terça-feira, 24 de julho de 2018

Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018


Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018

O pão mais saboroso é aquele que compartilhamos

“Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados...” (Jo 6,11)


Texto Bíblico: João 6,1-15


1 – O que diz o texto?
No domingo passado, o relato evangélico de Marcos nos deixou às portas da multiplicação dos pães. Em seu lugar, a liturgia insere, a partir deste domingo, todo o capítulo 6 do evangelho de João. É o mais longo e denso capítulo de todos os evangelhos, e que vai ocupar os próximos cinco domingos. Em seus 71 versículos, partindo da multiplicação dos pães, João elabora toda uma teologia do seguimento. No fundo trata-se de um processo de iniciação catequética, que na primitiva comunidade cristã duravam vários anos e que, no final inspirava o catecúmeno a tomar uma decisão definitiva: o batismo.

João, o evangelista dos detalhes, começa trazendo um dado interessante: “Jesus foi para o outro lado do mar da Galiléia”. Ao passar para a outra margem, Jesus desencadeia um movimento inspirador: não podemos nos limitar a ver as coisas a partir das margens conhecidas. É preciso deslocar-nos para a outra margem, para ver as coisas sob outra perspectiva, com um olhar mais amplo.

Jesus desvela o perigo de fechar-nos no próprio grupo, nas próprias ideias, doutrinas e considerar-nos como donos da verdade; somos sempre tentados a instalar-nos no conhecido e custa abrir-nos a outras percepções. É preciso fazer a travessia para deixar-nos interpelar pelo novo, colocar em questão nossa própria visão e compreensão da vida e enriquecer-nos com outros pontos de vista: a dos pobres e marginalizados.

O Evangelho não é para acomodados ou para aqueles que têm medo de fazer a travessia; o Evangelho é para fazer estrada, viver em atitude de saída. Sair dos lugares conhecidos, rotineiros, estreitos e abrir-nos às surpresas dos lugares novos.

Outro dado instigante, apresentado no evangelho deste domingo: não basta ver a fome nas fotos, embora as fotos costumem “doer”. O importante é ver os rostos famintos. Jesus não é daqueles que, quando passa junto ao faminto, baixa os olhos para não ver. Jesus “levantou os olhos e viu uma grande multidão”.

Segundo a versão de João, Jesus é o primeiro que pensa na fome daquela multidão que acudiu para escutá-lo. Ela precisa comer e é preciso fazer algo. Assim era Jesus. Vivia pensando nas necessidades básicas do ser humano.

Jesus é daqueles que, quando descobre que a multidão tem fome, busca respostas, busca soluções. “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”


2 – O que o texto diz para mim?
A solução de Felipe é aquela que a maioria tem às mãos: só vê a dificuldade e, inclusive, a impossibilidade de encontrar uma saída para a situação. Ele recorda que o grupo não tem dinheiro. Entre os discípulos, todos são pobres: não podem comprar pão para tantos.

Jesus sabe disso. Os que têm dinheiro não resolverão nunca o problema da fome no mundo. É preciso algo mais que dinheiro. A solução de Jesus é abrir outra possibilidade: Ele vai ajudá-los a vislumbrar um caminho diferente. Antes de qualquer coisa, é necessário que ninguém monopolize o seu alimento para si mesmo, quando há outros que passam fome. Seus discípulos terão que aprender a pôr à disposição dos famintos o que têm, mesmo que sejam só “cinco pães de cevada e dois peixes”.

Jesus ensina que a dinâmica do Reino é a arte de compartilhar. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar o alimento necessário para todos os que passam fome... O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O pão nas mãos de Jesus era pão para ser partido, repartido e compartilhado.

O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece.

Também hoje Ele precisa de minhas mãos para multiplicar os grãos; precisa de minhas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de meu coração para que o pão seja repartido.

O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.

O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fratricidas provoca o pão sem coração!

Deus precisa de meu coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, para que posso comungar.

No pão compartilhado, encontro a luz da vida. “Se partes teu pão com o faminto... brilhará tua luz como a aurora” (Is. 58,7-8).

Uma refeição fraterna foi servida por Jesus a todos, graças ao gesto generoso de um menino, com seus cinco pães de cevada (pão dos pobres) e dois peixes. 

Para Jesus, isso é suficiente. Esse menino, sem nome e desconhecido, vai tornar possível o que parece ser impossível. Sua disponibilidade para partilhar tudo o que tem é o caminho para alimentar aquela multidão. Jesus fará o resto. Toma em suas mãos os pães, dá graças a Deus e começa a “re-parti-los” entre todos.

Esta refeição compartilhada era, para os primeiros cristãos, um símbolo atrativo da comunidade nascida do movimento de Jesus para construir uma humanidade nova e fraterna. Esta cena evocava-lhes, ao mesmo tempo, a eucaristia, celebrada no dia do Senhor, para que todos pudessem se alimentar do espírito e da força de Jesus, o Pão vivo vindo de Deus.

Mas, os seguidores de Jesus nunca esqueceram o gesto despojado daquele menino. Se há fome no mundo, não é por escassez de alimentos, mas por falta de solidariedade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor há pão para todos falta espírito generoso para partilhar. Tenho deixado a marcha do mundo nas mãos do poder financeiro, me dá medo partilhar o que tenho, e as pessoas morrem de fome devido ao meu egoísmo irracional.

A dinâmica do mundo neoliberal é precisamente o dinheiro. Creio que sem dinheiro nada se pode fazer e procuro converter tudo em dinheiro, não só os recursos naturais, mas também os recursos humanos e os valores: o amor, a amizade, o serviço, a justiça, a fraternidade, a fé, etc. Neste mundo capitalista nada é dado gratuitamente, tudo tem seu preço, tudo é taxado e comercializado. Esqueço que a vida acontece por pura gratuidade, por puro dom de Deus.

Jesus, nesta multiplicação dos pães e dos peixes, partiu daquilo que as pessoas tinham no momento. O milagre não foi tanto a multiplicação do alimento, mas o que aconteceu no interior de seus ouvintes: sentiram-se interpelados pela palavra de Jesus e, deixando de lado o egoísmo, cada um colocou o pouco que ainda tinham; maravilharam-se, depois, ao verem que o alimento se multiplicou e sobrou.

Compreenderam, então, que se o povo passava fome e necessidade, não era tanto pela situação de pobreza, mas pelo egoísmo dos homens e mulheres que, conformados com o que tinham não lhes importava que os outros passassem necessidades. O gesto de compartilhar marcou profundamente a vida das primeiras comunidades que seguiram a Jesus. Compartilhar o pão se converteu num gesto para prolongar e manter a vida, um gesto pascal. Ao partir o pão descobriam a presença nova do Ressuscitado.

Eu seguidora de Jesus, não devo esquecer o gesto de partilhar que é a chave para tornar realidade a fraternidade e para me reconhecer como filha do mesmo Pai. Quando se compartilha com gosto e com alegria, o alimento se multiplica e sobra. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu próprio interior é dotado de pães que devem ser acolhidos, abençoados, repartidos e distribuídos.

O alimento vem de minha própria interioridade: poucos pães e peixes, mas o suficiente para saciar a fome de muitos. Há um menino interior que aponta para a presença dos pães e peixes e me instiga a partilhar.

A atitude de Jesus é a mais simples e humana que posso imaginar. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Partilhar é vocação – fx 04 (04:47)
Autor: Eduardo Rodrigues da Silva
Intérpretes: Tony Daniel
CD: Avancem para águas mais profundas
Gravadora: Paulinas Comep

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