quarta-feira, 28 de março de 2018

Leitura Orante – DOMINGO DA RESSURREIÇÃO, 01 de abril de 2018


Leitura Orante – DOMINGO DA RESSURREIÇÃO, 01 de abril de 2018

TRAVESSIA PARA A GALILÉIA: mulheres portadoras de perfumes

“Passado o sábado, Maria de Mágdala, Maria de Tiago e Salomé 
compraram aromas para irem ungi-lo. Muito cedo, no primeiro dia da semana, 
vieram ao sepulcro, ao nascer do sol.” (Mc 16,1-2)


Texto Bíblico: Marcos 16,1-7


1 – O que diz o texto?
Das mulheres que foram ao sepulcro na manhã de Páscoa levando perfumes podemos aprender sua capacidade de enfrentar os acontecimentos com sabedoria e audácia.

Elas são as mulheres “mirróforas”, ou seja, portadoras de perfumes, que madrugam para ir ungir o corpo de Jesus. São conscientes do tamanho da pedra e de sua impossibilidade de removê-la, mas isso não é um obstáculo em sua determinação de ir ao túmulo para fazer memória d’Aquele que abriu para elas um horizonte de sentido. 

A alusão ao “primeiro dia da semana” e o “nascer do sol” acompanham a entrada delas em cena, na madrugada da Páscoa: estamos no começo da nova criação e a luz da Ressurreição às envolve em seu resplendor.

Quem busca, encontra; as mulheres foram às primeiras que viram este instigante sinal: a grande pedra tinha sido removida e o túmulo estava vazio. E foram as primeiras a “entrar”.

Entraram no túmulo: esta foi a experiência das discípulas de Jesus, ou seja, entraram no mistério que Deus realizou com sua vigília de amor. Não se pode fazer a experiência da Páscoa sem “entrar” no mistério.

As mulheres buscaram Jesus no lugar equivocado, embora ali aprendesse uma lição inesquecível: é inútil busca-lo no lugar da morte. Esse espaço está desabitado. O jovem de branco associa a ressurreição a uma tumba vazia: “Ressuscitou, não está aqui” (v.6).

O cenário da morte carece de respostas. A busca deverá ser feita no espaço onde se desenvolve a vida. As mulheres entendem que corresponde a elas tomar a iniciativa e tirar da covardia o grupo de discípulos, transmitindo um encargo a todos os que abandonaram Jesus e, em especial, a quem chegou a renegá-Lo: “... dizei a seus discípulos e a Pedro...” (v.7).

Agora, finalmente, Marcos cita os discípulos. Através das mulheres, eles receberão o encargo de Jesus. Elas se converteram em mensageiras da boa notícia. As mulheres assumiram o protagonismo e relançaram o projeto do Reino a partir de sua grande intuição: na Galiléia começou a história e ali deverá ser reiniciada. Seguir as pegadas do Galileu confirma que Ele vai adiante guiando os seus. Percorrer seus passos garante ao grupo a experiência de contar com Ele: “Ele irá à vossa frente, na Galiléia; lá vós o vereis como ele mesmo tinha dito” (v.7).


2 – O que o texto diz para mim?
As mulheres revelaram uma presença fundamental nos relatos da Páscoa. Elas seguiram e serviram a Jesus com seus bens pelos caminhos da Galiléia (Lc 8,1-3) e permaneceram fiéis até o final, até a Cruz. São testemunhas, como tantas mulheres de hoje, da fidelidade nas situações limite, onde o que lhes toca fazer é estar e acompanhar, na sua impotência e luto, até que emerge o inédito. São testemunhas da semente do amor entregue, que, embora invisível no ventre da terra, vai pouco a pouco abrindo caminho para a luz, afastando pedras e abrindo sepulcros, dando à luz o novo, porque o Deus de Jesus não é um Deus de mortos, mas de vivos. Frente à traição e a ausência dos discípulos, as mulheres foram significativas por sua lealdade. 

Enquanto o grupo de homens se trancou na passividade covarde, elas optaram pelo enfrentamento da realidade, vencendo o medo, colocando-se a caminho.

Para o evangelista Marcos, voltar à Galiléia significa retomar e prolongar a mensagem e a proposta do Reino de Jesus. Foi ali na Galiléia que Jesus começou sua vida pública e atuou como aquele que veio aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino tinha chegado e que Deus faria mudar a forma de vida dos homens, partindo precisamente dos mais pobres e excluídos. Dessa forma, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, ou seja, dos últimos e pobres, anunciando e preparando a chegada do Reino na Galiléia.

Esta volta à Galiléia tem, portanto, um sentido teológico, kerigmático e geográfico, marca o começo da nova comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus. Para Marcos, nesse entorno da Galiléia está o futuro do Evangelho. A partir desse lugar deve iniciar-se o novo caminho do seguimento. 

Por isso, os discípulos e as discípulas devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galiléia. É ali que se devem encontrar todos os que são de Jesus (Pedro, as mulheres, os discípulos de Jerusalém), para também ali retomar e prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Entrar no mistério significa capacidade de assombro, de contemplação; capacidade de escutar o silêncio e sentir o sussurro de fio de silêncio sonoro no qual Deus me fala”.

‘Entrar no mistério’ requer que eu não tenha medo da realidade: não me fechar em mim mesma, não fugir perante aquilo que não entendo não fechar os olhos diante dos problemas, não os negar, não eliminar as questões...

‘Entrar no mistério’ significa ir mais além das cômodas certezas, mais além da preguiça e da indiferença que me freiam, e pôr-se em busca da verdade, da beleza e do amor, buscar um sentido não óbvio, uma resposta não banal às questões que põem em crise minha fé, minha fidelidade e minha razão.

Para ‘entrar no mistério’ é preciso humildade, a humildade de abaixar-se, de descer do pedestal de meu eu tão orgulhoso, de minha presunção. A humildade para redimensionar a própria estima, reconhecendo o que realmente sou: criatura com virtudes e defeitos, pecadora necessitada de perdão. Para entrar no mistério é preciso este abaixamento que é impotência, esvaziando-me das próprias idolatrias, adoração. 

“Sem adorar, não se pode entrar no mistério” - (Papa Francisco – Missa da Vigília Pascal – 2015).

A partir desse pano de fundo, entende-se a palavra final do evangelho de hoje: “lá vós o vereis”. Ver a Jesus significa aprender a olhar como Ele olhava e a viver como Ele vivia, colocando a vida a serviço dos coxos, mancos, cegos, doentes, expulsos da sociedade... Ver a Jesus significa ver a partir de Jesus (como Ele faria hoje), nas novas condições pessoais e sociais de um mundo que parece condenado à morte, como aquele em que Jesus viveu.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, vendo a Jesus poderá ver tudo de um modo diferente, vendo o sofrimento das pessoas, ouvindo seus gritos. A missão está aberta. Esse é o caminho do Evangelho, carregando em minhas pobres mãos, como as mulheres da Páscoa, o perfume da Nova vida ressuscitada.

E assim como o mau odor repele e afugenta, o bom odor atrai e convida ao seguimento.

Mas é, sobretudo através do “modo cristificado de ser e viver” que os seguidores e as seguidoras de Jesus exalam um bom odor, criam uma atmosfera perfumada ao seu redor.

Assim, às vezes me encontro com ambientes que me cativam e atraem que desprendem um aroma agradável e prazeroso. São ambientes nos quais reina a acolhida, a afabilidade, o compromisso, a simplicidade. Sempre agrada ficar por mais tempo. Minha memória parte dali amavelmente carregada com energia salutar e meus pulmões saem repletos de ar purificado, limpo...

Também existem outros ambientes cujo ar é irrespirável, fétido, com mau odor. São lugares onde há competições, agressividade e más ideias, onde se manipulam as pessoas; são atmosferas arrogantes, afetadas, orgulhosas, vazias. Saio daí meio asfixiada, desejando não querer voltar mais.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Todos nós cristãos fomos ungidos com o óleo santo no batismo, fomos besuntados e polidos com um bálsamo cristificante. Por isso:

Trazer a força sanadora do perfume de Cristo, para ser presença diferenciada em lugares que cheiram à morte e poder manifestar a beleza da vida cristã com a qualidade do meu aroma.

Ser uma fragrância que é o símbolo da vida, e que derramada em favor das pessoas, inunda o mundo, comunicando a salvação.      

Tomar consciência dos aromas em que levo para perfumar os ambientes com odor de morte, de rigidez, de indiferença, de medo... para que se transformem em espaços com cheiro de vida, de liberdade, de ternura e acolhida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 16,1-7
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Poema: Ressurreição – Fx 12 (02:59)
Autor: Zé Vicente
Intérprete: Reginaldo Ramos
CD livro: Tempos Urgentes
Gravadora: Paulinas Comep


Leitura Orante – SÁBADO SANTO, 31 de março de 2018


Leitura Orante – SÁBADO SANTO, 31 de março de 2018

SÁBADO SANTO: “ameaçados” de esperança

“José tendo comprado um pano de linho, desceu Jesus da Cruz, 
enrolou-o no pano de linho e o colocou no sepulcro, 
que era cavado na rocha, e rolou uma pedra na entrada do sepulcro.” (Mc 15,46)


Texto Bíblico: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42


1 – O que diz o texto?
A gravidez é uma metáfora sugestiva e provocadora sobre o Sábado Santo; no silêncio e na obscuridade do sepulcro tem lugar a segunda gestação de Cristo e o novo parto do homem, da mulher e do cosmos renovados. Assim, o sepulcro é contemplado como o ventre da terra, onde acontecerá o milagre da renovação plena da vida. O amor é mais poderoso que a morte e quem ama não morre nunca, senão que suas sementes são húmus e germe de nova vida, embora não possamos controlar quando nem onde. 

Porque, como gritavam as mães e vós da Praça de Maio: “mesmo que queira arrancar todas as flores, não se pode deter a primavera”.

É preciso saber acolher este silêncio surdo, que marca a passagem entre duas experiências intensas: a Sexta-feira de dor e o Domingo de Ressurreição.

No sepulcro, Jesus se faz solidário com toda a morte humana. E é preciso esperar com Ele. É preciso esperar em nossos projetos e sonhos, na libertação dos povos, em uma nova humanidade.

Em nossas vidas teremos muitas sextas-feiras santas de dor e dias de páscoa, mas, teremos muito mais sábados de espera.

Fazer memória do Sábado Santo nos faz compreender que, nos sábados santos da vida não podemos ter a pretensão de querer ver o significado de tudo o que vivemos, no mesmo momento que o vivemos. Muitas vezes, terão que passar muitos anos para poder ver o rosto do Deus vivo em situações vividas de dor e abatimento; além disso, temos que começar a entender que não podemos pretender chegar ao último dia com todas as interrogações resolvidas. 

Saber viver neste tom vital é o que nos convida o Sábado Santo.


2 – O que o texto diz para mim?
A partir da experiência sabática, a noite pode espantar, mas também pode ser chance para ver melhor; a morte pode ser ameaçadora, mas ela ensina a viver; o sepulcro vazio pode causar dúvida, mas ele aponta para a ressurreição; o infinito pode suscitar inquietação, mas consegue impulsionar para o além, até acender no coração uma chama persistente: a esperança. 

A terra, a humanidade, o cosmos... estão todos grávidos de Ressurreição. Assim começa a ressurreição; assim começa essa experiência que alguns chamam “a outra vida”, mas que na realidade não é a “outra vida”, mas a vida “outra”. 

Um jornalista guatemalteco, desaparecido sob a ditadura nos anos 80, deixou esse escrito: “Dizem que estou ‘ameaçado de morte’; nem eu nem ninguém estamos ameaçados de morte. Estamos ameaçados de vida, ameaçados de esperança, ameaçados de amor. Estamos ‘ameaçados’ de ressurreição. Porque Jesus, além do Caminho e da Verdade, é a Vida, embora esteja crucificado no alto do lixão do Mundo...”.

Ameaçados de vida, ameaçados de esperança, mesmo que a esperança frequentemente seja uma “esperança enlutada”. Há homens e mulheres que se fizeram “experts” em transitar e esperar na noite. São meus “mestres e mestras do Sábado Santo”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O ser humano que espera não tem certeza, não fica seguro, não está satisfeito. Mas a esperança tem fundamento; não é uma ilusão e nem uma utopia; não é um sonho impossível e nem uma lembrança irrecuperável; não é só futuro, mas permanece, disfarçadamente, presente; não é uma morada, mas um sentimento sempre inédito. A esperança evita tropeçar no fracasso, no desânimo, na apatia e no silencioso desespero. Ela se acende à noite, vence na impotência, começa na limitação, é ousada na fragilidade...

A esperança é caminho e meta, posse e dom, destino e encontro, antecipação e cumprimento, expectativa e busca, risco e proteção, nó e liberdade.  A esperança é certa, mas não dá “garantias”.

“O coração do cristão é inquieto, está sempre em busca, em espera: esta é a esperança... porque a esperança é aquela que faz caminhar, faz abrir estradas...” (Massimo Cacciari)

O ser humano esperança é o peregrino que caminha, é o artífice que tece o existir.

Esperança é força prospectiva que suscita passos para a gênese da nova humanidade.

Esperança é o ser humano nômade. Desloca-se. Desdobra-se. Inventa-se. Deixa de ser o que era para chegar a ser o que ainda não é. Na noite ela se acende; na impotência, ela vence; na finitude, ela impele a caminhar.

A esperança é brasa, são pés, é caminho, é narrativa, é assombro, é antecipação. 

Não há esperança na solidão das próprias seguranças e das próprias expectativas. A esperança se realiza no encontro, que impele a sair, a caminhar, a ir ao encontro, narrar aos outros o fogo que se acendeu por dentro. A esperança é o canto que empresta coragem frente os corredores escuros da história.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu poderia acrescentar que uma humanidade, incapaz de cultivar a esperança, não merece ser olhada, porque lhe faltaria a única razão pela qual vale a pena existir. Sem a esperança, a humanidade perde a iniciativa. Embota-se.

A vida sem desafios não é real; mas a vida sem espera, sem desejo, sem paixão, sem esperança, não é vida.

A esperança mora onde a deixa entrar: onde luto, onde convivo com o outro diferente de mim, onde a fragilidade e a transição podem desorientar, onde as trevas parecem mais fortes que a luz, onde a vida parece ser ameaçada pela morte, onde a violência pensa levar vantagem, onde o caminho é íngreme, onde a espera se confunde com a angústia... 

A força da esperança está oculta precisamente na sua impotência. 

Mas não basta ter esperança. É preciso ser esperança. O ser humano vive de esperança, acredita na esperança, mas, sobretudo é esperança. A esperança leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É madrugada e não crepúsculo. Jamais “envelhece”. A esperança pascal antecipa aquilo que ainda não é realidade. É o futuro que ainda pode ser convertido em história nova.

O mal, a injustiça, a violência, o sofrimento, existem em minha história, mas não tem a última palavra sobre ela. A ternura de Deus é mais poderosa e ela é minha esperança, ela me sustenta nos túneis mais escuros da vida a partir de dentro, atravessando-os. 

Deus é minha esperança, o Deus da vida que a ama e me ama até o extremo e cuja paixão é a esperança que me dá como um dom contra toda desesperança, se me abro a ela. Mas a esperança não é uma propriedade privada, mas um presente comunitário, coletivo, um bem comum, como diz o Papa Francisco: “Não vos deixeis roubar a esperança! Talvez a esperança seja como as brasas debaixo das cinzas; ajudemo-nos uns aos outros com a solidariedade, soprando nas cinzas, a fim de que o fogo volte a atear-se mais uma vez. Pois é a esperança que nos faz ir em frente. E isto não é otimismo, mas algo diferente. Todavia, a esperança não é de uma só pessoa, a esperança é fazê-la todos juntos. Temos que alimentar a esperança entre todos, entre todos nós e todos nós que estamos distantes. A esperança é algo vosso e também nosso. É algo que pertence a todos”. (Discurso aos trabalhadores de Cagliari – 22/set/2013)


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esperar, mesmo quando sentir que a realidade é um “beco sem saída”

Esperar contra toda esperança.

Esperar os vencidos, os últimos.

Aprender a esperar mesmo quando me encontro tendo que enfrentar situações-limite.

Ser forte e suporte nos momentos difíceis da vida e oferecê-lo aos outros.

Ajudar o outro a rolar a pedra do sepulcro de sua vida.

A Cruz permanece em seu lugar, mas o sepulcro fica vazio para sempre!

É Ressurreição: vida plena antecipada.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 15,42-47 / João 19,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Eu penso na ressurreição
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Teologia em canção
Gravadora: Paulinas Comep


segunda-feira, 26 de março de 2018

Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA, 30 de março de 2018


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA, 30 de março de 2018

As sete palavras de Jesus na Cruz


Textos Bíblicos: 
Lucas 23,34 / Lucas 23,43 / João 19,26 / Mateus 27,46 / João 19,28 / João 19,30 / Lucas 23,46 


1 – O que diz o texto?
São sete expressões ditas por Jesus na Cruz e recolhidas pelos evangelistas; elas condensam a vida do Crucificado. Nestas expressões  revela-se a identidade de  Jesus: quem Ele é e sua missão. 

Vamos contemplar o significado das “palavras pronunciadas por Jesus na Cruz”, deixando-nos impactar e iluminar por elas. São palavras densas, carregadas de vida; palavras “excêntricas”, onde Jesus sai de si e se dirige aos outros.

1. PERDÃO. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23,34)

2. CONTIGO. “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23,43)

3. APOIO. “Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (João 19,26)

4. SOLIDÃO. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mateus 27,46)

5. SEDE. “Tenho sede...” (João 19,28)

6. COMPROMISSO. “Tudo está consumado” (João 19,30)

7. SENTIDO. “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46)



1. PERDÃO. “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23,34)

Jesus, na sua vida pública, sempre revelou o perdão do Pai; no encontro com os pecadores deixou transparecer a misericórdia reconstrutora de Deus. O perdão foi a marca de sua vida e deve ser também a marca dos seus seguidores.

É difícil perdoar: a dor, o orgulho, a própria dignidade, quando é violentada, grita pedindo “justiça”, buscando “reparação”, exigindo “vingança”... Mas, perdão?

Surpreende-nos que Jesus na Cruz seja capaz de continuar vendo humanidade em seus verdugos; Ele é capaz de continuar crendo que há esperança para aqueles que cravam seus semelhantes na Cruz.

Porque, esta palavra de perdão, dita a partir do madeiro, é, sobretudo uma declaração eterna: o ser humano, todo homem e toda mulher, conserva sua capacidade de amar nas circunstâncias mais adversas. E todo ser humano, até aquele que é capaz das ações mais atrozes, continua tendo um germe de humanidade em seu interior e que permite que haja esperança para ele.  Perdoar é atrever-se a ver o que há de verdadeiro, de beleza em cada um. O perdão é capaz de ver dignidade e faísca de humanidade escondida no coração do verdugo. O perdão abre futuro, destrava a vida e não se deixa determinar pelos erros do passado; ele quebra distâncias, nos faz descer em direção à fragilidade do outro, ao mesmo tempo em que revela nossa fragilidade. É enquanto pecadores que somos chamados a perdoar e não enquanto justos. Por isso, no perdão é onde mais nos assemelhamos a Deus, pois só Ele podia inventar o perdão.

Deus também continua me perdoando hoje, pelas atitudes pecaminosas em minha vida que destroem, rompem, ferem os outros e o meu mundo.

- Deixar ressoar esta expressão de Jesus: Fiz experiência de perdão? Sou capaz de perdoar e acolher o perdão?


2. CONTIGO. “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23,43)

Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois ladrões. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre dos outros, mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá vida: presença solidária, que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia a outros sofredores.

Um dos ladrões, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.

Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aqueles que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, dúvida, incompreensão ou pranto... Como soarão estas palavras no interior de cada um de nós: “Hoje estarás comigo no Paraíso”

Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já...; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas...

Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não conseguimos entender.

No paraíso: que não é um mítico Éden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.

- Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso em nosso cotidiano.

- Como viver hoje no paraíso? Neste momento, a quem podemos despertar a esperança?


3. APOIO. “Mulher, eis o teu filho; filho, eis a tua mãe” (João 19,26)

Maria, mulher do “sim”; “sim” que se prolonga até à Cruz, onde, de pé, revela sua presença materna e consoladora junto a seu Filho Jesus.

A presença de Maria na vida de Jesus não é acidental: foi aquela que mais amou, conheceu e seguiu Jesus. Ela agora é nossa referência fiel no seguimento do seu Filho. 

Despojado de tudo, Jesus tem um tesouro a nos dar: entrega sua própria mãe para que ela seja presença cuidadosa e de ternura junto aos seus filhos sofredores.

Jesus não nos deixa órfãos; sempre precisamos dos cuidados e do consolo de uma mãe; alguém para nos acompanhar nas horas mais obscuras e difíceis; alguém que nos sustenta nos momentos trágicos; alguém que compartilha nossas perdas... e que também está presente nas horas boas, que chegarão.

É como se Jesus nos dissesse: “Para viver o meu seguimento, inspire-se nela, tenha-a como referência”.

Não estamos sozinhos: muitas presenças marianas em nossas vidas – amigos, pais, filhos... São tantas pessoas junto ao pé da cruz, inumeráveis homens e mulheres de Igreja que foram e são companheiros de caminho, de esforço, de apoio, de buscas e de amor.

João, também de pé junto à Cruz, representa todo seguidor fiel de Jesus, mesmo nos momentos de crise.

- Deixar ressoar estas palavras de Jesus: ser presença materna e cuidadosa junto aos sofredores; prolongar o modo solidário de Maria junto aos crucificados.


4. SOLIDÃO. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mateus 27,46)

O grito de Jesus na Cruz condensa o grito da humanidade sofredora; é o próprio Deus que grita seu abandono.

Esse grito de Jesus revela uma Presença no próprio abandono, embora, de imediato não se sinta esta presença. Grito que não fica no vazio, mas aponta para a Vida.

