quarta-feira, 28 de março de 2018

Leitura Orante – SÁBADO SANTO, 31 de março de 2018


Leitura Orante – SÁBADO SANTO, 31 de março de 2018

SÁBADO SANTO: “ameaçados” de esperança

“José tendo comprado um pano de linho, desceu Jesus da Cruz, 
enrolou-o no pano de linho e o colocou no sepulcro, 
que era cavado na rocha, e rolou uma pedra na entrada do sepulcro.” (Mc 15,46)


Texto Bíblico: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42


1 – O que diz o texto?
A gravidez é uma metáfora sugestiva e provocadora sobre o Sábado Santo; no silêncio e na obscuridade do sepulcro tem lugar a segunda gestação de Cristo e o novo parto do homem, da mulher e do cosmos renovados. Assim, o sepulcro é contemplado como o ventre da terra, onde acontecerá o milagre da renovação plena da vida. O amor é mais poderoso que a morte e quem ama não morre nunca, senão que suas sementes são húmus e germe de nova vida, embora não possamos controlar quando nem onde. 

Porque, como gritavam as mães e vós da Praça de Maio: “mesmo que queira arrancar todas as flores, não se pode deter a primavera”.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

Fazer memória do Sábado Santo nos faz compreender que, nos sábados santos da vida não podemos ter a pretensão de querer ver o significado de tudo o que vivemos, no mesmo momento que o vivemos. Muitas vezes, terão que passar muitos anos para poder ver o rosto do Deus vivo em situações vividas de dor e abatimento; além disso, temos que começar a entender que não podemos pretender chegar ao último dia com todas as interrogações resolvidas. 

Saber viver neste tom vital é o que nos convida o Sábado Santo.


2 – O que o texto diz para mim?
A partir da experiência sabática, a noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança. 

A terra, a humanidade, o cosmos... estão todos grávidos de Ressurreição. Assim começa a ressurreição; assim começa essa experiência que alguns chamam “a outra vida”, mas que na realidade não é a “outra vida”, mas a vida “outra”. 

Um jornalista guatemalteco, desaparecido sob a ditadura nos anos 80, deixou esse escrito: “Dizem que estou ‘ameaçado de morte’; nem eu nem ninguém estamos ameaçados de morte. Estamos ameaçados de vida, ameaçados de esperança, ameaçados de amor. Estamos ‘ameaçados’ de ressurreição. Porque Jesus, além do Caminho e da Verdade, é a Vida, embora esteja crucificado no alto do lixão do Mundo...”.

Ameaçados de vida, ameaçados de esperança, mesmo que a esperança frequentemente seja uma “esperança enlutada”. Há homens e mulheres que se fizeram “experts” em transitar e esperar na noite. São meus “mestres e mestras do Sábado Santo”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência, começa na limitação, é ousada na fragilidade...

A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

“O coração do cristão é inquieto, está sempre em busca, em espera: esta é a esperança... porque a esperança é aquela que faz caminhar, faz abrir estradas...” (Massimo Cacciari)

O ser humano esperança é o peregrino que caminha, é o artífice que tece o existir.

Esperança é força prospectiva que suscita passos para a gênese da nova humanidade.

Esperança é o ser humano nômade. Desloca-se. Desdobra-se. Inventa-se. Deixa de ser o que era para chegar a ser o que ainda não é. Na noite ela se acende; na impotência, ela vence; na finitude, ela impele a caminhar.

A esperança é brasa, são pés, é caminho, é narrativa, é assombro, é antecipação. 

Não há esperança na solidão das próprias seguranças e das próprias expectativas. A esperança se realiza no encontro, que impele a sair, a caminhar, a ir ao encontro, narrar aos outros o fogo que se acendeu por dentro. A esperança é o canto que empresta coragem frente os corredores escuros da história.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu poderia acrescentar que uma humanidade, incapaz de cultivar a esperança, não merece ser olhada, porque lhe faltaria a única razão pela qual vale a pena existir. Sem a esperança, a humanidade perde a iniciativa. Embota-se.

A vida sem desafios não é real; mas a vida sem espera, sem desejo, sem paixão, sem esperança, não é vida.

A esperança mora onde a deixa entrar: onde luto, onde convivo com o outro diferente de mim, onde a fragilidade e a transição podem desorientar, onde as trevas parecem mais fortes que a luz, onde a vida parece ser ameaçada pela morte, onde a violência pensa levar vantagem, onde o caminho é íngreme, onde a espera se confunde com a angústia... 

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. 

Mas não basta ter esperança. É preciso ser esperança. O ser humano vive de esperança, acredita na esperança, mas, sobretudo é esperança. A esperança leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É madrugada e não crepúsculo. Jamais “envelhece”. A esperança pascal antecipa aquilo que ainda não é realidade. É o futuro que ainda pode ser convertido em história nova.

O mal, a injustiça, a violência, o sofrimento, existem em minha história, mas não tem a última palavra sobre ela. A ternura de Deus é mais poderosa e ela é minha esperança, ela me sustenta nos túneis mais escuros da vida a partir de dentro, atravessando-os. 

Deus é minha esperança, o Deus da vida que a ama e me ama até o extremo e cuja paixão é a esperança que me dá como um dom contra toda desesperança, se me abro a ela. Mas a esperança não é uma propriedade privada, mas um presente comunitário, coletivo, um bem comum, como diz o Papa Francisco: “Não vos deixeis roubar a esperança! Talvez a esperança seja como as brasas debaixo das cinzas; ajudemo-nos uns aos outros com a solidariedade, soprando nas cinzas, a fim de que o fogo volte a atear-se mais uma vez. Pois é a esperança que nos faz ir em frente. E isto não é otimismo, mas algo diferente. Todavia, a esperança não é de uma só pessoa, a esperança é fazê-la todos juntos. Temos que alimentar a esperança entre todos, entre todos nós e todos nós que estamos distantes. A esperança é algo vosso e também nosso. É algo que pertence a todos”. (Discurso aos trabalhadores de Cagliari – 22/set/2013)


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esperar, mesmo quando sentir que a realidade é um “beco sem saída”

Esperar contra toda esperança.

Esperar os vencidos, os últimos.

Aprender a esperar mesmo quando me encontro tendo que enfrentar situações-limite.

Ser forte e suporte nos momentos difíceis da vida e oferecê-lo aos outros.

Ajudar o outro a rolar a pedra do sepulcro de sua vida.

A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre!

É Ressurreição: vida plena antecipada.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Eu penso na ressurreição
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Teologia em canção
Gravadora: Paulinas Comep


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