domingo, 25 de março de 2018

Leitura Orante – Quinta-feira Santa, 29 de março de 2018


Leitura Orante – Quinta-feira Santa, 29 de março de 2018

MESA: lugar da solidariedade e do encontro

“Durante a ceia” (Jo 13,2)


Texto Bíblico: João 13,1-15     


1 – O que diz o texto?
Essa foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Para Ele, a mesa era para ser compartilhada com todos; a partilha do pão com publicanos e pecadores fazia parte das práticas transgressoras de Jesus.

Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam à desigualdade, a divisão, a separação... 

Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o faziam próximo dos pecadores, pobres e excluídos. Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande mesa para a festa, o encontro, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”. 

A pedagogia de Jesus incluiu a “espiritualidade da mesa”. Ele, antes de fundar uma igreja, fundou a “comensalidade”. Ao reunir os seus discípulos para o encontro junto à mesa, Ele revelou o verdadeiro simbolismo deste simples móvel: a lição fundamental da comunhão, como fonte inesgotável de vida. A comunhão que faz sonhar com a mesa eterna no Reino e desafia seus comensais a viver encontros solidários, como hábito e dinâmica que preserva e promove a vida. Do encontro junto à mesa ao encontro com os mais excluídos: este deve ser o movimento inspirador de todos e todas, seguidores e seguidoras de Jesus.

A espiritualidade da mesa não pode ser apreendida e mercantilizada por ninguém, pois ela é puro dom da refeição – onde dois ou mais estiverem reunidos por causa do alimento-mesa-ser humano, um novo mundo poderá ser descortinado, revelado. A benção à mesa instaura o horizonte da partilha, em que os alimentos são destinados à necessidade de todos por meio da corresponsabilidade dos participantes, fazendo memória do banquete da Criação, sobre cuja mesa Deus preparou pão e vinho em abundância para todos.

A comunhão bíblica se realiza entre os “distantes e os diferentes”, por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem que distribuem... “Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles”. (Atos. 4,32).


2 – O que o texto diz para mim?
Preparar a mesa e fazer a refeição é todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e, por meio dos alimentos, garantem minha vida.

Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai (Lucas 14,15-24; Mateus 21,1-10).

Quando o Criador tirou do húmus o homem e a mulher, Ele pôs, com seu hálito, no coração deles, o desejo do encontro de um com o outro. Esse desejo foi crescendo e configurando-se sob formas sociais diversas, segundo cada cultura e crença. 

Surgiram refeições comuns, mesas de comensais, mesas festivas... Para esse centro converge o ser humano em busca do alimento, renovar suas energias, tomar novo impulso... Descobrir-se humano. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É junto à mesa que se dá o processo de humanização e comunhão; a partir desse ato sagrado, posso olhar o outro mais de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto... pois “a comida, o alimento de minhas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano” (Manuel Diaz Mateos).

A mesa é um sinal de encontro e comunhão; ao mesmo tempo em que ela sinaliza, ela realiza aquilo que sinaliza, ou seja, a inter-comum-união. A missão da mesa é criar comunhão intrapessoal (eu comigo mesmo), interpessoal (eu e  o outro) e transpessoal (eu e Deus). 

Ela não é agente passivo, mas construtora de novas possibilidades de vida. Aliás, ela existe enquanto lugar de refeição por causa do ser humano que a modelou.

A refeição em torno da mesa representa um ato comunitário e reforça nos participantes os laços de humanidade, de compaixão, de mútua confiança e de comunhão. Por toda esta carga de simbolismos, a mesa não pode ser posta de qualquer maneira; a sala que ostenta a mesa deve ser um local aconchegante e íntimo, para realizar o milagre do encontro. Ela passa a ser um altar que deve ser preparado e ornado com carinho, para ser digno de realizar a sua missão sagrada, pois sagrados são aqueles que dele se aproximam, se apoiam e se reclinam sobre seus dons.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor sentar-se à mesa com o outro é descobrir-se vivo, corpo pulsante, latente, carente.

Mas é também descobrir um outro tipo de alimento, que só pode ser colhido na delicadeza da inter-relação, no encontro gratuito com o outro.

Nela e com ela aprendo a acolher o outro como dom. Aprendo a me doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. A mesa é também o lugar onde acolho a dor e as tristezas do outro, com quem partilho minha refeição. A mesa-refeição, portanto, é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento, que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, do inconsciente individual e coletivo. 

Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão.

É nesse universo de mesa-refeição que o ser humano vai se auto-construindo, auto- definindo como ser que é humano, mas também divino. Diviniza-se humanizando, humaniza-se divinizando.

O simples gesto de passar ao outro o que ele precisa é um gesto despojado de poder, de segundas intenções. Quando alguém passa um prato ou um pedaço de pão ao companheiro, está passando mais do que isso: consome em comum a mesma sorte.

“Servir” é o nome do gesto fundamental de estar à mesa. Há necessidades atendidas, o cuidado amoroso perpassa as relações; busca-se o necessário revigoramento físico para a continuidade do caminho, e esforço no trabalho, a preservação da saúde...

O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A lição da misericórdia é a única que ganha validade e sentido.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descobrir em minha mesa o meu pão. 

Em minha jornada, o meu chão. 

Em meu cotidiano, o inesperado que vem o outro em sua fome, em busca de mãos abertas que saibam partilhar.   

A espiritualidade da mesa exala gratidão aos que dela se aventuram em assentar-se. 

Com isso ela me interpela a viver uma espiritualidade do encontro e do serviço de uns para com os outros. Esta é a prova da autenticidade do verdadeiro seguimento de Jesus. Este é o sentido verdadeiro de toda Eucaristia.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,1-15    
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Preparemos a ceia – fx 12 (04:30)
Autor e intérprete: Zé Vicente
Coro: Paulinho Campos, Emmanuel, Mari Dniz e Rita Krouri
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep

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