terça-feira, 3 de julho de 2018

Leitura Orante – 14° Domingo Tempo Comum, 08 de julho de 2018


Leitura Orante – 14° Domingo Tempo Comum, 08 de julho de 2018

Num mundo de indiferença, 
ser presença que faz diferença.

“E escandalizavam-se dele” (Mc 6,3)


Texto Bíblico: Marcos 6,1-6


1 – O que diz o texto?
Marcos não tem relatos da infância de Jesus. Por isso, busca narrar alguns encontros dele com seu povo e sua família. No entanto, para aqueles que melhor O conheciam, Jesus era visto como um homem a mais, um Galileu a mais do povo. Seus conterrâneos estavam tão seguros de que Ele era uma “pessoa normal”, que não podiam aceitar Seu modo original de ser. Eram seus companheiros de infância, tinham brincado juntos, trabalhado com Ele, sabiam perfeitamente quem Ele era. “Enquadraram-no” numa família, requisito indispensável, naquela época, para ser alguém. Até esse momento não haviam descoberto n’Ele nada fora do “normal”. Como não esperassem nada extraordinário, de onde Ele tirava tanta sabedoria? 

O relato deste domingo é surpreendente. Jesus foi rejeitado precisamente pelos seus parentes e familiares. É a primeira vez que Ele experimenta uma rejeição coletiva, não dos dirigentes religiosos, mas de sua comunidade familiar, com quem convivera tanto tempo. 

Jesus se sente “desprezado”: os seus não o aceitam como portador da mensagem profética de Deus. Por isso, fecham-se em suas ideias preconcebidas a respeito do seu vizinho Jesus e resistem a abrirem-se à novidade revolucionária de sua mensagem e ao mistério que se revela em sua pessoa. 

Porque estavam acostumados a ouvir sempre o mesmo, rejeitam-no por ensinar “coisas novas”.

Mas Jesus não se deixou domesticar e nem se acomodou às expectativas de seus conterrâneos.

Sua vida desconcertou a todos; seu modo de falar, seus critérios, seu compromisso em favor da vida, sua liberdade de espírito suscitou um espanto em todos. Sua presença despertou perguntas, dúvidas e até discussões. Quem será Ele? Será o Messias? Ou não será? Como explicar sua vida?

Porque, “sendo um entre tantos”, atuava, pensava e vivia um estilo único que o diferenciava de todos? 

Sua postura de mestre e sua atuação desencadearam no seu povo uma crise, ou seja, romperam com a “normalidade doentia” das pessoas e se revelou imprevisível e desconcertante. 


2 – O que o texto diz para mim?
Na realidade, a reação dos familiares e parentes de Jesus é expressão da mesma reação que surge em mim quando,  diante de alguém que se revela original, com um novo modo de ser e viver, manifesto suspeitas, dúvidas, indiferença... O ser humano, em todos os tempos, tende a instalar-se, acomodando-se facilmente ao conhecido e se deixando levar pela rotina que evita sobressaltos; isso lhe confere uma certa sensação de segurança e tranquilidade: “para quê e por quê mudar...?”  

E isso ocorre também com suas idéias, crenças, visões... 

Habituado a ver a realidade a partir de uma determinada perspectiva, custa-lhe abrir-se a outras percepções, novas ou desconhecidas. Tem medo de ser diferente e reage com indiferença frente àqueles que são diferentes. E a indiferença mata.

Prefere a vulgaridade de ser como todo mundo à originalidade de ser diferente; prefere a monotonia de ser como todos e passar despercebido na multidão, sem chamar a atenção por ser distinto a todos, sendo ao mesmo tempo, como todos.

Posso, então, afirmar que o mais antievangélico será sempre uma pessoa, um grupo ou uma instituição instalada em suas ideias, posturas normótica, preconceituosas, intolerantes...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todos sabem que isso constitui um mecanismo de defesa através da qual a pessoa busca proteger-se frente àquilo que poderia questioná-la ou trata de desqualificar a alguém diante de quem se sentiria inferior. Aqui aparece claro como a desqualificação do outro esconde medo ao diferente ou, simplesmente, ao novo, e algum sentimento oculto de inferioridade.

O filósofo Gabriel Marcel escreveu que “a indiferença é o grau mais baixo da liberdade” e o Pastor negro, Martin Luther king Jr, concordava com isso, ao dizer que se assustava mais com as indiferenças dos bons do que com as atitudes dos maus. De fato, ele tinha razão. 

Se, por um lado ela é “a maneira mais polida de desprezar alguém” (Mario Quintana), a indiferença, em relação ao outro, é terreno fértil para alimentar o ego, levando-o à cobiça e à inveja. Não admira o semelhante a não ser para desconstruir ou destruir a sua imagem.

De fato, a indiferença é como uma praga no jardim vai se espalhando e contaminando e pode revelar, em sua raiz, uma insegurança estonteante em relação ao outro. 

Psicologicamente, eu diria que a indiferença é um mecanismo de defesa, é negação. Na negação do outro se escondem sentimentos de autodestruição e um deles é a inveja. Quem cultiva a indiferença, facilmente sente-se alegre ao saber que o outro está numa pior. Nietzsche afirma que não saber voar é a qualidade dos indiferentes que, cada vez menos, enxergam aqueles que voam alto e, se os enxergam, é a partir de uma ótica corrompida pela forma ofuscada de ver a vida. Jesus foi aquele que começou a voar alto e sua comunidade tentou cortar suas asas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, também para mim hoje continua sendo difícil crer n’Aquela que simplesmente se revela “como um de nós”. Não é fácil reconhecer a passagem de Deus por minha vida, especialmente quando essa passagem se reveste de “roupagem comum”; às vezes, gostaria que Deus se manifestasse de maneiras espetaculares, mas o enviado d’Ele, seu próprio Filho, come em minha mesa, caminha meus passos e veste minhas roupas. Rejeito, quase que por instinto, a revelação de um Jesus muito humano e que não esteja de acordo com o que aprendi desde pequena. Acostumada a ouvir sempre o mesmo, se alguém diz algo diferente, mesmo que esteja mais de acordo com o Evangelho, rejeito de imediato.

Estou segura de que “tudo o que não corresponde ao sabido, ao esperado, não pode vir de Deus”.

Em outras palavras, tenho medo do Jesus humano, porque Ele coloca em questão minha segurança, meu estilo de vida e minha vivência religiosa.

Entrar no caminho do seguimento de Jesus implica estar desapegada de todas as falsas imagens que posso fazer sobre Ele. Sempre que me fecho em ideias fixas sobre Jesus, estou me preparando para o escândalo.

O Jesus do Evangelho nunca se apresenta duas vezes com o mesmo rosto. Se O busco de verdade, descobri-Lo-ei sempre diferente e desconcertante. Se esperar encontrar um “Jesus domesticado” engano-me a mim mesma, aceitando o ídolo que já me é familiar. A consequência é uma vida cristã atrofiada e pesada, centrada na doutrina, na lei, na moral, e não no seguimento d’Aquele que, na “normalidade da vida”, deixou transparecer o extraordinário Amor do Pai. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Marcos não narra este episódio em Nazaré para satisfazer a curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado justamente por aqueles que acreditam conhecê-Lo melhor: aquele que se fecha em suas ideias pré-concebidas, sem abrir-se à novidade de sua mensagem e nem ao mistério de sua pessoa.

Esta era a preocupação de Paulo: “Não apagueis o Espírito, não desprezeis o dom de Profecia, mas examinai tudo e ficai somente com o que é bom” (1Tes 5,19-21). 

Eu como cristã deste tempo pós-moderno estou precisando alimentar esta atitude. 

Estou vivendo demasiado indiferente frente à novidade revolucionária da mensagem de Jesus. Com o peso do legalismo, do moralismo, do ritualismo, estou correndo o risco de apagar seu Espírito e desprezar sua Profecia.

Rezar sua presença cristã no cotidiano da vida: faz diferença.

Ser presença inspiradora e provocativa. 

Interpelar pelo modo original de ser e viver de Jesus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,1-6
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem é esse Jesus – Fx 01 (03:38)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Quem é esse Jesus
Gravadora: Paulinas Comep

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