terça-feira, 6 de março de 2018

Leitura Orante – 4º Domingo da quaresma, 11 de março de 2018


Leitura Orante – 4º Domingo da quaresma, 11 de março de 2018

DEUS MARCA ENCONTRO COM A HUMANIDADE

“Deus amou o mundo: a ponto de dar o Unigênito...” (Jo 3,16)


Texto Bíblico: João 3,14-21    


1 – O que diz o texto?
O evangelho indicado para este 4º domingo da Quaresma nos faz retomar o verdadeiro sentido do Mistério da Encarnação. Pode parecer estranho, uma vez que a liturgia quaresmal nos motiva e nos prepara para viver os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Mas os “mistérios” da vida de Jesus não estão separados: trata-se de um só e único “Mistério”, qual seja, do “Deus que se humaniza” para redimir a humanidade perdida.

O que aconteceu no mistério da Encarnação é algo surpreendente e cheio de novidade.

Não só Deus ama radicalmente a sua criatura, senão que se “abaixou” e se fez um de nós em Jesus: a carne é digna de Deus, o mundo é digno de Deus, a Encarnação é a expressão mais profunda de que somos de Deus. Com isso, rompe-se o medo do corpo, o medo do humano, o medo do diferente, o medo do mundo, o medo de sentir e experimentar a condição humana, com sua grandeza e fragilidade. 

Ao se revelar Manancial e Fonte de nossa humanidade, não é mais possível crer que o Criador seja nosso rival, mas amigo; não é possível mais aceitar que Ele seja insensível, mas providente; que seja nossa ameaça, mas alívio; que seja nossa diminuição, mas plenitude; Ele não é o “juiz distante” mas o “Deus encontro”, fonte de nossa liberdade...

O relato do Evangelho de hoje nos revela a atitude de Deus no seu encontro com o mundo, marcado por uma atitude amorosa.

Em Jesus Cristo, nos fazemos conscientes da relação que há entre todos os seres humanos e destes com todas as demais criaturas e com o Criador. Ele não só tornou próximo um Deus cuja essência é encontro (cerne da doutrina cristã da Trindade), mas revelou que o caminho para a plenitude e a transformação humana consiste “entrar no fluxo do encontro intratrinitário”, fazendo-nos encontro e reconstruindo as relações rompidas.

Na verdade, Ele chamou o ser humano a sair de seu mundo fechado, de seu isolamento e padrões alienados de relacionamento para expandir-se em direção a um novo encontro com tudo o que existe; tal encontro é o prolongamento do encontro trinitário e concretização do sonho do Reino de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
O Tempo Quaresmal me sensibiliza e me capacita para me aproximar do meu mundo com uma visão mais contemplativa. 

Como “contemplativa me encontro”, movida por um olhar novo, entrar em comunhão com a realidade tal como ela é.  É olhar o mundo como “sacramento de Deus”; um olhar gratuito e desinteressado, que me abre a uma atitude acolhedora de tudo que me rodeia; um olhar que rompe distancias e alimenta encontros instigantes.

O seguidor, a seguidora de Jesus não é aquele, aquela que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele, aquela que, movido, movida por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença do Inefável; o mundo já não é percebido como ameaça ou como objeto de conquista, mas como dom pelo qual Deus mesmo se faz encontrar. O mundo não é lugar da exploração e da depredação, mas é o lugar da receptividade, da oferenda e do encontro inspirador.

Para realizar esta nobre missão, não pode permanecer sentada. Seguir Jesus exige de mim uma dinâmica continuada, um colocar-me a caminho em direção às margens. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Inspirada no evangelho deste domingo, contemplo, com o olhar do Deus Amor, meu mundo fragmentado, vendo as diversidades em conflito que geram o sofrimento, a exclusão, a morte... 

Entrar no fluxo do “amor compassivo e descendente de Deus” ativa também em mim uma maneira cristificada de ser e de estar no mundo; minha presença e minha missão fazem do mundo em que vivo um lugar transparente, santo e luminoso em Deus. O “amor descendente” me expande e me lança em direção ao mundo, à humanidade, me faz mais universal e me capacita para ser “contemplativa nos encontros”.

Na espiritualidade cristã, quem experimenta o encontro com o Deus vivo e amoroso, começa a “ver” os homens e as mulheres no mundo como Deus mesmo os vê. Precisamente por ter-se encontrado com o Deus-Amor, a pessoa torna-se mais “encarnada” na realidade e mais comprometida com os irmãos e irmãs no mundo, sobretudo com os mais pobres, os mais sofridos e excluídos; é aquela que mais se compromete com a justiça e é a que mais desenvolve uma criatividade eficaz na história, com obras que me surpreendem.

A disponibilidade, o despojamento e a mobilidade são exigências básicas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a minha própria vida. Olhar a partir de um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar meus próprios absolutos e deixar-me impactar pelos valores presentes no outro. Escutar de tal maneira que o que ouço penetra na minha própria vida; isso significa implicar-me afetivamente, relacionar-me com pessoas, não com etiquetas. Acolher na minha própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluídos e diferentes encontrem morada nas minhas entranhas, na minha memória e no meu coração.

O encontro com o diferente possibilita também o encontro consigo mesmo, ou seja, encontrar a própria verdade. Isso implica em se perguntar pela própria identidade, por aquilo que dá sentido à própria vida, o impulso por viver de uma maneira cristificada, conforme os valores do Reino.

Para que haja verdadeiro encontro com o outro, o deslocamento expõe quem se desloca, deixa-o vulnerável e “contaminado” pela realidade que encontrou. Quando alguém se desloca e se aproxima de realidades diferentes, é para encontrar, encontrar-se e encontrar Aquele que veio iluminar todo encontro.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; posso construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Posso terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.

“Pai de bondade, para descobrir tua proposta original, ensina-me a contemplar o mundo inteiro com o teu próprio olhar, respeitoso e fiel à minha realidade”. (Benjamin Buelta)


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Evangelizar meus sentidos, muitas vezes atrofiados e limitados, para que eles sejam mediação cristificada e assim viver encontros verdadeiramente humaniza dores.

Como seguidora de Jesus, meu desafio não é fugir da realidade, mas aproximar-me dela com todos os meus sentidos bem abertos para olhar e contemplar, escutar e acolher, percebendo no mais profundo dela a presença ativa do Deus que me ama com criatividade infinita, para encontrar-me com Ele e trabalhar juntos por seu Reino. O mundo precisa de místicos e místicas que descubram onde está Deus criando algo novo, para proclamar esta boa notícia. 

É aqui, neste mundo, que Deus me chama a estender o seu Reinado, trabalhando cada dia como amiga de Jesus que passa, observa, cura, se compadece, ajuda, transforma, multiplica os esforços humanos. Apaixonar por Deus me apaixona pelo mundo que, em sua diversidade, riqueza, simplicidade, profundidade, fragilidade, sabedoria... me fala do novo rosto do Deus que busco com desvelo. E amando e investigando tudo o que é do mundo, adora o Deus que habita em tudo. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 3,14-21    
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Poe teu coração no meu – FX 06 – (03:21)
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo, quando me chamaste
Gravadora: Paulinas Comep


Nenhum comentário:

Postar um comentário