quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018


Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018

VIDA COM SABOR DE ETERNIDADE

“...que devo fazer para herdar a vida eterna”? (Mc 10,17)


Texto Bíblico: Marcos 10,17-31


1 – O que diz o texto?
Ao começar a narrar a cena do jovem rico, Marcos nos faz cair na conta que o encontro acontece quando “Jesus saiu caminhando”. O caminho é o lugar dos encontros surpreendentes, do diálogo com o diferente, da amplitude de vida... A itinerância é o modo próprio de Jesus viver e, portanto, também é a marca do discipulado.

Ao mover-se de um lugar a outro Jesus se põe em condições de acolher o outro, de deixar-se afetar por suas buscas e perguntas existenciais. Abandona os lugares seguros e corretos para dirigir-se, não só às margens da história, mas também ali onde estavam outros homens e mulheres com inquietações diferentes, com outras visões e experiências..., mas carentes de sentido.

“Ao sair caminhando, quando veio alguém correndo...”. O encontro dá-se no caminho de Jesus para Jerusalém, e o homem que vem à sua procura (no começo, Marcos não oferece nenhum outro dado sobre ele, deixando o “efeito surpresa” para o final), aproxima-se correndo, como que fustigado por uma urgência implacável, e se ajoelha diante de Jesus, com respeito, como se visse nele seu último recurso para encontrar resposta à pergunta que lhe angustia.

Não vem a Jesus como outros personagens, oprimidos pela enfermidade, mas sim a partir de uma inquietude interior: “o que fazer para herdar a vida eterna”? Não parece preocupá-lo a vida terrena, pois sua subsistência estava garantida; ele pergunta por uma vida definitiva, própria do mundo futuro: como evitar que a morte seja o fim de tudo? Quê fazer para “ganhar outra segurança”?

O espanto se apoderou do jovem: sentia-se diante de uma encruzilhada, na qual era convidado a deixar para trás todos os caminhos já frequentados, e adentrar-se em outro absolutamente novo e cheio de surpresas;  mudar o “modo de proceder e viver” que estava acostumado, desconectando-se de seus apegos às riquezas; atrever-se a crer numa palavra que afirmava que a vida plena, feliz e abundante que ele buscava, estava mais em deixar que em possuir; acolher o apelo para renunciar tudo aquilo que até esse momento, constituía sua segurança, e abrir-se a uma vida de partilha solidária....

Sentiu vertigem e se afastou devagarzinho, consciente de que os olhos do Mestre continuavam fixos nele, esperando talvez que fizesse meia volta.

Jesus, ao fixar seu olhar no interior do jovem, o desafiou a colocar-se “em movimento” (“vem comigo”), pronto para começar algo novo, uma nova existência que não lhe era familiar e que o faria percorrer caminhos desconhecidos, sendas que não sabia por onde o levavam, porque estava fora da sua “ bolha de conforto”, confirmada pelo seu grupo social e religioso. Jesus o convidou a fazer caminho com Ele.

No entanto, o jovem escolheu a estabilidade, o lugar que lhe era familiar e que lhe dava segurança. Atrofiou sua vida e esvaziou-a do sentido de eternidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Toda saída implica deixar para trás lugares conhecidos, experiências que funcionaram, certezas adquiridas, crenças, valores, referências fixas...; enfim, tomar distância daquilo que parece me dar mais segurança. Em outras palavras, toda saída, todo êxodo, implica uma profunda experiência de despojamento, um exercício para tornar leve a equipagem, uma confrontação com o novo e o diferente que, tantas vezes, assusta e provoca medo.

Meu estilo de vida cristã e minhas estruturas precisam de uma transformação, uma itinerância, que só acontece quando corro o risco de sair de minhas estufas mofadas e entrar nos novos espaços abertos, quando deixo os lugares seguros e percorro as ruas, ali onde acontece a vida das pessoas, procurando acolher todo o humano no coração.

Preciso transitar novas sendas, exercer uma sadia autocrítica com respeito a ideias, linguagens, estilos de vida, modos de compreender a fé, etc., que tenho recebido e nas quais me encontro segura e tranquila. Preciso passar de um olhar auto - referencial e moralizador a um olhar que corre o risco de encontrar-se com os olhos dos outros, dos diferentes, que se abra a novas aprendizagens e não tema as mudanças; de um olhar superficial a outro olhar capaz de perfurar a realidade até descobrir o Deus que “a todos dá a vida, respiração e tudo mais” (Atos 17,25)


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No evangelho deste domingo, o jovem expõe sua inquietude pela vida eterna em termos de posse (“ganhar”) e, em relação aos mandamentos, diz que os “observava”. Em sua resposta, Jesus emprega os mesmos termos, mas em outra direção: não naquela da posse ou da herança, mas naquela do despojamento, do desprendimento, do esvaziamento e da entrega... Isso é “o que lhe falta: vai, vende, dá, segue-me...”

Posso dizer que os evangelhos desvelam dois tipos de perguntas dirigidas a Jesus:

A primeira é: “Senhor, o que devo fazer para herdar a vida eterna”? Esta pergunta nunca sai da boca de um pobre, mas de quem já tem assegurada a vida terrena e, agora, preocupa-se com a “poupança celestial”. É o caso do doutor da lei, de Nicodemos, do homem rico... A resposta de Jesus é, no mínimo, irônica, pois brota de uma pergunta que visivelmente o incomodava.

A outra pergunta é bem diferente: “Senhor, o que devo fazer para ter vida nesta vida? Pois, sou cego e quero enxergar, tenho a mão seca e preciso trabalhar, sou paralítico e quero andar, minha filha está doente e quero vê-la curada...”

Em outras palavras, “o que devo fazer para ter vida em plenitude”? Esta pergunta só é feita pela boca dos pobres. Pobreza é estar ameaçado num direito fundamental de vida. A esses, Jesus respondia com seriedade e acolhida. Interessante como a espiritualidade de Jesus era a de quem gerava vida, sobretudo para aqueles que estavam ameaçados em sua vida, dom maior de Deus. Ativava a Vida nesta vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a inquietude do jovem estava centralizada na vida eterna, e Jesus responde apontando para esta vida, arrancando-a de um fatal “ponto morto”; diante de sua preocupação com o “além”, Jesus indica-lhe o “aquém”. O caminho para conseguir a outra vida (“um tesouro no céu”) passa necessariamente por uma maneira criativa e oblativa de usar os bens, tendo como horizonte de vida o mundo dos pobres.

“Uma coisa lhe faltava”, não para herdar a vida definitiva, mas para realizar em si mesmo o projeto de Deus, para encontrar a felicidade que não possuía e a plenitude à qual se sentia chamado. Todo acesso a um “tesouro no céu” passa por um modo concreto de “gerenciar” o tesouro que se possui aqui, ao estilo de Jesus (“depois, vem e segue-me”). Participar da vida de Deus, que é o que consiste a vida eterna, é participar em sua prodigalidade e em sua generosidade já nesta vida.

A nova sabedoria pede capacidade para deixar-se surpreender e que os “diferentes” irrompam em seu mundo, mudem seus ritmos, as dinâmicas, desestruturem seus tempos e seus espaços..., revirem seus modos de viver, pensar, sentir e fazer; requer que a vida deixe certezas herdadas, e esteja disposta a reinventar-se, quebrando “modos fechados” de ver o mundo, para depois reconstruí-los à luz de uma perspectiva mais ampla.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para identificar aquilo que sobra e que vai se tornando um “peso”, é bom tomar distância e considerar minha vida a partir de outra perspectiva. 

É preciso parar e atrever-me a acessar a esse recipiente vital aonde vou acumulando e me perguntar: quanto do que possuo faz tempo que não uso ou não preciso? 

Quanto do que ali vejo ocupa um lugar desnecessário? 

Quê encontro ali que não me enche de esperança? 

Se eu tiver que fazer limpeza, por onde começaria? 

No meu mundo interior, é necessário esvaziar para encher, tirar para deixar lugar para aquilo que é essencialmente importante e decisivo.

Colocar um pouco de ordem na minha mochila vital.

O que me está sobrando?

De verdade, de que eu quero preencher minha vida? 

Está minha vida cheia de Vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,17-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05 (04:25)
Autor e intérprete: Zé Vicente 
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep

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