terça-feira, 13 de março de 2018

Leitura Orante – 5º Domingo da quaresma, 18 de março de 2018

Leitura Orante – 5º Domingo da quaresma, 18 de março de 2018

A LÓGICA INEXPLICÁVEL DO AMOR: 
“é morrendo que se vive...”

“Se o grão de trigo caído na terra não morrer, permanecerá só, 
mas, se morrer, produz muito fruto.” (Jo 12,24)


Texto Bíblico: João 12,20-33


1 – O que diz o texto?
Caminhamos para o final da Quaresma, e o evangelho deste domingo nos situa diante de uma experiência radical de morte por amor, como o grão de trigo. Esta é uma experiência universal: só o trigo que “entrega” sua vida é fecundo: multiplica-se em sementes na espiga, transforma-se em alimento (pão compartilhado), alimenta vidas.

Estamos no capítulo 12 de São João; depois da unção em Betânia e da entrada triunfal em Jerusalém, e como resposta aos gregos que queriam vê-lo, João põe na boca de Jesus um pequeno discurso sobre a Vida. Vida maiúscula que só pode ser alcançada quando se entrega em favor de tantas vidas feridas e excluídas.

O evangelho deste domingo nos situa diante da lógica inexplicável do Amor: “perder” a vida por amor é a certeza de “ganhá-la”; morrer a si mesmo é a verdadeira maneira de viver, entregar a vida é a melhor forma de recebê-la... 

A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude.

Ela é fruto do amor, mas o egoísmo é a casca que impede o germinar dessa vida, embora ela esteja presente dentro de cada um de nós. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso eu é a condição para que a vida se liberte.

Participando da morte de Jesus, podemos também fazer de nossas cotidianas mortes um ato de decisão, de entrega, de oblação. A certeza de nossa fé em Cristo, morto e ressuscitado, nos ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos egoístas de busca de segurança e proteção, e encontrar uma paz profunda que nos permita fazer de nossa vida uma oferenda gratuita em favor da vida dos outros.


2 – O que o texto diz para mim?
Perder-ganhar, morrer-viver, entregar-reter, doar-receber..., parecem dimensões ou realidades contraditórias, mas captar a profundidade da verdade contida nesta “contradição aparente” é descobrir o Evangelho.

A vida é constantemente chamada a ser Páscoa. Porque na vitória da Vida entregue, ela ganha sentido, avança, como uma torrente que rega terras secas, ávidas de água, como um fogo que, na noite mais escura, traz uma luz que permite vislumbrar a vida oculta.

A vida não se conta pelas respirações, mas pelos momentos de assombro, de alegria e encantamento. Ela tem a dimensão do milagre e carrega no seu interior o destino da ressurreição.

Por si mesma toda vida humana é fecunda, é potencialidade, é explosão de criatividade... Assim como na semente do trigo há vida latente esperando a oportunidade de expandir-se, também no ser humano encontram-se ricas possibilidades, esperando a morte do “eu mesquinho”, para se plenificarem.

A condição da fecundidade é saber morrer a muitas coisas: auto-centramento, busca de poder, vaidade...

E esse processo de mortes de tudo aquilo que limita que atrofia e isola..., não é o fim da vida, mas sua plenitude; esse caminho permanente de esvaziamento do ego, para viver a entrega aos outros, não significa a anulação da “pessoa”, mas sua potenciação; pois a vida não deve ser corroída pela tirania do egoísmo mesquinho: vida é encontro, interação, comunhão... Desperdiçar a vida é travar a existência; é trágico que alguém viva na superficialidade sem ter acesso à sua riqueza interior. Quem conhece o valor da vida não se limita a viver de maneira “normótica” (normalidade doentia)


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tudo muda. Muda o meu coração, minha mente se abre ao novo, meus sentidos se expandem, meus encontros com os outros se revelam criativos e inspirados... 

Reajo como aquelas pessoas que tiveram uma experiência limite da morte (por enfermidade, acidente ou por ter superado uma morte certa); elas experimentam uma mudança radical em suas vidas. Sua atitude diante da vida é totalmente diferente; veem-na com olhos novos: captam muitos detalhes que antes escapavam de sua atenção, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que lhes passavam desapercebidas; tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça.

Ao apreciar o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas; creem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente.

E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, fazendo as mesmas coisas..., mas, com outra sensibilidade, com mais criatividade e doação.

Para quem se deixa afetar profundamente pela experiência quaresmal, é impossível não ser movida, movido a viver bem a vida, a valorizá-la e a coloca-la a serviço. O convite de Jesus é para “perder” minha vida, não colocar máscara a ela e abrir-me para receber uma Vida maior, minha verdadeira vida, a Vida de Deus em mim. 

Aquele que “quer salvar sua vida”, ou seja, aquele que quer estar bem, não quer ter compromissos, não quer se envolver com as situações exigentes, quer estar à margem da realidade que pede uma presença diferente..., esse “perderá sua vida”. Quê vida mais atrofiada quando se vive bem comodamente, bem tranquilo, bem instalado, bem relacionado politicamente, economicamente, socialmente...!

Mas aquele que por amor ao Reino se desinstala, acompanha o povo, se solidariza com o sofrimento do pobre, encarna-se e faz sua a dor do outro... esse “ganhará a vida”.

Sua vida se transformará em Vida. Libertam o mundo todos aqueles e aquelas que fazem de sua vida uma doação, um oferecimento. Assim deixam passar por eles, elas, o que é Deus, puro Dom de Si, Amor que não se reserva a Si mesmo.

É gratificante fazer memória de tantos homens e mulheres que foram presença compassiva e, à maneira de Jesus, consumiram suas vidas em favor da vida; histórias silenciosas de tantas pessoas que com sua presença ajudaram os outros a viver; pessoas que revelaram a paixão por viver em pequenas paciências cotidianas, que entregaram suas vidas sem brilho algum, sem vozes que a proclamassem; foram como o fermento silencioso que se dissolveram na massa para fazê-la crescer.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, preciso abandonar minhas medidas de segurança, ser liberada do domínio cego do ego, para que possa emergir e brilhar o que realmente sou minha dignidade mais profunda. “Não é o centrar-se em si mesmo que confere dignidade à existência, mas o des-centrar-se, o reestruturá-la em favor dos outros” (L. Boff). “Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20).

O essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”. A vida aumenta quando compartilha e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade.

De fato, aqueles que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança do conhecido e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.

O Evangelho de hoje me ajuda a descobrir que a preocupação doentia para com a própria vida atenta contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Aqui descubro outra lei profunda da realidade: alcança-se a maturidade da vida à medida que ela é entregue para possibilitar vida a outros.

“Morre e transforma-te” (Goethe) 

Sou um ser que passa por contínuas transformações. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Preciso me destravar, deixar de apegar-me a mim mesma, abrir as mãos, abandonar minha autoafirmação... para que Deus possa entrar e atuar em mim. 

Ser grão de trigo na grande seara do mundo; e o grão de trigo eterniza-se na sua entrega-doação para que outros matem suas fomes e vivam com sentido.

Aprender a morrer para meus interesses mesquinhos; só assim minha vida terá a dimensão da eternidade.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 12,20-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Se o grão de trigo não morrer – fx 16 ( 04:47)
Versão e Música: Série Povo de Deus 
CD: Campanha da Fraternidade 2015 - CNBB


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