terça-feira, 29 de maio de 2018

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018


Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018

CORPUS CHRISTI: comunhão com Cristo, comunhão com o universo.

Tendo tomado o pão e pronunciado a benção, partiu-o e lhes deu, e disse:
“Tomai, isto é o meu corpo”.  (Mc 14,22)


Texto Bíblico: Marcos 14,12-16.22-26


1 – O que diz o texto?
Na celebração da festa de Corpus Christi, corremos o risco de honrar o Corpo de Jesus, mas desprezar o corpo humano, “a carne de Cristo”. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o encontro com os “corpos desfigurados”: explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos... Pode ser que tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aqui, ali, lá, por todos os lados. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (Papa Francisco).

É esse o sentido que a festa de “Corpus Christi” nos revela, ou seja, a festa do Corpo Histórico e Humano de Jesus, corpo prazeroso e sofredor, amado por muitos e muitas, rejeitado, crucificado, morto e ressuscitado. Esta é também a festa do grande Corpo de Cristo que é a Humanidade inteira. Corpo real de Cristo é especialmente todos os que sofrem com Ele no mundo, os enfermos e famintos, os rejeitados e encarcerados, os pobres e excluídos... Eles são a humanidade ferida no Corpo do Filho de Deus.

Corpo de Cristo é também o universo inteiro, criado por Deus para que nele se encarnasse e habitasse seu Filho. Assim Jesus, na Ceia, ao tomar o pão e o vinho em suas mãos, abraça os bilhões de anos de evolução e chama-os de seu Corpo e de seu Sangue. Cada cristão, ao fazer “memória” do Corpo de Jesus, entra em comunhão com todas as energias da Criação. 

Corpo de Cristo que continua sendo o Pão, fruto da terra e do trabalho dos homens e mulheres, todo pão que alimenta e é compartilhado, em fraternidade, a serviço dos que tem fome.

Jesus não compactuou com a visão dualista do ser humano (corpo e alma). Para Ele, tudo era sacramento, epifania de Deus, revelação do Reino, história de salvação...

Jesus escandalizou a muitos proclamando que o “puro” ou “impuro”, não está fora, em ritos e prescrições. Não são impuros os enfermos, as mulheres menstruadas, os leprosos, as prostitutas...; a “pureza” está no coração que nos permite um olhar límpido, não possessivo, egoísta, invejoso ou violento...

Jesus levou muito a sério a questão do corpo, o seu e o das pessoas que encontrou ao longo de sua vida. Cuidou do seu descanso e o daqueles que com Ele compartilhavam o mesmo caminho; deixou-se acariciar e ungir sua cabeça e seus pés com perfumes valiosíssimos por algumas mulheres, algumas delas malvistas pelos rótulos preconceituosos que os varões lhe impunham, agradecendo esse gesto fruto de um amor sem cálculos; curou corpos atrofiados pela doença e fragilizados pela exploração... Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar...


2 – O que o texto diz para mim?
Se fixar minha atenção em Jesus na última Ceia, descubro que suas palavras (“isto é o meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo, a verdade central do Evangelho.

Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos... Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

Aqui preciso encontrar a justa proximidade para me relacionar com o corpo e estabelecer um vínculo sadio com ele. Afinal, minhas maneiras de me relacionar estão configuradas por ele. Não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em meu corpo.

O meu corpo me pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, me pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação... O corpo não é só a unidade de meus membros, mas a presença de minha pessoa; por ele estou e sou.

O corpo é o companheiro inseparável de meu caminho. É preciso senti-lo, percebê-lo, escutá-lo. Mas é preciso ir mais longe: posso afirmar que o corpo se transforma em caixa de ressonância da “voz de Deus” que me previne contra caminhos equivocados e me orienta para uma vida natural e plena.

O corpo é “lugar” teológico, lugar da manifestação de Deus; neste sentido é morada do divino, habitação do Espírito, enquanto participa, pensa, sente, deseja, decide...

Quem não escuta nem percebe seu corpo não pode compreender o sentido da vida, do amor, das relações... pois cairá no narcisismo de seu próprio ego. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, não é possível viver feliz sem relações amistosas e próximas com o corpo, para poder entendê-lo e expressar-se adequadamente com ele. Para conhecer-se é necessário acolher o corpo, querer o corpo, observar o corpo, olhar para dentro do próprio corpo, com atitude reverente. 

Minha própria casa é meu corpo; o templo onde Deus se revela a mim. Só eu posso habitar e possuir meu corpo. Eu me identifico com meu corpo, sem o qual não posso viver. Deus, com seu Espírito, anima meu corpo; mas não pode habitar em mim a graça de Deus sem a colaboração e a abertura de meu corpo. 

Meu corpo constitui minha presença no mundo; a acolhida do próprio corpo me projeta para uma relação sadia com o corpo do outro; é o cuidado do corpo do outro que determina minha relação com Deus (Mateus 25,31-46). O corpo do ferido, do faminto, do preso... tornam-se “territórios sagrados” onde cresço e me humanizo; são os “lugares” nos quais Deus revela seu rosto compassivo.

O corpo é um documento histórico: há corpo burguês e corpo proletário, corpo de cidade e corpo de roça; há corpos explorados e corpos que são só força de trabalho; corpos que são modelos anatômicos; os “corpos empobrecidos” gritam a Deus por justiça, por alimento, por saúde e por novas relações entre os humanos e os cosmos gritam a Deus por viver. 

O corpo desrespeitado, expropriado e dominado de muitas pessoas, clama a liberdade, a paz, a vida.

O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição. 

O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega... Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” meu corpo.

“Tomai, Senhor, e recebei”, toda minha corporalidade, com suas pulsões, seus limites e sua energia profunda. Que não fique nada em mim onde Tu não entre. “Nenhum quarto escuro nem fechado que não seja invadido por Ti”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 

Corpo de Cristo

Olhos inquietos por verem tudo. 

Ouvidos atentos aos lamentos, aos gritos, aos chamados.

Língua disposta a falar verdade, paixão, justiça.

Cabeça que pensa, para encontrar respostas e adivinhar caminhos, para romper noites com brilhos novos.

Mãos gastas de tanto servir, de tanto abraçar, de tanto acolher, de tanto repartir pão, promessa e lar.

Entranhas de misericordiosas para chorar as vidas golpeadas e celebrar as alegrias.

Pés em marcha em direção a terras abertas e a lugares de encontro.

Cicatrizes que falam de lutas, de feridas, de entregas, de amor, de ressurreição.

Corpo de Cristo… Corpo nosso. (José Maria Olaizola, SJ)



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 14,12-16.22-26
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – Fx 02 (04:37)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep

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