quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Leitura Orante – 1° Domingo do Advento, 02 de dezembro de 2018



Leitura Orante – 1° Domingo do Advento, 02 de dezembro de 2018

ADVENTO: “DEUS À VISTA”

“Tende cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis...” (Lc 21,34)


Texto Bíblico: Lucas 21,25-28.34-36


1 – O que diz o texto?
Com o Advento, começamos um novo ano litúrgico, um tempo que sempre nos fascina. O ser humano, ferido pela estreiteza da vida, imposta pelo seu ego, descobre a fragilidade, o medo, a dor, o sem sentido, pelo qual volta a gritar a seu Criador, buscando, suplicando de novo que lhe envie um raio de luz.

Desolado pela experiência do sofrimento, da violência, da intolerância, da solidão e do medo, dirige novamente seus olhos para “Aquele que está à vista”. O Advento é o tempo mais adequado à nossa existência atual. Queremos intuir algo novo, reacender nossa esperança, alimentar uma presença inspiradora nesse contexto social no qual vivemos carregados de trevas e abalos sísmicos.

O Tempo do Advento tem algo de belo e atraente que mobiliza o nosso coração a entrar em outra sintonia; tal qual um sedutor, ele revela sua capacidade para debulhar dias até completar um tempo que vai nos guiando em direção ao Natal. Um tempo tão tranquilo, tão sussurrante, como um manancial que, em silêncio, vai espalhando vida em todo seu entorno. Tempo que nos convida a sonhar e a viver despertos.

Vários personagens que emergem no Advento, com sua maneira original de ser e de viver, vão se tornando familiares; eles nos acompanham neste tempo inspirador, ativando em nós uma ousada esperança e outro modo criativo de nos fazer presentes no contexto social, tão carente de esperanças.

Isaías nos ensina como viver o sempre jovem Advento; ele nos ensina a gritar esperança no sofrimento, a confiar em tempos melhores, a provocá-los. Este homem tão sensível nos diz que somos nós que devemos dar um colorido especial à vida e que Deus é como um tição fumegante que abrasa a nossa vida. Poeta do futuro, Isaías nos ensina a viver carregados de entusiasmo, gestando a paz.

João Batista, aquele do dedo que aponta o caminho novo e o Novo. Sim, João, o parente austero, impaciente, metódico, que pergunta sem rodeios: “és tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?”

João também se revela como um bom mestre porque nos recorda que, com muito pouco se pode viver, e que a qualidade de vida é dada pela relação com Deus, que sempre nos surpreende. Ele nos anima a viver com simplicidade e a gritar sempre que o Reino de Deus está próximo, tão próximo, que o temos colado em nosso interior.

Maria, a mulher bendita e abençoada de Nazaré, a do anúncio original, a filha de Sião que recebeu de novo a Ruah Santa, a que interpelou o anjo até que ambos se puseram de acordo no “sim”. Diante dela, nos inclinamos admirados, porque ela, que pronunciou poucas palavras, no entanto, gestou a Palavra em seu ventre. Maria nos diz agora, no Advento, que o coração deve ser grande para poder guardar nele todas as coisas em silêncio.


2 – O que o texto diz para mim?
Tudo é permanente Advento, transformação, movimento. Espaço em expansão, interioridade que se abre braços que se unem. Seu ardor me inspira, sua esperança me  alenta. Há uma eternidade que devo inaugurar cada dia, em cada instante: a eternidade da vida expansiva, justa e ditosa. 

Esperar é transformar este mundo em outro mundo humano, fraterno, e muito mais feliz. Esperar é derrubar o que impede viver. Posso esperar. 

Não encontro melhor maneira de traduzir a linguagem apocalíptica de Lucas a não ser fazendo referência ao mundo da construção. O toque de atenção que ressoa no evangelho deste domingo me chama a derrubar e a construir. Lucas me fala de sinais cósmicos, de sismos e desmoronamentos. Justamente ali onde algo se desmorona, é onde aparece espaço livre para uma nova construção.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Há um mundo que deve acabar: este mundo contaminado pelo “deus dinheiro” e pelo mercado; este mundo que gera exclusão e violência; este mundo que abafa a “cultura do encontro” para alimentar a “cultura da indiferença e do preconceito”; este mundo que faz opção em favor da morte...

Nada é tão caduco que não permita um projeto novo. Nada é tão antigo que não tenha algo aproveitável. As calçadas velhas das cidades, os antigos casarões, o centro histórico, se remodelam conjugando o velho e o novo. O resultado costuma ser uma nova obra de arte.

Eu sou convidada, no início deste Advento, a uma “reabilitação ou remodelação” de todo meu ser. Entrar no fluxo inspirador deste tempo me leva cada dia, a desfazer e refazer. Uma fé que se paralisa e não avança é como um edifício que se faz velho. 

O Advento me mantém erguida e com dignidade, afugentando o medo, denunciando a injustiça que provoca exclusões e sofrimentos, aplicando o antídoto do amor contra a imbecilidade do ódio, da intolerância e da manipulação.

Por isso, as expressões do evangelho: “tomai cuidado”, “ficai atentos”, “orai a todo o momento”, são gritos de ânimo e gritos de construção de futuro. Talvez, para alguns, a única coisa que precisa fazer seja pintar a casa, ou mudar algum cômodo. Para outros, a obra será de maior envergadura. E, quem sabe, para outros ainda, o futuro depende de uma reestruturação mais a fundo da vida: esvaziá-la e reconstruí-la. 

A obra de Deus em mim consiste em que eu derrube o que construí, segundo meus gostos e egoísmos, e não segundo o querer d’Ele.  A Deus lhe agrada um coração com estâncias cheias de luz e de sol, liberadas de apoios inúteis, capazes de acolher a todos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, como estar atenta ao Deus que em cada Advento quer dar à luz algo novo em minha vida, em meu contexto, em meu mundo, embora pareça que não tenho mais idade, como aconteceu com Isabel, à mãe de João Batista e continue rompendo minha lógica como aconteceu com Maria de Nazaré?

O que realmente mata o ser humano é a rotina sem sentido; o que lhe salva é a criatividade, a capacidade para vislumbrar e resgatar a novidade. Se contemplar a realidade em profundidade, tudo é sempre novo, diferente e em constante mudança. Participar desse movimento de mudança que chamo vida é a única promessa sensata de felicidade.

O Advento me provoca a perfurar a realidade para nela ler a vida, os acontecimentos, mais além da superficialidade e da banalização que se impõe a todos e a mim. Perfurar a realidade é buscar, na densidade dos acontecimentos e do próprio coração, os respiradouros de Evangelho, por onde o mistério de Amor e Vida Plena revela sua face e me urgem a impulsionar seu dinamismo na história.

Por isso, é preciso focalizar meu olhar, pôr lupa, afinar a sensibilidade para detectar as pegadas da misericórdia criativa, resiliente e fecunda de Deus em meu mundo e no meu próprio coração.

Que é Deus senão este Advento e Presença que é e que vem, Calma vivente, Coração latente no qual sou e respiro?


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Os caminhos de Deus têm desertos difíceis, mas sempre anunciam a “terra prometida”.

Os caminhos de Deus têm momentos de tremores e abalos sísmicos, mas nunca falta a Boa Notícia de uma vida nova. Desaparecerá a obscuridade, porque sempre há um amanhecer.

Deus não anuncia final; Deus sempre anuncia começos; Deus não anuncia entardeceres, mas amanheceres.

O importante é que minha vida não esteja embotada e incapacitada de ver a nova luz.

Fazer memória dos abalos em minha vida que foi ocasião privilegiada para expandi-la em novas direções.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 21,25-28.34-36
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Um milagre vai chegar – fx03 (03:15)
Autor: Pe. Agnaldo José - Pe. Paulo Sérgio de Souza
Interprete: Pe. Agnaldo José
CD: Um milagre vai chegar – Pe. Agnaldo José
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Leitura Orante – Cristo Rei, 25 de novembro de 2018



Leitura Orante – Cristo Rei, 25 de novembro de 2018

REALEZA INTERIOR, NOSSO SER VERDADEIRO

“Quem é da verdade ouve a minha voz”  (João18,37)


Texto Bíblico: João 18,33-37


1 – O que diz o texto?
É muito importante que tenhamos uma pequena ideia sobre o momento e o motivo que levou o Papa Pio XI, em 1925, a instituir a festa de Cristo Rei. A Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade. Com esta festa, tentou-se recuperar o terreno perdido frente a um mundo secular, laicista e descrente. Na encíclica o papa dava as razões para instituir a festa: “recuperar o reinado de Cristo e de sua Igreja”. 

Jesus acreditou na força da semente, no poder do fermento, na criatividade dos pobres, no dinamismo incomparável do Espírito, mas a partir de dentro, a partir da humanização dos corações.

Por isso, Jesus é Rei porque deixou transparecer sua “realeza interior”: o que n’Ele era mais humano e divino, a sua verdade, seu ser verdadeiro..., no mais profundo de si mesmo. Realeza que se visibilizava no encontro com o outro. Jesus destravava e ativava a realeza escondida em cada um, desvelava a verdade mais nobre presente nas profundezas de cada pessoa.

Dentro do processo de Jesus frente a Pilatos, segundo o quarto Evangelho, ocupa um lugar destacado a questão sobre a verdade; ali o título de “rei” é identificado com ser “testemunha da verdade”.

Jesus é consciente, como os grandes sábios, de viver na verdade de si mesmo, porque se adentrou no “território” de sua verdadeira identidade. A Verdade estava na sua atitude de vida. Esta era a Verdade.


2 – O que o texto diz para mim?
Ao confessar Cristo como Rei universal queria-se, com isso, veicular o desejo de que também a Igreja fosse testemunha e participante já aqui na terra dessa realeza; em outras palavras, uma realeza de Cristo reconhecida, redundava inevitavelmente em uma igreja respeitada, favorecida pelo Estado, com alto status na sociedade, forte e organizada, que, embora já não podendo mais revestir-se de poder político temporal, pelo menos pudesse participar dele através de uma relação estreita e harmoniosa.

A intenção da festa pode ser boa, mas o título atribuído a Jesus não poderia ser de seu agrado. Embora muitos estejam ainda centrados na visão de uma Igreja que busca poder, prestígio, riqueza... a partir da imagem do Cristo Rei, na realidade, o que celebra é uma radical mudança de linguagem: Jesus rei servidor, que se coloca a serviço dos mais desfavorecidos, sem poder, sem glória, sem pompas...

Pode conservar o título, mas mudar a maneira de entendê-lo; Jesus é “Rei do Universo” quando a paz, o amor e a justiça reinarem em todos os rincões da terra, quando todos forem testemunhas da verdade, quando em todos os ambientes a mesa do Reino se tornar mesa de inclusão e de acolhida... 

Portanto, qualquer conotação que o título tenha com o poder e com as pompas, esvazia a mensagem de Jesus. Uma coroa de ouro na cabeça, um cetro brilhante nas mãos, um manto tecido de brocados e pedras preciosas, são muito mais degradantes que a coroa de espinhos e a cana que os soldados colocaram em suas mãos no momento do seu julgamento. Ali, diante do poder violento e corrupto de Pilatos, Jesus, açoitado e coroado de espinhos, se mostra sereno e revela a plena humanidade de um Rei sem reino; um rei das nações de exilados, do povo sem lar, dos desamparados..., que prefere o poder do amor ao poder da força e da violência.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Há uns domingos atrás, Jesus me dizia que aquele que queria ser o primeiro, deveria ser o último, e aquele que queria ser grande deveria ser o servidor de todos. Esse afã de identificar Jesus com o poder e a glória, não será acaso uma maneira de justificar meu afã de poder, de prestígio, de me impor sobre outros? Não será porque eu cristã temo projetado n’Ele minha necessidade de grandeza? 

Reinar e ter poder são objetos de desejo de extraordinária magnitude e fascínio para o ser humano. Seu brilho encanta e seduz; sua proposta é extremamente atraente; para muitos, é a suprema ambição.

Não há ser humano que não tenha sido tentado pelo canto desta sereia. 

“Reinar”. Em meu mundo reina o terror, reina a miséria, reina a exploração, reina a vingança, reina o negócio sujo, reina a violência, a intolerância, o preconceito...

Quando em meu mundo reinar a confiança mútua, quando todos viverem a cultura do encontro, quando não houver excluídos nem sofredores, quando os negócios forem honrados, quando eu for capaz de compartilhar e de acolher o diferente..., então posso começar a atribuir o título de Rei a Jesus e proclamar que Ele reina. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o convite de Jesus é, portanto, absolutamente inclusiva: toda pessoa que, a partir de uma atitude de busca sincera e humilde, se “adentre” na experiência de sua própria verdade, sentirá necessariamente a “sintonia” com Ele, assim como com todos aqueles e aquelas que o seguem e vivem de maneira verdadeira e transparente.

Portanto, o verdadeiro sentido do seguimento de Jesus e a fé madura em Deus não se reduzem à segurança e firmeza em umas determinadas verdades; mais importante que as verdades de meu saber é a humanização de minhas atitudes.

“Vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Jesus não se refere a verdades doutrinais ou científicas; Ele está falando da autenticidade de seu Ser; Ele está falando da verdade de seu Ser e da verdade de todo ser humano. Jesus é rei porque vive na verdade, vive na transparência; Ele é verdadeiro porque revela o que é mais nobre em seu coração e no coração de todos os seguidores e seguidoras; não usa máscara, é pura transparência do rosto do Pai.

Jesus é o Homem autêntico, a referência de ser humano, o ser humano verdade. Jesus é a última referência para todo aquele que queira deixar transparecer em sua vida a verdadeira qualidade humana.

Em certo sentido, poder-se-ia dizer que a verdade não passa pela mente, mas pela vida; nem pelo pensar de uma determinada maneira, mas por ser e viver de um modo humano e inspirador.

Por isso, frente ao fanatismo e intolerância que denota fechamento e estreiteza de vida, a verdade requer abertura humilde, questionamento e flexibilidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O importante não é ter a verdade, mas ser verdadeiro. A pessoa verdadeira pode entrar em ressonância e em sintonia com a verdade do outro. 

O intolerante, o preconceituoso julga ser dono da verdade e quer impô-la sobre os outros. A verdade não é um dogma e sim um caminho. Quanto mais verdades absolutas, mais estreito vai ficando o meu mundo. A humanidade busca a verdade, mas também pode asfixiá-la. Costuma-se calar a verdade que incomoda. Também existe sempre a tendência de querer impor, pela força, pelo medo, aquilo que se acredita ser verdadeiro. “A verdade também pode ter suas vítimas”.

* o que há de verdade e o que há de mentira em meu seguimento de Jesus? Onde há verdade que me humaniza e onde há mentira que me atrofia?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 18,33-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05 (04:23)
Autor e intérprete: Zé Vicente
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep



terça-feira, 13 de novembro de 2018

Leitura Orante – 33° Domingo Tempo Comum, 18 de novembro de 2018


Leitura Orante – 33° Domingo Tempo Comum, 18 de novembro de 2018

ESPERANÇA: “enquanto houver vida...”

“...quando virdes estas coisas acontecendo, sabei que está perto, às portas” (Mc 13,29)


Texto Bíblico: Marcos 13,24-32


1 – O que diz o texto?
Estamos no penúltimo domingo do “ano litúrgico B” e o evangelho deste domingo é tirado do “discurso escatológico” ou “pequeno apocalipse” de Marcos (cap. 13). Este capítulo faz a ponte entre a vida pública de Jesus e sua Paixão. Escatologia procede da palavra grega “escatón”, que significa “o último”. Ao propor leituras que fazem referência “aos últimos tempos”, a liturgia quer nos convidar à “vigilância” e à atenção ao tempo presente.

O discurso escatológico, que encontramos em Marcos, quer recordar algumas convicções que deverão alimentar a esperança dos seguidores e seguidoras de Jesus. O anúncio esperançador é reforçado pela imagem da figueira que, carregando-se de brotos, anuncia a primavera. Esse é nosso destino: caminhamos para uma Primavera que não conhecerá ocaso. A certeza disso está enraizada na promessa de Jesus: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão”. 

O Evangelho deste domingo tem muito de inverno e tem muito de primavera. Primeiramente, fala-nos desse momento final, onde tudo parece terminar em cataclismo. Mas logo nos abre à primavera da figueira que começa a gerar novos brotos nos ramos ainda quase desnudos do inverno. E, finalmente, enraíza nossa esperança na Palavra de Deus. A realidade pode tremer, o céu pode ficar escuro, como se o sol tivesse apagado. No entanto, aí está a Palavra de Jesus que nos abre para acolher um “novo tempo”.


2 – O que o texto diz para mim?
As palavras do evangelho deste domingo são muito fortes, pois põem um sinal de interrogação sobre toda a antiga e velha história, feita em grande parte de mentiras e injustiças, ódios e violências... Sobre este mundo, petrificado e indiferente, se anuncia e se prepara a vinda de Jesus, o Homem novo... Isso significa que serão destruídos os modelos atuais de vida, centrados no individualismo e no descarte, no poder e violência que excluem, na fria intolerância que cria muros... 

Este será um grande “desastre”; os “falsos astros” do céu da vaidade e do poder serão abalado e cairão. 

Esta palavra “desastre” em seu sentido forte, como destruição da ordem astral onde se sustenta a vida da terra e a história da humanidade. Mas, no final, como no quarto dia da Criação (quando o Criador fixou a ordem da abóboda celeste, com o sol, a lua e as estrelas, por cima da terra, para iluminá-la e tornar possível a existência de vida), Deus novamente intervirá criando uma nova ordem de salvação, centrada no Filho do Homem (e não no sol, lua e estrelas que alimentam o ego social).

Este mundo não será consumido, mas consumado, pois Deus reserva uma plenitude de sentido para a Criação inteira. Um dia Deus salvará definitivamente, mas essa salvação já começou, aqui e agora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Essa palavra o “desastre” não se refere somente a uma realidade exterior; o discurso escatológico me convoca a dirigir o olhar para o meu “mundo interior”, onde o ego brilha como o “sol”, a vaidade se revela como “lua”, a competição e a aparência me fazem sentir como “estrelas”.

Vivo hoje tempos complicados, difíceis...; partilho um momento de grande inquietude espiritual, de distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais, de trágica opção pela morte e pela violência...

Aqui, sempre se revela válido o alerta de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”.

No entanto, resisto! A esperança é um princípio vital, expresso na sábia constatação de que “enquanto houver vida, há esperança”. Também resisto diante da memória das inevitáveis e sofridas experiências cotidianas, que poderiam deixar como consequência o medo, a perda do sentido da existência, o vazio de horizontes, o desânimo... O ser humano é um “animal teimoso”, pleno de esperança, sedento do novo...

Nem a fé, nem a esperança amadurecem na bonança. A esperança se fortalece na obscuridade e na crise.

Nos momentos difíceis, a esperança se esconde nas raízes. Por isso, logo brota com mais força. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, de onde nasce a esperança? Com certeza, não nasce aguardando que o problema se solucione que a crise passe ou a situação mude. Esta atitude só produz saudade e passividade. A esperança está mais próxima de uma resposta ativa de rebeldia positiva frente à incerteza que me desequilibra. Está profundamente conectada com a incansável construção do amanhã a partir do agora e do presente. 

A condição humana pode ser definida em termos de "espera radical" ou de "esperança". Chamada a ser mais do que sou, abrigar em meu interior uma "insatisfação existencial", uma tensão entre o que sou e o que anseio ser. Porque me defino como radical espera, caio na tristeza, quando vislumbro um futuro ameaçador, ou caio na euforia, quando penso alcançar algo que me agrada.

Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, quer expressar a fé no futuro da minha vida.

Ainda que sofra ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sei e confesso com o profeta Isaías, é pela graça do Espírito, que existe futuro.

Para ser fiel, é preciso seguir o Espírito, deixando-se surpreender pelos novos rumos que Ele aponta seduzir pelos novos horizontes que Ele descortina desafiar pelas novas provocações que Ele lança, a partir da realidade histórica e dos novos sinais dos tempos.

Essa relação viva e dinâmica com o Espírito é fundamental para a vida cristã, em qualquer circunstância.

Sei que a esperança é algo constitutivo no ser humano. Para ele, viver é caminhar para um futuro.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Minha vida é sempre busca de algo melhor. O ser humano “não só tem esperança, senão que vive na medida em que está aberto à esperança e é movido por ela” (H. Mottu).

Por isso, quando numa sociedade se perde a esperança, a vitalidade atrofia, a marcha se paralisa e a vida mesma corre o risco de degradar-se. A esperança é como uma “memória do futuro”; tem caráter profético.  Não se pode dizer que veja o que está por vir, mas afirma como se o visse. E, enquanto o anuncia de certa forma, o prepara. Precisamente por viver tempos difíceis, preciso mais do que nunca da pequena e teimosa esperança.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 13,24-32
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Esperar contra toda esperança – fx 08 (02:46)
Autor e intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Sônia Mara, Beto e Betino
CD: Cantiga de pão e vinho
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Leitura Orante – 32° Domingo Tempo Comum, 11 de novembro de 2018


Leitura Orante – 32° Domingo Tempo Comum, 11 de novembro de 2018

AS MOEDAS DO CORAÇÃO NÃO FAZEM RUÍDO

“Esta viúva pobre lançou mais que todos 
que lançam no cofre” (Mc 12,43)


Texto Bíblico: Marcos 12,38-44


1 – O que diz o texto?
Encontramo-nos, nos últimos versículos do capítulo 12 de Marcos; só temos, pela frente, o discurso escatológico do capítulo 13 e o relato pascal. Jesus, mais uma vez nos ensina. Embora o relato deste domingo se reduza a poucos versículos, tem uma profundidade enorme. É o melhor resumo que se pode fazer do evangelho. A simplicidade do relato esconde a mensagem mais profunda de Jesus: toda a parafernália religiosa externa não tem nenhum valor espiritual; o único que importa é o interior de cada pessoa.

Vivemos a cultura da superficialidade e da aparência e perdemos o caminho do coração; carecemos de interioridade, carecemos de humanidade.

Este simples relato deixa claro a crítica de Jesus à religião de seu tempo (e a de todos os tempos). N’Ela destaca-se a diferença entre religião e religiosidade, entre cumprimento de normas e vivência interior, entre os ritos programados e a experiência de Deus. Ainda não aprendemos a lição. Hoje continuamos dando mais importância ao externo que a uma atitude interior. À religião continua interessando-lhe mais que sejamos fiéis à doutrina, aos ritos e às normas. E a verdade é que nós mesmos continuamos dependentes da vaidade e da aparência e não de atitude vital, de onde flui nossa vida.

A crítica de Jesus aos escribas é dura, pois desmascara a falsa religiosidade deles.  Em vez de orientar o povo a buscar a glória de Deus, atraem a atenção das pessoas para si mesmos, buscando sua própria honra. 

Mas há algo que, sem dúvida, dói mais ainda em Jesus que este comportamento fantasioso e pueril de ser contemplados, saudados e reverenciados. Enquanto aparentam uma piedade profunda em suas longas orações em público, aproveita-se de seu prestígio religioso para viver à custa das viúvas, às pessoas mais fracas e indefesas de Israel segundo a tradição bíblica.

É inútil querer fazer bela figura diante de Deus, pensando que Ele se deixa impressionar pelas grandezas humanas. O Reino de Deus subverte as categorias humanas. Assim, o que é grande aos olhos humanos, é desprezível para Deus. E vice-versa: o que o mundo desvaloriza, encontra valor aos olhos de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus, que acaba de criticar tão duramente os “controladores” do Templo e da Religião, descobre também a riqueza espiritual que uma pobre viúva manifesta, e reconhece que a maneira dela atuar deve ser referência para todos, porque é reflexo de sua atitude para com Deus. Distante de todo cálculo mesquinho, ela se deixa levar pelos sentimentos mais nobres. Jesus descobriu naquela mulher uma atitude esplêndida: o comportamento de alguém que espera tudo de Deus.

Precisamente, esta viúva vai desvelar (tirar o véu) da religião corrupta dos dirigentes religiosos. Seu gesto passou desapercebido a todos, mas tocou a sensibilidade de Jesus. 

O Evangelho diz muito pouco sobre ela; diz somente que, enquanto para muitos olhos ela passa desapercebida, o olhar de Jesus, pelo contrário, a descobre e a eleva.

Encontro me aqui diante de uma mulher sem nome, não sei se jovem ou idosa, somente sei que era viúva, que viveu perdas. E Jesus me faz olhar a magnitude, a generosidade desta mulher em meio à sua pobreza e como ela se envolve no dom da entrega.

Seu atrevido gesto torna-a aberta, vazia e disponível para deixar-se conduzir por uma Vida maior, para confiar na bondade do Mistério.

Não é uma mulher que anda escondida no anonimato, para que ninguém a veja colocar sua oferenda. Não está se esquivando do olhar dos outros. Não lhe dá vergonha colocar pouco no cofre, nem se sente grandiosa por depositar tudo o que tinha.

Esta viúva não buscou honras nem prestígio algum; age de maneira calada e humilde. Não pensa em explorar ninguém; pelo contrário, dá tudo o que tem porque outros podem precisar. Segundo Jesus, ela deu mais que todos, pois não dá do que lhe sobrava, mas “ofereceu tudo o que tinha para viver”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Muitos ricos depositavam grandes quantias”. As moedas eram depositadas em uma espécie de funis enormes, colocados ao longo do muro do Templo. A ampla boca do funil de bronze permitia lançar as moedas de certa distância, fazendo muito ruído ao caírem. Os ricos podiam ouvir, com orgulho, o som de suas moedas ao se chocarem com o metal no interior do cofre. O que a viúva depositou foram duas moedinhas do mais baixo valor da época e que não emitiam sons ao passarem pela boca do funil.

Era preciso ter um ouvido bem apurado para descobrir esse gesto silencioso de uma mulher que vive como oferenda, porque não retém nada para si. 

Mas Jesus, com sua sensibilidade aguçada, chama os seus discípulos para observá-la, pois dificilmente encontrará no ambiente do Templo um coração mais generoso e mais solidário com os necessitados. Gente simples que poderá ensiná-los a viver o Evangelho.

Por que o gesto da viúva chamou tanto a atenção de Jesus?  É que Ele tem outra lógica para olhar os acontecimentos, não tem uma visão gananciosa, nem mercantilista. Ele vê além das aparências e descobre a generosidade e o desprendimento dessa pobre mulher que entrega tudo o que tinha.

Jesus fica impactado pela gratuidade do gesto: ela tinha entre as mãos duas moedas e não duvidou, nem calculou quanto lhe dariam a prazo fixo se investisse em um seguro de velhice ou na poupança da Caixa. Pareceu-lhe que era melhor investir tudo em uma só cartada, a da entrega, a da totalidade, e toda ela estavam inteiras em sua eleição tão arriscada. Toma a decisão temerária de depositar no cofre do templo, e de uma só vez, as duas moedinhas que era tudo o que tinha para viver.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, dizia Santo Ambrósio: “Deus não se fixa tanto no que damos, quanto no que reservamos para nós”. Aquilo que se guarda acaba se perdendo. A viúva, ao renunciar a menor segurança, manifesta a verdadeira grandeza. Oferecendo aquilo que lhe restava para viver, a mulher colocava-se toda nas mãos do Pai e fazia sua vida depender totalmente d’Ele. Reconhecia que tudo, em sua vida, era dom de Deus. Por isso, com toda a liberdade e sem a ânsia de possuir, foi capaz de arriscar tudo. Esta é a oferta que tem valor diante de Deus. 

“Ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”. Para captar toda a força desta frase final, tenho que levar em conta que em grego “bios” significa não só vida, mas também modo de vida, recursos, sustento; seria o conjunto de bens imprescindíveis para a subsistência. Tenho uma palavra que poderia se aproximar bastante da expressão grega: “víveres” ou “sustento”. Deu tudo o que constituía sua possibilidade de viver. Equivaleria a pôr sua vida nas mãos de Deus.

Eis a questão: passar de minhas mãos possessivas às mãos que se estendem para oferecer e partilhar. Aquilo ao qual estou apegada me ata, e o que retenho me possui. Para viver uma sadia relação com os bens precisa ser capaz de tomar, de abraçar e de soltar. O que me impede estar disponível para Deus vai sendo afastado, e pouco a pouco vou me aproximando cada vez mais de meu centro, ou seja, o meu coração, onde as moedas não fazem barulho; são moedas cunhadas no silêncio do encontro com Aquele que é fonte de todas as minhas riquezas; e é no silêncio que essas moedas se expressam através dos gestos despojados do serviço, do compromisso e da partilha...  

E, assim, a vida se faz uma oferenda contínua.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esta cena tão simples do Evangelho me desafia mais uma vez, e me vejo retratada nela; simplesmente tenho que me deixar interpelar pelo relato e tentar descobrir se minha atitude de vida está mais próxima da dos escribas ou mais próxima daquela da viúva.

* o quê prevalece em mim: uma religião de aparência, de ritualismos, de moralismos (própria dos doutores da lei) ou uma religião do coração (simplicidade, generosidade, despojamento...) própria da viúva? 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 12,38-44
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Põe teu coração no meu – fx 06 (03:24)
Autor e intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Contemplativo
Gravadora: Paulinas Comep