quinta-feira, 31 de maio de 2018

Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018


Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018

A INTRANSIGÊNCIA QUE NOS PETRIFICA

“...os fariseus, com os herodianos, 
puseram-se de acordo contra ele, em como fazê-lo perecer.”  (Mc 3,6)


Texto Bíblico: Marcos  2,23-3,6


1 – O que diz o texto?
No Evangelho deste domingo, Jesus desmascara uma patologia do espírito, uma enfermidade da alma, uma espécie de tumor social: trata-se da intransigência, que se expressa nas atitudes de preconceito, intolerância, fanatismo, racismo, indiferença, legalismo, moralismo..., matando na raiz toda possibilidade de encontros humaniza-dores, sobretudo com os “diferentes”.

O intransigente, precisamente porque é vazio de humanismo, deixa transparecer uma visão hermética e fechada da realidade. Esta visão atrofiada, a partir do lugar e da posição social ou religiosa que ocupam, os leva a um enfrentamento com outros por razões ideológicas, políticas ou religiosas, em lugar de compreender a perspectiva do outro e as verdades latentes que há em todo ser humano.

O evangelho deste domingo nos revela que o intransigente nunca se põe no lugar do outro; só ele tem razão. Isso porque ele pensa a partir da lei, mas não pensa a partir da situação e das necessidades dos outros. E com isso ele faz um triste favor a Deus, porque dá a impressão de que Deus prefere suas leis ou suas interpretações e não as carências dos outros.

O intransigente se converte em centro de sua fidelidade à lei; mas prescinde do ser humano.

Ao intransigente não lhe importa que o outro tenha fome no sábado, como tampouco lhe importa que esteja enfermo. O importante é o sábado e não a pessoa.

Mas Jesus pensa e age de outra maneira; primeiro é o ser humano e depois a lei; esta deve estar a serviço do ser humano.

Por isso, a presença de Jesus na sinagoga revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões sociais estreitas e preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade regenerante caímos no confinamento de uma pureza de ortodoxia, de uma ideologia segregadora, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões humanas e religiosas. O modo de proceder de Jesus nos instiga a acolher a diversidade como expressão da inesgotável criatividade divina.


2 – O que o texto diz para mim?
O roteiro que rege todo intransigente é sumamente simples: consciente ou inconscientemente, divide a humanidade em dois grupos que considera radicalmente oposto. De uma parte, estamos “nós”, que nos encontramos na verdade e somos merecedores de atenção e cuidado, de respeito e inclusive admiração; de outra, se encontram “os outros”, aqueles que estão forçosamente equivocados porque pertencem a um grupo que pensa, sente, age... de maneira diferente. Só resta eliminá-los, ou afastá-los da presença para que não “contaminem” o ambiente com ideias e atitudes subversivas. Em outras palavras, o que transparece é isto: “nós” temos a verdade, “eles” estão no erro.

Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, o intransigente pode ser profundamente cruel para com os outros; com a lei na mão e no coração, ele alimenta um tribunal interior que julga, emite pareceres, condena..., acreditando ser fiel a Deus.

Os obsessivos e os intransigentes sempre criam problemas; e os intransigentes religiosos mais ainda, porque fundamentam sua intransigência em Deus.

A intransigência edifica uma barreira intransponível entre o “nós” e os “outros”. Ao negar sua condição de criatura de conviver junto aos diferentes, seus semelhantes, os intransigentes torna-se uma ilha sem vida e triste. Sua intransigência é sintoma de desumanização. E essa desumanização afeta e é prejudicial a todos. Todo mundo perde. Aos poucos, as pessoas se recolhem em seus medos, em suas inseguranças e começam a acreditar que os diferentes são seus inimigos. Da intransigência passa aos sentimentos hostis, aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O princípio da diversidade me diz que no outro há verdade e que esta verdade deve ser reconhecida e entendida. Considerado sob o enfoque do ouvir sem preconceitos, do conhecer a diferença e do amar a verdade presente no outro, a “diversidade reconciliadora” supõe o diálogo fundado no amor.

Para que haja amor é preciso que haja diferenciação. No amor respeito a diferença do outro, amo a diferença do outro. Diferenciar não é separar; a unidade não é a uniformidade. A diferença não dispersa nem divide, mas provoca convergência crítica e favorece a unificação na diversidade.

Ao tornar absoluta uma verdade, o intransigente se condena à intolerância e passa a não reconhecer e a respeitar a verdade e o bem presente no outro. Não suporta a coexistência das diferenças, a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias. Daí surge o conservadorismo radical, o medo à mudança, a violência diante da crítica, a suspeita, a vigilância, o controle autoritário...

