao nosso encontro e nos introduz no movimento de sua própria Vida. Somos seres agraciados(as). Viemos de Deus e voltamos para Ele. “N’Ele vivemos, nos movemos e existimos”.

Aqui nos encontramos como que no centro do mistério único, que é o mistério do Deus Criador e Providente, do Deus que “dá a Vida”, que cuida do universo, do Deus de quem tudo procede e para quem tudo retorna; em síntese, trata-se do mistério do Amor em excesso de Deus.

Portanto, no princípio está o Amor e de suas entranhas tudo procede; cada criatura é uma irradiação de Deus, uma faísca da divindade, um transbordamento do amor de Deus. Tudo fala de Deus, tudo revela o seu Amor. Tudo está “amortizado”; o Amor se faz presença, se faz visível, se manifesta em cada detalhe da criação. No Amor tudo entra em movimento expansivo e aberto.

Jesus, em sua vida, sempre deixou transparecer esse Amor do Pai. O amor de Jesus, extenso e profundo como o oceano, nunca teve fronteiras: envolveu a todos, acolheu a todos sem preconceito de raça, cultura, sexo e religião. O mandamento do amor, mais que um mandato é, antes de tudo, um dom e uma revelação de Jesus a seus discípulos.

O evangelho de hoje também faz parte do discurso de Jesus no evangelho de João, o último e mais extenso, depois do lava-pés. É um discurso que abarca cinco capítulos, e é uma verdadeira catequese à comunidade, resumindo os mais originais ensinamentos de Jesus.


2 – O que o texto diz para mim?
Estou vivendo o tempo Pascal e, com a ressurreição, o amor rompido renasce; com a ressurreição, o amor autocentrado me faz sair de mim mesma; com a ressurreição, os olhares desconfiados se tornam acolhedores; com a ressurreição posso aprender a viver a partir de Deus; com a ressurreição o amor oblativo é capaz de mover minha vida.

Só quem assume a Vida de Deus como sua, será capaz de expandi-la em sua relação com os outros. A manifestação dessa Vida é o amor efetivo a todos os seres humanos.

O distintivo do cristão é o amor fraterno. E o amor é discreto, humilde, conhecedor de sua insuficiência, não é arrogante, não se derrama em palavras, não faz alarde, não vai se proclamando pelas praças, prefere o silêncio, passa desapercebido, prefere as obras às palavras (“o amor deve-se por mais em obras que em palavras” – Santo Inácio).

É o Amor meu distintivo como seguidora de Jesus? O sinal pelo qual os outros reconhecerão que sou discípula é a capacidade de amar uns aos outros. Tenho  insistindo demasiado no acidental: no cumprimento de normas, na crença de algumas verdades e na celebração de alguns ritos. E esvazio o essencial que é o Amor. O Reino não se espalha por meio de armas, nem com a propaganda e nem com marketing algum; o Reino se espalha pelo contágio, porque o “Amor é contagioso”.

Porque fracasso estrepitosamente naquilo que é a essência do Evangelho? Porque digo seguir Aquele que é a visibilização do Amor do Pai e o meu estilo de vida destila doses mortais de indiferença, preconceito, intolerância, julgamento...? Vivo tempos de ira e de ódio, expressões de um fundamentalismo e de um fanatismo que esvaziam toda possibilidade da vivência do amor oblativo. Estou me acostumando a ver o ódio e a vingança como um espetáculo a mais. As mediações digitais e as manipulações ideológicas não me deixa perceber as verdadeiras consequências do ódio sobre as pessoas.

É preciso resgatar a sacralidade do amor; afinal, ele é o motor de uma vida intensa. O amor ágape se expressa justamente como impulso para o diferente, abertura a quem pensa, sente e ama de maneira diferente.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O mandamento do amor continua sendo tão “novo” que está ainda por ser vivido em sua plenitude. Não se trata só de algo muito importante; trata-se do essencial. Sem amor, não há vida cristã. Nietzsche chegou a dizer: “só houve um cristão, e esse morreu na cruz”; precisamente porque ninguém foi capaz de amar como Ele amou.

Essa é, com certeza, minha raiz e minha essência, minha mais profunda força que, às vezes me rompe por dentro, outras vezes me faz subir ao céu. Posso amar e ser amada. Vivo desejando encontro, carinho, palavra de compreensão e reconhecimento. 

Digo de Deus, de quem sou imagem, que é amor. E quando olho ao redor e vejo os outros, sonho viver a partir da cordialidade de braços que se estreitam, olhos que se compreendem ou mãos que se enlaçam.

O amor tem muitos nomes, muitos rostos, muitas formas e expressões. Tem inumeráveis histórias. É amizade, fé, paixão, enamoramento; é fraterno, filial, paterno/materno; é compaixão pelas vidas feridas ou inspiração por viver intensamente. É encontro, quietude ou tormenta. É aceitação incondicional e, ao mesmo tempo, fé nas possibilidades do outro. Amor é saber compartilhar; e também saber pedir ajuda àqueles a quem confio. É desfrutar da presença e encurtar as distâncias. É celebrar juntas a vida e chorar juntos os golpes. Às vezes é sede, e outras vezes é manancial que sacia os desejos. É sinal que estou viva, e há ocasiões em que a vida é canto, e outras em que é luto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Um mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. O “como eu vos amei” não é só comparativo, mas originante. Quer dizer: “que deveis amar-vos porque eu os amei, e tanto como eu os amei”. Jesus é o cume das possibilidades humanas. Amar é a única maneira de ser plenamente humano. Ele ativou até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama. 

