quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Leitura Orante – Todos os santos, 04 de novembro de 2018


Leitura Orante – Todos os santos, 04 de novembro de 2018

BEM-AVENTURANÇAS: uma provocação ao mundo

“Regozijai-vos e alegrai-vos, porque grande é a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,12)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-11


1 – O que diz o texto?
No dia em que a Igreja faz memória de todos os Santos e Santas, a liturgia escolhe sabiamente o evangelho das Bem-aventuranças. A sabedoria deste texto, surpreendente e genial, está no fato de apresentar um projeto de realização total, de felicidade sem limites. O Evangelho que nos foi confiado é um programa de vida para alcançar a felicidade, a beatitude, a vida ditosa, prazerosa, bem-aventurada... 

Na boca de Jesus brilha sempre a palavra-chave: “Felizes”.

A primeira coisa que Jesus proclama e deseja para o ser humano é: “seja feliz, ditoso, bem-aventurado...”

Ele não faz referência às práticas religiosas, rituais, doutrinas, leis... mas à vida e vida plena, aberta e solidária, compassiva e justa, mansa e humilde...

As nove bem-aventuranças desvelam uma atitude para com os outros: a simplicidade de vida, o chorar com o outro, trabalhar pela justiça, viver misericordiosamente, ser perseguido por causa da justiça...., é centrar-se nos outros, acima dos próprios interesses.

No texto evangélico, a bem-aventurança ou beatitude tem o sentido de “estar em marcha”, de “estar a caminho”. “Bem-aventurança”, em hebraico, quer dizer “em marcha” e a infelicidade é estar imobilizado, parado sobre a própria imagem, parado sobre as memórias do passado, parado sobre o sofrimento...

Por isso a bem-aventurança consiste em dar um passo a mais. Esta é uma bela definição da “espiritualidade”, dar um passo a mais a partir do lugar onde estamos. Cada uma das bem-aventuranças é um convite para nos recolocar em marcha, a partir do caminho que já percorremos. Há ainda muito por caminhar.


2 – O que o texto diz para mim?
As palavras de Jesus nas Bem-aventuranças poderiam ser interpretadas no sentido em que Ele me convida a me colocar em movimento, a sair de minha paralisia e fixação; Ele me desperta para me colocar em marcha através de minha sede, de minha fome de justiça, através dos lutos que tenho de superar e das oposições que tenho de enfrentar...

Jesus me convida a viver uma felicidade que está em marcha.  A vida é movimento e as bem-aventuranças possibilitam a passagem de uma vida suportada para uma vida plenamente assumida.

As bem-aventuranças não são formuladas negativamente, nem na forma de um código moral, mas de maneira positiva e aberta. Elas são o compêndio do ministério de Jesus. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: “o Reino chegou”. 

Não é pura doutrina, mas estilo de vida, um modo de proceder. Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a “irrupção” da graça, do amor, da misericórdia, da justiça de Deus na história da humanidade. 

Porque tem a certeza de que chegou a “hora” de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama “felizes” os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus.

Os enunciados das bem-aventuranças soam à primeira vista como “idealistas”, “utópicas”, absolutamente irrealizáveis no mundo em que vivo. No entanto, pela sua provocação e questionamento, elas são a proposta mais realista, mais revolucionária e mais eficaz jamais pronunciada.

As bem-aventuranças são a exposição mais exigente e, ao mesmo tempo mais fascinante, da mensagem e da “intenção de Cristo”. Elas são a plenificação daquilo que é o mais humano.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Devo levar em conta também que as bem-aventuranças não são um “sim” de Deus à pobreza e ao sofrimento, mas um rotundo “não” de Deus às situações de injustiça, assegurando a todos o maior dom que eu poderia esperar, o seu Amor. Nele os pobres podem esperar ter confiança, não para um futuro distante, mas já, aqui e agora. Pode ser bem-aventurado aquele que chora, mas nunca aquele que faz chorar. 

Pode ser feliz aquele que passa fome, mas não aquele que é responsável pela fome dos outros. Buscar a felicidade nas seguranças terrenas é a melhor prova de que não se descobriu o amor de Deus. Mesmo nas piores circunstâncias imagináveis, as possibilidades de ser alguém, único e original, podem se fazer presentes.

Os Santos e as Santas são as testemunhas (martyria) da vida, ou seja, aqueles que, inspirados nas Bem-aventuranças, foram presenças inspiradoras no mundo, portadores de valores humanos e que construíram suas vidas sobre a rocha firme do amor incondicional e generoso; homens e mulheres que “viveram um caso de amor com a vida”. 

Esta é a vocação fundamental à qual sou toda chamada, enquanto seguidora de Jesus Cristo. 

Ser santo ou santa  é ser dócil para “deixar-se conduzir” pelos impulsos de Deus, por onde muitas vezes não sabem e não entendem. Seus caminhos não são os meus caminhos.

Este “deixar-me levar” pela mão providente de Deus é uma ousadia.

Na vida espiritual a liberdade tem que ser ousada, mas a maior ousadia é “deixar-se levar”.

“Deixar-se levar” é uma ousadia porque pressupõe a ação de Deus, um Deus que impulsiona e que impulsionará sem limites. É também uma ousadia porque a pessoa confia tranquila e descansadamente na força do Senhor que não falha. Ser santo ou santa é “arriscar-se” em Deus. É navegar no oceano da gratuidade, da compaixão, da solidariedade...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o apelo à santidade perpassa toda a história do cristianismo e chega até os meus dias. E o papa Francisco trata deste tema na Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate”, ou seja, o chamado à santidade no mundo atual. Numa cultura espiritualmente desnutrida, mas sequiosa de espiritualidade, como a minha, longe de ser um tema e um assunto fora de moda, a santidade, é um assunto pertinente. É preciso revela-la a uma humanidade cansada de novidades e sedenta de verdade. É preciso purificá-la de tantas ambiguidades, equívocos, mal-entendidos para que a santidade seja entendida como um programa de vida, acontecendo no altar da vida, encarnada em pessoas de carne e ossos.

