terça-feira, 23 de outubro de 2018

Leitura Orante – 30° Domingo Tempo Comum, 28 de outubro de 2018


Leitura Orante – 30° Domingo Tempo Comum, 28 de outubro de 2018

TECENDO OLHARES

“Rabuni, que eu volte a ver” (Mc 10,51)


Texto Bíblico: Marcos 10,46-52


1 – O que diz o texto?
Continuamos fazendo caminho com Jesus, rumo a Jerusalém. Estamos na última cena, antes de entrar na “cidade santa”, onde acontecerão os mistérios centrais da nossa fé: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. 

Detenham em alguns detalhes que o evangelista Marcos deixa transparecer no evangelho deste domingo, para uma maior assimilação do modo de ser e agir de Jesus.

O cego Bartimeu é o símbolo da marginalização: está fora do caminho, jogado na sarjeta, sem poder se locomover, percebendo como os outros vão passando por ele, dependendo deles, de suas esmolas e de seus cuidados, porque não podia fazer outra coisa. Trata-se de um homem na beira do caminho, que vive à custa da bondade ou da maldade dos outros e, na maioria das vezes, à mercê da indiferença de todos; um homem sem ofício nem benefício e sem serviços sociais que o sustentassem ou o acompanhassem; um ser humano de quem ninguém queria se aproximar porque era tido também como impuro; um cego sem companhia, sem possibilidade de ser amado, habitando na solidão física e psíquica, com o agravante de sentir-se julgado e culpado, sem possibilidade de defesa, porque a sentença já era pública.

Jesus é aquele que ouve, para e chama justamente aquele cego cujo grito perturbava e incomodava a “tranquilidade” da multidão que o seguia. Ele interrompe bruscamente a sua caminhada apressada para Jerusalém. Os dois ainda não se conheciam, mas era forte, em ambos, o desejo de se encontrar.

O cego levanta-se de um pulo, deixa de lado seu manto, sem hesitar: sua proteção, sua segurança, seu teto..., e entra na luz do olhar de Jesus. Sai de seu fechamento (o manto era considerado um prolongamento da pessoa); desfaz-se do que lhe trazia segurança e recupera sua dignidade: “pôs-se de pé”.


2 – O que o texto diz para mim?
A situação de Bartimeu já estava determinada, ou seja, a exclusão; ele aparece aqui como alguém consciente de sua situação desesperada, de seus limites e de que sozinho não poderia superá-los. Mas não fica resignado com sua situação; este é o ponto de partida. Daí o grito por compaixão, quando percebe que Jesus passa por perto. 

Como cego, não tem outro meio de chamar a atenção de Jesus senão gritando. Muitas pessoas próximas se irritam e o mandam calar a boca, mas ele o chama mais alto ainda. Ele investe toda sua força nessa oportunidade única e vai até Jesus, expressando assim sua alegria em encontrá-lo e em receber a sua ajuda.

Ao lhe perguntar - “o que queres que eu te faça?” Jesus está ativando o protagonismo no outro, estabelecendo um diálogo de tu a tu, sem intermediários, oferecendo-lhe a possibilidade de afirmar-se diante de alguém, de ter uma palavra que é escutada (não só um grito que se instala como música de fundo para os transeuntes indiferentes), de expressar os desejos de seu coração, de “empalavrar” suas aspirações e esperanças. O espaço de diálogo experimentado devolve ao cego a confiança, conecta com suas forças resilientes, lhe confere autonomia e o mobiliza a entrar no caminho de Jesus.

A capa que antes acompanhava o cego e o protegia, agora é abandonada. Fica lá, na beira da estrada, marcando o lugar da mudança. A imagem que ela representa é coisa do passado. A capa continua lá no mesmo lugar, mas Bartimeu, agora tomado pelo olhar de Jesus, é homem do caminho, discípulo, seguidor. Ao chamado de Jesus, reage dando um salto. Salta para um novo olhar, salta ainda mais para um novo ser. Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem do caminho, para a graça da vida de caminheiro solidário rumo à transformação.

Bartimeu viveu a experiência de uma profunda “travessia”: antes, cego e sentado à beira da estrada pedindo esmola; agora, com a visão recuperada, pode fazer a sua escolha: “e seguia Jesus pelo caminho”. Esta frase expressa mobilidade e proximidade. Depois da experiência do encontro com Jesus, Bartimeu passou da imobilidade ao movimento, da exclusão à inclusão, do afastamento à proximidade...

Para ele, a obscuridade se tornou luz; a marginalidade se tornou estrada; o estranho se tornou familiar; a liberdade se tornou gratidão; a exclusão se tornou seguimento...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao “fixar seu olhar” em mim, chamando-me pelo nome, serei movida a fazer eleições mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.

“Chamado-resposta” implica, pois, uma troca comprometedora de olhares. O olhar transparente e livre de Jesus ressuscita o meu olhar tímido e estreito e me capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... Seu olhar me predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que me permitam olhar e viver no contexto atual plural com amor, com entusiasmo e criatividade.

Preciso suplicar como o cego do relato de Marcos: “Rabuni, que eu volte a ver” para poder reconhecer e agradecer, descobrir portas onde antes via muros. Hoje sou afetada por muitas cegueiras: não vejo aqueles que economicamente não são contados, e há milhões de pessoas consideradas invisíveis.

Estou ameaçada pela cegueira da segurança, da intolerância, do preconceito..., e aqueles que são diferentes me parecem estranhos. As telas frias dos aparelhos eletrônicos tiram o brilho e o calor de meu olhar e petrificam o meu coração. Vivo cega pela pressa e pelo auto-centramento; e as rupturas humanas, as divisões e o ódio, embotam meus sentidos e me cegam a respeito de minha unidade essencial. 

É preciso deixar que o Evangelho e os outros vão me tirando as vendas, vão me curando a visão, vão me despertando para que eu possa chegar a ser uma pessoa de olhos grandes, que contemplam a vida em sua profundidade e em sua vulnerabilidade, e também em suas infinitas possibilidades.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sei que toda a realidade me entra pelas janelas de meus olhos. Cultivar a espiritualidade em minha vida cotidiana tem a ver com aprender a olhar de outra maneira, e aprender a observar sem qualificar, sem medir, sem emitir juízo, simplesmente, recebendo o que existe, deixando-o ser, dando-lhe espaço.

Uma visão sadia, é aquela que sabe ver o outro no melhor de si mesmo, em seu mistério único, em sua originalidade, em todo seu potencial latente ainda por acontecer; e que sabe também aceitar suas arestas, sua parte de sombra, sem rejeitar nada. Um olhar que descobre uma sensibilidade por debaixo da aparente aspereza, que reconhece a benção que se oculta por detrás da ferida. Um olhar amável e incondicional que oferece o espaço para que o eu existencial comece a se desatar e a vida possa fluir.

Que eu possa olhar através dos outros e ativar dentro de mim aquela bem-aventurança: “Ditosos vossos olhos porque veem” (Mt 13,16).

A oração é o ambiente natural para mobilizar-me, expandir meu olhar e preparar-me para o grande salto da vida: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Chegarei algum dia a aprender, como Jesus, a olhar através dos olhos dos simples e pequenos deste mundo...

Quando eu me abrir a outros olhares, quando eu chegar a poder olhar pelos olhos daqueles que estão em um lado da vida diferente do meu, expande-se em mim a capacidade de perceber e agradecer a realidade.

Meu modo de olhar depende do lugar onde piso: olhar burguês, olhar preconceituoso, olhar intolerante...

Fazer um pequeno exercício de “olhar a si mesmo” com o olhar do pobre, do excluído, daquele que pensa e sente diferente... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,46-52
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Um novo olhar sobre a cidade – fx 05 (02:28)
Letra e música: Pe. José de Freitas Campos
Solo: Ricardo Campos
Coro: Astúlio Nunes, Paulo R. Campos, Ricardo Gomes, Dalva Tenório, Claudia Ferrete, Vilma Faggioli
CD: As pedras falarão
Gravadora: Paulinas Comep

Nenhum comentário:

Postar um comentário