terça-feira, 24 de julho de 2018

Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018


Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018

O pão mais saboroso é aquele que compartilhamos

“Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados...” (Jo 6,11)


Texto Bíblico: João 6,1-15


1 – O que diz o texto?
No domingo passado, o relato evangélico de Marcos nos deixou às portas da multiplicação dos pães. Em seu lugar, a liturgia insere, a partir deste domingo, todo o capítulo 6 do evangelho de João. É o mais longo e denso capítulo de todos os evangelhos, e que vai ocupar os próximos cinco domingos. Em seus 71 versículos, partindo da multiplicação dos pães, João elabora toda uma teologia do seguimento. No fundo trata-se de um processo de iniciação catequética, que na primitiva comunidade cristã duravam vários anos e que, no final inspirava o catecúmeno a tomar uma decisão definitiva: o batismo.

João, o evangelista dos detalhes, começa trazendo um dado interessante: “Jesus foi para o outro lado do mar da Galiléia”. Ao passar para a outra margem, Jesus desencadeia um movimento inspirador: não podemos nos limitar a ver as coisas a partir das margens conhecidas. É preciso deslocar-nos para a outra margem, para ver as coisas sob outra perspectiva, com um olhar mais amplo.

Jesus desvela o perigo de fechar-nos no próprio grupo, nas próprias ideias, doutrinas e considerar-nos como donos da verdade; somos sempre tentados a instalar-nos no conhecido e custa abrir-nos a outras percepções. É preciso fazer a travessia para deixar-nos interpelar pelo novo, colocar em questão nossa própria visão e compreensão da vida e enriquecer-nos com outros pontos de vista: a dos pobres e marginalizados.

O Evangelho não é para acomodados ou para aqueles que têm medo de fazer a travessia; o Evangelho é para fazer estrada, viver em atitude de saída. Sair dos lugares conhecidos, rotineiros, estreitos e abrir-nos às surpresas dos lugares novos.

Outro dado instigante, apresentado no evangelho deste domingo: não basta ver a fome nas fotos, embora as fotos costumem “doer”. O importante é ver os rostos famintos. Jesus não é daqueles que, quando passa junto ao faminto, baixa os olhos para não ver. Jesus “levantou os olhos e viu uma grande multidão”.

Segundo a versão de João, Jesus é o primeiro que pensa na fome daquela multidão que acudiu para escutá-lo. Ela precisa comer e é preciso fazer algo. Assim era Jesus. Vivia pensando nas necessidades básicas do ser humano.

Jesus é daqueles que, quando descobre que a multidão tem fome, busca respostas, busca soluções. “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”


2 – O que o texto diz para mim?
A solução de Felipe é aquela que a maioria tem às mãos: só vê a dificuldade e, inclusive, a impossibilidade de encontrar uma saída para a situação. Ele recorda que o grupo não tem dinheiro. Entre os discípulos, todos são pobres: não podem comprar pão para tantos.

Jesus sabe disso. Os que têm dinheiro não resolverão nunca o problema da fome no mundo. É preciso algo mais que dinheiro. A solução de Jesus é abrir outra possibilidade: Ele vai ajudá-los a vislumbrar um caminho diferente. Antes de qualquer coisa, é necessário que ninguém monopolize o seu alimento para si mesmo, quando há outros que passam fome. Seus discípulos terão que aprender a pôr à disposição dos famintos o que têm, mesmo que sejam só “cinco pães de cevada e dois peixes”.

Jesus ensina que a dinâmica do Reino é a arte de compartilhar. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar o alimento necessário para todos os que passam fome... O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O pão nas mãos de Jesus era pão para ser partido, repartido e compartilhado.

O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece.

Também hoje Ele precisa de minhas mãos para multiplicar os grãos; precisa de minhas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de meu coração para que o pão seja repartido.

O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.

O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fratricidas provoca o pão sem coração!

Deus precisa de meu coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, para que posso comungar.

No pão compartilhado, encontro a luz da vida. “Se partes teu pão com o faminto... brilhará tua luz como a aurora” (Is. 58,7-8).

Uma refeição fraterna foi servida por Jesus a todos, graças ao gesto generoso de um menino, com seus cinco pães de cevada (pão dos pobres) e dois peixes. 

Para Jesus, isso é suficiente. Esse menino, sem nome e desconhecido, vai tornar possível o que parece ser impossível. Sua disponibilidade para partilhar tudo o que tem é o caminho para alimentar aquela multidão. Jesus fará o resto. Toma em suas mãos os pães, dá graças a Deus e começa a “re-parti-los” entre todos.

Esta refeição compartilhada era, para os primeiros cristãos, um símbolo atrativo da comunidade nascida do movimento de Jesus para construir uma humanidade nova e fraterna. Esta cena evocava-lhes, ao mesmo tempo, a eucaristia, celebrada no dia do Senhor, para que todos pudessem se alimentar do espírito e da força de Jesus, o Pão vivo vindo de Deus.

Mas, os seguidores de Jesus nunca esqueceram o gesto despojado daquele menino. Se há fome no mundo, não é por escassez de alimentos, mas por falta de solidariedade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor há pão para todos falta espírito generoso para partilhar. Tenho deixado a marcha do mundo nas mãos do poder financeiro, me dá medo partilhar o que tenho, e as pessoas morrem de fome devido ao meu egoísmo irracional.

A dinâmica do mundo neoliberal é precisamente o dinheiro. Creio que sem dinheiro nada se pode fazer e procuro converter tudo em dinheiro, não só os recursos naturais, mas também os recursos humanos e os valores: o amor, a amizade, o serviço, a justiça, a fraternidade, a fé, etc. Neste mundo capitalista nada é dado gratuitamente, tudo tem seu preço, tudo é taxado e comercializado. Esqueço que a vida acontece por pura gratuidade, por puro dom de Deus.

Jesus, nesta multiplicação dos pães e dos peixes, partiu daquilo que as pessoas tinham no momento. O milagre não foi tanto a multiplicação do alimento, mas o que aconteceu no interior de seus ouvintes: sentiram-se interpelados pela palavra de Jesus e, deixando de lado o egoísmo, cada um colocou o pouco que ainda tinham; maravilharam-se, depois, ao verem que o alimento se multiplicou e sobrou.

Compreenderam, então, que se o povo passava fome e necessidade, não era tanto pela situação de pobreza, mas pelo egoísmo dos homens e mulheres que, conformados com o que tinham não lhes importava que os outros passassem necessidades. O gesto de compartilhar marcou profundamente a vida das primeiras comunidades que seguiram a Jesus. Compartilhar o pão se converteu num gesto para prolongar e manter a vida, um gesto pascal. Ao partir o pão descobriam a presença nova do Ressuscitado.

Eu seguidora de Jesus, não devo esquecer o gesto de partilhar que é a chave para tornar realidade a fraternidade e para me reconhecer como filha do mesmo Pai. Quando se compartilha com gosto e com alegria, o alimento se multiplica e sobra. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu próprio interior é dotado de pães que devem ser acolhidos, abençoados, repartidos e distribuídos.

O alimento vem de minha própria interioridade: poucos pães e peixes, mas o suficiente para saciar a fome de muitos. Há um menino interior que aponta para a presença dos pães e peixes e me instiga a partilhar.

A atitude de Jesus é a mais simples e humana que posso imaginar. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Partilhar é vocação – fx 04 (04:47)
Autor: Eduardo Rodrigues da Silva
Intérpretes: Tony Daniel
CD: Avancem para águas mais profundas
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018


Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018

COMPAIXÃO: compartilhar a mesma humanidade

“ Jesus viu uma numerosa multidão, ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34)


Texto Bíblico: Marcos 6,30-34


1 – O que diz o texto?
No evangelho deste domingo, contemplamos Jesus olhando a realidade para além da superfície evidente de abandono em que vive o povo, até chegar a outra dimensão mais profunda onde descobre o rosto de um Pai compadecido, que sofre o abandono e a dor de seus filhos e filhas.

Jesus olha e vê. Esse é o primeiro passo. Não desvia de seus olhos a realidade dura de seu povo. “Contemplava”, ou seja, olhava atentamente, uma e outra vez, pousava o olhar sobre a crosta ressecada e sem beleza provocada por golpes mal curados. E, nesse primeiro olhar, vê a miséria da multidão dispersa frente à ausência de verdadeiros pastores que cuidassem de suas ovelhas; vê as mordidas mal cicatrizadas dos lobos.

Desse primeiro olhar nasce à compaixão, a misericórdia. Seu coração sensível deixa-se afetar pela miséria e abandono de seu povo.

Como em outras passagens do Evangelho, Jesus muda o plano do dia de descanso com seus discípulos para acolher a dor das pessoas que surge de repente em seu caminho; contempla-as, e em sua maneira de se fazer próximo está já encarnado, em gestos, palavras e olhares, o Reino que anuncia.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus é compassivo: esta é à base da atuação de Jesus. É precisamente esta compaixão de Deus aquela que move Jesus em direção das vítimas inocentes: as maltratadas pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. É a compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas. Sua paixão pelo Deus da compaixão se traduz em compaixão pelo ser humano.

A partir desta experiência de um Deus compassivo, Jesus vai introduzir um princípio de atuação, a compaixão. Chegou o momento de recuperar a compaixão como a herança decisiva que Jesus deixou à humanidade, a força que deve impregnar a marcha do mundo, o princípio de ação que deve mover a história para um futuro mais humano. É a compaixão, ativa e solidária, aquela que há de me conduzir para esse mundo mais digno e ditoso querido por Deus para todos. 

“Compaixão”, palavra de etimologia latina, significa “padecer com”, “sentir com”, “vibrar com”, “afetar-se com”... Seu equivalente, derivado do grego, seria a palavra “simpatia”, termo ao qual se opõe diretamente o de “apatia”, ausência de sentimentos, de vibração, de capacidade de proximidade...

Muitos se referem à compaixão como uma paixão, outros como uma emoção forte, outros ainda, como um sentimento...; mas todos coincidem em um ponto: ela tem a ver com minha comum humanidade.

A compaixão me situa em uma espécie de irmandade entre seres radicalmente iguais em sua humanidade. É um dinamismo natural que expressa à bondade original do ser humano, a origem dos sentimentos altruístas, a sensibilidade solidária...

A compaixão é força que impulsiona à ação; não se trata de uma relação de cima para baixo, de quem, a partir de uma situação superior e distante, faz concessões a quem lhe é inferior.

A compaixão é, antes de tudo, uma situação na qual prevalece a igualdade, a dignidade básica e comum do ser humano; ela capacita a superar barreiras e condicionamentos que impedem uma vinculação fraterna entre as pessoas, para chegar a se colocar no lugar do outro e atuar por e para ele.

A compaixão é essa capacidade de sentir com o outro, particularmente o outro golpeado pelas circunstâncias da vida. É a valentia para compartilhar sua paixão, é participação imediata no seu sofrimento e buscar com ele a esperança, o alívio e a alegria. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A compaixão desvela o sentimento profundo de amor para com aqueles que sofrem, buscando eficazmente aliviar sua situação, através de uma ação bondosa e serviçal.

Por isso o outro deixa de ser um estranho e se converte em próximo.

Mas a compaixão genuína nasce de uma fonte ainda mais profunda: não é só a experiência da própria vulnerabilidade, mas a consciência de uma identidade compartilhada. Não sou um ser separado que, eventualmente, se ajuda uns aos outros, mas que constituí uma Unidade, pela qual ninguém me é indiferente. O bem dos outros é meu bem; sua dor, minha dor. “Sou humano, e nada do humano me é alheio” (escritor romano Lactancio).

Posso afirmar que o obstáculo comum para viver a compaixão é a identificação com o ego.

Tal identificação apoia-se na crença fundamental de que sou um ser separado. Dessa crença nasce, entre outras coisas, o individualismo, a egocentrismo, a indiferença, a intolerância...

O ego busca a comodidade, porque se rege pela lei do mínimo esforço, ou seja, pelo apego ao “agradável” e a aversão para o “desagradável”. Tende a evitar tudo àquilo que lhe implica mudança em suas rotinas ou expectativas e busca, acima de tudo, “sentir-se bem”. Dado que a necessidade do outro o implicaria em um compromisso, o ego tende a refugiar-se na indiferença, que não é outra coisa que a “cegueira” diante da realidade, porque, como diz o refrão popular “olhos que não veem coração que não sente”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para eu poder viver a compaixão, precisa ativar os recursos internos que potenciam minha capacidade de sentir e minha capacidade de amar e, simultaneamente, o empenho pessoal que me permita libertar-me da identificação com o ego, assumindo um compromisso solidário com quem mais sofre.

A compaixão esvazia toda pretensão de poder, pois ela projeta a pessoa para o outro, torna a pessoa sensível ao clamor e às necessidades do outro. A compaixão rompe a couraça do “eu” constituída pelo poder. A vida do outro é a razão única da autoridade. 

Um dos sintomas que definem a minha época é o fato de ser um tempo de “sem compaixão”, um tempo no qual se faz muito difícil vibrar de verdade com os outros, alegrar-se com quem se alegra caminhar juntos, conviver, oferecendo-se mutuamente o ombro e dando-se as mãos.  

O outro, sua necessidade e sofrimento, será sempre a alavanca que gera no coração humano a compreensão e o exercício da autoridade como verdadeiro serviço.

Só a compaixão desloca cada um para o lugar do outro. Só a compaixão ilumina a realidade do sofrimento do outro. Só a compaixão move na direção da oferta do outro.

A compaixão é a entrada do ser humano no mundo do humano; ela é o perfume do humano que invade o chão da vida, a sua fragilidade e sofrimento, e torna operativo o processo de humanização.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência de viver permanentemente sob o olhar compassivo de Deus me permite descobrir que “o ser com” e “o ser para” é a autêntica condição humana que se desloca em direção ao outro, na arte de deixar e abrir lugar ao excluído, ao estranho, ao sobrante...

Viver o Seguimento de Jesus que é marcada pelo “olhar compassivo e comprometido”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,30-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tua Palavra nos encanta – Fx 04 (03:45)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Andreia Zanardi, Beto, Betinho, Dalva Tenório, Tiago Amaral, Ricardo Moreno.
CD: Fez a paz acontecer – canções litúrgicas & celebrativa
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 10 de julho de 2018

Leitura Orante – 15° Domingo Tempo Comum, 15 de julho de 2018


Leitura Orante – 15° Domingo Tempo Comum, 15 de julho de 2018

Conhece-se os seguidores de Jesus pelos pés.

“E Ele percorria os povoados da região, ensinando” (Mc 6,6)


Texto Bíblico: Marcos 6,7-13


1 – O que diz o texto?
Jesus, o Homem dos Caminhos, chama para uma Vida nova. Chama na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento, a caminho. A “pegada” que Ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada.

Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. 

Jesus, o homem que se definiu, tem um sonho, um projeto (Reino). E surge diante dos outros com força pessoal capaz de sacudi-los e colocá-los em movimento.  Ele “passa” e sua presença os atrai arrancando-os da acomodação. 

Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar esse chamado um caminho de entrega e de serviço.                                                   

Jesus nos apresenta uma causa muito nobre e, com seu chamado, rompe nosso estreito mundo e despertas em nós ricas possibilidades, reacende o que de mais nobre há em cada um e amplia nosso horizonte de vida. Para isso é preciso sair dos templos que pretendem fechar e aprisionar o Espírito, para dirigir-nos aos caminhos do mundo, para entrar em sintonia com o Coração e o Manancial da Vida, “em espírito e verdade”, tocando a carne concreta da Humanidade e da Mãe Terra.

“Chamado - resposta” implica, pois, um encontro comprometedor. O modo de ser de Jesus, transparente e livre, ativa nossa vida atrofiada e estreita e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... A ressonância de seu chamado nos predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que nos permitam peregrinar e viver no contexto atual com amor, entusiasmo e criatividade.

Jesus envia seus discípulos com o necessário para caminhar: cajado, sandálias e uma túnica. Não precisam de mais nada para ser testemunha do essencial. Jesus quer vê-los livres e sem ataduras, sempre disponíveis, sem instalar-se no bem-estar, confiando na força do Evangelho.

“O discípulo-missionário é um des-centrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias”. (Papa Francisco)


2 – O que o texto diz para mim?
“Adeptos, adeptas do Caminho”: assim eram conhecidos os primeiros seguidores e seguidoras de Jesus. (At 9,2)

Assim também quer Jesus que eu seja sua seguidora, sempre em caminho, em todos os lugares, em todas as casas de passagem, disposta a parar e conversar, pronta ao encontro e à solidariedade com todos os que vão e vem pela vida. 

Como seria bom voltar a recuperar o sentido desta expressão (“adeptos do Caminho”), pois ela me convida a continuar percorrendo o caminho cotidiano da existência de uma maneira cristificada; e isto é algo fundamental para o encontro profundo com o outro, com as alegrias e os sofrimentos daqueles que se encontram às margens, com a novidade e a surpresa da senda da vida, com o desafio de prosseguir confiando na Boa Notícia de Jesus, que se manteve sempre em caminho pelas estradas da Palestina, para levantar os feridos, oprimidos e excluídos do sistema social e religioso.

Hoje como ontem, sair, caminhar, deslocar-se, ser itinerante... tem sentido, porque significa ir ao encontro do novo e do diferente. “Sair” é também uma experiência constitutiva da natureza humana porque tem um ar transformador. Cada um, ao longo do caminho, experimenta “novos modos” de habitar a existência, de olhar-se, pensar e relacionar-se.  A itinerância permite ir mais além de si mesmo para encontrar outras maneiras de viver, para entrar em outras terras prometidas, para aproximar-se de outras pessoas, povos, culturas, onde encontrar  o sentido de vida; sobretudo,  possibilita ir ao encontro d’Aquele que me transcende e sempre se revelou Peregrino.

A vida humana, neste sentido, é caminho, com um ponto de partida, uma meta, um trajeto e um horizonte. Caminho, palavra familiar e também humilde que evoca a existência de uma origem e um destino e, entre ambos, de uma aventura: a aventura de meu caminhar, feita de desafios e extravios, e também de encontros e de momentos inesquecíveis me conforta ao longo do percurso.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou “peregrina” neste “êxodo de mim mesma para Deus”, no qual me “adentro em terra estranha, despojada dos suportes usuais da existência, desprovida de todo amparo que não seja o da caridade...” (Tellechea Idógoras). 

Quem caminha calcula seu trajeto, suas próprias forças, fadigas, planeja suas paradas. Por outra parte, decide correr o risco de sair de sua zona de conforto, para abrirse à paisagem de novas relações, ao inesperado e inexplorado, a novos encontros e sensações, a confiar e percorrer a própria existência.

O caminho é um processo de mudança pessoal, um lugar pedagógico de cura, de aprendizagens, abertas ao assombro, a um olhar dinamizador, à liberdade de pensamento e de ação. Ele me move a dilatar o coração e interessar-me pela situação das demais pessoas, a aproximar-me dos samaritanos e das samaritanas que encontro nas idas e vindas. Porque o caminho é a ocasião, o Kairós, o tempo pedagógico de um movimento que vivifica, deixa pegada e sabor de um outro sentir.

Posso dizer que na Igreja são imprescindíveis os itinerantes, os peregrinos do Reino de Deus, como o próprio Jesus, que enviou discípulos e discípulas pelos caminhos e povos, sem nenhuma estrutura de apoio a não ser um coração disposto a não querer outra riqueza a não ser o fermento de nova humanidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? 

Senhor, preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para arriscar-me a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para enfrentar o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei e me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Com os itinerantes Jesus iniciou um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo foi um itinerante. Não permaneceu numa casa, não se fechou em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas foi percorrendo, com um grupo de discípulos e discípulas  amigos e amigas, também itinerantes, os povoados e aldeias da Galiléia, anunciando e tornando presente o Reino. Jesus os tirou de seus lugares estáveis, de suas simples redes da margem do mar, e os fez itinerantes através de outros e amplos caminhos e mares, para assim encontrar-se com os caminhantes, os perdidos e expulsos, e iniciar com eles a grande Marcha da Vida.

Na minha vida acontece algo de verdadeiro e belo quando me disponho a buscar dentro de mim mesma a razão da minha existência.

No “mapa espiritual” de meu interior ainda existe uma “terra desconhecida”, que proporciona interesse à vida, suscita curiosidade, me põe a caminho...  

Grandes surpresas interiores estão à minha espera, e a capacidade de continuar procurando é que dá sentido ao esforço e vigor à vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,7-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Caminhos e Jornadas Fx 04 (1.58)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, SCJ
Coro: Fernandinho, Ringo, Angela Márcia, Caio Flavio, Silvinha Araujo, Roberto Merli, Dalva de S. Tenorio, Márcia M. Carvalho
CD: Ir ao povo
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 3 de julho de 2018

Leitura Orante – 14° Domingo Tempo Comum, 08 de julho de 2018


Leitura Orante – 14° Domingo Tempo Comum, 08 de julho de 2018

Num mundo de indiferença, 
ser presença que faz diferença.

“E escandalizavam-se dele” (Mc 6,3)


Texto Bíblico: Marcos 6,1-6


1 – O que diz o texto?
Marcos não tem relatos da infância de Jesus. Por isso, busca narrar alguns encontros dele com seu povo e sua família. No entanto, para aqueles que melhor O conheciam, Jesus era visto como um homem a mais, um Galileu a mais do povo. Seus conterrâneos estavam tão seguros de que Ele era uma “pessoa normal”, que não podiam aceitar Seu modo original de ser. Eram seus companheiros de infância, tinham brincado juntos, trabalhado com Ele, sabiam perfeitamente quem Ele era. “Enquadraram-no” numa família, requisito indispensável, naquela época, para ser alguém. Até esse momento não haviam descoberto n’Ele nada fora do “normal”. Como não esperassem nada extraordinário, de onde Ele tirava tanta sabedoria? 

O relato deste domingo é surpreendente. Jesus foi rejeitado precisamente pelos seus parentes e familiares. É a primeira vez que Ele experimenta uma rejeição coletiva, não dos dirigentes religiosos, mas de sua comunidade familiar, com quem convivera tanto tempo. 

Jesus se sente “desprezado”: os seus não o aceitam como portador da mensagem profética de Deus. Por isso, fecham-se em suas ideias preconcebidas a respeito do seu vizinho Jesus e resistem a abrirem-se à novidade revolucionária de sua mensagem e ao mistério que se revela em sua pessoa. 

Porque estavam acostumados a ouvir sempre o mesmo, rejeitam-no por ensinar “coisas novas”.

Mas Jesus não se deixou domesticar e nem se acomodou às expectativas de seus conterrâneos.

Sua vida desconcertou a todos; seu modo de falar, seus critérios, seu compromisso em favor da vida, sua liberdade de espírito suscitou um espanto em todos. Sua presença despertou perguntas, dúvidas e até discussões. Quem será Ele? Será o Messias? Ou não será? Como explicar sua vida?

Porque, “sendo um entre tantos”, atuava, pensava e vivia um estilo único que o diferenciava de todos? 

Sua postura de mestre e sua atuação desencadearam no seu povo uma crise, ou seja, romperam com a “normalidade doentia” das pessoas e se revelou imprevisível e desconcertante. 


2 – O que o texto diz para mim?
Na realidade, a reação dos familiares e parentes de Jesus é expressão da mesma reação que surge em mim quando,  diante de alguém que se revela original, com um novo modo de ser e viver, manifesto suspeitas, dúvidas, indiferença... O ser humano, em todos os tempos, tende a instalar-se, acomodando-se facilmente ao conhecido e se deixando levar pela rotina que evita sobressaltos; isso lhe confere uma certa sensação de segurança e tranquilidade: “para quê e por quê mudar...?”  

E isso ocorre também com suas idéias, crenças, visões... 

Habituado a ver a realidade a partir de uma determinada perspectiva, custa-lhe abrir-se a outras percepções, novas ou desconhecidas. Tem medo de ser diferente e reage com indiferença frente àqueles que são diferentes. E a indiferença mata.

Prefere a vulgaridade de ser como todo mundo à originalidade de ser diferente; prefere a monotonia de ser como todos e passar despercebido na multidão, sem chamar a atenção por ser distinto a todos, sendo ao mesmo tempo, como todos.

Posso, então, afirmar que o mais antievangélico será sempre uma pessoa, um grupo ou uma instituição instalada em suas ideias, posturas normótica, preconceituosas, intolerantes...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todos sabem que isso constitui um mecanismo de defesa através da qual a pessoa busca proteger-se frente àquilo que poderia questioná-la ou trata de desqualificar a alguém diante de quem se sentiria inferior. Aqui aparece claro como a desqualificação do outro esconde medo ao diferente ou, simplesmente, ao novo, e algum sentimento oculto de inferioridade.

O filósofo Gabriel Marcel escreveu que “a indiferença é o grau mais baixo da liberdade” e o Pastor negro, Martin Luther king Jr, concordava com isso, ao dizer que se assustava mais com as indiferenças dos bons do que com as atitudes dos maus. De fato, ele tinha razão. 

Se, por um lado ela é “a maneira mais polida de desprezar alguém” (Mario Quintana), a indiferença, em relação ao outro, é terreno fértil para alimentar o ego, levando-o à cobiça e à inveja. Não admira o semelhante a não ser para desconstruir ou destruir a sua imagem.

De fato, a indiferença é como uma praga no jardim vai se espalhando e contaminando e pode revelar, em sua raiz, uma insegurança estonteante em relação ao outro. 

Psicologicamente, eu diria que a indiferença é um mecanismo de defesa, é negação. Na negação do outro se escondem sentimentos de autodestruição e um deles é a inveja. Quem cultiva a indiferença, facilmente sente-se alegre ao saber que o outro está numa pior. Nietzsche afirma que não saber voar é a qualidade dos indiferentes que, cada vez menos, enxergam aqueles que voam alto e, se os enxergam, é a partir de uma ótica corrompida pela forma ofuscada de ver a vida. Jesus foi aquele que começou a voar alto e sua comunidade tentou cortar suas asas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, também para mim hoje continua sendo difícil crer n’Aquela que simplesmente se revela “como um de nós”. Não é fácil reconhecer a passagem de Deus por minha vida, especialmente quando essa passagem se reveste de “roupagem comum”; às vezes, gostaria que Deus se manifestasse de maneiras espetaculares, mas o enviado d’Ele, seu próprio Filho, come em minha mesa, caminha meus passos e veste minhas roupas. Rejeito, quase que por instinto, a revelação de um Jesus muito humano e que não esteja de acordo com o que aprendi desde pequena. Acostumada a ouvir sempre o mesmo, se alguém diz algo diferente, mesmo que esteja mais de acordo com o Evangelho, rejeito de imediato.

Estou segura de que “tudo o que não corresponde ao sabido, ao esperado, não pode vir de Deus”.

Em outras palavras, tenho medo do Jesus humano, porque Ele coloca em questão minha segurança, meu estilo de vida e minha vivência religiosa.

Entrar no caminho do seguimento de Jesus implica estar desapegada de todas as falsas imagens que posso fazer sobre Ele. Sempre que me fecho em ideias fixas sobre Jesus, estou me preparando para o escândalo.

O Jesus do Evangelho nunca se apresenta duas vezes com o mesmo rosto. Se O busco de verdade, descobri-Lo-ei sempre diferente e desconcertante. Se esperar encontrar um “Jesus domesticado” engano-me a mim mesma, aceitando o ídolo que já me é familiar. A consequência é uma vida cristã atrofiada e pesada, centrada na doutrina, na lei, na moral, e não no seguimento d’Aquele que, na “normalidade da vida”, deixou transparecer o extraordinário Amor do Pai. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Marcos não narra este episódio em Nazaré para satisfazer a curiosidade de seus leitores, mas para advertir às comunidades cristãs que Jesus pode ser rejeitado justamente por aqueles que acreditam conhecê-Lo melhor: aquele que se fecha em suas ideias pré-concebidas, sem abrir-se à novidade de sua mensagem e nem ao mistério de sua pessoa.

Esta era a preocupação de Paulo: “Não apagueis o Espírito, não desprezeis o dom de Profecia, mas examinai tudo e ficai somente com o que é bom” (1Tes 5,19-21). 

Eu como cristã deste tempo pós-moderno estou precisando alimentar esta atitude. 

Estou vivendo demasiado indiferente frente à novidade revolucionária da mensagem de Jesus. Com o peso do legalismo, do moralismo, do ritualismo, estou correndo o risco de apagar seu Espírito e desprezar sua Profecia.

Rezar sua presença cristã no cotidiano da vida: faz diferença.

Ser presença inspiradora e provocativa. 

Interpelar pelo modo original de ser e viver de Jesus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,1-6
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Quem é esse Jesus – Fx 01 (03:38)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Quem é esse Jesus
Gravadora: Paulinas Comep