segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Leitura Orante – 31° Domingo Tempo Comum, 04 de novembro de 2018


Leitura Orante – 31° Domingo Tempo Comum, 04 de novembro de 2018

AMOR É O QUE DIZ “SIM” EM NÓS 

 “...amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração...
amarás o teu próximo como a ti mesmo”


Texto Bíblico: Marcos  12,28-34


1 – O que diz o texto?
Há perguntas que realmente não despertam nada; há perguntas maliciosas e capciosas que só buscam complicar o outro; mas há perguntas essenciais que despertam nosso “eu profundo”.

No evangelho deste domingo nos encontramos com alguém sincero que, como outros muitos, se vê enredado em meio a tantos mandamentos e preceitos que já não sabe por onde começar a caminhar.

Finalmente, alguém quer pôr as coisas em seu lugar; não quer ficar nos ramos, mas quer ir à raiz, ao verdadeiramente essencial. “Qual é o primeiro de todos os mandamentos”?

Jesus também não é daqueles que soluciona os problemas vitais multiplicando mandatos, leis, preceitos. Jesus também vai às raízes da fé.

Possivelmente é a única vez que Jesus responde diretamente à pergunta, porque a considera interessante sincera. Significativamente, Jesus não apela aos dez mandamentos, mas à atitude central da experiência religiosa judaica: “Escuta, Israel! Amarás o Senhor teu Deus...” Ele não começa pelo sexto mandamento, nem pelo nono, que são mandamentos fundamentais para a imensa maioria dos cristãos; nem sequer pelo quinto (não matar) ou pelo sétimo (não roubar).

Jesus entende muito bem o que aquele homem sente. Quando na religião vão se acumulando normas e preceitos, costumes e ritos são fáceis viver dispersos, sem saber exatamente o que é fundamental para orientar a vida de maneira sadia. Algo disto acontece muito entre nós cristãos.

Jesus, diante da pergunta do escriba, atreveu-se a ir mais longe: há uma realidade em nossas vidas capaz de fazer emergir o melhor que há em todos nós, e é simplesmente o amor. E não há outra experiência de que mais necessitamos e que mais nos realiza como humanos como essa: “amar e ser amado”.

Comecemos pela experiência básica: no princípio não está o “faça isso”, nem o “amarás”, mas o “escuta”: acolha a voz de Deus! Só a partir dessa “escuta” se pode falar de amor a Deus e ao próximo.

“Escuta”: este é o princípio de todo mandamento. No fundo, esta expressão quer dizer: “não te feches, não faças de tua vida um espaço enclausurado, onde só se escutam tuas vozes e as vozes de teu mundo”. Para além do que fazemos ou pensamos, daquilo que desejamos e buscamos, estende-se o amplo campo da manifestação de Deus; abrir-nos à sua voz, manter ativa a atenção à sua presença, ser receptivos frente sua Palavra..., esse é o princípio e sentido do qual brota toda vida e todo mandamento.


2 – O que o texto diz para mim?
Cada ouvinte é um “tu” de Deus, chamado a responder-lhe com amor. Este amor que aqui se pede deve surgir como resposta: não é uma “obra” que o ser humano possa suscitar por si mesmo, mas um dinamismo pleno que brota ali onde cada ser humano acolhe a voz de Deus. 

Não pode responder quem não escutou; não pode amar quem não entrou no fluxo do amor de Deus, eleito por sua graça. Só porque Deus o chamou e o amou primeiro, é que o ser humano pode lhe responder.

Quando entro em sintonia e escuto o verdadeiro Deus, se desperta naturalmente em mim uma atração para o amor. O “mandamento do Amor” não é propriamente uma ordem ou imposição. É o que brota em mim ao abrir-nos ao Mistério último da vida. “Amarás”. O mandamento do Amor não é lei que se impõe a partir de fora; ele “emana” (mandamento) do nosso próprio interior, pois o Amor tem como Fonte o coração do próprio Deus. Amar Aquele que é a Fonte e a origem da vida é viver amando a vida, a criação e, sobretudo, as pessoas. Jesus fala do amar “com todo o coração, com toda a alma, com todo o ser”: sem mediocridade nem cálculos interesseiros, mas de maneira generosa e confiada.

O importante não é conhecer preceitos e cumpri-los. O decisivo é ME deter a escutar o Deus que ME fala ao coração, ativando a “faísca de amor” que aí está presente.

Nesta experiência, não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não preciso que alguém me diga a partir de fora. Sei que o essencial é amar. E isto basta!

De fato, só merece o nome de Amor àquele que brota a partir da mais profunda liberdade e sem outra motivação que a atração desse mesmo amor. “Palavra grande, realidade maior”, dizia S. Agostinho a respeito do amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nas duas tradições, judaica e cristã, o centro da pessoa é o coração. Amar é fazer tudo com o coração.

Fala do Amor Ágape que transborda, que nada pede em troca, que ama sem ter nada de particular para amar. É amor de pura gratuidade, como dom total de si mesmo. Não é motivado pelo valor do outro, ou pela recompensa que a outra possa trazer. 

Com efeito, neste caso não se ama o outro porque ele é bom, mas para que seja bom, já que o amor quer o bem do amado. “O amor é comunicação mútua de dons” (S. Inácio)

O amor ágape é expansivo: me alarga através dos meus membros, mãos e pés.

O Amor Ágape não é o amor que sacia minha sede, pois ele não nasce da minha sede, mas ele nasce da minha fonte que corre. Não é o amor da falta, da carência, mas é o amor da plenitude.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor,  posso dizer que o amor tem mãos e pés: mãos que cuidam, curam, abençoam... e pés que me arrancam de meus lugares rotineiros e me desloca para as margens, junto aos mais excluídos.

Uma das maiores razões para o Amor ser uma experiência de expansão se deve à sensação de imortalidade e eternidade que me proporciona. Quem ama vê o tempo se alargar e a vida ganhar mais sentido. 

Em outras palavras, o Amor traz em si a marca da eternidade, pois se trata da “faísca de Javé” colocado por Ele no coração do ser humano, impregnando toda a sua vida.

Quando o Amor me habita tudo se torna sagrado. Não há “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. “O amor é o que diz sim, em mim”: sim à vida, sim ao compromisso, sim à compaixão... É preciso encontrar dentro de mim este estado de “sim” ao que é. É necessário que eu  descubra  em meu interior, o sim mais profundo que se faz visível no amor oblativo.

Quando o amor me habita, tudo se torna sagrado; meus olhos se tornam contemplativos, ou seja, o olhar que libera o que há de melhor em mim e nos outros. Transforma-me  naquilo que olho e torna-me aquilo que amo. O amor é uma irradiação do meu ser.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A originalidade de Jesus é a de me revelar um amor horizontal no qual o movimento do eu em direção ao outro é reprodução e prolongamento do movimento de Deus em direção ao ser humano.

Este amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. Só se pode amar a Deus amando o próximo; do contrário, o amor a Deus é falso. Como vou amar o Pai sem amar os seus filhos e filhas?

O texto de hoje não só reafirma o amor ao próximo, mas, ao mesmo tempo, realça sua modalidade: “ame a seu próximo como a si mesmo”. O que significa amar o próximo “como a si mesmo”? 

É como se dissesse: “ame seu próximo, é você mesmo”; “esse amor ao próximo é você mesmo”; “ame o seu próximo, tudo isso é você mesmo”; “ame o seu próximo, porque o seu próximo é justamente como você mesmo”.

A medida do amor de Deus é não ter medida, ou seja, experiência de abertura infinita, pois Deus ultrapassa os limites e normas da humanidade. 

“Como a ti mesmo”: a medida do amor ao próximo é agora a do próprio amor: amar o outro como a mim mesmo, ou seja, senti-lo como “outro eu” a meu lado, fazendo de sua vida espaço e centro de minha própria vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  12,28-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Bem-aventuranças – fx 06 (03:43)
Autor: Frei Luis Turra
Intérprete: Coral Imaculada Coração
CD: Bem-aventurados os misericordiosos
Gravadora: Paulinas Comep

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