quinta-feira, 31 de maio de 2018

Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018


Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018

A INTRANSIGÊNCIA QUE NOS PETRIFICA

“...os fariseus, com os herodianos, 
puseram-se de acordo contra ele, em como fazê-lo perecer.”  (Mc 3,6)


Texto Bíblico: Marcos  2,23-3,6


1 – O que diz o texto?
No Evangelho deste domingo, Jesus desmascara uma patologia do espírito, uma enfermidade da alma, uma espécie de tumor social: trata-se da intransigência, que se expressa nas atitudes de preconceito, intolerância, fanatismo, racismo, indiferença, legalismo, moralismo..., matando na raiz toda possibilidade de encontros humaniza-dores, sobretudo com os “diferentes”.

O intransigente, precisamente porque é vazio de humanismo, deixa transparecer uma visão hermética e fechada da realidade. Esta visão atrofiada, a partir do lugar e da posição social ou religiosa que ocupam, os leva a um enfrentamento com outros por razões ideológicas, políticas ou religiosas, em lugar de compreender a perspectiva do outro e as verdades latentes que há em todo ser humano.

O evangelho deste domingo nos revela que o intransigente nunca se põe no lugar do outro; só ele tem razão. Isso porque ele pensa a partir da lei, mas não pensa a partir da situação e das necessidades dos outros. E com isso ele faz um triste favor a Deus, porque dá a impressão de que Deus prefere suas leis ou suas interpretações e não as carências dos outros.

O intransigente se converte em centro de sua fidelidade à lei; mas prescinde do ser humano.

Ao intransigente não lhe importa que o outro tenha fome no sábado, como tampouco lhe importa que esteja enfermo. O importante é o sábado e não a pessoa.

Mas Jesus pensa e age de outra maneira; primeiro é o ser humano e depois a lei; esta deve estar a serviço do ser humano.

Por isso, a presença de Jesus na sinagoga revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões sociais estreitas e preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade regenerante caímos no confinamento de uma pureza de ortodoxia, de uma ideologia segregadora, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões humanas e religiosas. O modo de proceder de Jesus nos instiga a acolher a diversidade como expressão da inesgotável criatividade divina.


2 – O que o texto diz para mim?
O roteiro que rege todo intransigente é sumamente simples: consciente ou inconscientemente, divide a humanidade em dois grupos que considera radicalmente oposto. De uma parte, estamos “nós”, que nos encontramos na verdade e somos merecedores de atenção e cuidado, de respeito e inclusive admiração; de outra, se encontram “os outros”, aqueles que estão forçosamente equivocados porque pertencem a um grupo que pensa, sente, age... de maneira diferente. Só resta eliminá-los, ou afastá-los da presença para que não “contaminem” o ambiente com ideias e atitudes subversivas. Em outras palavras, o que transparece é isto: “nós” temos a verdade, “eles” estão no erro.

Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, o intransigente pode ser profundamente cruel para com os outros; com a lei na mão e no coração, ele alimenta um tribunal interior que julga, emite pareceres, condena..., acreditando ser fiel a Deus.

Os obsessivos e os intransigentes sempre criam problemas; e os intransigentes religiosos mais ainda, porque fundamentam sua intransigência em Deus.

A intransigência edifica uma barreira intransponível entre o “nós” e os “outros”. Ao negar sua condição de criatura de conviver junto aos diferentes, seus semelhantes, os intransigentes torna-se uma ilha sem vida e triste. Sua intransigência é sintoma de desumanização. E essa desumanização afeta e é prejudicial a todos. Todo mundo perde. Aos poucos, as pessoas se recolhem em seus medos, em suas inseguranças e começam a acreditar que os diferentes são seus inimigos. Da intransigência passa aos sentimentos hostis, aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O princípio da diversidade me diz que no outro há verdade e que esta verdade deve ser reconhecida e entendida. Considerado sob o enfoque do ouvir sem preconceitos, do conhecer a diferença e do amar a verdade presente no outro, a “diversidade reconciliadora” supõe o diálogo fundado no amor.

Para que haja amor é preciso que haja diferenciação. No amor respeito a diferença do outro, amo a diferença do outro. Diferenciar não é separar; a unidade não é a uniformidade. A diferença não dispersa nem divide, mas provoca convergência crítica e favorece a unificação na diversidade.

Ao tornar absoluta uma verdade, o intransigente se condena à intolerância e passa a não reconhecer e a respeitar a verdade e o bem presente no outro. Não suporta a coexistência das diferenças, a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias. Daí surge o conservadorismo radical, o medo à mudança, a violência diante da crítica, a suspeita, a vigilância, o controle autoritário...

A intolerância é uma expressão de atrofia espiritual que tem graves consequências na vida social e no desenvolvimento dos povos. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias, convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível a coesão e a correta interação entre pessoas e grupos humanos. No fundo, tudo isso é expressão de um avassalador vazio existencial.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a vida fanática e intolerante é uma vida sem sentido, carente de interesse e de originalidade.

Em um mundo polarizado por fanatismos de caráter muito diverso, tensionado por forças irracionais, tanto de origem religiosa como política, a educação do “sentido espiritual” da vida constitui uma urgência, frente a uma insistência mecânica de padrões de conduta e de modelos impostos pelos grandes meios de comunicação de massa.

A vida espiritual é abertura, receptividade e movimento. As grandes figuras da história espiritual nunca sucumbiram ao fanatismo e à intransigência. Foram benevolentes, compassivos e receptivos. Praticaram o diálogo com todos, sem discriminação alguma. 

Há demasiadas divisões entre nós; há demasiadas condenações e violências (verbal e física); há demasiadas exclusões e marginalizações. E tudo simplesmente “porque não é dos nossos”, “porque não pensa como eu”... Posso pensar diferente, mas nem por isso tenho de me excluir; não sou dona da verdade; também os outros pensam e tem uma percepção diferente da realidade... Posso ter critérios diferentes, mas nem por isso tenho que criar muros que me separa. O diferente não deve excluir ninguém; o diferente pode ser uma fonte de enriquecimento mútuo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Não a intransigência que impede a pessoa de viver, de ser presença no mundo, de ser espontânea e de viver mais intensamente.

Não a impiedade da intolerância frente ao “diferente” e o descalabro do racismo que envenena corações e fomenta as dinâmicas excludentes que envergonham a humanidade e não podem ser aceitas, pacificamente, pelos seguidores e seguidoras de Jesus.

Não ao racismo sutil; está presente lá no fundo uma grande praga que exige grande esforço para dela se livrar; vira sentimento que se justifica e dá forma a modos de falar, define posturas e cria as distâncias, rompendo a comunhão.

A diferença promove a unidade lúcida e criativa; por isso é valor a ser preservado e a ser desenvolvido, é potencial a ser ativado.

“O Espírito Santo cria a diversidade na Igreja. A diversidade é bela, mas o mesmo Espírito Santo faz também a unidade, para que a Igreja esteja unida na diversidade; para usar uma expressão bela: uma diversidade reconciliadora” (Papa Francisco).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  2,23-3,6
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Olhares diferentes – Fx 04 (03:55)
Autor e Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep

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