terça-feira, 24 de abril de 2018

Leitura Orante – 5º DOMINGO DA PÁSCOA, 29 de abril de 2018


Leitura Orante – 5º DOMINGO DA PÁSCOA, 29 de abril de 2018

CONECTADOS À VIDA

“Como o ramo não pode produzir fruto por si mesmo, 
se não permanecer na videira...” (João 15,4)


Texto Bíblico: João 15,1-8


1 – O que diz o texto?
A imagem da videira e dos ramos, no Evangelho de hoje, nos revela a teia das relações, das interdependências e da comunhão de todos com a Fonte originária de tudo. Pertencemos a uma comunidade cósmica de vida tal como foi criada e sustentada por Deus. Somos quem somos somente na relação e por  nossa relação com todas as criaturas e com o próprio Criador; somos alimentados pela mesma seiva divina, que tudo sustenta com sua mão providente. 

Isto significa que há uma unidade fundamental que perpassa todas as partes do universo, na forma de uma “rede”. Nós, seres humanos, também fazemos parte desta vasta rede de inter-relações, conectados a todos os elementos da natureza, desde a menor célula até a ecologia global. 

Sentimo-nos impulsionados pela seiva do Espírito que alimenta as energias do universo e a nossa própria energia vital e espiritual. Conectar-nos com a Videira possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio nas relações; viver em profunda fusão com a videira desperta as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente. 

Sem a seiva divina que nos atravessa nunca poderemos dar o verdadeiro fruto.

A verdadeira nobreza do ser humano consiste nisto: há nele “algo” de interior, decorrente de sua profunda conexão com a Videira, de onde recebe a seiva que o nutre e o faz entrar em relação com tudo e com todos; há nele uma força latente, como uma energia fundamental, que o impulsiona a viver, que o ajuda a crescer e a melhorar continuamente, aumenta a sua capacidade de resistência, estimula-o a alcançar aquilo que é o sentido de sua própria existência: a verdade, a liberdade, o bem, o amor... 

Com a presença desta força interior, a pessoa se sente guiada pelo seu dinamismo, que lhe proporciona saúde física, lucidez mental e limpidez afetiva. É esta força que comanda os melhores momentos da vida humana como um princípio ativo, dinâmico, criativo... Tais forças primordiais, vitais, presentes nas diferentes etapas do crescimento, são essenciais ao ser humano, graças às quais ele se orienta diante das solicitações da vida pessoal e das múltiplas escolhas, constrói a sua vida pessoal, reforça as relações comunitárias e sustenta o seu compromisso solidário no caminho em direção à plenitude do seu ser.


2 – O que o texto diz para mim?
Se há algo que caracteriza meu tempo é a nova consciência de ser rede comunhão interconexão unidade. Todos já sabemos que tudo está interconectado: a globalidade é interação. Lentamente vai-se tomando consciência de que formamos parte de um todo. Há em mim uma necessidade básica de viver conectada com os outros, de entrar em relação com o mundo.

Este tempo pede de mim “uma espiritualidade da conexão”, da busca da experiência da Unidade, de estender pontes entre culturas, raças, sexos, crenças religiosas, ideologias, de romper fronteiras, de estreitar laços, de criar espaços acolhedores...

Preciso sair de meus pequenos círculos para criar vínculos com tantas pessoas, grupos, organizações sociais e movimentos que buscam outra globalização, a globalização da solidariedade, da interconexão responsável, da comunhão universal.

O desafio que se apresenta diante de meus olhos é o de ser fiel à realidade para poder descobrir nela a novidade de Deus, uma experiência “mística” que me faça tocar o mais profundo de tudo, e como consequência, denunciar o que obstrui e mata este dom novo de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Percebo, no contexto atual, que o ser humano tem perdido o contato e a comunhão com o cosmos e com os seus semelhantes, recusando receber a seiva que a todos alimenta; ele está conectado com tudo e com todos e, no entanto, tal conexão não lhe nutre, nem lhe oferece sentido à sua existência. A compulsão dos meios eletrônicos o ameaça de superficialidade, de individualismo e de isolamento. Isto tem provocado nele toda espécie de mal-estar, de doenças, de conflito e divisão, de insegurança, de ansiedade, de solidão, de aridez existencial... É aguda a consciência de uma fragmentação do eu interior.

Quando esta “força vital” permanece bloqueada, o ser humano perde a direção, seca a criatividade e o gosto por viver, não faz progredir a sua potencialidade e demite-se da própria vida. Diante dessa situação existencial, faz-se urgente uma poda. A poda é constitutiva de minha vida, sempre será necessária; tenho a permanente tendência à acomodação, à rigidez em meu modo de ser e proceder, ao fechamento em minhas ideias, aos afetos desordenados; constantemente experimento perdas, amputações, despedidas, limites...

Vivo as perdas como autênticas mutilações do eu e da vida. Algo ligado à minha identidade, à minha imagem pública, com as quais me identifico, deve ser jogado ao fogo, pois já não serve mais para nada.

Mas as podas abrem espaço à vida nova. À luz da Páscoa, toda poda revela-se nova possibilidade de vida.

É certo que ela pode me paralisar na queixa contínua, na saudade melancólica do passado ou em posturas defensivas; mas também me possibilita experimentar a chegada de uma vida inspirada que ativa minha criatividade e me enche de alegria. O decisivo não é fixar-me no “por quê?” das perdas e podas, mas, à luz da Ressurreição, mudar o sentido da pergunta: “para quê” a poda aconteceu? No “para quê” descubro um novo sentido e uma nova força vital que brota das feridas e perdas existenciais. Na experiência da ressurreição nada é “descartado”, tudo é iluminado e a seiva de vida surge de onde menos se espera.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o Podador sabe que está preparando uma vida nova e de mais plenitude. Mas é doloroso, produz-se uma perda, é necessário fazer o luto e despedir-me daquilo que inevitavelmente eu perdi.

Preciso fazer descer da cruz o que em mim está caduco e morto, olhá-lo de frente, sepultá-lo e despedir-me dele para que a vida nova possa expandir-se com liberdade.

Só quando morro e ressuscito posso me renovar e gerar muitos frutos, pois experimento em minha própria carne a fragilidade humana, o que é efêmero e secundário, mas ao mesmo tempo ressuscito a partir de uma força que me vem do mais profundo de mim mesma, que transforma o que está morto em mim numa nova possibilidade ainda por ativar. Ninguém ressuscita no sentido de recuperação do antigo, mas como a acolhida de um dom inédito de Deus.

É decisivo religar-me à Fonte e aproveitar, para o desenvolvimento integral da minha personalidade, os abundantes nutrientes e recursos presentes nas profundezas do meu coração. São forças construtivas e autônomas, livres de influências externas, que devem ser colocadas a serviço da construção de uma personalidade sadia, equilibrada e mais rica. Com isso, todo meu interior se alarga e se dilata.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A seiva de meu ser essencial constitui minha autêntica vida. Descobri-la, abrir-me a ela, fazer-me transparente a ela e vivê-la cada dia constituem a plenitude de minha realização. 

É seiva divina, presente no “eu” mais profundo, que me arranca de meu fechamento e me faz ir para além de mim mesma; ela me abre a uma Realidade maior que me transcende; é ela que me faz perceber que tenho no coração um espaço que está feito à medida de Deus.  

Preciso viver mais nas raízes de meu ser; preciso aprender a viver de uma maneira mais profunda e autêntica, a partir do núcleo mais íntimo de meu ser, a partir de meu ser essencial. 

Trata-se de descer em profundidade, de encontrar o meu centro, aquele ponto de gravidade por onde passa o eixo do meu equilíbrio pessoal. 

A oração me ajuda a encontrá-lo e a ampliá-lo.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 15,1-8
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Eu sou a videira – Fx 04 (04:34)
Autor: Luis Carlos Susin
Solo: Luis Carlos Susin
Intérpretes:  Terezinha S. Regalin, Elisete Baldasso, Vilson Regalin, Geni M. OnziIsoppo, Ladir Brandalise, Frei Luiz Turra, Gracinha, Roberto Merli, Márcia Gui.
CD: Jesus nosso irmão – Série Deus conosco
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 17 de abril de 2018

Leitura Orante – 4º DOMINGO DA PÁSCOA, 22 de abril de 2018


Leitura Orante – 4º DOMINGO DA PÁSCOA, 22 de abril de 2018

BOM PASTOR: JESUS, “HOMEM-DE-CUIDADO”

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida em favor das ovelhas” (João 10,11)


Texto Bíblico: João 10,11-18


1 – O que diz o texto?
A partir deste 4º. Domingo de Páscoa, a liturgia se afasta dos relatos das aparições do Ressuscitado, mas não sai do tema pascal. Como Bom Pastor, o mandato que Jesus recebeu do Pai é “dar a Vida” e a disposição em “dar a Vida” está profundamente sintonizada com o tempo de Páscoa que estamos celebrando. 

Jesus foi um “homem-de-cuidado” e deixou aos seus seguidores um estilo de vida fundado no cuidado. A imagem do “Bom Pastor” revela esse modo de ser e proceder de Jesus.

Trata-se de uma imagem que, para os nossos contemporâneos, revela-se, ao mesmo tempo, anacrônica e perigosa. Anacrônica, porque as cenas do pastor cuidando do rebanho desapareceram do universo majoritariamente urbano e desenvolvido. 

Perigosa, porque a imagem do rebanho apresenta resquícios de passividade que a consciência moderna rejeita visceralmente, por evocar o binômio poder-submissão.

Embora a imagem tenha ficado esvaziada, seu conteúdo continua sendo plenamente atual, quando realçamos a atitude pascal da “mística do cuidado”, ou seja, quando proclamamos a atitude de entrega aos outros até o final. Jesus, em seu ministério “cuidador” transformou a vulnerabilidade em possibilidade, a fraqueza em força, a dor em alegria... O evangelista Marcos diz com extrema finura: “Ele fez bem todas as coisas; fez surdo ouvir e mudo falar” (Mc 7,37).

A raiz da experiência pascal é que Jesus está vivo e comunica Vida à comunidade. 

Como os primeiros cristãos, também nós temos o mesmo privilégio de fazer nossa essa Vida. Trata-se da mesma Vida de Deus, de seu Amor que se entrega a nós incondicionalmente.


2 – O que o texto diz para mim?
Crer e anunciar a Ressurreição e confiar na vida que morre para dar lugar a mais vida, a Vida maiúscula. É crer vivencialmente que a morte é necessária para que a corrente da vida flua, e me comunique suas maiores riquezas. A vida (minúscula) morre; para que eu seja fiel ao chamado à Vida, devo ser capaz de abandonar o que já não serve o que é caduco, o que precisa morrer, para que a vida siga seu curso em direção à plenitude.

Sou também chamada a proclamar que a Vida é possível, que há algo mais além da vida limitada e frágil; sou movida a gritar pelos caminhos que a morte foi vencida, que o ser humano é e continua sendo filho amado de Deus, chamado à vida maior e à liberdade.

Viver a Páscoa significa apostar pela qualidade de vida, fugindo da mediocridade sonífera na qual muita gente se instala, vivendo uma existência rotineira e normótica, sem cor e sem sabor, correndo sem saber para onde, sem entusiasmo, sem dinamismo e sem poder dar cor à própria vida, à família, ao trabalho, ao descanso, às relações, à fé...

O sintoma mais doloroso, já constatado por sérios analistas e pensadores contemporâneos, é um difuso mal-estar que afeta a humanidade inteira. No fundo, essa crise generalizada revela seu rosto desfigurado no fenômeno do “descuido”, do descaso e do abandono, numa palavra, da falta de cuidado com que são tratadas realidades importantes da vida.

Tudo o que existe e vive é preciso ser cuidado para continuar a existir e a viver: uma planta, um animal, uma criança, um idoso, o planeta Terra...

É urgente uma práxis de cuidado, de religação, de benevolência, de paz perene para com a Terra, para com a vida, para com a sociedade e para com o destino das pessoas, especialmente das grandes maiorias empobrecidas e condenadas da Terra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nesse tempo pascal, o cuidado serve de crítica à minha civilização agonizante e também de princípio inspirador para um novo tempo de convivialidade. Diante das realidades vulneráveis faz-se necessário despertar as consciências para a prática do cuidado.

O cuidado é algo mais que um ato ou uma virtude entre outras; ele se encontra na raiz primeira do ser humano, é um “modo de ser essencial” do ser humano.

É uma dimensão fontal, originária, primária, impossível de ser totalmente esvaziada.

É o cuidado que me faz sensível e me compromete com quem está à minha volta.

É o cuidado que me une às criaturas e me envolve com as pessoas.

É o cuidado que desperta encantamento face à grandeza do firmamento, suscita veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido.

Pelo cuidado, o ser humano se religa ao mundo afetivamente, responsabilizando-se por ele.

Jesus de Nazaré foi aquele que mais encarnou o “modo de ser cuidado”.

Revelou à humanidade o “Deus-Cuidado”, experimentando-o como Pai-Mãe que cuida de cada um(a) de seus(suas) filhos(as), do alimento dos pássaros, do sol e da chuva para todos.

Jesus resgatou a centralidade do cuidado e da ternura para com todas as manifestações da vida. Ele mostrou cuidado especial com os pobres, os famintos, os discriminados e os doentes.

Pelo cuidado, Jesus maravilhou-se diante do milagre da vida e solidarizou-se com os humanos fragilizados e excluídos. As parábolas do bom samaritano, que mostra a compaixão pelo caído na estrada, a do filho pródigo acolhido e perdoado pelo pai, e, sobretudo, a do Bom Pastor, são expressões exemplares de cuidado e de plena humanidade.

Cuidar é dar atenção com ternura, isto é, descentrar-me de mim mesma e sair em direção ao outro, sentir o outro como outro, participando da sua existência; cuidar é mais que um ato; é uma atitude “kenótica”, porque exige o esvaziamento de mim mesma para deixar o mistério do outro encontrar abrigo em meu coração. “Não temos cuidado; somos cuidado”. 

Sem cuidado deixo de ser humana.

É a partir do cuidado que coloco limite a toda voracidade neurótica de ter e poder; a partir do cuidado acontece a passagem da lógica da conquista para a lógica da gratuidade, da imposição para a interação-comunhão, da exploração para a sintonia-cordialidade, do poder-produção para a atenção-respeitosa.

O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que ama também cuida. E tudo o que cuida é um sinal de que também ama.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sua presença e sua intervenção me revelam o compromisso com a vida, a afirmação da dignidade e da sacralidade de cada pessoa, bem como a reintegração dos excluídos na comunidade humana. Jesus é um biófilo (amigo da vida), pois revela uma especial atenção e zelo pela vida, seja da natureza, seja do ser humano. Cada vida é um cenário de manifestação do Pai. Tudo lhe causava admiração e encantamento.

Para Jesus, a cada dia o Pai chama as criaturas pelo nome e as convoca à vida: as águas fluem, os animais procriam, os astros retomam seu curso e o ser humano acorda para o louvor de Deus e o cumprimento de suas tarefas. Pela ação providente e cuidadosa do Pai, a Criação inteira se refaz de crepúsculo em crepúsculo e de aurora em aurora.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Pedir a graça de sentir a ternura, o carinho, a proteção e a cura das mãos benditas e providentes de meu Deus.

Alargar o coração, para que aí a ternura de Deus possa fazer morada.

Transbordar a minha vida de cuidados.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 10,11-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Salmo 22 – Fx 01 – (03:27)
Autor: Maria Luiza Ricciardi, fsp
Intérpretes: Ringo, Astúlio Nunes, Reynaldo, Márcia, Gracinha , Armando, Valsani, Vilma , Ângela Márcia
CD: Salmos, orações do povo a caminho
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 10 de abril de 2018

Leitura Orante – 3º DOMINGO DA RESSURREIÇÃO, 15 de abril de 2018




Leitura Orante – 3º DOMINGO DA RESSURREIÇÃO, 15 de abril de 2018


RESSURREIÇÃO: encontros re-construtores

Jesus se apresentou no meio deles e lhes disse:
 “A paz esteja convosco!” (Lc 24,36)


Texto Bíblico: Lucas 24,35-48


1 – O que diz o texto?
Lucas descreve o encontro do Ressuscitado com seus discípulos como uma experiência fundante. O desejo de Jesus é claro. Sua missão não terminou na Cruz. Ressuscitado por Deus depois da execução, entra em contato com os seus para pôr em marcha um movimento de “testemunhas” capazes de contagiar a todos os povos com sua Boa Notícia: “Vós sereis testemunhas de tudo isso”. Não é fácil converter em testemunhas aqueles homens afundados no desconcerto e no medo. 

Ao longo da cena do evangelho deste domingo, os discípulos permanecem calados, em silêncio total. 

O narrador só descreve seu mundo interior: estão cheios de medo, só sentem perturbação e incredulidade; tudo aquilo lhes parece muito bonito para ser verdade.

É Jesus quem vai regenerar a fé dos seus discípulos. O mais importante é que não se sintam sozinhos; devem senti-Lo cheios de vida no meio deles. Estas são as primeiras palavras que escutam do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!” “...por quê tendes dúvidas no coração?”

Para despertar a fé dos seus discípulos, Jesus não lhes pede que olhem Seu rosto, mas suas mãos e pés; quer que vejam suas feridas de crucificado, que tenham sempre diante dos olhos seu amor entregue até a morte. Não é um fantasma: “Sou eu mesmo!” O mesmo que conheceram e amaram pelos caminhos da Galiléia.

Apesar de vê-los cheios de medo e de dúvidas, Jesus confia em seus discípulos. Ele mesmo lhes enviará o Espírito que os sustentará. Por isso, recomenda-lhes que prolonguem sua presença no mundo.

Marcados pela ressurreição, passamos a nos relacionar de maneira diferente com os outros; brota em nós mais ternura, somos mais sensíveis à dor e à injustiça.


2 – O que o texto diz para mim?
Com sua presença compassiva, Jesus desperta minha vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes. 

Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor. 

O Ressuscitado me precede, me sustenta e, na liberdade de seu amor, me impele a ampliar minha vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia. 

Sou já “ser ressuscitada”, e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no meu modo de viver e de me relacionar com os outros.  “Viver como ressuscitado” implica esvaziar-me do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino em meu interior.

Cada dia é o “terceiro dia” pascal. Desde que nasceu até que morreu, Jesus viveu ressuscitando para a vida.

A Páscoa não se demonstra com argumentos de razão; a Páscoa só é possível manifestá-la com o testemunho da vida. Jesus não dá explicações; Ele mostra os sinais de seu amor para com a humanidade, ou seja, as chagas de suas mãos, de seus pés e a refeição.

As chagas de suas mãos, feridas e cravadas de tanto abençoar, elevar, sustentar... os mais frágeis; as chagas de seus pés, feridos de tanto caminhar em busca de quem estava perdido; a refeição, como expressão de fazer-se pão para quem tem fome.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Quando acolho a presença do Ressuscitado, minha vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...

Eles não ensinarão doutrinas sublimes, mas hão de contagiar com sua experiência. Não vão pregar grandes teorias sobre Cristo, mas irradiar seu Espírito. Hão de despertar a fé com a vida, não só com palavras. 

A “pedra pesada” da minha impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi retirada pelo Mestre, que, diante de mim, chama-me pelo “nome” e me desafia a viver como ressuscitado. 

Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada”. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, quando esqueço a presença viva de Jesus em nosso meio, quando O faço opaco e invisível com meus protagonismos e conflitos, quando a tristeza me impede sentir tudo menos sua paz, quando contagio o outro com pessimismo e incredulidade... estou pecando contra o Ressuscitado. Assim não é possível uma Igreja de testemunhas.

Sempre que pretendo fundamentar a fé no Ressuscitado com minhas elucubrações, O converto em um fantasma. Para encontrar-me com Ele, tenho de percorrer o relato dos Evangelhos: descobrir suas mãos que abençoavam os enfermos e acariciavam as crianças, seus pés cansados de caminhar ao encontro dos mais esquecidos; descobrir suas feridas e sua paixão. Esse é Jesus que agora vive, ressuscitado pelo Pai.

Creio que Jesus ressuscitou não “depois” de sua morte, mas em toda sua vida, incluída a morte. A vida comprometida de Jesus ressuscitava na plenitude eterna de Deus quando curava enfermos devolvendo-lhes a confiança vital, quando partilhava a mesa com os excluídos pela religião, quando proclamava ditosos os pobres campesinos e pescadores da Galiléia, quando contava parábolas que ativavam a misericórdia e provocavam surpresa, quando subvertia as hierarquias e consagrava a fraternidade. 

Jesus ressuscitou em sua vida, quando vivia e intensamente e despertava a vida bloqueada nos outros; e, quando morreu entregando tudo, ressuscitou totalmente, como todos aqueles que morrem dando a vida, pois dar a vida é viver plenamente. Por isso Jesus ressuscitou também na cruz, quando entregou totalmente seu alento vital. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Apresentar ao mundo minhas mãos, meus pés e o meu pão.

Minhas mãos feridas na doação, feridas de tanto abrir-se àquele que está caído, de tanto ajudar a quem está cansado, de tanto estendê-las a quem está só, a quem se sente excluído. 

Mostrar as mãos feridas pela generosidade da caridade, do amor; mãos cristificada que abençoam, curam, elevam, apontam horizontes... 

Mostrar as chagas dos pés; Pés cristificados que rompem distâncias, que vão ao encontro do diferente, daqueles que ninguém busca que transita pelos ambientes excluídos levando a mensagem da vida plena; pés que andam caminhos visitando os enfermos, os anciãos que vivem sozinhos, os presos sem liberdade, que andam caminho buscando aqueles que se extraviaram, que se afastaram...

Ser testemunha da Ressurreição significa viver a “cultura do encontro”; e só vive a “cultura do encontro” quem prolonga as mãos e os pés do Crucificado-Ressuscitado; Anunciar a Páscoa com as mãos e com os pés! 

Uma mão esconde entre suas linhas a espessura profunda e o valor impenetrável de uma vivência única e irrepetível; exprime autoridade, elegância, dignidade, credibilidade, bênção...

Uma mão se faz encontro. Vai aproximando, oferecendo, interrogando, esperando, indicando, saudando, acolhendo, bendizendo... Uma mão se abre, se oferece se doa...

Colocar amor em minhas mãos e tudo o que tocar tornar-se-á benção.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 24,35-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Aleluia – Fx 08 (03:43)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Uma casa iluminada por Deus
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 3 de abril de 2018

Leitura Orante – 2º DOMINGO DA PÁSCOA, 08 de abril de 2018


Leitura Orante – 2º DOMINGO DA PÁSCOA, 08 de abril de 2018

ENCONTRO COM O RESSUSCITADO: “tocar” nos crucificados da história

“Estende teu dedo até aqui e vê minhas mãos, 
e estende tua mão e coloca-a em meu lado...” (João 20,27)


Texto Bíblico: João 20,19-31


1 – O que diz o texto?
Uma grande ameaça sempre se fez presente na caminhada histórica da Igreja, qual seja o risco de viver o seguimento de Jesus sem as suas chagas. Crer no Ressuscitado “asséptico”, sem as chagas em suas mãos, em seu lado e em seus pés, é des-humanizá-lo. Crer de alguma forma em Jesus, mas um Jesus da glória, um Jesus “espiritual”, separado da vida e da entrega até à morte, é esvaziar o verdadeiro sentido da redenção. Crer no Ressuscitado sem as chagas é esquecer-se das feridas dos pobres, da morte dos oprimidos; é não tocar as chagas da humanidade sofrida, quebrada... 

Crer no Ressuscitado com as chagas nos compromete em fazer descer da Cruz todos os crucificados da história.

Neste sentido, o evangelho deste domingo nos apresenta uma profunda experiência pascal da Igreja a partir da “conversão de Tomé”, que é a imagem daquele que aceita a ressurreição de Jesus, mas a entende como uma experiência intimista, sem compromisso de comunhão e sem solidariedade com os mais excluídos e sofredores.

Tomé é aquele que vive isolado, anda solto por aí, sem vínculo comunitário. Enquanto os outros se fecham, ele vive sem comunidade, sem compromisso social, dedicado à sua mística particular. Morreu Jesus, mas não lhe importa as chagas d’Ele, nem o sofrimento dos outros; vive de uma espiritualidade “desencarnada”, com uma fé puramente intimista, sem a visibilidade de um corpo morto, sem a necessidade de precisar tocar as chagas d’Aquele que morreu pelos outros, as chagas de todos os mortos.  Custava-lhe tocar as pegadas e feridas de Jesus crucificado; para ele, é como se Jesus não tivesse sofrido e não trouxesse em suas chagas as chagas da humanidade. 

Possivelmente, Tomé tivesse uma fé de tipo “new age”, de puras melodias interiores, que não se visibiliza no serviço e no cuidado aos outros.

Jesus respondeu à incredulidade de Tomé mostrando suas feridas; só assim, em contato de corporalidade a corporalidade, em encontro com a Vida triunfante de Cristo, pode realizar-se a experiência de Páscoa.

“Tocar o Verbo de Deus”, tocando as chagas dos crucificados: este é o tema deste domingo. Isto é o que devemos todos fazer se cremos na Ressurreição. Sem chagas do Crucificado não há Páscoa. Sem corporalidade do Ressuscitado não existe cristianismo.


2 – O que o texto diz para mim?
A partir da experiência do encontro com o Ressuscitado posso recuperar a dimensão do tato como possibilidade de viver de forma mais humanizadora e plena. Os sentidos, e de maneira especial o tato, me faz mais humana, me torna mais sensível, me ajuda na descoberta do corpo ferido do outro, faz palpável o amor, me ajuda a reavivar a beleza do transcendente em cada pessoa.

Jesus sabia de este tocar bem concreto: através de suas mãos fez presente o amor do Pai ao tocar com ternura os corpos das pessoas excluídas, violentadas, consideradas indignas de serem tocadas, nem amadas. O mesmo Jesus se deixa tocar em um momento de grande vulnerabilidade: numa situação de angústia e temor, recebe o contato, a proximidade e a carícia de uma mulher que o unge com perfume (João 12, 1-8).

Ressuscitar o tato é sentir-se próximo, acolhedor, terno... Mas, antes é preciso deixar cair as barreiras; meu mundo está cheio de alambrados, valas, muros e fronteiras; assim me defendo daqueles que são de outra raça, cor, religião, classe social... 

Começo apagando meus preconceitos antes de tentar tocar.

Ninguém toca ninguém “de longe”. Estarei “tocando o Ressuscitado” quando me aproximo d’Ele com uma visita, um telefonema, uma mensagem, uma saudação na rua, um favor, um serviço prestado com amor. Há templos famosos pela liturgia da oração tátil: orfanatos, hospitais, cárceres, periferias, sanatórios, asilos, favelas... Não deixar de frequentá-los, pois é ali que “toco a carne de Cristo”.

Que Tomé eu e todos nós toquemos o lado aberto de Jesus e suas mãos feridas, de maneira que o contato com o sofrimento do mundo nos transforme e nos faça capazes de expandir a vida de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Ressuscitado, ao conservar e mostrar as feridas abertas em suas mãos e no seu lado quer que eu saiba que se apropriou também das minhas feridas; nas feridas do Crucificado, sou movida a mostrar minhas feridas; porque carregou minhas dores, minhas feridas Lhe pertencem; assim, minhas feridas, sanadas pelas chagas de Jesus, se convertem em sinal de vida, porque abrem possibilidades de futuro. 

As feridas são tudo aquilo que é vulnerado, fragilizado e debilitado, que permanece em mim depois de situações de sofrimento, de frustração ou de perda. Há antigas feridas, velhas e enraizadas, que parasitam minhas forças impedindo o fluir de minha vida. São como sabotadoras que vão fragilizando minha estrutura interna e tornando a vida amarga. Sua aparição é típica nos momentos de crise.

É no meio das feridas, pessoais e coletivas, que o Ressuscitado se faz presente, exercendo o “ofício do consolador” (S. Inácio). O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “toca” as feridas e “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles, nelas o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e, sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção... 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, algumas vezes eu prefiro continuar buscando uma Igreja bela, de glória, fechada em si mesma, de espaços sem ar de liberdade, preocupada somente com sua doutrina, seus ritos e liturgias celestiais, mas separada da comunidade dos pobres e sofredores... 

Tenho medo de compartilhar a vida e de “tocar” a ferida de Jesus, que são suas chagas, as chagas da igreja e da humanidade. Esquecer-me disto, esqueço a Páscoa.

Por isso, o Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que traz em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os sinais de seu amor crucificado em favor da humanidade. 

O Senhor ressuscitado continua sendo Aquele que sofre em todos os sofredores do mundo.

Certamente, eu cristã que sou posso e devo afirmar que “toco” o Jesus ressuscitado com as mãos da fé, em um espaço novo de “corporalidade mística”. Mas não posso tocá-Lo só em um plano de “ideias”, de belas experiências interiores, senão na realidade da carne, da vida concreta: tenho que tocar as chagas dos crucificados, na vida concreta dos rejeitados da sociedade. Ali está Jesus como Aquele que vem ao meu encontro como promessa de vida.

Tomé viu, tocou e apalpou as chagas da entrega radical de Jesus. E justamente ali, naquilo que entra pelos sentidos, Tomé se deu de cara com a fé: “Meu Senhor e meu Deus”. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar o Ressuscitado significa também “ressuscitar meus sentidos”, torná-los mais oblativos e abertos para se deixarem impactar pela realidade crucificada

Hoje a presença de Jesus está ali onde os que lhe buscam, encontram chagas de dor e morte. 

Os mesmos sinais de morte (cravos que ataram as mãos e pés de Jesus no madeiro, lança que perfurou seu coração) revelam-se como sinais de vida, mas não para esquecer-me deles, senão para tê-los sempre presentes na vida da comunidade, nas experiências de amor ativo que me leva a descobrir o caminho pascal em todos os sofredores e chagado da história.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: O verbo é amar – fx 06 (04:06)
Autor: Hemerson Jean
Intérprete: Hemerson Jean
CD: No peito eu levo uma cruz
Gravadora: Paulinas Comep