Todos perguntam: “Onde está Deus no sofrimento, na violência, na morte...?” E Deus responde, perguntando: “Onde está você no meu sofrimento, na violência que sofro, na morte... de meus filhos e filhas?”

O sofrimento da humanidade é o sofrimento de Deus; Deus não é insensível e distante da dor dos seus filhos.

Quem não passa por momentos de noite escura, de insegurança, de absoluta incerteza...?

Quem não viveu experiências de abandono, de falta de sentido na vida, de solidão, de rejeição...?

Quem não tem momentos de ceticismo, de amargura, de medo, de dúvida...?

Quem não se pergunta, talvez por um instante fugaz, mas pungente, onde está Deus agora?

Nesses momentos temos a impressão de que todas as nossas opções foram equivocadas, que cada decisão nos levou por um caminho sem saída... Nesses tempos nos remorde o fracasso, a miséria, própria e alheia.

É do meio desta situação que brota um grito desesperador, como o de Jesus... No entanto, nos atrevemos a seguir adiante, com nossos projetos, compromissos e esforços em seu nome.

O desafio está em não ceder, em não crer que tudo tem sido uma mentira. O desafio é não abandonar, não render-se, não capitular nesses momentos.

Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Não são poucos os gritos dos mais pobres e excluídos. É um clamor forte pela intensidade de suas carências. Um clamor surdo porque não consegue impactar de modo a conseguir respostas prontas e imediatas aos graves problemas que os afligem.

O grito dos sofredores é sempre forte. Forte pela violência das necessidades e das urgências para a garantia de uma vida mais digna. Em Cristo se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.

Sua força, no entanto, não consegue incomodar a todos os que precisam ser interpelados pela exigência  deste clamor. Um grito, pois, é a expressão do mais forte sentimento que está no centro do próprio coração; é, também, a expressão mais concreta do que aflige o coração.

Um grito é, na verdade, um convite a um compromisso solidário.

O grande grito de Jesus é a certeza de tudo o que sustenta o seu coração; ao ecoar junto aos crucificados, provocará grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a vida.

- Deixar ressoar este grito de Jesus: quais são os gritos surdos que brotam da realidade hoje?


5. SEDE. “Tenho sede...” (João 19,28)

Jesus sempre foi um homem “sedento”: fazer a vontade do Pai, realizar o Reino, compromisso com a vida, presença solidária junto aos sofredores, fazer conhecido a Deus como Pai/Mãe...

Agora grita sua derradeira sede: um mundo sem dor, sem exclusão, sem violência.

Grita o homem com a garganta ressequida: sede na garganta e sede no coração. Sede expansiva, sede que descentra.

Grito que se multiplica em milhares de gargantas espalhadas pelo mundo: quero “justiça”, clamam os injustiçados deste mundo; quero “pão”, pede a criança com a barriga inchada de ar e de fome; quero “paz”, exclama a testemunha de atrocidades sem fim; quero “amor”, pede o jovem solitário por ser estranho; quero “moradia”, sonha o morador de rua que dorme em um banco da praça; quero “trabalho”, suspira uma jovem que se sente fracassar; quero liberdade escreve o presidiário em seus poemas; quero saúde, recita o enfermo em seu leito... Vozes de compaixão, vozes de pranto, vozes que refletem as dores do mundo.

Há alaridos, e também sussurros, todos carregados de sensibilidade dolorida.

O grito de Jesus na Cruz recolhe todos esses brados da humanidade quebrada. E não há explicação; não há sentido; não há justiça. Só um grito a mais.
A sede de Jesus desperta em nós outras “sedes”: de quê tenho sede? Sede de sonhos, de mundo novo...

Sede mobilizadora que ativa as melhores energias dentro de nós, que desperta nossa criatividade...

Sede que purifica nossa capacidade de escutar os gritos, de perto e de longe. O quê fazer?

“Quem tem sede venha a mim e beba”. Quem não tem sede não busca, não cria.

- Deixar ressoar essa súplica de Jesus: A quem precisamos nos atrever a escutar?

Parece contradição alguém dependurado na Cruz afirmar que tudo está consumado; tem-se a impressão de fracasso total. Mas na Cruz Jesus leva até às últimas consequências sua Encarnação: mergulha e se faz solidário com todos os crucificados da história. “Desce” até às profundezas do sofrimento humano e ali revela a presença do Deus compassivo.

No alto da Cruz, Jesus tem consciência que não viveu em vão; sua presença fez a diferença; viveu para os outros. Jesus morre com as mãos cheias de vida; gastou a vida a serviço da vida; deixou pegadas nos corações de quem encontrou pela vida. “Jesus morreu de tanto viver”. Morreu de bondade, de compaixão, de justiça.

Jesus teve um “caso de amor” com a vida; viveu intensamente.

Uma vida consumada faz fecunda a morte. Uma história consumada de Amor. Vida consumada quando se consome no serviço aos outros. Jesus desencadeou um movimento de vida.

- Deixar ressoar esta afirmação de Jesus: quão plenificante é poder dizer a cada dia: tudo está consumado. É poder dizer como Pablo Neruda: “Confesso que vivi”.


7. SENTIDO. “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lucas 23,46)

Só quem viveu intensamente uma vida expansiva pode acolher a própria morte com paz, confiança, serenidade e abandono nos braços do Pai. Jesus morre como tinha vivido: ancorado na confiança do Pai.

Jesus, que sempre prolongou as mãos do Pai, agora se entrega confiadamente nos braços do mesmo Pai.

Jesus sempre viveu em profunda sintonia com o Pai; agora Ele dá um “salto vital” nos braços do Pai.

Ao “entregar seu espírito” Jesus é “aspirado” para dentro de Deus.

A morte nos inspira medo; mas na morte, somos todos iguais, sozinho diante de Deus.

A morte é a última ponte que nos conduz ao Pai. Seremos abraçados do outro lado da ponte. Nosso destino é o coração de Deus.

Não só na hora da morte, mas a cada dia somos chamados a “entregar o espírito”; num mundo em que todos buscam seguranças, que em tudo querem ter “salva-vidas”, num mundo que nos convida a ter as costas cobertas... queremos arriscar, apostar pelo Reino; queremos nos sentir confiados, atravessar tormentas ou espaços serenos, sentindo-nos protegidos pelas mãos do Pai. Mãos que curam, acariciam, sustentam...
- Deixar ressoar em nosso interior as palavras de entrega de Jesus: vivemos amparados pelas mãos providentes e cuidadosas do Pai; sentir-nos movidos a prolongar as mãos do Pai.

Estas palavras, proferidas por Jesus no alto da Cruz, causam um profundo impacto em nosso coração.

Tal impacto nos faz ter os olhos fixos no Crucificado; a partir do Crucificado ativar um olhar comprometido com os crucificados da história. Só podemos crer no Crucificado se estivermos dispostos a tirar da Cruz aqueles que estão dependurados nela (Jon Sobrino).

Após a oração universal faremos a chamada “adoração da Cruz”; não se pode contemplar a Cruz isolada daquilo que nela aconteceu. A Cruz nela mesma não tem sentido.

O que vemos ao contemplar o Crucificado?

A Cruz é expressão da máxima compaixão e comunhão, com Jesus e com os sofredores. Ela aponta para Aquele que foi fiel ao Pai e ao Reino. Por isso, a Cruz não é um “peso morto”.

A partir da Cruz de Jesus, iluminamos e damos sentido às nossas cruzes.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,34 / Lucas 23,43 / João 19,26 / Mateus 27,46 / João 19,28 / João 19,30 / Lucas 23,46 

Pe. Adroaldo Palaoro, sj 

domingo, 25 de março de 2018

Leitura Orante – Quinta-feira Santa, 29 de março de 2018


Leitura Orante – Quinta-feira Santa, 29 de março de 2018

MESA: lugar da solidariedade e do encontro

“Durante a ceia” (Jo 13,2)


Texto Bíblico: João 13,1-15     


1 – O que diz o texto?
Essa foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Para Ele, a mesa era para ser compartilhada com todos; a partilha do pão com publicanos e pecadores fazia parte das práticas transgressoras de Jesus.

Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam à desigualdade, a divisão, a separação... 

Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o faziam próximo dos pecadores, pobres e excluídos. Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande mesa para a festa, o encontro, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”. 

A pedagogia de Jesus incluiu a “espiritualidade da mesa”. Ele, antes de fundar uma igreja, fundou a “comensalidade”. Ao reunir os seus discípulos para o encontro junto à mesa, Ele revelou o verdadeiro simbolismo deste simples móvel: a lição fundamental da comunhão, como fonte inesgotável de vida. A comunhão que faz sonhar com a mesa eterna no Reino e desafia seus comensais a viver encontros solidários, como hábito e dinâmica que preserva e promove a vida. Do encontro junto à mesa ao encontro com os mais excluídos: este deve ser o movimento inspirador de todos e todas, seguidores e seguidoras de Jesus.

A espiritualidade da mesa não pode ser apreendida e mercantilizada por ninguém, pois ela é puro dom da refeição – onde dois ou mais estiverem reunidos por causa do alimento-mesa-ser humano, um novo mundo poderá ser descortinado, revelado. A benção à mesa instaura o horizonte da partilha, em que os alimentos são destinados à necessidade de todos por meio da corresponsabilidade dos participantes, fazendo memória do banquete da Criação, sobre cuja mesa Deus preparou pão e vinho em abundância para todos.

A comunhão bíblica se realiza entre os “distantes e os diferentes”, por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem que distribuem... “Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles”. (Atos. 4,32).


2 – O que o texto diz para mim?
Preparar a mesa e fazer a refeição é todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e, por meio dos alimentos, garantem minha vida.

Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai (Lucas 14,15-24; Mateus 21,1-10).

Quando o Criador tirou do húmus o homem e a mulher, Ele pôs, com seu hálito, no coração deles, o desejo do encontro de um com o outro. Esse desejo foi crescendo e configurando-se sob formas sociais diversas, segundo cada cultura e crença. 

Surgiram refeições comuns, mesas de comensais, mesas festivas... Para esse centro converge o ser humano em busca do alimento, renovar suas energias, tomar novo impulso... Descobrir-se humano. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É junto à mesa que se dá o processo de humanização e comunhão; a partir desse ato sagrado, posso olhar o outro mais de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto... pois “a comida, o alimento de minhas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano” (Manuel Diaz Mateos).

A mesa é um sinal de encontro e comunhão; ao mesmo tempo em que ela sinaliza, ela realiza aquilo que sinaliza, ou seja, a inter-comum-união. A missão da mesa é criar comunhão intrapessoal (eu comigo mesmo), interpessoal (eu e  o outro) e transpessoal (eu e Deus). 

Ela não é agente passivo, mas construtora de novas possibilidades de vida. Aliás, ela existe enquanto lugar de refeição por causa do ser humano que a modelou.

A refeição em torno da mesa representa um ato comunitário e reforça nos participantes os laços de humanidade, de compaixão, de mútua confiança e de comunhão. Por toda esta carga de simbolismos, a mesa não pode ser posta de qualquer maneira; a sala que ostenta a mesa deve ser um local aconchegante e íntimo, para realizar o milagre do encontro. Ela passa a ser um altar que deve ser preparado e ornado com carinho, para ser digno de realizar a sua missão sagrada, pois sagrados são aqueles que dele se aproximam, se apoiam e se reclinam sobre seus dons.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor sentar-se à mesa com o outro é descobrir-se vivo, corpo pulsante, latente, carente.

Mas é também descobrir um outro tipo de alimento, que só pode ser colhido na delicadeza da inter-relação, no encontro gratuito com o outro.

Nela e com ela aprendo a acolher o outro como dom. Aprendo a me doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. A mesa é também o lugar onde acolho a dor e as tristezas do outro, com quem partilho minha refeição. A mesa-refeição, portanto, é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento, que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Esse lugar humano é revelador de cultura, do inconsciente individual e coletivo. 

Lugar fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão.

É nesse universo de mesa-refeição que o ser humano vai se auto-construindo, auto- definindo como ser que é humano, mas também divino. Diviniza-se humanizando, humaniza-se divinizando.

O simples gesto de passar ao outro o que ele precisa é um gesto despojado de poder, de segundas intenções. Quando alguém passa um prato ou um pedaço de pão ao companheiro, está passando mais do que isso: consome em comum a mesma sorte.

“Servir” é o nome do gesto fundamental de estar à mesa. Há necessidades atendidas, o cuidado amoroso perpassa as relações; busca-se o necessário revigoramento físico para a continuidade do caminho, e esforço no trabalho, a preservação da saúde...

O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A lição da misericórdia é a única que ganha validade e sentido.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descobrir em minha mesa o meu pão. 

Em minha jornada, o meu chão. 

Em meu cotidiano, o inesperado que vem o outro em sua fome, em busca de mãos abertas que saibam partilhar.   

A espiritualidade da mesa exala gratidão aos que dela se aventuram em assentar-se. 

Com isso ela me interpela a viver uma espiritualidade do encontro e do serviço de uns para com os outros. Esta é a prova da autenticidade do verdadeiro seguimento de Jesus. Este é o sentido verdadeiro de toda Eucaristia.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,1-15    
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Preparemos a ceia – fx 12 (04:30)
Autor e intérprete: Zé Vicente
Coro: Paulinho Campos, Emmanuel, Mari Dniz e Rita Krouri
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep