segunda-feira, 19 de março de 2018

Leitura Orante – Domingo de Ramos, 25 de março de 2018


Leitura Orante – Domingo de Ramos, 25 de março de 2018

RAMOS: descobrir o Deus encoberto nas cidades

“... quando se aproximaram de Jerusalém” (Mc 11,1)


Texto Bíblico: Marcos 11,1-10


1 – O que diz o texto?
A experiência espiritual da Quaresma implica a travessia do deserto: tempo de despojamento, de pobreza, de confiança em Deus, de esperança e horizontes abertos... O deserto quaresmal desemboca na cidade.

E todos sabemos que a cidade é o contrário do deserto: autossuficiência, segurança, limitação de horizontes, acomodação, conflitos... Cidade moderna, globalizada pela tecnologia fria e sem alma, amordaçada pela funcionalidade e pela utilidade, com uma política submetida ao mercado, à produção e consumo, cidade estendida e sem muros de contorno, mas com horizonte atrofiado, aparentemente sem Reino de Deus à vista...

Jesus entrou na cidade de Jerusalém com seus seguidores e não foi uma decisão fácil porque implicava o alto risco de ser incompreendido e rejeitado.

Como bom judeu, Jesus subiu a Jerusalém, cidade de Davi (do Messias) em nome dos pobres, com um grupo de Galileus, para anunciar e preparar o Reino. Subiu na Páscoa, porque era o momento propício (hora do Reino), tempo para que os homens e as mulheres pudessem se encontrar a se comunicar, em gesto de paz, a partir dos mais pobres. Subiu a Jerusalém porque estava convencido de que sua mensagem era de Deus e porque Deus lhe havia confiado a missão de instaurar, com sua palavra e com sua vida, o novo Reino dos pobres, que já havia começado na Galiléia e que devia estender-se, desde Jerusalém, passando de novo por Galiléia, para todos os homens e mulheres da terra. 

Jesus tinha a certeza de que Deus falaria através do que fizessem (ou não fizessem) com Ele em Jerusalém, pois esta era a última oportunidade para a cidade da promessa e do templo.

Entrou na cidade santa para que finalmente ela se transformasse na “cidade de Deus”, o lugar de encontro do ser humano com Deus, de Deus com todos seres humanos, e estes como irmãos. 

E pela primeira vez se deixa aclamar: “Hosana ao filho de Davi”. Desta vez não recusou o papel de liderança, mas deu outro sentido, porque não se valeu disso para conquistar o poder e sim para desmascará-lo. Não fez pactos militares ou políticos, porque Deus não atua por meio do poder, mas de um modo gratuito. Dessa forma entrou na cidade de Jerusalém, desarmado e cheio de esperança, renunciando todo poder sobre ela, todo domínio, toda força, sem espadas, sem exército... Não entrou montado a cavalo como os grandes, mas num jumentinho; não entrou rodeado das grandes autoridades religiosas e políticas  pois Jesus se sentia muito melhor acompanhado das pessoas simples do povo;  não usou traje de gala, mas as vestes rudes de um peregrino; não lhe fizeram nenhum arco de flores pois a Ele lhe bastavam os mantos do povo e os ramos cortados das árvores; entrou provocativamente como mensageiro da concórdia e da paz em meio a aplausos e hosanas do povo peregrino que veio à festa. Jerusalém inteira fica alvoroçada. Os donos do poder, político e religioso, sentem-se ameaçados.


2 – O que o texto diz para mim?
Hoje tem esvaziado a dimensão do deserto em minha vida; tenho-me adaptado de tal maneira à cidade e às suas exigências técnicas, produtivas, aos seus programas e solicitações... que acabo me sentindo passiva diante dela.

O tempo quaresmal me possibilita manter aberto o acesso ao deserto, que cria um espaço interior vazio, onde se faz possível um encontro surpreendente com Deus; a partir daí, mesmo em minha atribulada vida na cidade, posso recuperar a liberdade do chamado profundo e redescobrir o caminho do Seguimento de Jesus, que começa e termina-me “afora” da cidade.

As cidades não são pessoas, mas tem sua identidade e personalidade próprias; algumas têm múltiplas personalidades. Elas existem no espaço e no tempo.

Há cidades acolhedoras, que dão as boas-vindas, que parecem se preocupar com cada habitante, alegram-se com o fato de que os moradores ali se sintam bem; são cidades humanizadora...

Há cidades indiferentes, aquelas que dão no mesmo que as pessoas estejam ou não nelas; cidades que seguem seu rumo, que ignoram seus habitantes...

Há cidades que são más, violentas, que parecem perdidas, que dão a sensação de que seriam mais felizes em outro lugar... Algumas grandes cidades se propagam como um câncer que devoram tudo em sua passagem, absorvem cidades pequenas e povoadas, destroem culturas e hábitos de vida, esvaziam regiões que em outros tempos eram prósperas... Cidades desumanizadoras.

Mas sou eu quem dá uma feição às cidades; cada cidade revela o rosto e o coração de seus moradores... 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não devo perder o deserto que carrego dentro de mim; por isso, só posso “entrar na cidade” seguindo a Jesus Cristo que é fiel à causa do Reino, com o risco da Cruz (Semana Santa), porque a Cruz assume, radicaliza e eleva o deserto. Jesus vai morrer-me “afora” da cidade, nesse limite fronteiriço entre o deserto e Jerusalém, nesse espaço que só Deus pode preencher e onde posso enraizar minha confiança n’Ela... A Cruz se eleva e abraça ambas realidades.

Embora muitas realidades urbanas me queiram impedir o encontro com Deus, devo reconhecer na cidade a presença de d’Ele, muitas vezes de um modo imperceptível, como o sol está presente nos dias nublados. Deus está sempre presente na histórica e na cultura de meu tempo. Ele continuamente vem ao meu encontro. O cristianismo é a religião do Deus com rosto humano e urbano que me busca apaixonadamente em Cristo.

Por isso, não é necessário que leve Deus para a cidade; Ele já está ali presente, em meio às alegrias e dores, esperanças e sofrimentos nela.

A experiência das pessoas que vivem nas cidades me demonstra que Deus está presente nelas, embora muitas vezes de maneira escondida e oculta.

A presença de Deus não se desvela à plena luz do dia; uma pessoa pode viver na cidade e perfeitamente ignorar, negar, desmentir ou simplesmente desconhecer a presença divina nela. 

É preciso buscar a Deus, “descobrir Deus na cidade”, como se estivesse encoberto, oculto, escondido na cidade. Uma aguda sensibilidade religiosa percebe a presença de Deus também nos sinais de sua ausência. O “Deus escondido” se apresenta onde é marginalizado. Deus acompanha a todos em seu retiro; pronuncia sua voz em seu silêncio; revela sua onipotência em sua impotência; mostra sua máxima bondade em sua mínima expressão do presépio à Cruz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o  seguidor, a seguidora de Jesus é um apaixonado, é uma apaixonada do deserto e que nunca se “encaixa” nas estruturas da cidade; sua presença sempre rompe com as muralhas, alargando espaços e acolhendo o diferente.

Se carregar o deserto dentro de mim, estarei vazia de mim mesma, de meu ego, de minhas visões fechadas, de meu monopólio da verdade. Só assim minha presença na cidade vai se revelar inspiradora e provocativa, como a presença de Jesus em Jerusalém.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Este é um dos desafios na grande cidade. 

Romper com o individualismo e o poder que marcam as relações entre os homens e as mulheres, para criar um marco novo, humanizador e aberto a Deus Pai, através de pequenas comunidades. Comunidades daqueles que confessam o seu amor comum pelas mesmas coisas – as mesmas esperanças, os mesmos sonhos, a mesma utopia do Reino.

É, sobretudo, em torno da mesa que uma comunidade se constitui; com o gesto do “repartir” se estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, coinspirar, em torno do fascínio da proposta de Jesus. Na verdade, a Eucaristia vivida é o sal, o fermento, a luz e a alma da cidade.

Assim é a cidade que Deus deseja: uma praça de encontro e uma mesa celebrativa para todos. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 11,1-10
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: A cidade é muito grande – fx 01 (01:33)
Autor e intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Alpendres varandas e lareiras vol. 01
Gravadora: Paulinas Comep

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