segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Leitura Orante – 22° Domingo Tempo Comum, 02 de setembro de 2018


Leitura Orante – 22° Domingo Tempo Comum, 02 de setembro de 2018

ECOLOGIA INTERIOR

“É de dentro do coração dos homens que procedem os pensamentos maus...” (Mc 7,21)


Texto Bíblico: Marcos 7,1-8.14-15.21-23


1 – O que diz o texto?
Depois de um parêntesis de cinco domingos dedicados ao capítulo 6 (seis) do evangelho de João, retomamos o percurso de Jesus seguindo o evangelista Marcos. Após a multiplicação dos pães, Jesus se encontra nos arredores do lago de Genesaré, um lugar afastado de Jerusalém, onde era menor a vigilância em relação ao cumprimento das leis e das normas de purificação.

O texto de hoje contrapõe a prática dos discípulos com o ensinamento dos letrados e fariseus. Jesus se coloca a favor dos discípulos, e aproveita a ocasião para nos mover a ir mais além; Ele nos adverte que toda norma religiosa, escrita ou não, tem sempre um valor relativo. 

A Lei deve ser cumprida quando nos leva à plenitude humana. Para os fariseus, é preciso cumprir o preceito por ser preceito e não porque ajuda a ser mais humano. Todas as normas que podemos por em conceitos, são preceitos humanos; não podem ter valor absoluto. Um preceito que pode ser adequado para uma época, pode perder seu sentido em outra. Mais ainda, as normas morais estão mudando sempre, porque o ser humano vai conhecendo melhor seu próprio ser e a realidade na qual vive. As normas antigas não servem para as situações novas que vão aparecendo. Algumas coisas que eram importantes para o ser humano no passado, perderam agora sua força quando se trata da plenitude humana.

O que Jesus critica não é a Lei como tal, mas a interpretação que faziam dela. Em nome dessa Lei oprimiam as pessoas e lhes impunham verdadeiras torturas com a promessa ou a ameaça de que só assim Deus estaria a seu favor. Davam valor absoluto à Lei. Todas as normas tinham a mesma importância, porque seu único valor estava no fato de que eram “dadas” por Deus. Isto é o que Jesus não podia aceitar.

Toda norma, tanto ao ser formulada como ao ser cumprida, deve ter como fim primeiro o bem do ser humano. Nem sequer podemos colocá-la à frente de Deus, porque o único bem de Deus é o ser humano. A base de todo fundamentalismo está em propor o bem de Deus, inclusive contra o bem do ser humano.

Deus é Pai - Mãe de Misericórdia e nunca vem complicar nossa vida com uma carga de preceitos, leis, tradições... O que Ele deseja é que vivamos intensamente; as leis e normas são só uma mediação para possibilitar mais vida. No momento em que elas bloqueiam o fluir da vida com o peso dos sentimentos de culpa, não devem ser cumpridas.

O segundo ensinamento é consequência deste: não há uma esfera sagrada na qual Deus se move e outra profana da qual Deus está ausente. Na realidade criada não existe nada impuro. Tampouco tem sentido a distinção entre o ser humano puro e o ser humano impuro, a partir de situações alheias à sua vontade. Por isso, a pureza nunca pode ser consequência de práticas rituais. A única impureza que existe é quando o  ser humano busca seu próprio interesse à custa dos outros.


2 – O que o texto diz para mim?
Em todas as religiões, as normas e preceitos são dadas em “nome” de Deus. Isto pode ter consequências desastrosas, se não é entendido bem. Todas as leis são humanas. Quando essas normas surgem de uma experiência autêntica e profunda do que deve ser um ser humano e o ajudam a atingir sua plenitude, posso chamá-las divinas. 

O preceito de lavar as mãos antes de comer não era nada mais que uma norma elementar de higiene, para que as enfermidades infecciosas não fizessem estragos entre aquela população que vivia em contato com a terra e os animais. No instante em que uma tradição se converta em um entrave que impeça a pessoa ser mais humana, deve-se abandoná-la. É o que quer dizer Jesus: “deixais de lado a vontade de Deus para apegar-se às tradições dos homens”.

Mas, junto à contaminação ambiental, que também afeta os povos em desenvolvimento, transformados em lixões dos países ricos, há outra contaminação mais profunda que está esquecida. E, no evangelho de hoje, Jesus me fala da necessidade de cuidar da ecologia interior.

O termo “ecologia” não se refere apenas a uma “ecologia exterior”, ou seja, aos ecossistemas em seu instável equilíbrio. Engloba também toda uma “ecologia interior”, própria do ser humano, ou seja, o “mundo” de sua psique, de seus afetos, de seus dinamismos, de sua espiritualidade, de suas relações básicas, quer consigo e com os outros, quer com o mundo e com Deus.

Para ordenar a fragmentação interna preciso dialogar com as energias instintivas e que se tornaram energias “diabólicas” (que dividem). Cada uma delas representa os instintos, impulsos, paixões, fragilidades, sensualidade, sentimentos... que, quando não pacificados e integrados, criam uma desarmonia interior.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todo aquele que pretende me impor leis em nome de Deus, está me enganando. A vontade de Deus é encontrada dentro de mim. O que Deus deseja de mim está inscrito em meu mesmo ser, e nele tenho que descobri-la. A prioridade não corresponde, portanto, às doutrinas, mas ao coração. Porque costuma ocorrer algo que é chamativo: quanto maior a insistência nas doutrinas e nas leis, mais frieza e petrificação no coração. Isto parece ser a reprovação que Jesus dirigia aos fariseus, ou seja, às pessoas que tendiam a absolutizar a religião: “honra-se a Deus com os lábios”, mas o coração está apagado.

É o que sai de dentro que determina a qualidade de uma pessoa. O que como pode fazer bem ou mal, mas não afeta minha atitude espiritual. A armadilha está em confiar mais na prática externa de uma norma que na atitude interna que depende só de mim. As práticas religiosas, muitas vezes, são um álibi para dispensar-me da conversão do coração.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a contaminação e a poluição do meio ambiente são realidades por demais conhecidas. Nas grandes cidades, o ar está cada vez mais irrespirável. Em algumas delas já se começou a regular o tráfego para diminuir o nível de poluentes, através da proibição de circulação de automóveis com determinados números de placa. Tal situação, juntamente com a mudança climática e a ecologia, é uma das preocupações dominantes das pessoas que vivem no mundo considerado “desenvolvido”.

Assim como está sendo proibida, cada vez mais, a circulação de veículos contaminantes, também se deveria impedir a saída às ruas de pessoas com mentes contaminadas, cheias de sentimentos poluídos, palavras ácidas, gestos agressivos, carregada de entulhos – mágoas, ira, inveja – que se acumulam no próprio coração. Seus passos sujam os caminhos de lama, deixando um rastro de tristeza e desalento; seu humor intoxica-se de raiva e arrogância; seu temperamento explode com frequência, expelindo tanta fuligem pelas chaminés da intolerância e do preconceito.

São os chamados “pecados de raiz”, ou seja, endurecimentos, fechamentos e fixações... que impedem a energia vital, a misericórdia de Deus fluir livremente. São bloqueios e empecilhos, colocadas por mim mesma e que interceptam a relação com Deus, com os outros e com as criaturas, portanto, com a plenitude da vida, e cortam minhas próprias potencialidades de vida.

Quando falo de “pecados de raiz” quero destacar a necessidade de uma conversão radical.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O convite a “ter um coração próximo a Deus” poderia traduzir-se deste modo: viver consciente de minha verdadeira identidade, em conexão com o que realmente sou - essa é a dimensão especificamente espiritual – o qual me abrirá a uma vivência aberta e inclusiva, humilde e tolerante, prazerosa e compassiva..., a partir da sintonia radical com Aquele em quem me desvelo e me reconheço.

Diante do Evangelho deste domingo, me proponho a parar por uns instantes, esquecer a poluição do ar e do mar, a química que contamina a terra e envenena os alimentos e medicamentos, e perguntar a mim mesma:

- Como anda o meu equilíbrio ecobiológico?

- Tenho dialogado com meus órgãos interiores? 

- Acariciado o meu coração? Respeito a delicadeza de meu estômago?

- Acompanho mentalmente meu fluxo sanguíneo?

- Tenho consciência de onde nascem minhas palavras?

- Tenho queimado a minha língua com as nódoas dos comentários maldosos da vida alheia?

- Meus olhos estão sujos pelas ilusões de poder, fama e riqueza? (Frei Betto)



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 7,1-8.14-15.21-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Põe teu coração no meu - fx 06 (03:21)
Autor e intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Contemplativo – quando me chamaste
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Leitura Orante – 21° Domingo Tempo Comum, 26 de agosto de 2018


Leitura Orante – 21° Domingo Tempo Comum, 26 de agosto de 2018

“As palavras sempre rompem alguma coisa” (M. Yourcenar)

“As palavras que vos disse são espírito e vida” (João 6,63)


Texto Bíblico: João 6,60-69


1 – O que diz o texto?
Estamos no final do capítulo 6 do evangelho de João. Chega a hora do desenlace; a alternativa é clara: abrir-se à verdadeira Vida ou permanecer enredados numa vida atrofiada. Não há neutralidade; no mundo de hoje “tomam-se mais decisões por não tomá-las (que já é uma decisão) do que por tomá-las”, por acomodação, por medo de mudança, por inércia, por deixar que as coisas sigam seu curso...

Quê resultado teve a oferta de Jesus? Suas palavras entraram em choque com a mentalidade vigente; era inadmissível que uma pessoa pudesse comunicar uma mensagem tão exigente e tão libertadora. Suas palavras romperam visões distorcidas, mentalidades fechadas, modos arcaicos de viver, conservadorismo...

Também hoje corremos o risco de “adocicar” as palavras de Jesus para que não firam nossos prejuízos. Com frequência, queremos transformar Suas Palavras de Vida em um conjunto de ritos, doutrinas, normas... para serem manipuladas segundo nossos critérios e nosso modo de viver. Mas, a Palavra de Jesus nos desestabiliza nos desequilibra e questiona a normalidade doentia de nossa vida cotidiana. Às vezes, como os discípulos; também dizemos: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”

No entanto, se queremos seguir Jesus, a única resposta possível deve ser um “sim” profundo, um “amém” decidido e generoso. Desejamos segui-lo e queremos ser como Ele; queremos abrir nossa vida à Palavra de Vida que nos sustenta e nos inspira; sentimos o forte impulso de caminhar com o Nazareno pela difícil e tortuosa estrada do povo de Deus na história.

A “palavra dura” de Jesus, no evangelho deste domingo, deve nos inspirar a uma tomada de consciência do lugar e do valor das palavras em nosso cotidiano.


2 – O que o texto diz para mim?
Vivo saturada de palavras; elas me assaltam através das canções, estão nos perfis virtuais, nos livros, em mil e uma conversações cotidianas. Falo, digo, escrevo, escuto, leio... 

E de tanto usá-las, talvez elas acabem perdendo o sentido. Começo a considerá-las de um modo tão natural que não me dou conta do quanto elas significam. Então falo, mas não vivo. Palavreado crônico, desconectado da vida. 

O desenlace do capítulo 6 de São João torna-se uma ocasião privilegiada de calar, de silenciar o palavreado, de deixar de abusar das expressões gastas... para retomar a palavra sincera, para recordar que a vida não é uma brincadeira, para que, quando volto a pronunciar, com delicadeza, palavras carregadas de sentido e de vida, posso me fazer consciente da beleza, profundidade, promessa e compromisso que está por detrás de cada uma delas. Nesse sentido, para crer em Jesus é preciso ter fome: fome de vida e de justiça, que não fica satisfeita com palavras vãs, ocas e desprovidas de sentido.

Professo que Jesus é a Palavra de Deus, uma Palavra sem a marca da falsidade ou do vazio, uma Palavra viva e vivida; Palavra autêntica, de amor e paixão pela humanidade. 

Pois, através da identificação com Jesus, também eu posso ser palavra do mesmo Deus neste mundo. Uma palavra de amor, de sustento, de presença solidária... E eu, que palavra sou?


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sei que a palavra é uma das realidades humanas mais profundas: elas podem embalar ou golpear, ferir ou acariciar e curar. Sinceras ou falsas, pensadas ou espontâneas...  são um de meus maiores tesouros. Digo, escrevo, leio e compartilho palavras carregadas de vida ou de morte. 

A palavra, escrita ou falada, é a expressão mais perfeita de meu pensamento, revela-me ao mundo exterior e é traço de união de meus recíprocos relacionamentos.

A palavra, no dizer de um pensador, é uma poderosa soberana que realiza feitos admiráveis. Pode expulsar o temor, suprimir a tristeza, infundir alegria, dilatar a compaixão.  A palavra é fundamento de todo relacionamento humano. Serve para comunicar o que quero e expressar sentimentos, argumentar, despertar... O mutismo e a negação da palavra constituem terras de desolação. Aprendo com as palavras emprestadas de outros ou, quem sabe, também eu chego a dizer algo que fez a diferença para alguém.

Falo, e na fala-escuta, eu me encontro e revelo minha identidade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a palavra é meio divino para o encontro com todo o humano, e é sinal humano para acariciar e sonhar o divino. A palavra é lugar de encontro, de compromisso, de descanso, de ajuda, de luta, de consolo e de silêncio. Na palavra posso chegar a ser tudo o que sou, ou posso me evaporar como o alento. 

Melhor falar com palavras que estendem pontes, encurtam distâncias e entrelaçam vidas. Melhor falar a partir do carinho, da ternura e do amor, aprendendo a reconhecer tanta bondade ao meu entorno. 

Com as palavras posso sacudir as consciências, animar, levantar, entusiasmar, despertar desejos de arriscar-me a viver a fundo; ou posso desanimar atrofiar, destruir, seduzir para fazer da vida um acontecimento trivial e sem sentido. É melhor calar aquilo que levanta muros e gera desconfiança e fraturas; é melhor calar o que envenena os sonhos e atrofia as vidas.

“As palavras que vos disse são Espírito e vida” (João 6,63)

Eu que sou cristã, trata-se de algo definitivo: a Palavra se fez carne. E compartilhou meus caminhos, sentou-se em minha mesa para revelar-se, para dar-se a conhecer, para despertar vida... Jesus foi o homem que movia com suas palavras vivas. São nos encontros com a Palavra encarnada que brotam em mim palavras criativas, carregadas de esperança e de sentido. As palavras me tocam e me constituem. 

Fora do percurso da palavra encarnada, vivo intoxicada de palavras, ou seja, um amontoado de palavras mortas, sem carne, sem entranha, sem verdade, modelando seres adoecidos e desencarnados.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A palavra tem um peso, porque sua ressonância permanece. Em tempos de “sociedade líquida”, também minha palavra pode escorrer e evaporar-se. 

Hoje, muita gente prefere Snapchat a WhatsApp ou outras redes sociais porque o conteúdo se evapora em poucos minutos. É a volatilidade das palavras que desemboca na volatilidade da comunicação e da relação. Por isso, preciso de um novo Pentecostes, ser penetrada pelo Espírito que me leve a me entender, apesar de falar línguas diferentes.

É curioso: o evangelho diz com palavras muito simples e cotidianas as coisas mais profundas. Eu, com palavras complicadas e com jargões, que só os iniciados entendem, ou não dizemos nada significativo ou cubro o fato de não ter nada que dizer. No entanto, em minha cotidianidade, são as simples palavras que me ajudam a assumir os desafios da minha existência. Não é que as outras grandes palavras sobrem. Mas é que essas palavras pequenas e simples são as que me fazem sentir e saber-me em caminho de Evangelho, de Reino de Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,60-69
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Com poucas palavras – Fx 01 (3:59)
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Leitura Orante – Solenidade da Assunção de Maria, 19 de agosto de 2018


Leitura Orante – Solenidade da Assunção de Maria, 19 de agosto de 2018

ASSUNÇÃO: a plenitude do encontro

“Por que me acontece isto, que a mãe do meu Senhor venha a mim?”


Texto Bíblico: Lucas 1,39-56


1 – O que diz o texto?
Na festa da Assunção, a liturgia nos propõe aprofundar o sentido do encontro a partir da contemplação deste horizonte inspirador: a Visitação. Os ícones que ao longo dos séculos expressam esta visita, esta saudação, nos apresentam duas mulheres vinculadas, unidas por um abraço, por um beijo, por uma mesma alegria. Em seu modo de entrar em comunhão, em sua maneira de dialogar e de se alegrar, elas se revelam mestras para nós, para nossa humanidade fragmentada que aspira viver a “cultura do encontro”.

A cena apresentada por Lucas nos deixa na agradável e desafiante companhia de Maria e Isabel: duas mulheres, dois ventres cheios de vida; duas mulheres cheias de Deus; duas mulheres em um mesmo encontro. Ambas estão grávidas e de um modo surpreendente. As duas esperam filhos muito especiais; sentem que carrega em seus ventres uma novidade que as supera. As duas têm “um corpo abençoado” e um ventre fecundo, sinal e realidade da ação de um Deus que é Vida.

Duas mulheres com duas missões diferentes: uma portadora do Messias, e outra, portadora daquele que preparará os caminhos. Duas mulheres diferentes, mas cada uma com sua experiência de Deus. Uma, a experiência de Deus em um seio virginal; a outra, a experiência de Deus em um seio seco e estéril. No encontro entre as duas, cada uma descobre e reconhece o mistério da presença de Deus na outra.

O ícone da Visitação contagia e desperta o prazer e a alegria: a do encontrar-se, a do crer e a do servir. Alegria fecunda, já que está ligada a dois nascimentos que vão mudar a história de seu povo e da humanidade.

Nesta cena, Deus mesmo se infiltra no cotidiano e naquilo que socialmente não tem maior relevância, ou seja, a vida diária de duas mulheres: Maria e Isabel. Quebra-se assim a centralidade do Templo. Elas festejam as maravilhas do Senhor em um lugar simples, numa região montanhosa, num caminho e numa casa de família simples. O maravilhoso e extraordinário tem lugar no ordinário e humilde. Ali se celebra a vida chegada e por chegar. As protagonistas da cerimônia são duas simples mulheres.

Neste maravilhoso acontecimento tudo é encontro, se junta o Antigo e o Novo Testamento, a juventude e a idade madura. As duas mulheres estão profunda e intimamente vinculadas entre si. Com elas e delas nasce o tempo novo, o do Reino, o de Jesus. Tem-se a impressão de viver um momento culminante da história. Elas nos conduzem a agradecer a capacidade feminina de deixar transparecer o Mistério que nos habita, de despertar-nos uns aos outros para essa Vida cuja presença reconheceu em nosso interior.


2 – O que o texto diz para mim?
Maria, aquela que sente o êxodo de Deus, saindo de si mesmo, para encarnar-se no seu seio virginal, e que a move a pôr-se em caminho, saindo de si mesma, porque o serviço aos outros a apressa.

Maria é a Mulher que inaugura e estabelece os critérios para encontrar-se com o Senhor e com os demais. Sua capacidade de encontro parte de uma experiência de profunda interioridade; interioridade visitada por Deus e, portanto, fecundada por seu olhar cheio de amor e ternura, cheio de compaixão pela humanidade e pela criação. Só a partir de uma interioridade fecunda se dá a possibilidade dos encontros mais verdadeiros.

Na Laudato si (n. 240) o Papa Francisco nos diz que “a pessoa humana mais cresce, mais amadurece e mais se santifica à medida que entra em relação, quando sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim, assume em sua própria existência esse dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a criação. Tudo está conectado, e isso nos convida a amadurecer uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade”.

O dogma da Assunção, festa do encontro pleno, me revela que preciso me converter à cultura do encontro em todos os sentidos. Maria foi “assumida” para o encontro definitivo com Deus porque foi presença que inspirava e proporcionava encontros humanizadores. Ela “subiu” porque “desceu” ao encontro dos preferidos do Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria, na cena da Visitação, passa da interioridade ao acontecer, à história, ao encontro. É assim como se dá uma autêntica experiência de Deus. Ela me mostra que tal experiência tem dois pés: um posto na experiência do amor de Deus que me visita, e outro posto sempre no caminho que preciso percorrer para ir ao encontro dos demais. Os dois pés são indispensáveis para que a experiência de Deus seja cristã, seja encarnada, seja Visitação. Os dois pés, sempre em movimento cordial: de sístole e diástole.

Deus começa sempre pelo coração; mas logo desce aos pés. Em outras palavras: Deus põe pés no coração.

Maria recebeu do anjo a notícia que sua prima Isabel estava esperando um filho e já estava no sexto mês de gestação. Não foi necessário que Isabel pedisse a Maria e solicitasse seus serviços. O amor descobre as necessidades dos outros; o amor não necessita que ninguém lhe peça favores, nem que alguém lhe solicite serviços. Maria não esperou o chamado de Isabel. Porque o amor não espera, antecipa. O amor sempre tem pressa, não sabe esperar. O amor não fica em sentimentos; o amor se faz gesto, atitude, caminho e serviço.  “O amor consiste mais em obras que em palavras” (S. Inácio).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o amor põe o coração em caminho; o coração põe pressas aos pés. Amor, coração e pés se fazem serviço aos demais. Quando amo, meus pés se põem em caminho: levar alegria aos outros. Por isso, nesta visita e neste encontro, todas saltam de alegria: João salta de alegria no ventre de Isabel. Isabel salta de alegria e extravasa seu júbilo. Maria salta de alegria e entoa seu hino de reconhecimento e agradecimento.

Isabel encheu-se de surpresa ao ver a surpreendente Maria diante de si. E não pode segurar sua alegria; por isso, também explodiu em um grito de louvor e reconhecimento.

O encontro, quando se dá a partir da experiência de Deus, que é contemplação e saída se torna autêntica e solidária profecia.

Meu mundo está carente de Visitação, de uma vida cristã com iniciativa e experiência de encontros, que deixe suas seguranças, que saia, atenta às necessidades dos demais, que cuide da vida que há nela e onde queira que esteja germinando ou tenha possibilidades de acontecer; assim entendo a vida cristã vinculada com a terra e o cuidado da casa comum.

Encontrar-nos é construir pontes e derrubar muros, é desafiar a cultura do desencontro, da fragmentação e do descarte. Os encontros mudam minha vida e vou descobrindo minha identidade através deles. Eles me colocam em atitude de êxodo, de saída, de Visitação.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A Visitação é, portanto, um convite a “cruzar montanhas”, transpassando fronteiras, abrindo buracos nos ilusórios muros de classe, de cultura, de raça, de gênero, de religião, etc. Cruzar montanhas, saindo apressadamente ao encontro do outro, para fazer a experiência de viver, em ritmo de Visitação, o regozijo da vida divina que habita no humano e se expande na criação inteira.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,39-56
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A visitação – Fx 03 (07:14)
Autor: José Acácio Santana
Intérpretes: Coral Acorde coração
CD: Natividade - Natal
Gravadora: Paulinas Comep



segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Leitura Orante – 19° Domingo Tempo Comum, 12 de agosto de 2018


Leitura Orante – 19° Domingo Tempo Comum, 12 de agosto de 2018

O desafio de “ser pão” para os outros

“Quem come deste pão viverá eternamente” (João 6,51)


Texto Bíblico: João 6,41-51


1 – O que diz o texto?
Continuamos no capítulo 6 do Evangelho de João. Aumenta a tensão entre os judeus e Jesus. À medida que Jesus vai aprofundando no seu ensinamento, vai aparecendo a enorme diferença existente entre o que eles aprenderam da tradição e o que Jesus lhes quer transmitir. E vão aparecendo as doentias murmurações.

“E começaram a murmurar contra Jesus”.      

Murmuravam porque Jesus havia dito: “eu sou o pão vivo descido do céu”. É o mesmo verbo para falar das murmurações dos israelitas no deserto contra Moisés, por não lhes dar alimento, como eles tinham no Egito. Jesus lhes recorda que o povo esteve contra Moisés nos momentos difíceis e agora também não confiam nas palavras do próprio Jesus.

Sabemos que a murmuração se expressa de inúmeras maneiras, sutis ou não, formando uma montanha de ressentimentos, queixas, críticas ácidas... Murmurar é contraproducente e nocivo. 

Alguém que murmura é uma pessoa difícil de conviver e poucas pessoas sabem como responder às queixas feitas por outras que expelem sua fuligem interior. O trágico é que, uma vez expressa, a murmuração leva ao que mais se queria evitar: um afastamento maior. Essa murmuração íntima é sombria e pesada: condenação dos outros, condenação de si mesmo, justificativas... entrando numa espiral de amargura e fechamento. 

À medida que a pessoa se deixa arrastar ao interior do vasto labirinto das suas murmurações, fica mais e mais perdido, até que, no fim, acaba achando-se a pessoa mais incompreendida, rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo.

Para o evangelista João, a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, é uma vida que tem tal plenitude que, com toda razão, podemos chamá-la de “vida eterna”, uma vida com tal força e tão sem limites, que nem a morte mesma terá poder sobre ela.

Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida do espírito, perceber as pulsações desta vida eterna que está em nós, do mesmo modo que, prestando atenção, percebemos as batidas de nosso coração.

A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude.

Vida plena prometida por Jesus: “Quem crê, tem a vida eterna”

A “vida eterna”, então, não é um prolongamento ao infinito de nossa vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de nossa existência. Ela torna-se “eterna” desde já.


2 – O que o texto diz para mim?
Em um coração carregado de murmurações e queixas, o Espírito não tem liberdade de atuar; elas são a fonte poluidora de onde brotam as doentias divisões internas, que atrofiam as forças criativas, petrificam o coração, resistem ao novo e levam ao distanciamento de tudo e de todos. Com isso, a pessoa se blinda, tornando-se rígida, fechada em suas posições, crenças, valores... e não se deixa impactar pelo encontro com o diferente.

Nesse contexto “carregado”, Jesus vai abrindo um caminho de existência compartilhada, que se expressa na comunicação do pão e que culmina na comunicação de vida. Ele não se deixa afetar pelas murmurações que levam à morte.

Jesus, o “Pão da Vida”, tocou as “vidas feridas” com delicadeza e ternura e as transformou. Seus gestos terapêuticos foram o prolongamento da ação criativa de Deus; com palavras e ações Ele inaugurou no meio de nós o Reino de Vida do Pai. Não só optou pela vida e se comprometeu com a vida, mas fez de sua Vida uma entrega radical a favor da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não cabe nos meus esquemas. Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, expansiva...

A comunhão com Jesus é fonte de vida e vida em crescente amplitude. Quando me disponho a caminhar com Ele, sob a ação do seu Espírito, realiza-se em mim um processo de abertura e de superação, de crescimento e de reconstrução de mim mesma...; tomo consciência de uma dimensão profunda de meu interior, que me permite experimentar outra vida, que supera tudo o que vivo até então.

Ao afirmar: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu”, Jesus me revela que a vida é sempre uma novidade que rompe velhos barris; ela é um fenômeno que emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. 

Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração... porque a vida é sempre sagrada. Diante dela fico extasiada, boquiaberta, escancarado os olhos e afiados os ouvidos. Ela me atrai por sua força interna. A vida é sempre emergência do novo e do surpreendente. 

Portador de uma vida inesgotável é muito mais que o simples resultado de meus esforços e lutas. Vivo para mergulhar em algo diferente, novo e melhor.

Minha vida não é um problema a resolver, mas uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Afinal, sou discípula permanente na escola do Mestre da vida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, Jesus faz-se alimento que gerar vida nova no mundo; alimentar-nos d’Ele, desperta minha vida interior, fazendo-me redescobrir minha verdadeira riqueza; ao mesmo tempo, fazendo-se “pão partilhado”, Jesus me ensina a gerar vida, ou seja, Ele me move a fazer com que minha própria vida seja “alimento substancioso”, para que outros também tenham vida.

A comunhão de vida com Cristo me faz ter um “caso de amor com a vida”.

Nem sempre sei viver: conformo-me com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”. Quando me sacio com o Pão, que proporciona vigor inesgotável, minha vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. 

Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência do Seguimento de Jesus é uma verdadeira “escola de vida”, cuja aprendizagem me leva ao âmago do meu ser, para enraizar minha vida no coração cheio de nutrientes, dele haurir a força da vida divina e deixar-me plenificar pela graça transbordante de Deus.

Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar, cada dia, algum tempo de atenção ao próprio coração e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um.

Basta um repouso e o estar presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.

Tenho nas mãos e no coração a opção de viver “em chave de benção”, descobrindo na vida a presença d’Aquele que me faz estremecer de alegria, desafiando-me a ser “pão para os outros”. 

Minha vida cotidiana: “pão substancioso de bênçãos”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,41-51
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A força do pão – Fx 11 (03:05)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj 
Coro: Marluce, Sonia Mara, Kater
CD: Sem ódio e sem medo
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Leitura Orante – 18° Domingo Tempo Comum, 05 de agosto de 2018


Leitura Orante – 18° Domingo Tempo Comum, 05 de agosto de 2018

SER PÃO QUE ATIVA E SUSTENTA VIDAS

“Quem vem a mim não terá fome...” (João 6,35)


Texto Bíblico: João 6,24-35


1 – O que diz o texto?
Continuamos seguindo o capítulo seis do evangelho de São João. No texto deste domingo Jesus entra diretamente em discussão com os judeus e o versículo 59 diz expressamente que este encontro conflituoso teve lugar na sinagoga de Cafarnaúm. Estamos no início de uma discussão longa e dura, na qual Jesus vai aprofundando as exigências do seguimento. E, à medida que Ele vai radicalizando o discurso, aumenta a distância dos seus ouvintes. O processo será esse: entusiasmo, dúvida, desencanto, desilusão, oposição, rejeição, abandono.

“Eu sou o pão da Vida”. Em todos os grandes discursos que encontramos no quarto Evangelho, há uma referência explícita à Vida, com maiúscula. Trata-se de uma realidade que não podemos explicar com palavras, nem enquadrá-la em conceitos humanos. Somente através de símbolos e metáforas podemos indicar o caminho de uma vivência que é o único que nos levará a descobrir de quê se está falando. 

A Vida que Jesus promete não vem de fora e de maneira espetacular, como o maná no deserto. Ela está presente em cada um e se manifesta no cotidiano, como amor descentrado, como partilha dos dons, como preocupação pelo outro. Esta Vida interior é ativada pela adesão e identificação com a pessoa de Jesus. Daí a necessidade de trabalhar pelo alimento que dura dando Vida definitiva. Este apelo de trabalhar em favor da Vida, é o que resume toda a mensagem do evangelho deste domingo.

Jesus salva e alimenta porque é pão. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Devemos unir a imagem de Jesus - pão com a imagem de Jesus - grão de trigo que é triturado para ser alimento e fecundar a vida. Um alimento “subversivo” porque subverte o tradicional “ordem” das coisas. Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi uma entrega. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. 


2 – O que o texto diz para mim?
O diálogo tenso desvela a real motivação daqueles que O buscavam, não porque tinham visto sinais, mas porque comeram pão até ficarem saciados. O “sinal” tinha sido um convite a compartilhar. Mas eles se fixaram só na satisfação da própria necessidade. Esvaziaram o sinal de seu conteúdo. Essa busca de Jesus é vazia, porque eles só estavam atrás da segurança alimentar. Jesus vai diretamente ao ponto e desmascara tal intenção. Não buscavam a Ele, mas o pão que Ele lhes deu. Não O buscavam porque Ele abriu as portas de um futuro mais humano, mas se fixaram nos seus próprios interesses.

E é isso que, no nível mais profundo, eu sou. Sou Vida, sou “pão de vida”.

Sou pão quando alimento o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso... Sim, posso multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna... Quanto pão para ser dividido!

Em meu interior há uma reserva de nutrientes, de pão substancioso, que corre o risco de perder a validade, se não é compartilhado. O centro da vida é “pão”, e (como Jesus), só sou pão na medida em que partilho o que sou e tenho. 

Tal como Jesus, o seguidor e a seguidora são chamados a ter vida e a ser vida. E vida expansiva. A vida não deve ser corroída pela tirania do egoísmo mesquinho. Vida é encontro, interação, comunhão. Vida é solidariedade. Vidas são olhares que se cruzam, são mãos que se estendem e se estreitam, são passos que rompem distancias e se interligam. Sou chamada a ser “biófilos”, amigos e defensores da vida.  

“É entre nossas mãos que está a vida” (Bloch). Minhas mãos não podem jogar fora a vida. Minhas mãos precisam manter nutrir e proteger a vida. Minhas mãos devem ser protagonistas para sustentar a vida, precisam dignificar a vida. Meu compromisso é preservar a vida que dança em minhas mãos.

Nas raízes profundas do meu ser, reside a Biofilia, o amor à vida.

“Eu sou o pão da vida”. O encontro com a Vida que se faz Pão me move a buscar o sentido de minha própria existência; e quem encontra o sentido se torna dinâmico, persegue um horizonte, abre-se a uma causa mobilizadora. Para isso é necessário outro ritmo de vida, que me permita vivê-la com mais sabor, com mais autenticidade.

A vida é vivida intensamente quando a força do “Pão da Vida” atua, impulsionando a abrir, a avançar, a progredir. Porque a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É este dinamismo de amor que sou chamada a contemplar no mistério do Pão da Vida, do qual cada pessoa é uma pequena, mas preciosa imagem. O seguidor, a seguidora de Jesus deixa refletir esta imagem em sua vida concreta de cada dia quando vive esse dinamismo do “pão partilhado”, numa relação cordial, aberta e receptiva à originalidade do outro, entrando num verdadeiro dinamismo de vida. Um dinamismo de amor.

A adesão a Jesus, portanto, não fica na exterioridade. Ele não é modelo exterior a ser imitado, e sim, é presença interiorizada. Essa comunhão íntima muda o interior do discípulo, da discípula, possibilita a sintonia com Jesus e faz viver a identificação com Ele. 

Fazendo-se alimento, Jesus me ajuda a conhecer minha própria interioridade, desperta minha vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.

E Jesus não somente vai comigo, mas me precede, me sustenta e, na liberdade de seu amor, me impele a ampliar minha vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia. 

Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, Jesus se revela, assim, como autoridade de amor, porque ofereceu seu “corpo”, isto é, sua vida, para que outros pudessem viver. Na multiplicação dos pães, nas refeições com pecadores e, sobretudo na Última Ceia, Ele oferece aquilo que não pode ser comprado nem vendido: o pão do próprio corpo carregado de humanidade, o vinho de sua vida portador das energias alegres e criativas.

Comungar o pão e o vinho não é só aderir a Jesus, à sua pessoa e à sua mensagem; não é só experimentar sua intimidade, deixando-se transformar por Ele. Implica estar dispostos a comungar com todos, porque Jesus nunca vem só: “traz” com ele toda a realidade. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (papa Francisco).

Todo ser humano carrega “outras fomes” em seu interior. Jesus procura despertar nas pessoas uma fome diferente: Ele lhes fala de um pão que não sacia a fome de um dia, mas a fome e sede de vida plena. 

Ou seja, ser sua seguidora é associar-se à Sua Fome: aliviar o sofrimento humano. Trata-se de uma “fome humanizadora”: fome de comunhão, de cuidado, de compaixão..., fome de novas relações, de um mundo novo... Fome de vida! Jesus quer oferecer-lhes um alimento que pode saciar esta fome de vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Jesus é Aquele que sabe a arte de despertar fomes. 

Estou saturada de “coisas”, mas carente de fome. Quem tem fome, busca, cria, constrói... Quem não tem fome cai numa apatia paralisante.

Experimento fome quando saio de mim mesma, quando me consumo no trabalho pelo Reino, quando alivio o sofrimento do irmão mais próximo ou distante, quando me empenho por abrir caminhos de humanização...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,24-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Dá-me um pouco deste pão – Fx 11 - (02:46)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Nas asas da contemplação
Gravadora: Paulinas Comep