A intolerância é uma expressão de atrofia espiritual que tem graves consequências na vida social e no desenvolvimento dos povos. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias, convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível a coesão e a correta interação entre pessoas e grupos humanos. No fundo, tudo isso é expressão de um avassalador vazio existencial.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a vida fanática e intolerante é uma vida sem sentido, carente de interesse e de originalidade.

Em um mundo polarizado por fanatismos de caráter muito diverso, tensionado por forças irracionais, tanto de origem religiosa como política, a educação do “sentido espiritual” da vida constitui uma urgência, frente a uma insistência mecânica de padrões de conduta e de modelos impostos pelos grandes meios de comunicação de massa.

A vida espiritual é abertura, receptividade e movimento. As grandes figuras da história espiritual nunca sucumbiram ao fanatismo e à intransigência. Foram benevolentes, compassivos e receptivos. Praticaram o diálogo com todos, sem discriminação alguma. 

Há demasiadas divisões entre nós; há demasiadas condenações e violências (verbal e física); há demasiadas exclusões e marginalizações. E tudo simplesmente “porque não é dos nossos”, “porque não pensa como eu”... Posso pensar diferente, mas nem por isso tenho de me excluir; não sou dona da verdade; também os outros pensam e tem uma percepção diferente da realidade... Posso ter critérios diferentes, mas nem por isso tenho que criar muros que me separa. O diferente não deve excluir ninguém; o diferente pode ser uma fonte de enriquecimento mútuo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Não a intransigência que impede a pessoa de viver, de ser presença no mundo, de ser espontânea e de viver mais intensamente.

Não a impiedade da intolerância frente ao “diferente” e o descalabro do racismo que envenena corações e fomenta as dinâmicas excludentes que envergonham a humanidade e não podem ser aceitas, pacificamente, pelos seguidores e seguidoras de Jesus.

Não ao racismo sutil; está presente lá no fundo uma grande praga que exige grande esforço para dela se livrar; vira sentimento que se justifica e dá forma a modos de falar, define posturas e cria as distâncias, rompendo a comunhão.

A diferença promove a unidade lúcida e criativa; por isso é valor a ser preservado e a ser desenvolvido, é potencial a ser ativado.

“O Espírito Santo cria a diversidade na Igreja. A diversidade é bela, mas o mesmo Espírito Santo faz também a unidade, para que a Igreja esteja unida na diversidade; para usar uma expressão bela: uma diversidade reconciliadora” (Papa Francisco).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  2,23-3,6
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Olhares diferentes – Fx 04 (03:55)
Autor e Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 29 de maio de 2018

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018


Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018

CORPUS CHRISTI: comunhão com Cristo, comunhão com o universo.

Tendo tomado o pão e pronunciado a benção, partiu-o e lhes deu, e disse:
“Tomai, isto é o meu corpo”.  (Mc 14,22)


Texto Bíblico: Marcos 14,12-16.22-26


1 – O que diz o texto?
Na celebração da festa de Corpus Christi, corremos o risco de honrar o Corpo de Jesus, mas desprezar o corpo humano, “a carne de Cristo”. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o encontro com os “corpos desfigurados”: explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos... Pode ser que tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aqui, ali, lá, por todos os lados. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (Papa Francisco).

É esse o sentido que a festa de “Corpus Christi” nos revela, ou seja, a festa do Corpo Histórico e Humano de Jesus, corpo prazeroso e sofredor, amado por muitos e muitas, rejeitado, crucificado, morto e ressuscitado. Esta é também a festa do grande Corpo de Cristo que é a Humanidade inteira. Corpo real de Cristo é especialmente todos os que sofrem com Ele no mundo, os enfermos e famintos, os rejeitados e encarcerados, os pobres e excluídos... Eles são a humanidade ferida no Corpo do Filho de Deus.

Corpo de Cristo é também o universo inteiro, criado por Deus para que nele se encarnasse e habitasse seu Filho. Assim Jesus, na Ceia, ao tomar o pão e o vinho em suas mãos, abraça os bilhões de anos de evolução e chama-os de seu Corpo e de seu Sangue. Cada cristão, ao fazer “memória” do Corpo de Jesus, entra em comunhão com todas as energias da Criação. 

Corpo de Cristo que continua sendo o Pão, fruto da terra e do trabalho dos homens e mulheres, todo pão que alimenta e é compartilhado, em fraternidade, a serviço dos que tem fome.

Jesus não compactuou com a visão dualista do ser humano (corpo e alma). Para Ele, tudo era sacramento, epifania de Deus, revelação do Reino, história de salvação...

Jesus escandalizou a muitos proclamando que o “puro” ou “impuro”, não está fora, em ritos e prescrições. Não são impuros os enfermos, as mulheres menstruadas, os leprosos, as prostitutas...; a “pureza” está no coração que nos permite um olhar límpido, não possessivo, egoísta, invejoso ou violento...

Jesus levou muito a sério a questão do corpo, o seu e o das pessoas que encontrou ao longo de sua vida. Cuidou do seu descanso e o daqueles que com Ele compartilhavam o mesmo caminho; deixou-se acariciar e ungir sua cabeça e seus pés com perfumes valiosíssimos por algumas mulheres, algumas delas malvistas pelos rótulos preconceituosos que os varões lhe impunham, agradecendo esse gesto fruto de um amor sem cálculos; curou corpos atrofiados pela doença e fragilizados pela exploração... Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar...


2 – O que o texto diz para mim?
Se fixar minha atenção em Jesus na última Ceia, descubro que suas palavras (“isto é o meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo, a verdade central do Evangelho.

Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos... Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

Aqui preciso encontrar a justa proximidade para me relacionar com o corpo e estabelecer um vínculo sadio com ele. Afinal, minhas maneiras de me relacionar estão configuradas por ele. Não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em meu corpo.

O meu corpo me pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, me pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação... O corpo não é só a unidade de meus membros, mas a presença de minha pessoa; por ele estou e sou.

O corpo é o companheiro inseparável de meu caminho. É preciso senti-lo, percebê-lo, escutá-lo. Mas é preciso ir mais longe: posso afirmar que o corpo se transforma em caixa de ressonância da “voz de Deus” que me previne contra caminhos equivocados e me orienta para uma vida natural e plena.

O corpo é “lugar” teológico, lugar da manifestação de Deus; neste sentido é morada do divino, habitação do Espírito, enquanto participa, pensa, sente, deseja, decide...

Quem não escuta nem percebe seu corpo não pode compreender o sentido da vida, do amor, das relações... pois cairá no narcisismo de seu próprio ego. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, não é possível viver feliz sem relações amistosas e próximas com o corpo, para poder entendê-lo e expressar-se adequadamente com ele. Para conhecer-se é necessário acolher o corpo, querer o corpo, observar o corpo, olhar para dentro do próprio corpo, com atitude reverente. 

Minha própria casa é meu corpo; o templo onde Deus se revela a mim. Só eu posso habitar e possuir meu corpo. Eu me identifico com meu corpo, sem o qual não posso viver. Deus, com seu Espírito, anima meu corpo; mas não pode habitar em mim a graça de Deus sem a colaboração e a abertura de meu corpo. 

Meu corpo constitui minha presença no mundo; a acolhida do próprio corpo me projeta para uma relação sadia com o corpo do outro; é o cuidado do corpo do outro que determina minha relação com Deus (Mateus 25,31-46). O corpo do ferido, do faminto, do preso... tornam-se “territórios sagrados” onde cresço e me humanizo; são os “lugares” nos quais Deus revela seu rosto compassivo.

O corpo é um documento histórico: há corpo burguês e corpo proletário, corpo de cidade e corpo de roça; há corpos explorados e corpos que são só força de trabalho; corpos que são modelos anatômicos; os “corpos empobrecidos” gritam a Deus por justiça, por alimento, por saúde e por novas relações entre os humanos e os cosmos gritam a Deus por viver. 

O corpo desrespeitado, expropriado e dominado de muitas pessoas, clama a liberdade, a paz, a vida.

O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição. 

O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega... Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” meu corpo.

“Tomai, Senhor, e recebei”, toda minha corporalidade, com suas pulsões, seus limites e sua energia profunda. Que não fique nada em mim onde Tu não entre. “Nenhum quarto escuro nem fechado que não seja invadido por Ti”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 

Corpo de Cristo

Olhos inquietos por verem tudo. 

Ouvidos atentos aos lamentos, aos gritos, aos chamados.

Língua disposta a falar verdade, paixão, justiça.

Cabeça que pensa, para encontrar respostas e adivinhar caminhos, para romper noites com brilhos novos.

Mãos gastas de tanto servir, de tanto abraçar, de tanto acolher, de tanto repartir pão, promessa e lar.

Entranhas de misericordiosas para chorar as vidas golpeadas e celebrar as alegrias.

Pés em marcha em direção a terras abertas e a lugares de encontro.

Cicatrizes que falam de lutas, de feridas, de entregas, de amor, de ressurreição.

Corpo de Cristo… Corpo nosso. (José Maria Olaizola, SJ)



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 14,12-16.22-26
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – Fx 02 (04:37)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 22 de maio de 2018

Leitura Orante – FESTA DA TRINDADE, 27 de maio de 2018


Leitura Orante – FESTA DA TRINDADE, 27 de maio de 2018

TRINDADE: “Deus é plural”

“...batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)


Texto Bíblico: Mateus 28,16-20


1 – O que diz o texto?
A Igreja celebra, neste domingo, a Festa da Trindade, cume e compêndio de todas as festas do ano: do Deus que é Pai, é Filho e é Espírito.

Assim, a festa de hoje vem plenificar o tempo pascal, como uma espécie de “síntese”. Síntese, não intelectual, mas “misterial”, ou seja, celebração de nossa participação no fluxo amoroso das pessoas divinas; pois a  SS.  Trindade não é uma questão especulativa, é, sobretudo, uma experiência de um Deus amoroso.

A liturgia nos convoca a viver a experiência do Deus “comunhão de Pessoas”; para isso, ela nos convida a fazer uma viagem ao interior de Deus, como vida de amor que se revela na história da humanidade, vida entendida como Pai, Filho e Espírito Santo. 

A imensa maioria dos cristãos não sabe que, ao adorar a Deus como Trindade, está confessando que Deus, em sua intimidade mais profunda, é só amor, acolhida, ternura, misericórdia.

Essa viagem ao coração da Trindade culmina na grande comunhão humana, pois o Deus Pai, Filho e Espírito integram no amor todos os povos da terra. Dessa forma, a viagem ao interior de Deus se converte em movimento ao exterior, no encontro expansivo com todos os homens e mulheres. 

Quanto mais mergulhemos em Deus, comunidade de Amor, mais poderemos expandir-nos em solidariedade, amor e justiça para com todas as pessoas, porque o interior de Deus é princípio de reconciliação e unidade (na diversidade) de todos os povos e raças do mundo. 

Foi-nos dito que o dogma da Trindade é o mais importante de nossa fé católica; no entanto, a imensa maioria dos cristãos não consegue compreender o que ele quer dizer. Com a Trindade, nós cristãos não queremos “multiplicar” Deus. O que queremos é expressar a experiência singular de que Deus é comunhão e não solidão. “No princípio está a comunhão dos TRÊS e não a solidão do UM” (L. Boff).

Aproximar-nos do Deus de Jesus é descobrir a Trindade. E em cada um de nós a Trindade deixa-se refletir. Nossa vida deveria ser um espelho que em todo momento refletisse o mistério da Trindade. O grande ensinamento da Trindade é que só vivemos se convivemos. 

Viver a experiência do Deus Trino implica saber conviver; fomos feitos para o encontro e a comunicação. Estamos, portanto, falando de uma única realidade que é relação.

Deus-Trindade é a relacionalidade por excelência; Deus só existe como ser em relação; Deus é só relação, porque Deus é só amor. “No princípio está a relação(G. Bachelard).

E sendo Deus essencialmente relação, não poderia permanecer fechado n’Ele mesmo;  num gesto de pura gratuidade,  essa relação se manifesta como transbordamento de vida, chamando toda a Criação à existência  e convidando a  humunidade a entrar no fluxo dessa relação trinitária. 


2 – O que o texto diz para mim?
Para me aproximar do Deus comunhão de Pessoas, tenho de superar o ídolo ao qual me apego. Sim, o “falso deus” identificado com um ser poderoso que se manifesta como um déspota, um tirano destruidor, um ditador arbitrário; um ser onipotente que ameaça minha pequena e limitada liberdade. É muito difícil abandonar-me a alguém infinitamente poderoso. Parece mais fácil desconfiar, ser cautelosa e salvaguardar minha independência.

Mas Deus Trindade é um mistério de Amor. E sua onipotência é a onipotência de quem só é amor, ternura insondável e infinita. É o amor de Deus que é onipotente. E sempre que esqueço isso e saio do fluxo do amor, eu fabrico um Deus falso, uma espécie de ídolo que não existe.

A Trindade não é uma verdade para crer, mas uma presença a ser acolhida, uma experiência a ser vivida. Uma profunda experiência da mensagem cristã será sempre uma aproximação ao mistério Trinitário.

A festa da Trindade deve me libertar do “Deus Ser todo poderoso” e empapar-me do Deus Ágape que me identifica com Ele.  A imagem do “Deus todo poderoso” não expressa bem a experiência do “Deus trino”. Deus é amor e só amor. Só na medida que amo, posso conhecer a Deus.

Esta é talvez a conversão que muitos cristãos mais precisam: fazer a passagem de um Deus considerado como Poder a um Deus adorado alegremente como Amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou feliz em descobrir que a Trindade não é um mistério incompreensível, mas a cotidiana experiência do Amor, a partir de uma vida encarnada em minha história, com um respiro, um ânimo e uma paixão especial por continuar vivendo cada dia com os mesmos sentimentos de Jesus, junto a tantas pessoas que trabalham por outro mundo mais fraterno, justo e solidário. A Trindade é o espelho que me mostra como devo ser e viver à luz da “melhor Comunidade”.

Ora, tal Mistério fonte de todo ser, constitui o modelo ideal de todo e qualquer convívio humano. Sou feita à “imagem e semelhança da Trindade”.  Trago em mim impulsos de comunhão. 

Sempre que construo relações pessoais e sociais que facilitem a circulação da vida, a comunhão de diferentes à base da igualdade, estarei tornando visível um pouco do mistério íntimo de Deus.

Deus quer inserir-me nesta sua comunhão eterna, como no-lo disse Jesus: “Que todos sejam um como Tu, Pai, estás em mim, e eu em Ti. Que eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste”  (Jo. 17,21).

Portanto, Trindade é a glória de Deus que se expressa na vida da humanidade; é o Amor mútuo, a comunhão pessoal, de Palavra (Filho) e de Afeto (Espírito Santo) que sustenta as relações entre os seres humanos. Assim é a Trindade na terra: quando todos compartilham a vida e se amam.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Não crê na Trindade quem simplesmente professa que há “em Deus três pessoas”, ou quem faz mecanicamente o sinal da Cruz, mas aquele que vive o impulso e a expansão do Amor Redentor, que se expressa como compaixão, reconciliação e compromisso. 

Senhor, crer na Trindade é amar de um modo ativo, como dizia S. Agostinho. 

Contempla-se a Trindade ali onde eu amo e me comprometo com a libertação do próximo.

Estou envolvida pelo mesmo movimento do Amor sem fim que parte do Pai, passa pelo filho e se consuma no Espírito.

Só quem tem coração solidário adora um Deus Trinitário, pois no compromisso libertador torna-se visível a presença trinitária.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sair de mim mesma e criar laços, construir fraternidade, fortalecer a comunhão.

Manifestar o mistério do Deus trinitário como amor e vida.

Abrir-me mais à ação do Espírito da Verdade em minha vida, para levar um conhecimento existencial e atualizado do Evangelho de Jesus.

Fui criada “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas. (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unida eu for, por causa do amor que circula entre mim e as pessoas ao meu redor, mais me parecerei com o Deus Trindade.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas Mateus 28,16-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Deus Trindade – Fx 01 (04:34)
Autor e Intérprete: Padre José Agnaldo
CD: És o meu Senhor
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Leitura Orante – Domingo de PENTECOSTES, 20 de maio de 2018



Leitura Orante – Domingo de PENTECOSTES, 20 de maio de 2018

O “sopro” do Ressuscitado nas raízes de nossa existência

...soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (João 20,22)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
Pentecostes é uma festa eminentemente pascal. Sem a presença do Espírito, a experiência pascal não teria sido possível. Ressurreição, ascensão, irrupção do Espírito e missão eclesial aparecem aqui intimamente articuladas. Não são momentos isolados, mas simultâneos, progressivos e dinamizadores na comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus.

O Ressuscitado, através da eficácia do sopro do Espírito, reconstrói as relações rompidas, afasta o medo, abre o horizonte da missão... Com a força do Espírito, a vida se torna profecia de ressurreição. 

sopro incontrolável do vento revela a liberdade de ação de quem é movido pelo Espírito. 

Como não se pode segurar determinar o rumo, exercer controle sobre o vento, o mesmo se dá com a pessoa que recebe o sopro do Espírito. Sua capacidade de fazer o bem se torna ilimitada. Nada a detém quando se trata de demonstrar, com gestos concretos, o amor ao semelhante; esse amor que ela traz dentro de si permite-lhe expressar, de maneira criativa, sua solidariedade e sua presença inspiradora. Tudo, em sua vida, torna-se novo, pois o Espírito não lhe permite cair na rotina e na inatividade, características de quem perdeu a razão de viver.

O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos.

A festa de Pentecostes é uma ocasião privilegiada para nos aproximar do mistério do Espírito através de imagens que tem muita relação com nossas experiências vitais.

Quê sentimos quando parece que nos afogamos, porque nos falta ar, e de repente podemos respirar o ar fresco a pleno pulmão? E quando temos muita sede e alguém nos oferece água? Ou quando estamos muito cansados e alguém se aproxima para nos ajudar e nos animar? Quê sentimos quando uma pessoa está ao nosso lado e nos ajuda nos momentos de enfermidade e de medo?


2 – O que o texto diz para mim?
A palavra “Espírito” é um termo latino, e seu uso se generalizou. Em hebraico se fala “ruah”, termo feminino, que indica vento, ar, alento, vida, amplitude, espaço ilimitado... Tem conotações muito mais ricas e vitais que o termo “espírito”. A totalidade de meu ser está empapada do Ruah de Deus.

O termo “ruah” evoca também o sopro do vento, a brisa fresca que traz a chuva, considerada como uma benção. Evoca também o mistério e a presença de Deus, similar ao vento, porque se nota sua presença, mas não se pode vê-lo.

A ação da “ruah” nos seres humanos refere-se, portanto ao alento de vida de Deus que há em cada um, à abundância de Vida divina que está presente no interior de cada homem e cada mulher e na história. 

As angústias e os sofrimentos mais radicais do ser humano são acolhidos e transformados pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Espírito é sopro, hálito, vento que gera vida, que move, impulsiona e sopra onde quer. De onde vem e para onde vai não é fácil dizer. No entanto, está presente, se faz sentir, age. Sopra, despoja, subverte, separa, varre, empurra, levanta, expande, toca de leve...  Aparecem e permanecem os sinais da sua passagem.

É um vento leve, refrescante, novo, penetrante, inovador, cambiante; um sopro sutil, interior, profundo; um sopro que não pode ser detido, sufocado. 

Ao mesmo tempo é um vento impetuoso, desafiador e perigoso, pois pode conduzir a direções inimagináveis. Envolve, mas não invade. Interroga, mas não condena. Arrasta, mas não constrange. Oferece, mas não impõe. Presente, vital, essencial, livre, libertador. Pode ser acolhido e tudo se torna novo.

Por isso, quem se deixa mover pelo Sopro sente sua força e reconhece sua ação. E, sem perder o chão da realidade e da história, aspira por algo mais alto, mais profundo, mais bonito e transcendente.

Quem se deixa mover pelo Espírito é imprevisível e não se deixa enquadrar pelas ideias cristalizadas e nem se fecha em atitudes petrificadas. Quem se deixa conduzir pelo Espírito não se contenta com a superficialidade e a mediocridade: abre espaço para a força do “mais”. 

Deseja voar mais alto e mergulhar o mais profundo, busca novidades, é dinâmico, muda de paradigmas e desfruta do presente, sem se desconectar do passado e do futuro. Quem assim o faz renasce sempre, a mudança é seu hábito de vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor é preciso resgatar, no dinamismo do seguimento de Jesus, a força, a beleza e a fecundidade da dimensão espiritual de todo ser humano. Ao referir-me à espiritualidade cristã, estou situada frente uma “vida segundo o Espírito” (Rom 8,9), uma vida nascida, orientada e alimentada pelo Espírito Santo; estou, pois, frente à experiência original que torna cristã uma pessoa: ser habitada pelo mesmo Espírito que habitou Jesus de Nazaré.

Espiritualidade vem de “spiritus” e tem a ver com respiração, um alento que vem de dentro, um fogo e um calor, uma energia e força que brotam e sustentam o íntimo da pessoa espiritual. 

Espiritualidade é a arte de respirar corretamente, cada vez de forma integral, atenta e concentrada, a partir do âmago, da profundidade, mas também de maneira natural e leve. Quem cultiva essa respiração integral, esse alento e fôlego do espírito dentro de si, consegue caminhar mais longe, ir mais adiante, ser mais criativo e intuitivo, não desanima ou esmorece quando muitos já estão com a língua de fora.

Espiritualidade significa não perder o fôlego interior em qualquer circunstância da minha vida. Sou “pessoa espiritual” quando exercito tão bem a arte e o alento do espírito que, mesmo nas situações mais difíceis da vida e do caminho, não perco a energia, o fôlego, a consistência. A força do espírito me conduz sempre adiante.

Como “filhos e filhas do Vento” basta deixar-se envolver pelo Sopro e escutar aquela voz que habita a dimensão mais profunda da vida e que se aninha nas cavidades mais secretas de própria existência.

“Espiritual” é alguém que cultiva e cuida da respiração interior do seu ser com o mesmo cuidado que tem o camponês quando trabalha a terra e a plantação. Apenas aquelas pessoas que se mantêm próximas ao chão, às raízes da vida, conseguem manter também esta postura totalmente radical, a “humilitas” que vem de húmus, o chão escuro, úmido e fértil da terra. 

Esta radical humildade, que vem da proximidade do chão e da comunhão com a terra, desperta piedade, respeito, cuidado, atenção, sensibilidade, misericórdia e, sobretudo, coragem e compaixão.

Nesse sentido, a busca pela espiritualidade vem de baixo, das raízes do humano, ela salta das profundezas da alma humana, não vem de cima, do além. A busca da espiritualidade nasce do ímpeto interior do ser humano por ser livre, por superar-se e poder crescer integralmente.

Espiritual é, portanto, a pessoa humilde, que vive da força que vem das raízes, que tem suas raízes fincadas profundamente no chão da vida, como uma árvore. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Deixar o Sopro libertar o corpo de todas as memórias negativas que o entulham, devolvendo ao seu espírito sua inocência, sua disponibilidade, sua energia...

Acolher simplesmente o Sopro em meu interior. 

Deixar que o Espírito desça ao mais profundo de mim mesma.

Acolher com gratidão, simplesmente expirando e inspirando. Por alguns instantes, ser um com o Sopro. O Sopro que respira em mim é o mesmo que respira em todo o Universo.

Deixar o Ser respirar em mim, sendo inspirado e expirado. Respirar em Sua presença para o meu bem-estar e para o bem-estar de todos. 

Viver conscientemente o Sopro presente em mim!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: O sopro – Fx 02 (04:26)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Angela Márcia, Silvinha Araujo, Sueli Gondim, Ringo, Caio Flavio, Maria do Carmo Diniz, José Luiz Mazziotti, Paulo Roberto de Campos, Dalva Tenório, Vanessa, Luan, Mariangela Zan
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 15 de maio de 2018

Leitura Orante – Domingo de PENTECOSTES, 20 de maio de 2018


Leitura Orante – Domingo de PENTECOSTES, 20 de maio de 2018

O “sopro” do Ressuscitado nas raízes de nossa existência

...soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo” (João 20,22)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
Pentecostes é uma festa eminentemente pascal. Sem a presença do Espírito, a experiência pascal não teria sido possível. Ressurreição, ascensão, irrupção do Espírito e missão eclesial aparecem aqui intimamente articuladas. Não são momentos isolados, mas simultâneos, progressivos e dinamizadores na comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus.

O Ressuscitado, através da eficácia do sopro do Espírito, reconstrói as relações rompidas, afasta o medo, abre o horizonte da missão... Com a força do Espírito, a vida se torna profecia de ressurreição. 

O sopro incontrolável do vento revela a liberdade de ação de quem é movido pelo Espírito. 

Como não se pode segurar determinar o rumo, exercer controle sobre o vento, o mesmo se dá com a pessoa que recebe o sopro do Espírito. Sua capacidade de fazer o bem se torna ilimitada. Nada a detém quando se trata de demonstrar, com gestos concretos, o amor ao semelhante; esse amor que ela traz dentro de si permite-lhe expressar, de maneira criativa, sua solidariedade e sua presença inspiradora. Tudo, em sua vida, torna-se novo, pois o Espírito não lhe permite cair na rotina e na inatividade, características de quem perdeu a razão de viver.

O Espírito que nos habita não é um Espírito de medo que recusaria a novidade; é um Espírito que nos torna capazes de inventar, criar, decifrar, abrir novos caminhos, a fim de permitir às mulheres e aos homens de hoje encontrar e reconhecer o Cristo sempre vivo através dos seus discípulos.

A festa de Pentecostes é uma ocasião privilegiada para nos aproximar do mistério do Espírito através de imagens que tem muita relação com nossas experiências vitais.

Quê sentimos quando parece que nos afogamos, porque nos falta ar, e de repente podemos respirar o ar fresco a pleno pulmão? E quando temos muita sede e alguém nos oferece água? Ou quando estamos muito cansados e alguém se aproxima para nos ajudar e nos animar? Quê sentimos quando uma pessoa está ao nosso lado e nos ajuda nos momentos de enfermidade e de medo?


2 – O que o texto diz para mim?
A palavra “Espírito” é um termo latino, e seu uso se generalizou. Em hebraico se fala “ruah”, termo feminino, que indica vento, ar, alento, vida, amplitude, espaço ilimitado... Tem conotações muito mais ricas e vitais que o termo “espírito”. A totalidade de meu ser está empapada do Ruah de Deus.

O termo “ruah” evoca também o sopro do vento, a brisa fresca que traz a chuva, considerada como uma benção. Evoca também o mistério e a presença de Deus, similar ao vento, porque se nota sua presença, mas não se pode vê-lo.

A ação da “ruah” nos seres humanos refere-se, portanto ao alento de vida de Deus que há em cada um, à abundância de Vida divina que está presente no interior de cada homem e cada mulher e na história. 

As angústias e os sofrimentos mais radicais do ser humano são acolhidos e transformados pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Espírito é sopro, hálito, vento que gera vida, que move, impulsiona e sopra onde quer. De onde vem e para onde vai não é fácil dizer. No entanto, está presente, se faz sentir, age. Sopra, despoja, subverte, separa, varre, empurra, levanta, expande, toca de leve...  Aparecem e permanecem os sinais da sua passagem.

É um vento leve, refrescante, novo, penetrante, inovador, cambiante; um sopro sutil, interior, profundo; um sopro que não pode ser detido, sufocado. 

Ao mesmo tempo é um vento impetuoso, desafiador e perigoso, pois pode conduzir a direções inimagináveis. Envolve, mas não invade. Interroga, mas não condena. Arrasta, mas não constrange. Oferece, mas não impõe. Presente, vital, essencial, livre, libertador. Pode ser acolhido e tudo se torna novo.

Por isso, quem se deixa mover pelo Sopro sente sua força e reconhece sua ação. E, sem perder o chão da realidade e da história, aspira por algo mais alto, mais profundo, mais bonito e transcendente.

Quem se deixa mover pelo Espírito é imprevisível e não se deixa enquadrar pelas ideias cristalizadas e nem se fecha em atitudes petrificadas. Quem se deixa conduzir pelo Espírito não se contenta com a superficialidade e a mediocridade: abre espaço para a força do “mais”. 

Deseja voar mais alto e mergulhar o mais profundo, busca novidades, é dinâmico, muda de paradigmas e desfruta do presente, sem se desconectar do passado e do futuro. Quem assim o faz renasce sempre, a mudança é seu hábito de vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor é preciso resgatar, no dinamismo do seguimento de Jesus, a força, a beleza e a fecundidade da dimensão espiritual de todo ser humano. Ao referir-me à espiritualidade cristã, estou situada frente uma “vida segundo o Espírito” (Rom 8,9), uma vida nascida, orientada e alimentada pelo Espírito Santo; estou, pois, frente à experiência original que torna cristã uma pessoa: ser habitada pelo mesmo Espírito que habitou Jesus de Nazaré.

Espiritualidade vem de “spiritus” e tem a ver com respiração, um alento que vem de dentro, um fogo e um calor, uma energia e força que brotam e sustentam o íntimo da pessoa espiritual. 

Espiritualidade é a arte de respirar corretamente, cada vez de forma integral, atenta e concentrada, a partir do âmago, da profundidade, mas também de maneira natural e leve. Quem cultiva essa respiração integral, esse alento e fôlego do espírito dentro de si, consegue caminhar mais longe, ir mais adiante, ser mais criativo e intuitivo, não desanima ou esmorece quando muitos já estão com a língua de fora.

Espiritualidade significa não perder o fôlego interior em qualquer circunstância da minha vida. Sou “pessoa espiritual” quando exercito tão bem a arte e o alento do espírito que, mesmo nas situações mais difíceis da vida e do caminho, não perco a energia, o fôlego, a consistência. A força do espírito me conduz sempre adiante.

Como “filhos e filhas do Vento” basta deixar-se envolver pelo Sopro e escutar aquela voz que habita a dimensão mais profunda da vida e que se aninha nas cavidades mais secretas de própria existência.

“Espiritual” é alguém que cultiva e cuida da respiração interior do seu ser com o mesmo cuidado que tem o camponês quando trabalha a terra e a plantação. Apenas aquelas pessoas que se mantêm próximas ao chão, às raízes da vida, conseguem manter também esta postura totalmente radical, a “humilitas” que vem de húmus, o chão escuro, úmido e fértil da terra. 

Esta radical humildade, que vem da proximidade do chão e da comunhão com a terra, desperta piedade, respeito, cuidado, atenção, sensibilidade, misericórdia e, sobretudo, coragem e compaixão.

Nesse sentido, a busca pela espiritualidade vem de baixo, das raízes do humano, ela salta das profundezas da alma humana, não vem de cima, do além. A busca da espiritualidade nasce do ímpeto interior do ser humano por ser livre, por superar-se e poder crescer integralmente.

Espiritual é, portanto, a pessoa humilde, que vive da força que vem das raízes, que tem suas raízes fincadas profundamente no chão da vida, como uma árvore. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Deixar o Sopro libertar o corpo de todas as memórias negativas que o entulham, devolvendo ao seu espírito sua inocência, sua disponibilidade, sua energia...

Acolher simplesmente o Sopro em meu interior. 

Deixar que o Espírito desça ao mais profundo de mim mesma.

Acolher com gratidão, simplesmente expirando e inspirando. Por alguns instantes, ser um com o Sopro. O Sopro que respira em mim é o mesmo que respira em todo o Universo.

Deixar o Ser respirar em mim, sendo inspirado e expirado. Respirar em Sua presença para o meu bem-estar e para o bem-estar de todos. 

Viver conscientemente o Sopro presente em mim!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: O sopro – Fx 02 (04:26)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Angela Márcia, Silvinha Araujo, Sueli Gondim, Ringo, Caio Flavio, Maria do Carmo Diniz, José Luiz Mazziotti, Paulo Roberto de Campos, Dalva Tenório, Vanessa, Luan, Mariangela Zan
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep