terça-feira, 30 de outubro de 2018

Leitura Orante – Finados, 02 de novembro de 2018


Leitura Orante – Finados, 02 de novembro de 2018

FINADOS: “Assim na Vida como na vida”

“Vinde, benditos de meu Pai!” (Mt 25,34)


Texto Bíblico: Mateus 25,31-46


1 – O que diz o texto?
Todos somos criaturas procedentes das entranhas d’Aquele que é Plenitude e Presença. Filhos e filhas de Deus, gerados pelos nossos pais, desde toda a Eternidade estamos em seu pensamento e em seu coração; daí nosso desejo de eternidade. Na Eternidade não há passado nem futuro, só Presente, aqui e agora. 

Ao nascer, começamos a existir, mas já estávamos na mente e no coração de Deus; existir é ser no tempo; ao morrer, deixamos de existir, mas não deixamos de ser. Usando uma expressão poética podemos dizer que “somos suspiros de amor de Deus” e, tal como as ondas do mar que beijam a praia e retornam ao oceano que as constituí assim nós também retornaremos à nossa Fonte original; seremos “aspirados” para dentro do coração oceânico do Deus Pai/Mãe.

Isso celebramos a cada 2 de novembro: a esperança de que aqueles que morreram, já vivem ressuscitados para a Vida de Deus. No “Dia de Finados”, nós cristãos recordamos (visitamos de novo com o coração), na oração e no afeto, aqueles e aquelas que amamos e que já deixaram este mundo. 

Apesar de sua ausência física, pela fé sabemos que a morte não tem nunca a última palavra. De fato, a morte é a passagem para a Vida, para sempre; a Vida que não terá fim, pois nosso Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Porque para Deus, todos vivem.   

Celebrar e recordar os falecidos a cada 02 de novembro e cada dia na eucaristia nos anima a viver a fé na Ressurreição e nos encher de esperança. 

A experiência cristã da morte parte de uma revelação básica: Deus não quer a morte, mas a vida, a vida plena para toda pessoa humana. “Tu perdoas a todos, porque são teus, Senhor, amigo da vida” (Sab. 11,26). Somos convidados à confiança em Deus, renunciando toda pretensão de querer controlar nossa existência; somos movidos a reconhecer que os momentos cruciais de nossa vida foram “dom de Deus”, mais que planificada construção nossa.

Morrer é o processo pelo qual nos “reintegramos” na Vida que sempre fomos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Sou vivente mortal e honro os meus mortos, aqueles cuja recordação ainda me afeta. Mas todos os mortos, grandes e pequenos, santos e pecadores, são meus, sou de todos eles, pois a mesma vida que me une na morte é a mesma morte me une na vida. O que eles ou elas foram à vida agora faz parte do que sou, e minha vida deve restaurar e completar o que eles não alcançaram viver. Nisso consiste honrar os mortos: em dar culto à vida, em cultivá-la, cuidá-la, curá-la neles e em mim.

Celebrar o dia de Finados é um ato de justiça para com os mortos. Os mortos também têm direitos e é bom que se reconheça isso. Vivo uma cultura que extingue o passado, obscurece o futuro e fica preso a um presente emocional vazio. Os mortos têm direito a que lhes agradeço sua vida e a marca original que me deixaram.

Celebrar e recordar aqueles que me precederam é negar à morte a última palavra, é afirmar que a Vida é a palavra definitiva; recordar aqueles com os quais convivo me faz viver a partir das raízes humanas, ancoradas em minha existência cotidiana. 

Não querer ver a morte de frente, ignorá-la, apagá-la de minha vida, fazê-la invisível..., é perder humanidade, é um autoengano sobre a condição humana frágil, banaliza-se a mesma vida que acaba não valendo nada. Quando a morte é “consumida” diariamente nos noticiários, só se ativam emotividades instantâneas que não levam a nada, ou a uma resignação estéril diante do que acontece.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todos nós morremos, mas há mortes e mortes. Na cultura da “pós-moderna líquida” a morte se apresenta como termo, ruptura e aniquilação. Somente os que não viveram seriamente, os que esbanjaram sua vida em caprichos e superficialidades, os que semearam dor e morte ao seu redor, os que asfixiaram a vida e não se importaram com os outros, tem medo de morrer.

Os que aceitaram sua vida e se atreveram a vivê-la seriamente, os que a viveram como dom que se entrega, aceitam sua morte e a esperam de modo sereno e livre, como o descanso devido depois de uma jornada trabalhosa e fecunda. Assim como a jornada cumprida devidamente dá alegria ao sonho, uma vida bem vivida dá alegria à morte. Porque a vida valeu a pena, também vale a pena morrer. 

Dia de Finados é ocasião privilegiada para confrontar a morte, como se faz com outros medos.

Devo contemplar meu fim último, familiarizar-me com ele, aprofundá-lo e analisá-lo, conversar com ele e descartar as aterrorizadoras distorções infantis sobre a morte.

Ao compreender, de verdade, minha condição humana – minha finitude, meu breve período de tempo sob a luz, não só passo a saborear a preciosidade de cada momento e o simples prazer de existir, como também intensifico minha compaixão por mim mesma e por todos os outros seres humanos.

Morre-se no instante da morte, como morre ao longo da vida. Este é o caminho normal de morrer. A presença da morte na existência não se veste de luto, mas de seriedade e irreversibilidade nas decisões. Uma vida pensada sem morte perde-se, no final, na total irresponsabilidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, penso que a morte é o contrário da vida e essa lógica é falsa. A vida é como uma moeda que tem duas faces: uma é o nascimento, a outra é a morte. É a vida que devo dar valor, não seus limites.

Diante da necessidade inata de recordar meus antepassados devo aproveitá-la para encontrar segurança e sentido em meu próprio mundo. A consciência de que sou o que sou, graças aos seres humanos que me precederam, é uma realidade inspiradora para o meu viver. Recordar os meus familiares falecidos e agradecer-lhes o que fizeram por mim me ajudará a fazer o mesmo por aqueles que caminham comigo.

Entrar em sintonia com os seres queridos mortos e que impulsiona a viver com maior intensidade a vida que ainda tenho em minhas mãos. O humano que eles me transmitiram deve potenciá-lo em mim para que o mundo vá se humanizando. Pelos mortos já não posso fazer nada, mas sua recordação me impulsiona para aqueles que vivem junto a mim. O maior elogio que se pode dizer de um ser humano é que, quando partiu, deixou o mundo um pouquinho melhor que quando chegou a ele. 

O grande teólogo Karl Rahner entendia a morte em chave de generosidade. Morrer,  escreveu ele: é “dar lugar” aos que virão depois, é meu último exercício de amor, responsabilidade e humildade. É, inclusive, meu derradeiro exercício de liberdade.

Preciso morrer, não só para que outros vivam, abrindo, com minha morte, um espaço para eles, mas também para que eu valorize a vida como presente recebido, que vou legando aos que vem, constituindo, assim, uma corrente de vida sempre mais expansiva.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O “depois da vida” é um grande encontro onde serei interrogada: “o quanto você viveu sua vida?”

“Fazer memória” das pessoas que viveram intensamente e deixaram “marcas” em minha vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 25,31-46
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Meu filho muito amado – fx11 (01:33)  
Autor: José Acácio Santana
Intérpretes: Coral Acorde Coração
CD: Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre
Gravadora: Paulinas Comep

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