segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Leitura Orante – 21° Domingo Tempo Comum, 26 de agosto de 2018


Leitura Orante – 21° Domingo Tempo Comum, 26 de agosto de 2018

“As palavras sempre rompem alguma coisa” (M. Yourcenar)

“As palavras que vos disse são espírito e vida” (João 6,63)


Texto Bíblico: João 6,60-69


1 – O que diz o texto?
Estamos no final do capítulo 6 do evangelho de João. Chega a hora do desenlace; a alternativa é clara: abrir-se à verdadeira Vida ou permanecer enredados numa vida atrofiada. Não há neutralidade; no mundo de hoje “tomam-se mais decisões por não tomá-las (que já é uma decisão) do que por tomá-las”, por acomodação, por medo de mudança, por inércia, por deixar que as coisas sigam seu curso...

Quê resultado teve a oferta de Jesus? Suas palavras entraram em choque com a mentalidade vigente; era inadmissível que uma pessoa pudesse comunicar uma mensagem tão exigente e tão libertadora. Suas palavras romperam visões distorcidas, mentalidades fechadas, modos arcaicos de viver, conservadorismo...

Também hoje corremos o risco de “adocicar” as palavras de Jesus para que não firam nossos prejuízos. Com frequência, queremos transformar Suas Palavras de Vida em um conjunto de ritos, doutrinas, normas... para serem manipuladas segundo nossos critérios e nosso modo de viver. Mas, a Palavra de Jesus nos desestabiliza nos desequilibra e questiona a normalidade doentia de nossa vida cotidiana. Às vezes, como os discípulos; também dizemos: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”

No entanto, se queremos seguir Jesus, a única resposta possível deve ser um “sim” profundo, um “amém” decidido e generoso. Desejamos segui-lo e queremos ser como Ele; queremos abrir nossa vida à Palavra de Vida que nos sustenta e nos inspira; sentimos o forte impulso de caminhar com o Nazareno pela difícil e tortuosa estrada do povo de Deus na história.

A “palavra dura” de Jesus, no evangelho deste domingo, deve nos inspirar a uma tomada de consciência do lugar e do valor das palavras em nosso cotidiano.


2 – O que o texto diz para mim?
Vivo saturada de palavras; elas me assaltam através das canções, estão nos perfis virtuais, nos livros, em mil e uma conversações cotidianas. Falo, digo, escrevo, escuto, leio... 

E de tanto usá-las, talvez elas acabem perdendo o sentido. Começo a considerá-las de um modo tão natural que não me dou conta do quanto elas significam. Então falo, mas não vivo. Palavreado crônico, desconectado da vida. 

O desenlace do capítulo 6 de São João torna-se uma ocasião privilegiada de calar, de silenciar o palavreado, de deixar de abusar das expressões gastas... para retomar a palavra sincera, para recordar que a vida não é uma brincadeira, para que, quando volto a pronunciar, com delicadeza, palavras carregadas de sentido e de vida, posso me fazer consciente da beleza, profundidade, promessa e compromisso que está por detrás de cada uma delas. Nesse sentido, para crer em Jesus é preciso ter fome: fome de vida e de justiça, que não fica satisfeita com palavras vãs, ocas e desprovidas de sentido.

Professo que Jesus é a Palavra de Deus, uma Palavra sem a marca da falsidade ou do vazio, uma Palavra viva e vivida; Palavra autêntica, de amor e paixão pela humanidade. 

Pois, através da identificação com Jesus, também eu posso ser palavra do mesmo Deus neste mundo. Uma palavra de amor, de sustento, de presença solidária... E eu, que palavra sou?


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sei que a palavra é uma das realidades humanas mais profundas: elas podem embalar ou golpear, ferir ou acariciar e curar. Sinceras ou falsas, pensadas ou espontâneas...  são um de meus maiores tesouros. Digo, escrevo, leio e compartilho palavras carregadas de vida ou de morte. 

A palavra, escrita ou falada, é a expressão mais perfeita de meu pensamento, revela-me ao mundo exterior e é traço de união de meus recíprocos relacionamentos.

A palavra, no dizer de um pensador, é uma poderosa soberana que realiza feitos admiráveis. Pode expulsar o temor, suprimir a tristeza, infundir alegria, dilatar a compaixão.  A palavra é fundamento de todo relacionamento humano. Serve para comunicar o que quero e expressar sentimentos, argumentar, despertar... O mutismo e a negação da palavra constituem terras de desolação. Aprendo com as palavras emprestadas de outros ou, quem sabe, também eu chego a dizer algo que fez a diferença para alguém.

Falo, e na fala-escuta, eu me encontro e revelo minha identidade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a palavra é meio divino para o encontro com todo o humano, e é sinal humano para acariciar e sonhar o divino. A palavra é lugar de encontro, de compromisso, de descanso, de ajuda, de luta, de consolo e de silêncio. Na palavra posso chegar a ser tudo o que sou, ou posso me evaporar como o alento. 

Melhor falar com palavras que estendem pontes, encurtam distâncias e entrelaçam vidas. Melhor falar a partir do carinho, da ternura e do amor, aprendendo a reconhecer tanta bondade ao meu entorno. 

Com as palavras posso sacudir as consciências, animar, levantar, entusiasmar, despertar desejos de arriscar-me a viver a fundo; ou posso desanimar atrofiar, destruir, seduzir para fazer da vida um acontecimento trivial e sem sentido. É melhor calar aquilo que levanta muros e gera desconfiança e fraturas; é melhor calar o que envenena os sonhos e atrofia as vidas.

“As palavras que vos disse são Espírito e vida” (João 6,63)

Eu que sou cristã, trata-se de algo definitivo: a Palavra se fez carne. E compartilhou meus caminhos, sentou-se em minha mesa para revelar-se, para dar-se a conhecer, para despertar vida... Jesus foi o homem que movia com suas palavras vivas. São nos encontros com a Palavra encarnada que brotam em mim palavras criativas, carregadas de esperança e de sentido. As palavras me tocam e me constituem. 

Fora do percurso da palavra encarnada, vivo intoxicada de palavras, ou seja, um amontoado de palavras mortas, sem carne, sem entranha, sem verdade, modelando seres adoecidos e desencarnados.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A palavra tem um peso, porque sua ressonância permanece. Em tempos de “sociedade líquida”, também minha palavra pode escorrer e evaporar-se. 

Hoje, muita gente prefere Snapchat a WhatsApp ou outras redes sociais porque o conteúdo se evapora em poucos minutos. É a volatilidade das palavras que desemboca na volatilidade da comunicação e da relação. Por isso, preciso de um novo Pentecostes, ser penetrada pelo Espírito que me leve a me entender, apesar de falar línguas diferentes.

É curioso: o evangelho diz com palavras muito simples e cotidianas as coisas mais profundas. Eu, com palavras complicadas e com jargões, que só os iniciados entendem, ou não dizemos nada significativo ou cubro o fato de não ter nada que dizer. No entanto, em minha cotidianidade, são as simples palavras que me ajudam a assumir os desafios da minha existência. Não é que as outras grandes palavras sobrem. Mas é que essas palavras pequenas e simples são as que me fazem sentir e saber-me em caminho de Evangelho, de Reino de Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,60-69
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Com poucas palavras – Fx 01 (3:59)
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep

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