segunda-feira, 16 de julho de 2018

Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018


Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018

COMPAIXÃO: compartilhar a mesma humanidade

“ Jesus viu uma numerosa multidão, ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34)


Texto Bíblico: Marcos 6,30-34


1 – O que diz o texto?
No evangelho deste domingo, contemplamos Jesus olhando a realidade para além da superfície evidente de abandono em que vive o povo, até chegar a outra dimensão mais profunda onde descobre o rosto de um Pai compadecido, que sofre o abandono e a dor de seus filhos e filhas.

Jesus olha e vê. Esse é o primeiro passo. Não desvia de seus olhos a realidade dura de seu povo. “Contemplava”, ou seja, olhava atentamente, uma e outra vez, pousava o olhar sobre a crosta ressecada e sem beleza provocada por golpes mal curados. E, nesse primeiro olhar, vê a miséria da multidão dispersa frente à ausência de verdadeiros pastores que cuidassem de suas ovelhas; vê as mordidas mal cicatrizadas dos lobos.

Desse primeiro olhar nasce à compaixão, a misericórdia. Seu coração sensível deixa-se afetar pela miséria e abandono de seu povo.

Como em outras passagens do Evangelho, Jesus muda o plano do dia de descanso com seus discípulos para acolher a dor das pessoas que surge de repente em seu caminho; contempla-as, e em sua maneira de se fazer próximo está já encarnado, em gestos, palavras e olhares, o Reino que anuncia.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus é compassivo: esta é à base da atuação de Jesus. É precisamente esta compaixão de Deus aquela que move Jesus em direção das vítimas inocentes: as maltratadas pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. É a compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas. Sua paixão pelo Deus da compaixão se traduz em compaixão pelo ser humano.

A partir desta experiência de um Deus compassivo, Jesus vai introduzir um princípio de atuação, a compaixão. Chegou o momento de recuperar a compaixão como a herança decisiva que Jesus deixou à humanidade, a força que deve impregnar a marcha do mundo, o princípio de ação que deve mover a história para um futuro mais humano. É a compaixão, ativa e solidária, aquela que há de me conduzir para esse mundo mais digno e ditoso querido por Deus para todos. 

“Compaixão”, palavra de etimologia latina, significa “padecer com”, “sentir com”, “vibrar com”, “afetar-se com”... Seu equivalente, derivado do grego, seria a palavra “simpatia”, termo ao qual se opõe diretamente o de “apatia”, ausência de sentimentos, de vibração, de capacidade de proximidade...

Muitos se referem à compaixão como uma paixão, outros como uma emoção forte, outros ainda, como um sentimento...; mas todos coincidem em um ponto: ela tem a ver com minha comum humanidade.

A compaixão me situa em uma espécie de irmandade entre seres radicalmente iguais em sua humanidade. É um dinamismo natural que expressa à bondade original do ser humano, a origem dos sentimentos altruístas, a sensibilidade solidária...

A compaixão é força que impulsiona à ação; não se trata de uma relação de cima para baixo, de quem, a partir de uma situação superior e distante, faz concessões a quem lhe é inferior.

A compaixão é, antes de tudo, uma situação na qual prevalece a igualdade, a dignidade básica e comum do ser humano; ela capacita a superar barreiras e condicionamentos que impedem uma vinculação fraterna entre as pessoas, para chegar a se colocar no lugar do outro e atuar por e para ele.

A compaixão é essa capacidade de sentir com o outro, particularmente o outro golpeado pelas circunstâncias da vida. É a valentia para compartilhar sua paixão, é participação imediata no seu sofrimento e buscar com ele a esperança, o alívio e a alegria. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A compaixão desvela o sentimento profundo de amor para com aqueles que sofrem, buscando eficazmente aliviar sua situação, através de uma ação bondosa e serviçal.

Por isso o outro deixa de ser um estranho e se converte em próximo.

Mas a compaixão genuína nasce de uma fonte ainda mais profunda: não é só a experiência da própria vulnerabilidade, mas a consciência de uma identidade compartilhada. Não sou um ser separado que, eventualmente, se ajuda uns aos outros, mas que constituí uma Unidade, pela qual ninguém me é indiferente. O bem dos outros é meu bem; sua dor, minha dor. “Sou humano, e nada do humano me é alheio” (escritor romano Lactancio).

Posso afirmar que o obstáculo comum para viver a compaixão é a identificação com o ego.

Tal identificação apoia-se na crença fundamental de que sou um ser separado. Dessa crença nasce, entre outras coisas, o individualismo, a egocentrismo, a indiferença, a intolerância...

O ego busca a comodidade, porque se rege pela lei do mínimo esforço, ou seja, pelo apego ao “agradável” e a aversão para o “desagradável”. Tende a evitar tudo àquilo que lhe implica mudança em suas rotinas ou expectativas e busca, acima de tudo, “sentir-se bem”. Dado que a necessidade do outro o implicaria em um compromisso, o ego tende a refugiar-se na indiferença, que não é outra coisa que a “cegueira” diante da realidade, porque, como diz o refrão popular “olhos que não veem coração que não sente”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para eu poder viver a compaixão, precisa ativar os recursos internos que potenciam minha capacidade de sentir e minha capacidade de amar e, simultaneamente, o empenho pessoal que me permita libertar-me da identificação com o ego, assumindo um compromisso solidário com quem mais sofre.

A compaixão esvazia toda pretensão de poder, pois ela projeta a pessoa para o outro, torna a pessoa sensível ao clamor e às necessidades do outro. A compaixão rompe a couraça do “eu” constituída pelo poder. A vida do outro é a razão única da autoridade. 

Um dos sintomas que definem a minha época é o fato de ser um tempo de “sem compaixão”, um tempo no qual se faz muito difícil vibrar de verdade com os outros, alegrar-se com quem se alegra caminhar juntos, conviver, oferecendo-se mutuamente o ombro e dando-se as mãos.  

O outro, sua necessidade e sofrimento, será sempre a alavanca que gera no coração humano a compreensão e o exercício da autoridade como verdadeiro serviço.

Só a compaixão desloca cada um para o lugar do outro. Só a compaixão ilumina a realidade do sofrimento do outro. Só a compaixão move na direção da oferta do outro.

A compaixão é a entrada do ser humano no mundo do humano; ela é o perfume do humano que invade o chão da vida, a sua fragilidade e sofrimento, e torna operativo o processo de humanização.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência de viver permanentemente sob o olhar compassivo de Deus me permite descobrir que “o ser com” e “o ser para” é a autêntica condição humana que se desloca em direção ao outro, na arte de deixar e abrir lugar ao excluído, ao estranho, ao sobrante...

Viver o Seguimento de Jesus que é marcada pelo “olhar compassivo e comprometido”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,30-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tua Palavra nos encanta – Fx 04 (03:45)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Andreia Zanardi, Beto, Betinho, Dalva Tenório, Tiago Amaral, Ricardo Moreno.
CD: Fez a paz acontecer – canções litúrgicas & celebrativa
Gravadora: Paulinas Comep


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