segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Leitura Orante – 23° Domingo Tempo Comum, 09 de setembro de 2018


Leitura Orante – 23° Domingo Tempo Comum, 09 de setembro de 2018

ABRIR OS SENTIDOS PARA O ENCONTRO

“Jesus saído novamente dos territórios de Tiro, 
veio por Sidônia para o mar da Galiléia... (Mc 7,31)


Texto Bíblico: Marcos 7,31-37


1 – O que diz o texto?
Uma imagem constante no evangelho de Marcos: Jesus, portador da Vida, é um itinerante; rompe os espaços geográficos – culturais - religiosos e transita com muita liberdade pelo território pagão. Alí também se encontravam os excluídos, aspirando viver relações mais humanizadoras.

Nesse deslocamento, algumas pessoas trazem um surdo-mudo a Jesus e pedem que lhe imponha a mão. O surdo-mudo poderia ir ao encontro d’Ele, mas não teria como expressar seu pedido. 

O Mestre separa o surdo-mudo da multidão e lhe confere uma atenção especial, em um espaço protegido, onde pode estar a sós com o doente. É apenas nesse encontro entre os dois que a confiança necessária pode crescer para que aquele, cuja boca e ouvidos estão fechados, se abram. 

O processo da cura do surdo-mudo é descrito aqui em cinco passos, onde Jesus abre a possibilidade para o encontro deste homem com os outros e para o encontro com o Pai: coloca os dedos nos ouvidos do surdo, toca a língua do mudo, eleva os olhos ao céu, suspira e ordena:  “Efatá” “abre-te”. 

Palavra dirigida ao coração do surdo-mudo. É como se dissesse: “abre-te à tua identidade! Destrava teu interior!” Depois de tantos passos através do não verbal, vem a palavra. E o surdo-mudo desata sua língua e começa a falar. 

Contrariamente aos outros milagres, Jesus realiza uma série de gestos que demonstravam proximidade e envolvimento: tocou o corpo do homem, olhou para o céu, exprimindo sua comunhão com o Pai, e suspirou como sinal de participação profunda no acontecimento. A cura deixa de ser um ritual puramente exterior, mas brota de um encontro, de um gesto que demonstra comunhão entre o doente e Jesus.

Jesus, com seus sentidos abertos e acolhedores, destrava os sentidos do pobre homem excluído e o capacita a integrar-se na convivência social; com os sentidos abertos, agora ele pode expressar a riqueza de sua interioridade. Uma vez libertado da atrofia dos sentidos, o homem se emancipou, recuperou sua autonomia e agora pode manifestar-se sem bloqueios; nada mais o limita. 

Com todos os órgão e sentidos do seu corpo mobilizados, ele insere-se na comunidade que ouve a Deus e proclama que Ele é o único Senhor. Desaparecem as causas que lhe impediam optar com liberdade; a possibilidade de uma nova vida se abriu para ele.


2 – O que o texto diz para mim?
Parece lógico, que alguém tivesse que atuar para conduzir o surdo-mudo até Jesus, para que fosse “tocado”; aqui aparece a força do contato. 

Sei pouco da riqueza de meu contato. O contato me cura. É um caminho de comunicação maravilhoso. Na enfermidade, muitas pessoas não buscam mais que o contato. Um verdadeiro contato me envia sempre para dentro. Não é somente o contato da pele, mas o que me põe em marcha para meu interior. 

O contato me faz despertar. Existe a idade da palavra, a do ouvido, a do olhar..., mas neste momento Jesus se detém na idade do contato. O caminho do contato é o da mais profunda comunhão.

A mão é fonte de contato, é canal de passagem da energia curativa. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nessa nobre missão de ajudar os outros a “dar à luz” o melhor deles mesmos, Jesus foi um sábio “parteiro”: n’Ele posso contemplar em quê consiste o saber servir de ajuda para que a vida possa emergir como dom. Jesus se dedica ao surdo-mudo de forma carinhosa, como uma mãe. Ele toca a língua do mudo com sua saliva. Este é um gesto maternal. O surdo-mudo só consegue abrir seus ouvidos e sua língua, num ambiente marcado pela confiança e pelo amor maternal.

É sugestiva a imagem de ser “parteiro da vida”, ou seja, saber favorecer o nascimento de cada um, em sua verdade mais profunda, em todas as suas possibilidades. É colaborar com o Deus Pai - Mãe nessa bela missão, ajudando cada pessoa a ser o que pode e está chamada a ser.

“Ativar e expandir vida” foi a paixão que mobilizou todo o ministério de Jesus: seu desejo de que todos tivessem vida e vida em plenitude, sua capacidade de fazer emergir a vida atrofiada, centrou-se de um modo especial nos excluídos, marginalizados, enfermos, pessoas “oficialmente pecadoras”...; pois, assim Deus o havia revelado, assim sentia Ele seu coração entrar em sintonia com o coração do Pai, que põe mais amor onde há mais necessidade. 

Poder “dar vida”, capacitar para que cada pessoa pudesse viver sua vida e sua verdadeira identidade foi, para Jesus, uma fonte profunda de fecundidade e de felicidade.

“Efatá”: “abre-te”. O ser humano, mesmo sendo pura abertura e amplitude sem limites, tende a fechar-se. Talvez, porque isso lhe traz uma sensação de segurança, ao crer que mantém o controle sobre o pequeno espaço ao qual se reduziu.

Para começar, ele se fecha em seu próprio corpo, como se as fronteiras físicas do mesmo delimitassem também sua identidade; fecha-se em suas ideias atrofiadas, em sua religião burguesa, em seu legalismo e moralismo doentios, em suas intolerâncias e preconceitos...

Nesse contexto, a palavra de Jesus aparece como um convite firme a sair de qualquer identificação redutora: “abre-te”, “não te mantenhas fechado na crença de uma identidade isolada, que não pode ouvir nem contar a Beleza que realmente és”.

“Abre-te”, “não te feches em nada, não te reduzas a nenhum objeto, não te deixes aprisionar em nenhuma jaula, reconheça a abertura sem limites do “oceano” que constitui tua verdadeira natureza”. “Abre-te”…, “a quê? À tua verdadeira identidade!” 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, assim como o surdo-mudo, também eu posso viver dentro de bolhas, que me atrofiam e impedem que me cheguem o rumor da vida dos demais, com seus problemas e suas alegrias; ou permanecer fechada dentro de minhas pequenas fronteiras, com dificuldades para expressar o que sinto e vivo.

Enquanto permaneço fechada, reduzida a falsas identidades, gero confusão e sofrimento. Acredito naquilo que não sou e esqueço quem realmente sou. Tal fechamento evoca a imagem de uma jaula, feita à medida dos limites que minha própria mente estabelece. Condenar-me-ei a um sofrimento estéril e insolúvel, por um único motivo: confundir-me com algo que não sou.

O surdo-mudo necessitava abrir os ouvidos e a língua, mas eu também tenho necessidade de abrir alguma dimensão de minha pessoa, ou talvez alguma capacidade adormecida ou bloqueada.

É provável que, normalmente, a abertura seja progressiva: à medida que consinto abrir algo em mim, ser-me-á mostrado o próximo passo a ser dado. Como nas “sete moradas” de S. Teresa D’Ávila, diferentes portas se sucedem, uma depois de outra; assim se revela ser meu mundo interior. Cada porta aberta me coloca diante de outra nova “porta”, que clama para ser também aberta. 

E, no percurso interior, vou tendo acesso a espaços cada vez mais originais e inspiradores, até chegar finalmente a me reconhecer na Divina Morada, minha verdadeira identidade, meu “eu profundo”. Daí nasce a sabedoria, unindo corpo – mente - afetividade, coração.

Esse caminho conduz à descoberta de que sou Um com Aquele que me habita e me conecta com o universo, forjando minha identidade de filho, filha, irmão e irmã de todos. Quando me conecto com esta realidade, toda minha vida se equilibra e adquire sentido; esbarro na Fonte.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Deixar ressoar no meu interior esta expressão: “A quê ou em quê preciso abrir-me?” 

Quê portas de minha vida é preciso abrir? 

Capacidades adormecidas (amor, ternura, alegria, generosidade, solidariedade, liberdade...), defesas protetoras que se converteram em armadura oxidada (medo, indiferença, imagem idealizada, intolerância...), “manias” nas quais se instala costumes e rotinas que me mantém fechada em uma bolha de tolerado conforto...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 7,31-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Comece – Fx 02 (04:15)
Autor e intérprete: Jorge Trevisol
Participação: Karla Fioravante
Vocal: Dalva Tenorio, Luan , Vanessa, Suely Ferreira, Karla Fioravante, Ringo , Ricado Moreno
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep

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