terça-feira, 17 de abril de 2018

Leitura Orante – 4º DOMINGO DA PÁSCOA, 22 de abril de 2018


Leitura Orante – 4º DOMINGO DA PÁSCOA, 22 de abril de 2018

BOM PASTOR: JESUS, “HOMEM-DE-CUIDADO”

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida em favor das ovelhas” (João 10,11)


Texto Bíblico: João 10,11-18


1 – O que diz o texto?
A partir deste 4º. Domingo de Páscoa, a liturgia se afasta dos relatos das aparições do Ressuscitado, mas não sai do tema pascal. Como Bom Pastor, o mandato que Jesus recebeu do Pai é “dar a Vida” e a disposição em “dar a Vida” está profundamente sintonizada com o tempo de Páscoa que estamos celebrando. 

Jesus foi um “homem-de-cuidado” e deixou aos seus seguidores um estilo de vida fundado no cuidado. A imagem do “Bom Pastor” revela esse modo de ser e proceder de Jesus.

Trata-se de uma imagem que, para os nossos contemporâneos, revela-se, ao mesmo tempo, anacrônica e perigosa. Anacrônica, porque as cenas do pastor cuidando do rebanho desapareceram do universo majoritariamente urbano e desenvolvido. 

Perigosa, porque a imagem do rebanho apresenta resquícios de passividade que a consciência moderna rejeita visceralmente, por evocar o binômio poder-submissão.

Embora a imagem tenha ficado esvaziada, seu conteúdo continua sendo plenamente atual, quando realçamos a atitude pascal da “mística do cuidado”, ou seja, quando proclamamos a atitude de entrega aos outros até o final. Jesus, em seu ministério “cuidador” transformou a vulnerabilidade em possibilidade, a fraqueza em força, a dor em alegria... O evangelista Marcos diz com extrema finura: “Ele fez bem todas as coisas; fez surdo ouvir e mudo falar” (Mc 7,37).

A raiz da experiência pascal é que Jesus está vivo e comunica Vida à comunidade. 

Como os primeiros cristãos, também nós temos o mesmo privilégio de fazer nossa essa Vida. Trata-se da mesma Vida de Deus, de seu Amor que se entrega a nós incondicionalmente.


2 – O que o texto diz para mim?
Crer e anunciar a Ressurreição e confiar na vida que morre para dar lugar a mais vida, a Vida maiúscula. É crer vivencialmente que a morte é necessária para que a corrente da vida flua, e me comunique suas maiores riquezas. A vida (minúscula) morre; para que eu seja fiel ao chamado à Vida, devo ser capaz de abandonar o que já não serve o que é caduco, o que precisa morrer, para que a vida siga seu curso em direção à plenitude.

Sou também chamada a proclamar que a Vida é possível, que há algo mais além da vida limitada e frágil; sou movida a gritar pelos caminhos que a morte foi vencida, que o ser humano é e continua sendo filho amado de Deus, chamado à vida maior e à liberdade.

Viver a Páscoa significa apostar pela qualidade de vida, fugindo da mediocridade sonífera na qual muita gente se instala, vivendo uma existência rotineira e normótica, sem cor e sem sabor, correndo sem saber para onde, sem entusiasmo, sem dinamismo e sem poder dar cor à própria vida, à família, ao trabalho, ao descanso, às relações, à fé...

O sintoma mais doloroso, já constatado por sérios analistas e pensadores contemporâneos, é um difuso mal-estar que afeta a humanidade inteira. No fundo, essa crise generalizada revela seu rosto desfigurado no fenômeno do “descuido”, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de cuidado com que são tratadas realidades importantes da vida.

Tudo o que existe e vive é preciso ser cuidado para continuar a existir e a viver: uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta Terra...

É urgente uma práxis de cuidado, de religação, de benevolência, de paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o destino das pessoas, especialmente das grandes maiorias empobrecidas e condenadas da Terra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nesse tempo pascal, o cuidado serve de crítica à minha civilização agonizante e também de princípio inspirador para um novo tempo de convivialidade. Diante das realidades vulneráveis faz-se necessário despertar as consciências para a prática do cuidado.

O cuidado é algo mais que um ato ou uma virtude entre outras; ele se encontra na raiz primeira do ser humano, é um “modo de ser essencial” do ser humano.

É uma dimensão fontal, originária, primária, impossível de ser totalmente esvaziada.

É o cuidado que me faz sensível e me compromete com quem está à minha volta.

É o cuidado que me une às criaturas e me envolve com as pessoas.

É o cuidado que desperta encantamento face à grandeza do firmamento, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido.

Pelo cuidado, o ser humano se religa ao mundo afetivamente, responsabilizando-se por ele.

Jesus de Nazaré foi aquele que mais encarnou o “modo de ser cuidado”.

Revelou à humanidade o “Deus-Cuidado”, experimentando-o como Pai-Mãe que cuida de cada um(a) de seus(suas) filhos(as), do alimento dos pássaros, do sol e da chuva para todos.

Jesus resgatou a centralidade do cuidado e da ternura para com todas as manifestações da vida. Ele mostrou cuidado especial com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes.

Pelo cuidado, Jesus maravilhou-se diante do milagre da vida e solidarizou-se com os humanos fragilizados e excluídos. As parábolas do bom samaritano, que mostra a compaixão pelo caído na estrada, a do filho pródigo acolhido e perdoado pelo pai, e, sobretudo, a do Bom Pastor, são expressões exemplares de cuidado e de plena humanidade.

Cuidar é dar atenção com ternura, isto é, descentrar-me de mim mesma e sair em direção ao outro, sentir o outro como outro, participando da sua existência; cuidar é mais que um ato; é uma atitude “kenótica”, porque exige o esvaziamento de mim mesma para deixar o mistério do outro encontrar abrigo em meu coração. “Não temos cuidado; somos cuidado”. 

Sem cuidado deixo de ser humana.

É a partir do cuidado que coloco limite a toda voracidade neurótica de ter e poder; a partir do cuidado acontece a passagem da lógica da conquista para a lógica da gratuidade, da imposição para a interação-comunhão, da exploração para a sintonia-cordialidade, do poder-produção para a atenção-respeitosa.

O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que ama também cuida. E tudo o que cuida é um sinal de que também ama.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sua presença e sua intervenção me revelam o compromisso com a vida, a afirmação da dignidade e da sacralidade de cada pessoa, bem como a reintegração dos excluídos na comunidade humana. Jesus é um biófilo (amigo da vida), pois revela uma especial atenção e zelo pela vida, seja da natureza, seja do ser humano. Cada vida é um cenário de manifestação do Pai. Tudo lhe causava admiração e encantamento.

Para Jesus, a cada dia o Pai chama as criaturas pelo nome e as convoca à vida: as águas fluem, os animais procriam, os astros retomam seu curso e o ser humano acorda para o louvor de Deus e o cumprimento de suas tarefas. Pela ação providente e cuidadosa do Pai, a Criação inteira se refaz de crepúsculo em crepúsculo e de aurora em aurora.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Pedir a graça de sentir a ternura, o carinho, a proteção e a cura das mãos benditas e providentes de meu Deus.

Alargar o coração, para que aí a ternura de Deus possa fazer morada.

Transbordar a minha vida de cuidados.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 10,11-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Salmo 22 – Fx 01 – (03:27)
Autor: Maria Luiza Ricciardi, fsp
Intérpretes: Ringo, Astúlio Nunes, Reynaldo, Márcia, Gracinha , Armando, Valsani, Vilma , Ângela Márcia
CD: Salmos, orações do povo a caminho
Gravadora: Paulinas Comep

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