Senhor, Jesus não propõe um princípio teórico, e depois pede que todos o cumpram. Ele começa por viver o amor e depois diz: “como eu vos amei”. Quem revela sua adesão a Jesus ficará capacitado para ser filho(a), para atuar como o Pai, para amar como Deus ama.

O amor que Jesus pede não é uma teoria, nem uma doutrina; manifesta-se na vida, em todos e em cada um dos aspectos da existência. A nova comunidade dos(as) seguidores(as) não se caracterizará por doutrinas, nem ritos, nem normas. O único distintivo deve ser o amor manifestado em suas ações. 

O amor não é um sonho, é o impulso básico das pessoas criadas livres; livres para doar-se livremente, livres para participar da infinita abundância de vida com que Deus me cumula. O amor é a vida mesma em seu estado de maturidade e plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Repassar minha história de amor. 

Que nomes são importantes em minha vida? 

De quê maneira eu ajudo o meu ambiente a estar “carregado de amor”? 

Em quê circunstância da vida eu me revelo como pessoa amável?

Quê passos eu dou para quebrar o círculo de ódio e violência, que mata o amor na raiz?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,31-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Até aqui o Senhor nos conduziu – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ana Paula Ramalho e Edicléia Tonete
CD: Grupo Chamas – ouço a tua voz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09

terça-feira, 7 de maio de 2019

Leitura Orante – 4º DOMINGO DE PÁSCOA – 12 de maio de 2019


Leitura Orante – 4º DOMINGO DE PÁSCOA – 12 de maio de 2019

UMA VOZ QUE MOVE

“Minhas ovelhas ouvem minha voz, 
eu as conheço e elas me seguem.” (Jo 10,27)


Texto Bíblico: João 10,27-30


1 – O que diz o texto?
Todo quarto domingo de Páscoa é dedicado ao tema do “Bom Pastor”; a liturgia não apresenta outros relatos de aparições, mas continuamos com mais um texto profundamente pascal. 

No relato deste domingo, a alegoria do Pastor fala de “escuta”, “conhecimento”, “seguimento” e “vida eterna”, que é a chave do tempo pascal; ao mesmo tempo, num aprofundamento progressivo, o texto remete ao Pai e culmina na Unidade, como Fonte de onde tudo procede e para onde tudo retorna. 

São estas realidades que nos permitem conectar com o sentido originário da imagem do Pastor, sem cair na literalidade pastor/ovelhas, paternalismo/cordeirinho, poder/submissão..., que acabam provocando uma justificada resistência e rejeição.

Jesus quer estabelecer com seus(suas) amigos(as) uma relação que seja o reflexo daquela que Ele mesmo tem para com o Pai: uma relação de pertença recíproca, na confiança plena, na íntima comunhão. 

Para expressar esta realidade profunda, esta relação de amizade, Jesus utiliza a imagem do pastor com suas ovelhas: ele as chama e elas reconhecem sua voz, respondem a seu chamado e o seguem. 

Esta parábola é muito instigante. O mistério da voz é sugestivo: desde o ventre de nossa mãe aprendemos a reconhecer sua voz e, quando nascemos, vamos reconhecendo outras vozes. Pelo tom de uma voz percebemos o amor ou o desprezo, o afeto ou a frieza, a acolhida ou a rejeição. 

A voz de Jesus é única! Se aprendermos a distingui-la de outras vozes, Ele nos guiará pelo caminho da vida, um caminho que supera também o abismo da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O contexto do relato deste domingo é o embate de Jesus com as autoridades religiosas judaicas. Depois de dizer que elas não são suas ovelhas, Jesus descreve com todo detalhe o que significa ser dos seus.

Destaca dois traços, os mais essenciais e imprescindíveis: “Minhas ovelhas escutam minha voz... e elas me seguem”. Não se trata só de ouvir a Jesus, mas de escutá-lo. 

Muitas vezes só ouço e aceito somente o que está de acordo com meus interesses. 

Escutá-lo significa me aproximar sem pré-juízos e acolher o que Ele me diz, mesmo que isso implique mudar minhas convicções; escutar é pôr toda minha atenção para tratar de compreender. 

“E elas me seguem”. Não basta escutar, é preciso me colocar em movimento e entrar na nova dinâmica da vida. Escutar tem ressonância interna e ativa todas as minhas potencialidades ali presentes.

A boa notícia de Jesus consiste em manifestar que há uma nova maneira de assumir a existência humana, uma maneira de viver que esteja mais de acordo com as exigências profundas do meu ser. Quando alguém é capaz de escutar esse chamado interior e de viver conforme ele, vive uma existência feliz. Vive de acordo com seu mais íntimo e esta adequação entre a vida exterior e a vida interior é a felicidade.

Em um mundo onde há tanto ruído, discursos ocos e palavreado intolerante, não é fácil prestar atenção a alguma voz em especial. O fato é que às vezes vivo em bolhas onde raramente entram vozes que me comove de verdade. E, no entanto, debaixo de gritos, ruídos, músicas estridentes, anúncios, peças publicitárias e frases que apelam ao conservadorismo, continuam brotando palavras cheias de verdade. Palavras que valem a pena escutá-las. Talvez, detrás de muitos gestos petrificados, palavras sem sentido, falsas seguranças, estarão vozes que clamam por ajuda, ou simplesmente expressam dor, desejo de paz, de consolo.

O verdadeiro desafio é aprender a escutar, por debaixo desses discursos, a palavra profunda, o canto tranquilo ou a voz que põe em movimento.

Saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida humana; trata-se de um ato de hospitalidade, pois consiste em abrir espaço para a presença do outro, sem preconceito. Porque quem escuta de verdade recebe toda palavra como nova e ativa a sensibilidade para deixar-se “tocar” pela voz que alarga a vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo mergulhada num mundo de vozes; um “vozerio” me cerca: vozes que me levam à morte, vozes que me chamam à vida; vozes contaminadas pelo egoísmo, adulteradas pelo medo, deturpadas pela impureza, e vozes que são o eco do paraíso convidando para a festa, comunicando paz, convocando à comunhão... É possível que as vozes do egoísmo, do orgulho e da ambição tentem se disfarçar em voz de Cristo, a fim de me arrastar para o vazio e a ruína. Mas o Pastor verdadeiro não fala por ruídos, e sim pelo silêncio; não fala pela força dos pulmões, e sim pelo vento suave de seu Espírito... 

Para escutá-la requer-se interioridade e atenção aos sinais de sua presença: pode ser a voz de um irmão pedindo socorro; pode ser a linguagem de um acontecimento alegre ou triste; pode ser uma palavra lida ou proclamada; pode ser uma inspiração misteriosa captada no silêncio... 

Na arte do discernimento das vozes, o importante é, através da escuta interior, perceber de onde vem e para onde me conduz cada voz que ressoa em mim. Se ela me conduz  para o outro, para o Reino...é clara manifestação da voz do Pastor.

Depois de mais vinte séculos, eu seguidora preciso recordar de novo que o essencial para ser a Igreja de Jesus é escutar sua voz e seguir seus passos.

Primeiramente, é preciso despertar a capacidade de escutar Jesus; ativar muito mais em minha comunidade essa sensibilidade, que está viva em muitos cristãos simples que sabem captar a Palavra que vem de Jesus em todo seu dinamismo e sintonizar com sua Boa Notícia de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, não basta escutar sua voz. É necessário seguir a Jesus. Chegou o momento de me decidir entre em me contentar com uma “religião burguesa” que tranquiliza as consciências, mas afoga minha alegria, ou aprender a viver a fé cristã como uma aventura apaixonante de seguir a Jesus.

Parece óbvio afirmar isso: sou seguidora de uma Pessoa (Jesus Cristo) e não seguidora de uma religião, de uma doutrina, de uma moral... Estas são mediações que deveriam me ajudar a crescer na identificação e vida d’Aquele é o Bom Pastor.

A aventura cristã consiste em crer naquilo que Ele acreditou dar importância àquilo que Ele deu defender a causa do ser humano como Ele a defendeu, me aproximar dos indefesos e desvalidos como Ele se fez presente, ser livre para fazer o bem como Ele, confiar no Pai como Ele confiou e enfrentar a vida e a morte com a esperança com que Ele enfrentou.

Se, aqueles que vivem perdidos, sozinhos e desorientados podem encontrar nas comunidades cristãs um lugar onde se aprendem a viver juntos e de uma  maneira mais digna, solidária e livre, seguindo a Jesus, a Igreja estará oferecendo ao mundo de hoje um de seus melhores serviços.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sou canal através do qual a Voz de Vida chega até os últimos... 

Colocar  a minha voz à disposição daqueles que mais precisam...

Distinguir as diferentes vozes que se fazem ouvir ao meu redor...

Purificar minha voz no fogo do silêncio...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 10,27-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Meu pastor – fx 10
Autor: Pe. Agnaldo José
Intérprete: Pe. Agnaldo José
CD: Pe. Agnaldo José – És o meu Senhor
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:47




quarta-feira, 1 de maio de 2019

Leitura Orante – 3º DOMINGO DE PÁSCOA – 05 de maio de 2019


Leitura Orante – 3º DOMINGO DE PÁSCOA – 05 de maio de 2019

RESSURREIÇÃO: 
experiência que nos tira de um fatal ‘ponto morto’

“...mas naquela noite nada apanharam” (Jo 21)


Texto Bíblico: João 21,1-19

1 – O que diz o texto?
Estamos desfrutando do tempo Pascal no qual tudo na vida dos cristãos (a liturgia, os símbolos, as leituras da Palavra de Deus, as flores, o branco litúrgico, e inclusive, em algumas partes do mundo, o tempo meteorológico) nos fala da vitória da vida. É, sem dúvida, um tempo precioso no qual ressoa a Aleluia da noite de Páscoa e se prolonga na liturgia, na vida e nos corações.

O Evangelho deste domingo nos conduz até à “praia pascal” da Galiléia. Depois dos terríveis capítulos anteriores (gritos, sangue, cruz, violência, tortura, morte...), os apóstolos se encontram de novo na Galiléia, numa paisagem quase idílica, dedicados outra vez à pesca, como se nada tivesse acontecido. O texto está cheio de simbolismos, de significados insinuados e de sugestões, mas basta recordar que tudo acontece no alvorecer, nessa hora tão charmosa na qual vemos ainda com dificuldade.

O encontro com o Ressuscitado nas praias da Galiléia nos motiva a buscar um novo sentido e uma nova inspiração para o cotidiano de nossas vidas. De fato, nem todos os dias são iluminados pelos êxitos; tampouco as noites. Há dias que anoitecem e há noites que amanhecem em meio a muitos fracassos. Nem todas as manhãs nossos pescadores chegam ao porto com suas barcas carregadas de peixes.

A vida tem seus êxitos e seus triunfos. Mas também suas derrotas e fracassos. É preciso saber acolher os triunfos sem que a fumaça do ego cubra nosso coração. E é preciso saber assumir a desilusão do fracasso, sem por isso sentir-nos derrotados. Os triunfos podem alimentar ilusões; os fracassos põem à prova nossa resistência e nossa constância.


2 – O que o texto diz para mim?
Os discípulos, naquela noite não tinham pescado nada, além do cansaço e do frio do lago. Mas não tinham perdido a esperança. A pesca tinha sido um fracasso e, a partir da margem, um estranho personagem lhes sugere que lançassem as redes do outro lado do barco, como se eles não soubessem onde deveriam lançá-las; surpreendentemente eles têm grande êxito na pescaria. Nesse momento, o discípulo amado diz a Pedro: “É o Senhor!” 

Adiantou-se a todos sem mover-se do lugar; olhou para frente sem soltar a ferramenta de trabalho; não gritou sua descoberta; simplesmente sussurrou, mas entre admiração e comoção: “É o Senhor!”

Voltou a sentir a água caindo sobre seus pés e o pulsar de um coração na noite do Serviço e do Amor; suas mãos não deixaram a rede de lado, mas seu olhar foi mais além: “É o Senhor!”

E, como sempre, Jesus se encanta com os encontros em torno ao fogo e à refeição. Ele se manifesta nas coisas simples da vida. Não foi preciso palavras. Um coro de silêncios interiores proclamava: “É o Senhor!”, enquanto se espalhava no ar um agradável odor a peixe recém-assado.

Posso considerar que a exclamação do discípulo amado -“É o Senhor”! - mostra o que significa ser contemplativo. O verdadeiro contemplativo pascal olha ao seu redor, à realidade mesma, à vida em sua contradição, com suas obscuridades e suas claridades, com suas grandezas e suas misérias, com seus êxitos e seus fracassos..., e descobre nela os sinais pequenos, frágeis, vulneráveis e, às vezes, aparentemente contraditórios da presença do Ressuscitado em sua vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Talvez seja este um dos desafios mais importantes da vida cristã neste meu mundo tão cheio de mensagens, de bombardeio de notícias, de imediatismo e rapidez, de encontros e desencontros. 

Eu, seguidora do Ressuscitado neste séc. XXI, do mundo digital, da pós-modernidade ou da arqui-pós-modernidade, da “cultura liquida” e dos “não lugares”, deste mundo complexo e fascinante no qual me toca viver e ao qual devo amar, posso ser essa humilde contemplativa que, em meio aos afazeres cotidianos, sussurra com emoção -“É o Senhor!”- e aponta para o Ressuscitado, presente nas penumbras da vida.

Essa é talvez a missão central da minha vida cristã hoje: captar com emoção a luz que abre passagem entre as folhas da densa floresta contemplá-la com gratuidade, indicá-la com humildade e anunciá-la com amor. E, mais ainda, devo me sentir chamada a deixar transparecer a luz da ressurreição na própria realidade interior, para poder ser presença iluminante no contexto tão obscuro no qual eu vivo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
É a vida inteira que deve ser iluminada pelo acontecimento pascal. Viver, para o cristão, é acolher sua vida, com suas luzes e sombras, à luz do Ressuscitado que, embora não o veja de maneira transparente, continua se fazendo presente nas praias da sua existência. 

Não há obscuridade que não possa ser iluminada; não há situações, por mais difíceis que sejam que não possam ser revertidas pela presença d’Aquele que está no meio de nós. 

Senhor, gasto energia em dissimular minhas falhas e fracassos quando, afinal, é pela sua aceitação que a porta poderá abrir-se para esse Outro que, por sua vez, me ama incondicionalmente. No segredo do coração posso pressentir que estes fracassos, estas dificuldades são, talvez, a minha maior sorte. Porque através deles me liberto de minhas ilusões sobre mim mesmo. Eles tendem a me deprimir, mas também podem ser uma ocasião para me fazer mais humana e humilde. Acolher o fracasso é retirar minhas couraças, me revelar aberta, tolerante e compassiva. 

Segundo um místico “felizmente Deus criou falhas em nós; caso contrário, não vejo por onde Ele poderia entrar em nossa vida!”.

Minha vivência da fé pascal também me revela que Deus tem mais facilidade de entrar na minha vida pela porta dos fracassos, das feridas, das crises... Aqui é onde me sinto mais desarmada, mais aberta e mais sensível à acolhida do Deus surpreendente que sempre vem ao meu encontro. Por outro lado, Deus encontra muito mais resistência de se fazer presente em minha vida quando me centro na busca da perfeição, das virtudes... Aqui estou “formatada”, fechada em minha autossuficiência.

Através dos fracassos me aproximo de meu ser essencial e da fonte de recursos que transforma estes fracassos em caminhos de realização.

O Pe. Adolfo Nicolás (ex-superior geral dos jesuítas) afirmou certa vez: “é preciso celebrar nossos fracassos”. Causa estranheza ao ouvir tal afirmação, pois vivo em um mundo onde somente os êxitos e vitórias são celebrados. Mas, o certo é que, quando compartilho e acolho meus fracassos, derrotas e quedas surgem uma corrente de comunhão especial, me sinto mais autêntica e vivo tais situações duras como parte de uma vida que, ao mesmo tempo, é difícil e preciosa, que desafia e recompensa, que golpeia e abraça. Assim, posso crescer na consciência de que esses momentos também são constitutivos de minha identidade; eles se revelam como ocasião privilegiada para ativar outros recursos e possibilidades que certamente não brotariam em tempos tranquilos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Percorrendo o capítulo 21 de João capto a profundidade da contemplação inserida na vida ativa.

Não colocar fronteiras ao Espírito que irá moldando minha visão e minha escuta e, como João, me fará proclamar: “É o Senhor!”, sem soltar a ferramenta, nem o computador, nem o carro, nem o bisturi, nem o livro, nem o pincel, nem o microfone, nem a vassoura...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 21,1-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem é esse Jesus? – fx 01
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Coletânea - Quem é esse Jesus?
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:38




quarta-feira, 24 de abril de 2019

Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019


Leitura Orante – 2º DOMINGO DE PÁSCOA – 28 de abril de 2019

EXPERIÊNCIA DE RESSURREIÇÃO: 

tocar as chagas da humanidade

“...mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20)


Texto Bíblico: João 20,19-31


1 – O que diz o texto?
Os relatos das Aparições nos advertem de que não se trata de uma crônica de acontecimentos. O que João quer nos comunicar são vivências internas dos discípulos reunidos; o que ele quer nos transmitir está mais além daquilo que entra pelos sentidos ou podemos imaginar.

Destacamos algumas das expressões do relato de João para formular a no Crucificado - Ressuscitado. 

O relato deste domingo se revela como uma catequese muito rica em conteúdo. Por uma parte, vincula a ressurreição com a paz, o dom do Espírito, o perdão, a fé, a missão...  Por outra, parece querer responder aos cristãos da “segunda geração”, que já não haviam conhecido o Jesus histórico, nem haviam participado daquela primeira experiência “fundante”. É a eles, representados na figura de Tomé, que lhes é dito: 

“Bem-aventurados aqueles que creram sem terem visto!”

São muitos os que se sentem escandalizados com o Evangelho deste 2º Domingo de Páscoa. Não é possível que Jesus Ressuscitado conserve as chagas no seu corpo! Pode-se tocá-lo como se tocam as feridas sangrentas de um torturado, as mãos frias de um moribundo, os pés feridos de um imigrante?

Frente aos riscos de um falso espiritualismo que quer esquecer-se da “carne”, frente a todas as tentativas de entender a Páscoa como pura mudança de consciência, o Evangelho de João quis ressaltar a corporalidade do Cristo Ressuscitado e o faz desta forma, ou seja, dando um destaque especial às chagas das mãos e do lado aberto; o mesmo corpo do amor vivido e da entrega, o corpo ferido com cravos e lança, se converte assim em um sinal visível de Ressurreição, sinal que continua presente na realidade das pessoas.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte de Jesus não foi um acidente de percurso, não é algo que se esquece, sinal de sua condição humana; o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que leva em suas mãos e em seu lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os que sofrem no mundo. 

Como cristãos, professamos: “o Ressuscitado é o Crucificado”; por isso é necessário “tocar suas feridas”, ali onde Ele sofre naqueles que sofrem. Portanto, contemplar o Ressuscitado chagado impulsiona a continuar encontrando o mesmo Jesus nas chagas de todos os sofredores da história.

É surpreendente que o evangelho de João tenha conservado o registro da experiência de Madalena; mas, mais surpreendente ainda é o fato de que tenha recolhido a experiência de Tomé, para assim revelar-nos que a Páscoa significa tocar com mais força, de um modo mais profundo, as chagas de Jesus ressuscitado.

Maria Madalena havia “tocado em Jesus” no horto pascal, porque o amava e pela alegria de saber que Ele estava vivo. Mas, depois teve que deixar de tocá-lo fisicamente (“não me toques”), a fim de tocá-lo e conhecê-lo de um modo diferente, levando a mensagem da Vida de Jesus aos discípulos, fechados numa casa. Ela que o tocou com amor, foi à primeira das ressuscitadas com Jesus no jardim de Vida da Páscoa.

À diferença de Madalena, Tomé precisou aprender a ativar os sentidos: olhar, escutar, tocar...; precisou descer do pedestal dos seus dogmas, das ideias separadas, para retomar a experiência concreta do amor de Jesus, que é a vida entregue pelos outros, amor chagado. Não basta crer em Jesus, separado de sua vida de compromisso em favor da vida; para crer nele é preciso querer tocar suas chagas, que são as chagas do mundo ferido por falta de amor.

Tomé começou sendo o apóstolo de uma espiritualidade sem compromisso social, sem entrega profética, sem solidariedade com os pobres e excluídos. Não era um apóstolo “cristão” de Jesus crucificado, mas um praticante da religião desencarnada que alguns, ainda hoje, continuam defendendo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Tocar” em Jesus, colocar o dedo em suas chagas e a mão no seu lado aberto, é descobrir a ferida sangrenta da história humana, vinculando assim a ressurreição com a dor dos homens e mulheres oprimidos(as), torturados, enfermos, assassinados...

Jesus Ressuscitado continua levando em suas mãos e em seu peito a ferida da história, não só as chagas dos cravos e o corte da lança em seu próprio corpo, mas a chaga dos enfermos e expulsos, dos famintos e oprimidos e a infinidade de pessoas que continuam sofrendo ao nosso lado.

O Ressuscitado se faz reconhecível, é o mesmo Jesus, é o crucificado, é seu corpo chagado. Trata-se de crer no Crucificado. Suas feridas são inseparáveis da morte e da entrega a uma causa: o Reino. Não é a passagem a uma condição superior à do ser humano, mas a mesma condição humana levada a seu cume, assumindo sua história anterior.

As chagas, sinal de seu amor extremo, evidenciam que é o mesmo que morreu na cruz. Já não há lugar para o medo da morte. Ninguém poderá tirar de Jesus a verdadeira Vida, nem tirá-la dos seus discípulos. 

A permanência dos sinais de sua morte indica a permanência de amor; elas são as cicatrizes de um compromisso com a vida. Além disso, elas garantem a identificação do Ressuscitado com o Jesus Crucificado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, posso dizer que a experiência de Tomé, que é também a minha, tem um valor importante para eu que sou seguidora do Ressuscitado.

Hoje, ressuscitado, Jesus continua expondo-se, deixando-se tocar sem resistências, mostrando suas feridas, permitindo que, como Tomé, “coloco o dedo na ferida”. Quê paradoxo! Os sinais da Ressurreição se encontram aí onde antes se encontravam os sinais de dor e morte. Só quando assumo esta realidade, poderei testemunhar, como os primeiros discípulos, que o “Crucificado ressuscitou!”

São estas suas feridas e chagas nas mãos e no lado aberto os sinais que o Ressuscitado me mostra para que eu possa reconhecer as cicatrizes que também carrego em meu corpo. São estes os sinais que Ele me mostra para que eu possa pôr também minhas mãos na ferida que continua aberta em meu mundo, nas mãos e lados de tantas irmãs e irmãos, de tantos povos, de mim mesma. O Ressuscitado continua carregando todas as chagas e me convida a tocá-las, a acariciá-las, a acolhê-las, a me reconciliar com aquelas que ainda não foram integradas e pacificadas, a me empenhar na transformação daquelas que são fruto da injustiça e do mal.

Páscoa é tocar e acompanhar Jesus nos chagados da vida. 

Páscoa é também (ao mesmo tempo) sentir nas mãos e nos dedos, no coração e no olhar, o abraço de amor de todas as pessoas. Não há Páscoa de Jesus sem corpo-a-corpo de intimidade e proximidade, de homens e mulheres, de crianças e idosos, nos diversos tipos de encontro e comunhão, não para possuir, mas para compartilhar, não para impor-se, mas para juntos abrir caminhos sempre novos de respeito e admiração. Assim me toca Jesus, assim se deixa tocar por mim.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Trago gravada em minha geografia corporal infinitas pequenas mortes e feridas; às vezes tão pequenas que não deixam cicatrizes visíveis, mas estão aí, cravadas em meu corpo. 

Contemplando as chagas do Ressuscitado, ser capaz de reconhecer que fui criada para ressuscitar, com as minhas feridas integradas, pacificadas, iluminadas....

Minha sensibilidade será ativada o suficiente para poder reconhecer esses mesmos sinais de dor em outros corpos e rostos.

“Fazer memória” das cicatrizes da minha história corporal, unindo-as às “feridas do Ressuscitado”.

Isso já é ressurreição, plenitude do mistério da comunhão através dos gestos, da proximidade, do abraço...

A cada abraço sentido, uma ressurreição também vivida!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

Sugestão: 
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – fx 02
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:37


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019


Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019

RESSURREIÇÃO: pedra angular da vida cristã

“...e viu a pedra retirada do sepulcro” (Jo 20,1)


Texto Bíblico: João 20,1-9


1 – O que diz o texto?
A escuridão da madrugada desaparece e desponta a Luz que dá início à nova Criação e à nova história. 

Depois do silêncio, renasce a Palavra. Parecia o fim e, no entanto, aquele silêncio era o mesmo que precedeu à Palavra criadora: “Faça-se a luz”! O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança. 

Não há razão para o medo e a tristeza, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

Arrancados do silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor”! 

Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio e ecoará por toda a eternidade.

A pedra que fora removida do túmulo de Jesus revelou a Madalena uma novidade que seu coração buscava, uma novidade que espanta, enche o interior do desejo de procura: “Ele vive”.

O caminho de Madalena em direção ao túmulo é símbolo da coragem de atravessar o escuro da madrugada para ver resplandecer uma nova aurora em sua vida, pela força criadora da única Presença que tudo sustenta tudo recria e enche de amor: a presença do Cristo Ressuscitado.

Ressurreição: experiência de afastamento das pedras que travam o fluir da vida.

“Nossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Essa vida quer se expandir. Vida que vem de Deus, vivida em Deus e que desemboca, como um rio, no Grande Oceano da Vida.

A experiência da Ressurreição permite transformar todas as pedras da entrada do túmulo em pedra fundamento, sobre a qual construir nossa vida. A ressurreição tudo integra, tudo pacifica, mesmo as pedras que bloqueavam a vida.

A ressurreição nos faz sair da estreiteza da vida e renascer para coisas maiores, do alto.

“Há um risco de acostumarmos e conviver com os sepulcros” (Papa Francisco).

Sepulcro é passagem: é como ventre materno. Há um tempo para germinar, potencializar a vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Posso dizer que a Ressurreição é a “pedra angular” da minha vida de fé. Pedra sobre a qual a fé pode se construir, base sólida que fundamenta a minha vida.

Diferença entre a Pedra angular e a pedra rolada na entrada do túmulo (que impede o fluir da vida): pedra na entrada no túmulo é sinal de morte, pois se fixa no passado; pedra angular é sinal de vida, base sobre a qual se constrói um futuro inspirador.

Há muitas pedras na entrada do meu coração, travando a vida (tristeza, fracasso, crise, trauma...); só a experiência de encontro com o Ressuscitado pode rolar estas pedras, integrando-as e dando um novo significado. A experiência de Ressurreição permite transformar a pedra da entrada do túmulo em Pedra angular.

No evangelho de hoje, a experiência dos três personagens (nossos espelhos), revelam pedras na entrada de seus corações. Madalena, vai ao sepulcro sozinha, de madrugada, busca um corpo, carrega uma pesada pedra de tristeza, fracasso e dor pela perda do amigo. Encontra a pedra do sepulcro removida e fica assombrada diante deste fato. A pedra do seu coração também começa a ser removida (vai culminar no encontro com Jesus); ela entra em outro movimento: sai de sua solidão e vai avisar os outros discípulos, embora não tenha clareza do que está ocorrendo.

Sua vida foi uma longa noite até que o encontro com Jesus a libertou e lhe abriu um novo horizonte, restituindo-a em sua dignidade de filha de Deus e potenciando-a para iniciar uma nova vida e formar parte do grupo dos mais achegados a Jesus. Madalena, a “apóstola dos apóstolos”, é uma de minha grande mestra na noite e na crise que supõe a passagem pelo Sábado santo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Pedro e João também carregam a pedra do medo (estavam trancados em casa, como se fosse sua sepultura). Com o aviso de Madalena, começa um movimento interior neles: saem do esconderijo correndo e vão ao encontro do túmulo.

João, talvez com uma pedra menor, corre mais veloz. Foi o único apóstolo fiel até o fim.

Pedro, que carrega pedra até no nome, permanece na dúvida.

João corre e chega primeiro; não entra de imediato no túmulo: precisa de tempo para processar a novidade da pedra removida. Ele é mais místico e se deixa impactar pela surpresa que encontra. Por isso, quando entra no túmulo, mergulha no mistério: viu e acreditou. Bastou alguns sinais (faixas de linho no chão e sudário enrolado), mas foi o suficiente para compreender o que estava acontecendo. Se não houvesse encontro com o Ressuscitado, para ele bastariam os sinais.

Pedro, primário na sua reação, entra abruptamente no túmulo: vê os mesmos sinais, mas ainda permanece na dúvida. Mas ambos, Pedro e João, sentem que as pedras interiores começam a ser afastadas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “A pedra tinha sido removida”: debaixo de cada pedra que parece amassar-me, há vida que quer ressuscitar. À luz da ressurreição não há pedra que seja capaz de sufocar o impulso vital.

O sepulcro vazio é um convite, a saber, olhar com o coração para descobrir, nas faixas e sudários de minha vida, a presença do Ressuscitado. Só o amor me capacita para um olhar contemplativo; por isso, o amor corre mais depressa que a autoridade. Para quem têm olhar contemplativo, as faixas já representam um grande sinal: apontam para uma vida destravada e plena.

“Viver como ressuscitados” é a marca que identifica os seguidores e as seguidoras de Jesus.

Estar atentos às faixas e sudários de meu cotidiano: elas apontam para a vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Vou, no dia de hoje, acompanhar Maria Madalena em seu itinerário da morte à vida, vou fazer o caminho com ela da nostalgia à fé, do luto à esperança, do vazio à comunidade, do silêncio ao anúncio.

Vou assumir como minha as suas perdas, seu pranto e seu desconsolo, e identificar neles também minhas perdas e as de todos os povos.

Vou pedir ao Deus de todo consolo que, com sua ternura e cuidado, regue as sementes de minhas perdas, minhas frustrações, meus ceticismos, minhas expectativas fracassadas, para que engendrem vida nova e não amargura e nem desespero.

Acompanhando Maria Madalena em seu percurso de luto, farei memória dos meus lutos e os de meu povo e pedir a Deus para ser consolada, e assim poder ser testemunha da consolação em meio a tantos fracassos históricos, como estão acontecendo em meu mundo e em meu ambiente cotidiano.

“Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce...” (S. Inácio de Loyola)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Aleluia 
Autor: G.F Handel - D.P  
Intérprete: Instrumental
CD: Aleluia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:03

Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019


Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019

SÁBADO SANTO: 
“descer” com Jesus aos “infernos” interiores e sociais

“As mulheres, tendo regressado, preparam aromas e perfumes” (Lc 23,56)

* Como se pode passar da SEXTA-FEIRA SANTA ao primeiro DIA da semana sem unir-nos a Cristo no SÁBADO SANTO?


Texto Bíblico: Lucas 23,50-56


1 – O que diz o texto?
É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, o(a) seguidor(a) de Jesus se apresenta no sepulcro de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

Nossa experiência, como cristãos e como seres humanos, se parece bastante à experiência do Sábado Santo. Não é uma experiência de morte, como a da Sexta-feira Santa; não é tampouco uma experiência de luz, nem de vida, como a do domingo de ressurreição. O Sábado Santo é o dia da ausência e do vazio, o dia do luto, o dia das dúvidas e também das esperanças. É terra de penumbra, tempo de vigília. É um caminho que nos afasta da morte, mas não sabemos para onde nos leva. O Sábado Santo oferece duas possibilidades: ou habituar-nos à ausência, ou arriscar-nos a esperar o “desconhecido”.

O sepulcro é o lugar do silêncio e da espera, onde parece que nada acontece. Há muitos espaços em nosso mundo e em nosso interior que se assemelham a este; muitos lugares onde temos a sensação de apalpar a derrota e o fracasso. Pois bem, esse sepulcro onde jaz a Vida a ponto de explodir, onde a Palavra espera para voltar a ser proclamada com nova força, é hoje o ícone de esperança para todas essas realidades vencidas e atravessadas, que continuam esperando que se faça a luz. Ensina-nos a sentir que, embora não a vejamos, a pedra que cobre tantas realidades está a ponto de romper-se.

Aqui evocamos a palavra talvez mais estranha e misteriosa do Credo: “desceu aos infernos”, ao lugar onde todos os humanos estão unidos no destino comum da morte. Jesus penetrou nesse abismo, chegando assim ao que a Igreja chama “os infernos”, o sub-mundo da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O Credo afirma que Jesus “desceu” ao lugar ou estado desse inferno, para libertar os humanos da morte, oferecendo-lhes sua ressurreição (a tradução em português do Credo afirma: “desceu à mansão dos mortos”). Dizendo que “desceu aos infernos” o Credo destaca o abismo de dureza, destruição e morte onde Jesus revelou sua máxima solidariedade com os humanos. 

Dessa forma Ele se fez solidário com os mortos, radicalmente. Só é solidário quem assume a situação dos outros. Descendo até à tumba, sepultado no ventre da terra, Jesus se converteu no amigo daqueles que morrem, iniciando, precisamente ali, o caminho ascendente da vida.

Jesus penetrou no abismo da morte e sua presença solidária removeu as entranhas do inferno, como diz Mt 27, 51-52: “a terra tremeu e as pedras se partiram, os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram”. Dessa forma, realizou radicalmente sua missão messiânica.

Jesus já tinha descido ao inferno dos loucos, enfermos, violentados pela miséria, aqueles que estavam angustiados pelas forças do abismo; assumiu a impotência daqueles que padeciam e pereciam arrastados pelas forças opressoras da terra, chegando dessa forma até o inferno da morte.

Havia sobre o mundo outros infernos de injustiça, solidão e sofrimento; mas só o inferno da morte era total e decisivo. Mas Jesus derrubou suas portas, abrindo assim um caminho que conduz para a plena liberdade da vida (à ressurreição), na dimensão da graça. A este nível posso falar de reconstrução da realidade, salvação definitiva. Por isso, em princípio, estão (estamos) todos salvos pelo Cristo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus “desceu até o inferno” para encarnar-se plenamente, partilhando a sorte daqueles que morreram. Mas, ao mesmo tempo, “desceu” para anunciar-lhes a vitória do amor sobre a morte, revelando-se como Grande Evangelista que proclama a mensagem de libertação definitiva, visitando e libertando os cativos do inferno.

Quando afirmamos que Jesus “desceu aos infernos” estamos falando desta realidade radical de não vida, onde Ele revela uma presença “iluminante”, abrindo um horizonte de luz a todos que “jazem na sombra da morte”. A morte redentora de Jesus estende sua influência até o espaço misterioso dos mortos. Não se trata de uma influência externa; foi Jesus mesmo quem partilhou o estado da morte, do inferno. Sua solidariedade simplesmente é anúncio de Evangelho, é salvação, é extensão inesperada da Misericórdia de Deus.

Nesse contexto social em que vivo, o inferno continua se expressando nas diversas opressões da história humana (desde a fome ao cárcere, da exclusão social à enfermidade, da injustiça à intolerância...). 

O Papa Francisco nos fala cada dia da necessidade de “descer aos infernos da história humana” (lugares de opressão, bolsões de fome, violências, exclusões...) para libertar os homens e as mulheres dos infernos atuais do mundo, esperando a grande libertação de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o pior inferno é aquele alimentado justamente pelos que se dizem seguidores e seguidoras de Jesus, mas que assumem atitudes preconceituosas e intolerantes, fazem apologia da “posse de armas”, criam guetos sociais, políticos, religiosos..., onde a morte continua tendo a primazia. Neste inferno se situam aqueles que preferem fechar-se em sua violência, de maneira que não aceitam, nem neste mundo nem no novo mundo da páscoa, a graça messiânica e o amor universal de Jesus. Sei que Jesus não veio para condenar ninguém; mas se alguém se empenha em manter-se em seu egoísmo e violência, pode converter-se, ele mesmo (apesar da graça de Jesus) em inferno perdurável.

Só acredita n’Aquele que “desceu aos infernos” quem está disposto a descer com Ele e comprometer-se a tirar do inferno tantas pessoas oprimidas, torturadas, violentadas...

Não ter pressa no Sábado Santo. Não passar tão rapidamente da Sexta-feira Santa ao Domingo da Ressurreição. Deixar o Sábado Santo estender suas sombras em meu interior. Reconhecer, então, que essa é a chave para entender o que me acontece e o que acontece na manhã de Páscoa.

Com Jesus, que desce aos “infernos” da humanidade, sou também movida a descer em direção aos meus “infernos interiores” (lugar dos traumas não pacificados, das vivências não integradas, das feridas não curadas). Na sombria obscuridade interior há pontos de luz que são alimentados pela presença de Jesus que, na morte e descida, integra tudo e tudo redime. Nada do que é humano é descartado.

Meu interior, a terra, a humanidade, o cosmos… estão grávidos de Ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Como as mulheres, me afastar do túmulo para preparar aromas e perfumes. As orações são aromas que o Espírito recolhe em sua taça. A esperança é o perfume que faz ultrapassar a putrefação das intolerâncias e preconceitos. 

Na noite do Sábado Santo me proponho dormir pouco e me levantar muito cedo, porque algo surpreendente vai acontecer. A Luz está para chegar. O Espírito ficou sem palavra, mas já sussurra. A voz do silêncio já geme; nele vislumbra-se a chegada da Vida. Algo grandioso está sendo gestado.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto das mulheres esperançosas; a transparência feminina da “Ruah” me mantém no ritmo da espera.

Aproximam-se os rumores de ressurreição. É Páscoa.

Não basta renascer; é preciso assumir minha condição de responsável de uma Nova Vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,50-56
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:  
Música: Proclamação da Páscoa
Autor: D.P.
Intérpretes: Marcos e Roselene
CD: Cantos da Semana Santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:15