Papa Francisco fala de santidade acontecendo “ao pé da porta” (cf. n. 7), sendo, por isso, o rosto mais belo da Igreja (n. 9). A santidade não é uma subida em direção às perfeições, mas uma descida em direção à própria humanidade e à humanidade dos outros. Ser santo ou santa é ser humano por excelência. E o caminho da santidade é, segundo o papa, transfigurar o cotidiano, resgatar o extraordinário em meio ao ordinário.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Rezar as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-me de viver a dinâmica das bem-aventuranças.

Ser presença visível das Bem-aventuranças no meu cotidiano.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Bem aventurados - fx 03 (02:55)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Leitura Orante – Finados, 02 de novembro de 2018


Leitura Orante – Finados, 02 de novembro de 2018

FINADOS: “Assim na Vida como na vida”

“Vinde, benditos de meu Pai!” (Mt 25,34)


Texto Bíblico: Mateus 25,31-46


1 – O que diz o texto?
Todos somos criaturas procedentes das entranhas d’Aquele que é Plenitude e Presença. Filhos e filhas de Deus, gerados pelos nossos pais, desde toda a Eternidade estamos em seu pensamento e em seu coração; daí nosso desejo de eternidade. Na Eternidade não há passado nem futuro, só Presente, aqui e agora. 

Ao nascer, começamos a existir, mas já estávamos na mente e no coração de Deus; existir é ser no tempo; ao morrer, deixamos de existir, mas não deixamos de ser. Usando uma expressão poética podemos dizer que “somos suspiros de amor de Deus” e, tal como as ondas do mar que beijam a praia e retornam ao oceano que as constituí assim nós também retornaremos à nossa Fonte original; seremos “aspirados” para dentro do coração oceânico do Deus Pai/Mãe.

Isso celebramos a cada 2 de novembro: a esperança de que aqueles que morreram, já vivem ressuscitados para a Vida de Deus. No “Dia de Finados”, nós cristãos recordamos (visitamos de novo com o coração), na oração e no afeto, aqueles e aquelas que amamos e que já deixaram este mundo. 

Apesar de sua ausência física, pela fé sabemos que a morte não tem nunca a última palavra. De fato, a morte é a passagem para a Vida, para sempre; a Vida que não terá fim, pois nosso Deus não é Deus de mortos, mas de vivos. Porque para Deus, todos vivem.   

Celebrar e recordar os falecidos a cada 02 de novembro e cada dia na eucaristia nos anima a viver a fé na Ressurreição e nos encher de esperança. 

A experiência cristã da morte parte de uma revelação básica: Deus não quer a morte, mas a vida, a vida plena para toda pessoa humana. “Tu perdoas a todos, porque são teus, Senhor, amigo da vida” (Sab. 11,26). Somos convidados à confiança em Deus, renunciando toda pretensão de querer controlar nossa existência; somos movidos a reconhecer que os momentos cruciais de nossa vida foram “dom de Deus”, mais que planificada construção nossa.

Morrer é o processo pelo qual nos “reintegramos” na Vida que sempre fomos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Sou vivente mortal e honro os meus mortos, aqueles cuja recordação ainda me afeta. Mas todos os mortos, grandes e pequenos, santos e pecadores, são meus, sou de todos eles, pois a mesma vida que me une na morte é a mesma morte me une na vida. O que eles ou elas foram à vida agora faz parte do que sou, e minha vida deve restaurar e completar o que eles não alcançaram viver. Nisso consiste honrar os mortos: em dar culto à vida, em cultivá-la, cuidá-la, curá-la neles e em mim.

Celebrar o dia de Finados é um ato de justiça para com os mortos. Os mortos também têm direitos e é bom que se reconheça isso. Vivo uma cultura que extingue o passado, obscurece o futuro e fica preso a um presente emocional vazio. Os mortos têm direito a que lhes agradeço sua vida e a marca original que me deixaram.

Celebrar e recordar aqueles que me precederam é negar à morte a última palavra, é afirmar que a Vida é a palavra definitiva; recordar aqueles com os quais convivo me faz viver a partir das raízes humanas, ancoradas em minha existência cotidiana. 

Não querer ver a morte de frente, ignorá-la, apagá-la de minha vida, fazê-la invisível..., é perder humanidade, é um autoengano sobre a condição humana frágil, banaliza-se a mesma vida que acaba não valendo nada. Quando a morte é “consumida” diariamente nos noticiários, só se ativam emotividades instantâneas que não levam a nada, ou a uma resignação estéril diante do que acontece.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todos nós morremos, mas há mortes e mortes. Na cultura da “pós-moderna líquida” a morte se apresenta como termo, ruptura e aniquilação. Somente os que não viveram seriamente, os que esbanjaram sua vida em caprichos e superficialidades, os que semearam dor e morte ao seu redor, os que asfixiaram a vida e não se importaram com os outros, tem medo de morrer.

Os que aceitaram sua vida e se atreveram a vivê-la seriamente, os que a viveram como dom que se entrega, aceitam sua morte e a esperam de modo sereno e livre, como o descanso devido depois de uma jornada trabalhosa e fecunda. Assim como a jornada cumprida devidamente dá alegria ao sonho, uma vida bem vivida dá alegria à morte. Porque a vida valeu a pena, também vale a pena morrer. 

Dia de Finados é ocasião privilegiada para confrontar a morte, como se faz com outros medos.

Devo contemplar meu fim último, familiarizar-me com ele, aprofundá-lo e analisá-lo, conversar com ele e descartar as aterrorizadoras distorções infantis sobre a morte.

Ao compreender, de verdade, minha condição humana – minha finitude, meu breve período de tempo sob a luz, não só passo a saborear a preciosidade de cada momento e o simples prazer de existir, como também intensifico minha compaixão por mim mesma e por todos os outros seres humanos.

Morre-se no instante da morte, como morre ao longo da vida. Este é o caminho normal de morrer. A presença da morte na existência não se veste de luto, mas de seriedade e irreversibilidade nas decisões. Uma vida pensada sem morte perde-se, no final, na total irresponsabilidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, penso que a morte é o contrário da vida e essa lógica é falsa. A vida é como uma moeda que tem duas faces: uma é o nascimento, a outra é a morte. É a vida que devo dar valor, não seus limites.

Diante da necessidade inata de recordar meus antepassados devo aproveitá-la para encontrar segurança e sentido em meu próprio mundo. A consciência de que sou o que sou, graças aos seres humanos que me precederam, é uma realidade inspiradora para o meu viver. Recordar os meus familiares falecidos e agradecer-lhes o que fizeram por mim me ajudará a fazer o mesmo por aqueles que caminham comigo.

Entrar em sintonia com os seres queridos mortos e que impulsiona a viver com maior intensidade a vida que ainda tenho em minhas mãos. O humano que eles me transmitiram deve potenciá-lo em mim para que o mundo vá se humanizando. Pelos mortos já não posso fazer nada, mas sua recordação me impulsiona para aqueles que vivem junto a mim. O maior elogio que se pode dizer de um ser humano é que, quando partiu, deixou o mundo um pouquinho melhor que quando chegou a ele. 

O grande teólogo Karl Rahner entendia a morte em chave de generosidade. Morrer,  escreveu ele: é “dar lugar” aos que virão depois, é meu último exercício de amor, responsabilidade e humildade. É, inclusive, meu derradeiro exercício de liberdade.

Preciso morrer, não só para que outros vivam, abrindo, com minha morte, um espaço para eles, mas também para que eu valorize a vida como presente recebido, que vou legando aos que vem, constituindo, assim, uma corrente de vida sempre mais expansiva.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O “depois da vida” é um grande encontro onde serei interrogada: “o quanto você viveu sua vida?”

“Fazer memória” das pessoas que viveram intensamente e deixaram “marcas” em minha vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 25,31-46
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Meu filho muito amado – fx11 (01:33)  
Autor: José Acácio Santana
Intérpretes: Coral Acorde Coração
CD: Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Leitura Orante – 31° Domingo Tempo Comum, 04 de novembro de 2018


Leitura Orante – 31° Domingo Tempo Comum, 04 de novembro de 2018

AMOR É O QUE DIZ “SIM” EM NÓS 

 “...amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração...
amarás o teu próximo como a ti mesmo”


Texto Bíblico: Marcos  12,28-34


1 – O que diz o texto?
Há perguntas que realmente não despertam nada; há perguntas maliciosas e capciosas que só buscam complicar o outro; mas há perguntas essenciais que despertam nosso “eu profundo”.

No evangelho deste domingo nos encontramos com alguém sincero que, como outros muitos, se vê enredado em meio a tantos mandamentos e preceitos que já não sabe por onde começar a caminhar.

Finalmente, alguém quer pôr as coisas em seu lugar; não quer ficar nos ramos, mas quer ir à raiz, ao verdadeiramente essencial. “Qual é o primeiro de todos os mandamentos”?

Jesus também não é daqueles que soluciona os problemas vitais multiplicando mandatos, leis, preceitos. Jesus também vai às raízes da fé.

Possivelmente é a única vez que Jesus responde diretamente à pergunta, porque a considera interessante sincera. Significativamente, Jesus não apela aos dez mandamentos, mas à atitude central da experiência religiosa judaica: “Escuta, Israel! Amarás o Senhor teu Deus...” Ele não começa pelo sexto mandamento, nem pelo nono, que são mandamentos fundamentais para a imensa maioria dos cristãos; nem sequer pelo quinto (não matar) ou pelo sétimo (não roubar).

Jesus entende muito bem o que aquele homem sente. Quando na religião vão se acumulando normas e preceitos, costumes e ritos são fáceis viver dispersos, sem saber exatamente o que é fundamental para orientar a vida de maneira sadia. Algo disto acontece muito entre nós cristãos.

Jesus, diante da pergunta do escriba, atreveu-se a ir mais longe: há uma realidade em nossas vidas capaz de fazer emergir o melhor que há em todos nós, e é simplesmente o amor. E não há outra experiência de que mais necessitamos e que mais nos realiza como humanos como essa: “amar e ser amado”.

Comecemos pela experiência básica: no princípio não está o “faça isso”, nem o “amarás”, mas o “escuta”: acolha a voz de Deus! Só a partir dessa “escuta” se pode falar de amor a Deus e ao próximo.

“Escuta”: este é o princípio de todo mandamento. No fundo, esta expressão quer dizer: “não te feches, não faças de tua vida um espaço enclausurado, onde só se escutam tuas vozes e as vozes de teu mundo”. Para além do que fazemos ou pensamos, daquilo que desejamos e buscamos, estende-se o amplo campo da manifestação de Deus; abrir-nos à sua voz, manter ativa a atenção à sua presença, ser receptivos frente sua Palavra..., esse é o princípio e sentido do qual brota toda vida e todo mandamento.


2 – O que o texto diz para mim?
Cada ouvinte é um “tu” de Deus, chamado a responder-lhe com amor. Este amor que aqui se pede deve surgir como resposta: não é uma “obra” que o ser humano possa suscitar por si mesmo, mas um dinamismo pleno que brota ali onde cada ser humano acolhe a voz de Deus. 

Não pode responder quem não escutou; não pode amar quem não entrou no fluxo do amor de Deus, eleito por sua graça. Só porque Deus o chamou e o amou primeiro, é que o ser humano pode lhe responder.

Quando entro em sintonia e escuto o verdadeiro Deus, se desperta naturalmente em mim uma atração para o amor. O “mandamento do Amor” não é propriamente uma ordem ou imposição. É o que brota em mim ao abrir-nos ao Mistério último da vida. “Amarás”. O mandamento do Amor não é lei que se impõe a partir de fora; ele “emana” (mandamento) do nosso próprio interior, pois o Amor tem como Fonte o coração do próprio Deus. Amar Aquele que é a Fonte e a origem da vida é viver amando a vida, a criação e, sobretudo, as pessoas. Jesus fala do amar “com todo o coração, com toda a alma, com todo o ser”: sem mediocridade nem cálculos interesseiros, mas de maneira generosa e confiada.

O importante não é conhecer preceitos e cumpri-los. O decisivo é ME deter a escutar o Deus que ME fala ao coração, ativando a “faísca de amor” que aí está presente.

Nesta experiência, não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não preciso que alguém me diga a partir de fora. Sei que o essencial é amar. E isto basta!

De fato, só merece o nome de Amor àquele que brota a partir da mais profunda liberdade e sem outra motivação que a atração desse mesmo amor. “Palavra grande, realidade maior”, dizia S. Agostinho a respeito do amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nas duas tradições, judaica e cristã, o centro da pessoa é o coração. Amar é fazer tudo com o coração.

Fala do Amor Ágape que transborda, que nada pede em troca, que ama sem ter nada de particular para amar. É amor de pura gratuidade, como dom total de si mesmo. Não é motivado pelo valor do outro, ou pela recompensa que a outra possa trazer. 

Com efeito, neste caso não se ama o outro porque ele é bom, mas para que seja bom, já que o amor quer o bem do amado. “O amor é comunicação mútua de dons” (S. Inácio)

O amor ágape é expansivo: me alarga através dos meus membros, mãos e pés.

O Amor Ágape não é o amor que sacia minha sede, pois ele não nasce da minha sede, mas ele nasce da minha fonte que corre. Não é o amor da falta, da carência, mas é o amor da plenitude.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor,  posso dizer que o amor tem mãos e pés: mãos que cuidam, curam, abençoam... e pés que me arrancam de meus lugares rotineiros e me desloca para as margens, junto aos mais excluídos.

Uma das maiores razões para o Amor ser uma experiência de expansão se deve à sensação de imortalidade e eternidade que me proporciona. Quem ama vê o tempo se alargar e a vida ganhar mais sentido. 

Em outras palavras, o Amor traz em si a marca da eternidade, pois se trata da “faísca de Javé” colocado por Ele no coração do ser humano, impregnando toda a sua vida.

Quando o Amor me habita tudo se torna sagrado. Não há “Terra Santa”, há uma maneira santa de caminhar sobre a terra. “O amor é o que diz sim, em mim”: sim à vida, sim ao compromisso, sim à compaixão... É preciso encontrar dentro de mim este estado de “sim” ao que é. É necessário que eu  descubra  em meu interior, o sim mais profundo que se faz visível no amor oblativo.

Quando o amor me habita, tudo se torna sagrado; meus olhos se tornam contemplativos, ou seja, o olhar que libera o que há de melhor em mim e nos outros. Transforma-me  naquilo que olho e torna-me aquilo que amo. O amor é uma irradiação do meu ser.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A originalidade de Jesus é a de me revelar um amor horizontal no qual o movimento do eu em direção ao outro é reprodução e prolongamento do movimento de Deus em direção ao ser humano.

Este amor a Deus é inseparável do amor ao próximo. Só se pode amar a Deus amando o próximo; do contrário, o amor a Deus é falso. Como vou amar o Pai sem amar os seus filhos e filhas?

O texto de hoje não só reafirma o amor ao próximo, mas, ao mesmo tempo, realça sua modalidade: “ame a seu próximo como a si mesmo”. O que significa amar o próximo “como a si mesmo”? 

É como se dissesse: “ame seu próximo, é você mesmo”; “esse amor ao próximo é você mesmo”; “ame o seu próximo, tudo isso é você mesmo”; “ame o seu próximo, porque o seu próximo é justamente como você mesmo”.

A medida do amor de Deus é não ter medida, ou seja, experiência de abertura infinita, pois Deus ultrapassa os limites e normas da humanidade. 

“Como a ti mesmo”: a medida do amor ao próximo é agora a do próprio amor: amar o outro como a mim mesmo, ou seja, senti-lo como “outro eu” a meu lado, fazendo de sua vida espaço e centro de minha própria vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  12,28-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Bem-aventuranças – fx 06 (03:43)
Autor: Frei Luis Turra
Intérprete: Coral Imaculada Coração
CD: Bem-aventurados os misericordiosos
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Leitura Orante – 30° Domingo Tempo Comum, 28 de outubro de 2018


Leitura Orante – 30° Domingo Tempo Comum, 28 de outubro de 2018

TECENDO OLHARES

“Rabuni, que eu volte a ver” (Mc 10,51)


Texto Bíblico: Marcos 10,46-52


1 – O que diz o texto?
Continuamos fazendo caminho com Jesus, rumo a Jerusalém. Estamos na última cena, antes de entrar na “cidade santa”, onde acontecerão os mistérios centrais da nossa fé: Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. 

Detenham em alguns detalhes que o evangelista Marcos deixa transparecer no evangelho deste domingo, para uma maior assimilação do modo de ser e agir de Jesus.

O cego Bartimeu é o símbolo da marginalização: está fora do caminho, jogado na sarjeta, sem poder se locomover, percebendo como os outros vão passando por ele, dependendo deles, de suas esmolas e de seus cuidados, porque não podia fazer outra coisa. Trata-se de um homem na beira do caminho, que vive à custa da bondade ou da maldade dos outros e, na maioria das vezes, à mercê da indiferença de todos; um homem sem ofício nem benefício e sem serviços sociais que o sustentassem ou o acompanhassem; um ser humano de quem ninguém queria se aproximar porque era tido também como impuro; um cego sem companhia, sem possibilidade de ser amado, habitando na solidão física e psíquica, com o agravante de sentir-se julgado e culpado, sem possibilidade de defesa, porque a sentença já era pública.

Jesus é aquele que ouve, para e chama justamente aquele cego cujo grito perturbava e incomodava a “tranquilidade” da multidão que o seguia. Ele interrompe bruscamente a sua caminhada apressada para Jerusalém. Os dois ainda não se conheciam, mas era forte, em ambos, o desejo de se encontrar.

O cego levanta-se de um pulo, deixa de lado seu manto, sem hesitar: sua proteção, sua segurança, seu teto..., e entra na luz do olhar de Jesus. Sai de seu fechamento (o manto era considerado um prolongamento da pessoa); desfaz-se do que lhe trazia segurança e recupera sua dignidade: “pôs-se de pé”.


2 – O que o texto diz para mim?
A situação de Bartimeu já estava determinada, ou seja, a exclusão; ele aparece aqui como alguém consciente de sua situação desesperada, de seus limites e de que sozinho não poderia superá-los. Mas não fica resignado com sua situação; este é o ponto de partida. Daí o grito por compaixão, quando percebe que Jesus passa por perto. 

Como cego, não tem outro meio de chamar a atenção de Jesus senão gritando. Muitas pessoas próximas se irritam e o mandam calar a boca, mas ele o chama mais alto ainda. Ele investe toda sua força nessa oportunidade única e vai até Jesus, expressando assim sua alegria em encontrá-lo e em receber a sua ajuda.

Ao lhe perguntar - “o que queres que eu te faça?” Jesus está ativando o protagonismo no outro, estabelecendo um diálogo de tu a tu, sem intermediários, oferecendo-lhe a possibilidade de afirmar-se diante de alguém, de ter uma palavra que é escutada (não só um grito que se instala como música de fundo para os transeuntes indiferentes), de expressar os desejos de seu coração, de “empalavrar” suas aspirações e esperanças. O espaço de diálogo experimentado devolve ao cego a confiança, conecta com suas forças resilientes, lhe confere autonomia e o mobiliza a entrar no caminho de Jesus.

A capa que antes acompanhava o cego e o protegia, agora é abandonada. Fica lá, na beira da estrada, marcando o lugar da mudança. A imagem que ela representa é coisa do passado. A capa continua lá no mesmo lugar, mas Bartimeu, agora tomado pelo olhar de Jesus, é homem do caminho, discípulo, seguidor. Ao chamado de Jesus, reage dando um salto. Salta para um novo olhar, salta ainda mais para um novo ser. Salta da vida sem graça, limitada a pedinte da margem do caminho, para a graça da vida de caminheiro solidário rumo à transformação.

Bartimeu viveu a experiência de uma profunda “travessia”: antes, cego e sentado à beira da estrada pedindo esmola; agora, com a visão recuperada, pode fazer a sua escolha: “e seguia Jesus pelo caminho”. Esta frase expressa mobilidade e proximidade. Depois da experiência do encontro com Jesus, Bartimeu passou da imobilidade ao movimento, da exclusão à inclusão, do afastamento à proximidade...

Para ele, a obscuridade se tornou luz; a marginalidade se tornou estrada; o estranho se tornou familiar; a liberdade se tornou gratidão; a exclusão se tornou seguimento...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao “fixar seu olhar” em mim, chamando-me pelo nome, serei movida a fazer eleições mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e de fazer do próprio Jesus.

“Chamado-resposta” implica, pois, uma troca comprometedora de olhares. O olhar transparente e livre de Jesus ressuscita o meu olhar tímido e estreito e me capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... Seu olhar me predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que me permitam olhar e viver no contexto atual plural com amor, com entusiasmo e criatividade.

Preciso suplicar como o cego do relato de Marcos: “Rabuni, que eu volte a ver” para poder reconhecer e agradecer, descobrir portas onde antes via muros. Hoje sou afetada por muitas cegueiras: não vejo aqueles que economicamente não são contados, e há milhões de pessoas consideradas invisíveis.

Estou ameaçada pela cegueira da segurança, da intolerância, do preconceito..., e aqueles que são diferentes me parecem estranhos. As telas frias dos aparelhos eletrônicos tiram o brilho e o calor de meu olhar e petrificam o meu coração. Vivo cega pela pressa e pelo auto-centramento; e as rupturas humanas, as divisões e o ódio, embotam meus sentidos e me cegam a respeito de minha unidade essencial. 

É preciso deixar que o Evangelho e os outros vão me tirando as vendas, vão me curando a visão, vão me despertando para que eu possa chegar a ser uma pessoa de olhos grandes, que contemplam a vida em sua profundidade e em sua vulnerabilidade, e também em suas infinitas possibilidades.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sei que toda a realidade me entra pelas janelas de meus olhos. Cultivar a espiritualidade em minha vida cotidiana tem a ver com aprender a olhar de outra maneira, e aprender a observar sem qualificar, sem medir, sem emitir juízo, simplesmente, recebendo o que existe, deixando-o ser, dando-lhe espaço.

Uma visão sadia, é aquela que sabe ver o outro no melhor de si mesmo, em seu mistério único, em sua originalidade, em todo seu potencial latente ainda por acontecer; e que sabe também aceitar suas arestas, sua parte de sombra, sem rejeitar nada. Um olhar que descobre uma sensibilidade por debaixo da aparente aspereza, que reconhece a benção que se oculta por detrás da ferida. Um olhar amável e incondicional que oferece o espaço para que o eu existencial comece a se desatar e a vida possa fluir.

Que eu possa olhar através dos outros e ativar dentro de mim aquela bem-aventurança: “Ditosos vossos olhos porque veem” (Mt 13,16).

A oração é o ambiente natural para mobilizar-me, expandir meu olhar e preparar-me para o grande salto da vida: um novo projeto, um novo compromisso, uma nova missão...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Chegarei algum dia a aprender, como Jesus, a olhar através dos olhos dos simples e pequenos deste mundo...

Quando eu me abrir a outros olhares, quando eu chegar a poder olhar pelos olhos daqueles que estão em um lado da vida diferente do meu, expande-se em mim a capacidade de perceber e agradecer a realidade.

Meu modo de olhar depende do lugar onde piso: olhar burguês, olhar preconceituoso, olhar intolerante...

Fazer um pequeno exercício de “olhar a si mesmo” com o olhar do pobre, do excluído, daquele que pensa e sente diferente... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,46-52
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Um novo olhar sobre a cidade – fx 05 (02:28)
Letra e música: Pe. José de Freitas Campos
Solo: Ricardo Campos
Coro: Astúlio Nunes, Paulo R. Campos, Ricardo Gomes, Dalva Tenório, Claudia Ferrete, Vilma Faggioli
CD: As pedras falarão
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Leitura Orante – 29° Domingo Tempo Comum, 21 de outubro de 2018


Leitura Orante – 29° Domingo Tempo Comum, 21 de outubro de 2018

IGREJA: comunidade de servidores

“Aquele dentre vós que quiser tornar-se grande seja vosso servidor” (Mc 10,43)


Texto Bíblico: Marcos 10,35-45


1 – O que diz o texto?
Jesus segue o caminho para Jerusalém; enquanto isso, vai revelando aos seus discípulos as consequências de sua entrega em favor dos últimos e excluídos. Pois, todo aquele que investe sua vida a serviço da vida, sempre encontrará oposições, perseguições e morte.

Marcos, ao anunciar três vezes a paixão de Jesus, está revelando o preço da fidelidade ao Reino de Vida. Ao descrever, depois de cada anúncio, a resistência e a incompreensão dos discípulos, está nos advertindo sobre a dificuldade do verdadeiro seguimento. Depois do primeiro anúncio, Pedro quer desviar Jesus do caminho de fidelidade que o levará à Cruz e morte; depois do segundo, os discípulos continuam discutindo quem era o maior entre eles.

Hoje, no terceiro anúncio da paixão, os dois irmãos, Tiago e João, pretendem sentar-se, um à direita e outro à esquerda de Jesus, no seu Reino, Não há maior contraste entre a atitude do Mestre e a de seus seguidores; estão em diferentes amplitudes de onda.

Os outros dez se indignaram. Esta reação é apenas um sinal de que todos estavam na mesma dinâmica. Os outros discípulos tinham as mesmas ambições dos dois irmãos, mas eram covardes e não tinham a coragem de manifestá-las. Também no protesto pelo que o outro faz podemos manifestar o desejo de fazer o mesmo. Como a imensa maioria dos cristãos, continuamos tentando manipular Deus em nosso proveito.

Embora manifestem o desejo de caminhar com Jesus, Tiago e João deixam transparecer que carrega no coração o impulso para dominar e impor-se sobre os outros. Esta busca de poder destrói a paz e as relações entre os membros de uma comunidade que se diz seguidora daquele que não buscou o poder, mas o serviço. 

Todos temos algo ou muito dos “filhos de Zebedeu” em nosso interior. Quanta afetividade mal resolvida procura se satisfazer com doses de poder! Essas doses na veia existencial é a morfina para acalmar problemas mais profundos. Os sedativos não curam nada, mas nos deixam anestesiados.

Quanto mais desintegrada a afetividade, mais despóticos e tirânicos nos tornamos. Os fanatismos, as intolerâncias, a violência e o ódio, o afã de se impor sobre os outros..., tem sua incubadora em uma afetividade não ou mal resolvida. Mesmo quando, na prática, não temos chances de exercer o poder, nos projetamos e nos identificamos com alguém que visibiliza as mazelas de nossa interioridade não integrada.

Todos somos chamados à revolução do serviço, crentes e não crente, de todas as religiões e culturas. Coloquemos a serviço da vida os dons particulares, as habilidades, a profissão, os estudos, a sabedoria herdada de nossos antepassados, a capacidade de denúncia diante dos abusos, a luta contra a corrupção e a hipocrisia, a violência e o ódio.

Como cristãos, somos chamados a um “serviço amoroso”, gerador de vida e vida em plenitude.


2 – O que o texto diz para mim?
Seguindo a linha do profetismo crítico, Jesus desmascara a trama oculta da busca do poder: “Sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”. Dessa forma alude a uma conduta que, a seu juízo, é clara entre os poderosos deste mundo.

Jesus apostou na vida de todos os seres humanos e não se deixou subornar por nenhum poder destruidor de vidas. Ele convidou ao serviço e à solidariedade como novidade radical.

Sua fidelidade ao Reino se tornou transparente e iluminadora no seu ministério em favor da vida.

O Deus que Ele nos revelou é o Deus que se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo. Não é o Deus do poder absoluto, nem o Deus que exige obediência e submissão àqueles que se apresentam como representantes do divino.

O Deus de Jesus é o Deus que responde e correspondem aos anseios de respeito, dignidade e felicidade, que todos trazem inscritos no sangue de suas vidas e nos sentimentos mais autênticos e nobres. 

O Deus Misericordioso não impulsiona ninguém a desejar poderes, por mais nobres que pareçam ser. Ele é o Deus que só legitima a identificação e até a fusão com o destino das vítimas deste mundo.

Por isso, os discípulos de Jesus (e toda a Igreja) devem renunciar toda expressão de poder, os métodos de força, imposição e domínio que os poderosos deste mundo exercem sobre as pessoas. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não há, para Jesus, um poder mau (próprio dos tiranos) e outro bom (que seria próprio de seus discípulos). Todo poder é, no fundo, destruidor, toda imposição é má. Por isso, Jesus não quer melhorar o poder (convertê-lo), mas superá-lo na raiz, isto é, não deixar que ele se manifeste.

Jesus não veio fundar hierarquias entendidas em chave de honra, poder e prioridade social ou espiritual. Ele iniciou, sim, um movimento humanizador, onde o poder não tem lugar. A partir daqui, é que se entende seu apelo ao seguimento, que implica uma inversão a respeito da ordem antiga: o poder (desejo de domínio) deve tornar-se gratuidade, gesto de amor desinteressado pelos outros, serviço comprometido...

Os discípulos tiveram dificuldades em compreender que o Seguimento passa pela implicação pessoal na solidariedade com as minorias e excluídos, pela denúncia do poder dominador e manipulador, gerador de morte. Eles queriam um líder triunfador que dividisse o poder com eles; por isso, lhes custou crer que a marca do Mestre de Nazaré é a vida que se doa para que o outro viva.

Ao colocar-se nessa atitude de serviço em relação ao mundo, a comunidade dos(as) seguidores(as) espelha-se em seu Senhor, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida por todos. Estar a serviço é uma atitude gratuita que brota do amor, que faz a pessoa “sair” de si mesma e ir ao encontro do outro; coloca seu centro de atenção não em si, mas no outro e na coletividade, visando o bem de todos. 

A atitude do serviço é o oposto do egoísmo autorreferencial, que leva o indivíduo a viver somente para si, tendo em vista os próprios interesses. O caminho do Seguimento de Jesus desconstrói essa lógica rasteira do egoísmo interesseiro e descortina perspectivas novas que, pela doação de si no serviço generoso, abrem os horizontes da pessoa para o verdadeiro sentido da vida e da realização humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Amar servindo e servir amando: este é o sentido de minha missão cristã.

Senhor, tal amor e espírito de serviço concretizaram-se na generosa doação de tantos cristãos que, ao longo dos séculos, ofereceram e continuam oferecendo a vida a serviço dos outros em hospitais, creches, orfanatos, asilos, escolas, universidades, e numa infinidade de projetos e pastorais que atendem, sobretudo aos mais necessitados. Assim, a Igreja presta serviço formando gerações, influenciando culturas, salvando vidas, infundindo e consolidando valores em meio à sociedade onde se situa.

Jesus, com seu modo original de ser e viver me coloca diante da tentação que sempre me ameaça: o gosto do poder, da comodidade, das pompas, do querer ser como os “chefes das nações”, de ter privilégios, de ser servido. Sua proposta de vida é de uma sabedoria e de uma humanidade finíssima; seu horizonte é o serviço.

Mudar poder por serviço é a chave. A partir do serviço, a hipocrisia e a corrupção do poder se estatelam contra o solo; o serviço me situa e situa a todos no mesmo nível, o horizontal: ninguém é mais que ninguém. Aclarando que serviço não é servilismo, que é do que se vale qualquer poder. 

Jesus propõe o serviço como uma verdadeira revolução e é Ele quem dá o primeiro passo, rompendo esquemas, indicando que o caminho não é o poder que se impõe, mas a “descida” solidária.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sou chamada à revolução do serviço.

Colocar a serviço da vida os dons particulares, as habilidades, a profissão, os estudos, a sabedoria herdada de meus antepassados, a capacidade de denúncia diante dos abusos, a luta contra a corrupção e a hipocrisia, a violência e o ódio.

Como cristã, sou chamada a um “serviço amoroso”, gerador de vida e vida em plenitude.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,35-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tuas palavras passam ao largo – fx 04 (04:21)
Autor e intérprete: Antonio Cardoso
CD: Uma casa iluminada por Jesus
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018


Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018

VIDA COM SABOR DE ETERNIDADE

“...que devo fazer para herdar a vida eterna”? (Mc 10,17)


Texto Bíblico: Marcos 10,17-31


1 – O que diz o texto?
Ao começar a narrar a cena do jovem rico, Marcos nos faz cair na conta que o encontro acontece quando “Jesus saiu caminhando”. O caminho é o lugar dos encontros surpreendentes, do diálogo com o diferente, da amplitude de vida... A itinerância é o modo próprio de Jesus viver e, portanto, também é a marca do discipulado.

Ao mover-se de um lugar a outro Jesus se põe em condições de acolher o outro, de deixar-se afetar por suas buscas e perguntas existenciais. Abandona os lugares seguros e corretos para dirigir-se, não só às margens da história, mas também ali onde estavam outros homens e mulheres com inquietações diferentes, com outras visões e experiências..., mas carentes de sentido.

“Ao sair caminhando, quando veio alguém correndo...”. O encontro dá-se no caminho de Jesus para Jerusalém, e o homem que vem à sua procura (no começo, Marcos não oferece nenhum outro dado sobre ele, deixando o “efeito surpresa” para o final), aproxima-se correndo, como que fustigado por uma urgência implacável, e se ajoelha diante de Jesus, com respeito, como se visse nele seu último recurso para encontrar resposta à pergunta que lhe angustia.

Não vem a Jesus como outros personagens, oprimidos pela enfermidade, mas sim a partir de uma inquietude interior: “o que fazer para herdar a vida eterna”? Não parece preocupá-lo a vida terrena, pois sua subsistência estava garantida; ele pergunta por uma vida definitiva, própria do mundo futuro: como evitar que a morte seja o fim de tudo? Quê fazer para “ganhar outra segurança”?

O espanto se apoderou do jovem: sentia-se diante de uma encruzilhada, na qual era convidado a deixar para trás todos os caminhos já frequentados, e adentrar-se em outro absolutamente novo e cheio de surpresas;  mudar o “modo de proceder e viver” que estava acostumado, desconectando-se de seus apegos às riquezas; atrever-se a crer numa palavra que afirmava que a vida plena, feliz e abundante que ele buscava, estava mais em deixar que em possuir; acolher o apelo para renunciar tudo aquilo que até esse momento, constituía sua segurança, e abrir-se a uma vida de partilha solidária....

Sentiu vertigem e se afastou devagarzinho, consciente de que os olhos do Mestre continuavam fixos nele, esperando talvez que fizesse meia volta.

Jesus, ao fixar seu olhar no interior do jovem, o desafiou a colocar-se “em movimento” (“vem comigo”), pronto para começar algo novo, uma nova existência que não lhe era familiar e que o faria percorrer caminhos desconhecidos, sendas que não sabia por onde o levavam, porque estava fora da sua “ bolha de conforto”, confirmada pelo seu grupo social e religioso. Jesus o convidou a fazer caminho com Ele.

No entanto, o jovem escolheu a estabilidade, o lugar que lhe era familiar e que lhe dava segurança. Atrofiou sua vida e esvaziou-a do sentido de eternidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Toda saída implica deixar para trás lugares conhecidos, experiências que funcionaram, certezas adquiridas, crenças, valores, referências fixas...; enfim, tomar distância daquilo que parece me dar mais segurança. Em outras palavras, toda saída, todo êxodo, implica uma profunda experiência de despojamento, um exercício para tornar leve a equipagem, uma confrontação com o novo e o diferente que, tantas vezes, assusta e provoca medo.

Meu estilo de vida cristã e minhas estruturas precisam de uma transformação, uma itinerância, que só acontece quando corro o risco de sair de minhas estufas mofadas e entrar nos novos espaços abertos, quando deixo os lugares seguros e percorro as ruas, ali onde acontece a vida das pessoas, procurando acolher todo o humano no coração.

Preciso transitar novas sendas, exercer uma sadia autocrítica com respeito a ideias, linguagens, estilos de vida, modos de compreender a fé, etc., que tenho recebido e nas quais me encontro segura e tranquila. Preciso passar de um olhar auto - referencial e moralizador a um olhar que corre o risco de encontrar-se com os olhos dos outros, dos diferentes, que se abra a novas aprendizagens e não tema as mudanças; de um olhar superficial a outro olhar capaz de perfurar a realidade até descobrir o Deus que “a todos dá a vida, respiração e tudo mais” (Atos 17,25)


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No evangelho deste domingo, o jovem expõe sua inquietude pela vida eterna em termos de posse (“ganhar”) e, em relação aos mandamentos, diz que os “observava”. Em sua resposta, Jesus emprega os mesmos termos, mas em outra direção: não naquela da posse ou da herança, mas naquela do despojamento, do desprendimento, do esvaziamento e da entrega... Isso é “o que lhe falta: vai, vende, dá, segue-me...”

Posso dizer que os evangelhos desvelam dois tipos de perguntas dirigidas a Jesus:

A primeira é: “Senhor, o que devo fazer para herdar a vida eterna”? Esta pergunta nunca sai da boca de um pobre, mas de quem já tem assegurada a vida terrena e, agora, preocupa-se com a “poupança celestial”. É o caso do doutor da lei, de Nicodemos, do homem rico... A resposta de Jesus é, no mínimo, irônica, pois brota de uma pergunta que visivelmente o incomodava.

A outra pergunta é bem diferente: “Senhor, o que devo fazer para ter vida nesta vida? Pois, sou cego e quero enxergar, tenho a mão seca e preciso trabalhar, sou paralítico e quero andar, minha filha está doente e quero vê-la curada...”

Em outras palavras, “o que devo fazer para ter vida em plenitude”? Esta pergunta só é feita pela boca dos pobres. Pobreza é estar ameaçado num direito fundamental de vida. A esses, Jesus respondia com seriedade e acolhida. Interessante como a espiritualidade de Jesus era a de quem gerava vida, sobretudo para aqueles que estavam ameaçados em sua vida, dom maior de Deus. Ativava a Vida nesta vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a inquietude do jovem estava centralizada na vida eterna, e Jesus responde apontando para esta vida, arrancando-a de um fatal “ponto morto”; diante de sua preocupação com o “além”, Jesus indica-lhe o “aquém”. O caminho para conseguir a outra vida (“um tesouro no céu”) passa necessariamente por uma maneira criativa e oblativa de usar os bens, tendo como horizonte de vida o mundo dos pobres.

“Uma coisa lhe faltava”, não para herdar a vida definitiva, mas para realizar em si mesmo o projeto de Deus, para encontrar a felicidade que não possuía e a plenitude à qual se sentia chamado. Todo acesso a um “tesouro no céu” passa por um modo concreto de “gerenciar” o tesouro que se possui aqui, ao estilo de Jesus (“depois, vem e segue-me”). Participar da vida de Deus, que é o que consiste a vida eterna, é participar em sua prodigalidade e em sua generosidade já nesta vida.

A nova sabedoria pede capacidade para deixar-se surpreender e que os “diferentes” irrompam em seu mundo, mudem seus ritmos, as dinâmicas, desestruturem seus tempos e seus espaços..., revirem seus modos de viver, pensar, sentir e fazer; requer que a vida deixe certezas herdadas, e esteja disposta a reinventar-se, quebrando “modos fechados” de ver o mundo, para depois reconstruí-los à luz de uma perspectiva mais ampla.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para identificar aquilo que sobra e que vai se tornando um “peso”, é bom tomar distância e considerar minha vida a partir de outra perspectiva. 

É preciso parar e atrever-me a acessar a esse recipiente vital aonde vou acumulando e me perguntar: quanto do que possuo faz tempo que não uso ou não preciso? 

Quanto do que ali vejo ocupa um lugar desnecessário? 

Quê encontro ali que não me enche de esperança? 

Se eu tiver que fazer limpeza, por onde começaria? 

No meu mundo interior, é necessário esvaziar para encher, tirar para deixar lugar para aquilo que é essencialmente importante e decisivo.

Colocar um pouco de ordem na minha mochila vital.

O que me está sobrando?

De verdade, de que eu quero preencher minha vida? 

Está minha vida cheia de Vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,17-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05 (04:25)
Autor e intérprete: Zé Vicente 
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep