segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo da quaresma, 25 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo da quaresma, 25 de fevereiro de 2018

TRANSFIGURAÇÃO: expandir a luz interior

“E foi transfigurado diante deles” (Mc 9,2)


Texto Bíblico: Marcos 9,2-10


1 – O que diz o texto?
Todos nós temos consciência que a superficialidade, o consumismo e o individualismo são as marcas de nossa sociedade atual. Marcas que nos desfiguram e nos desumanizam. Já o grande teólogo Paul Tillich (1886-1965) afirmava que “a grande tragédia do homem moderno é ter perdido a dimensão de profundidade”. Nas suas obras há um insistente apelo a reencontrar aquilo que ele chamava “a dimensão perdida”.

Este é o contrassenso humano: por uma parte, salta à vista a tendência a instalar-se na superficialidade (chamemos isso de “zona de conforto” ou simplesmente “comodidade”) e, por outra, a certeza de que somos todos habitados por um anseio que nos chama constantemente para a profundidade (chamemos isso de “nossas raízes”, “nosso ser”..., em definitiva, “nossa casa”). Entre esses dois extremos – superficialidade e profundidade – transcorrem nossa vida. 

No fundo, a superficialidade, o consumismo e o individualismo são tão somente tímidas compensações que tentam aliviar o vazio de sentido que nos habita; ao mesmo tempo se apresentam como “cantos de sereia” que nos distraem daquilo que é verdadeiramente importante: viver o que somos.

Talvez, a chamada “dimensão perdida” não seja outra coisa que a “transfiguração” de nossa verdadeira identidade. Este é o apelo do Evangelho de hoje: viver “transfigurados” a partir de nossa interioridade.

Estamos vivendo fora de nós mesmos, daí que nosso mundo interno permaneça na obscuridade. Se nos voltarmos para dentro, se nossa atenção começa a dirigir seu foco para o interior, então tudo se ilumina.

O chamado “mistério” da “Transfiguração” poderia ter sido, em sua origem, um relato de aparição do Ressuscitado. Posteriormente teria sido reelaborado para transformar-se numa declaração messiânica: Jesus, confirmado pelas Escrituras judaicas, representadas nas figuras de Moisés (“a Lei”) e Elias (“os profetas”), é apresentado como “Filho amado” de Deus. Todo Ele é transparência e luminosidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus viveu constantemente transfigurado, mas isso não se expressava externamente com espetaculares manifestações. Sua humanidade e sua divindade se revelavam cada vez que se aproximava de uma pessoa para ajudá-la a ser ela mesma. A transfiguração deixa de ser um evento para tornar-se um modo permanente de Jesus viver, pois a única luz que nele se revela é a do amor; e só quando manifesta esse amor, ilumina. Na sua humanidade deixa transparecer a luz de Deus.

A Transfiguração não está só me dizendo quem era Jesus, mas também quem sou realmente. Ela desvela também minha identidade e me faz caminhar em direção à minha própria humanidade. Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano, é transparência de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A transfiguração desencadeia um movimento interno de busca continuada e revela que o ser humano é inquieto por natureza, e será sempre assim, em seu afã de abrir-se a um horizonte cada vez  mais amplo. Todo o ser humano traz em seu interior uma faísca de luz que busca expandir-se; não falta ao seu coração a sede de eternidade. 

Transfiguração, portanto, é transformação do espaço interior. Em meio às sombras profundas, marcadas pelos traumas, feridas, experiências negativas..., encontram-se “pontos de luz”. Tenho todos os recursos necessários para ativá-los. Então, o círculo de minha luz vai se ampliando, começando pelo meu eu mais profundo; ela vai se fazendo cada vez mais extensa, iluminando toda a realidade cotidiana. Passarei, a viver como “seres transfigurados”. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a cena da Transfiguração vem me recordar que, na essência, sou luminosidade; por detrás de comportamentos com frequência sombrios, continuo sendo transparência. Isso é o que eu cristã reconheço em Jesus: Ele é o “espelho” nítido no qual vejo minha identidade profunda. E essa identidade é luz e transparência.

Não é casual que, mesmo perdida nas trevas de minha inconsciência, sinto saudades da luz. Também não é casual que, mesmo nas ações mais complicadas e questionadas, procuro justificar minha transparência. Uma e outra desvelam quem é; por isso mesmo, se tornam imprescindíveis para viver com mais intensidade. 

Minha essência é luminosa, transparente, simples, doce, verdadeira... Mas, para percebê-la, preciso me despertar. E isso implica e significa, ao mesmo tempo, viver ancorada em minha verdadeira identidade.

Para além do “ego superficial”, a transfiguração me faz acessar a um “lugar” sempre estável, sólido e permanente, onde reconheço a presença d’Aquele que é a Luz indizível.

Esse “lugar” é sempre luminosidade e transparência. E a partir dele tudo fica transfigurado. Na realidade, não é que as coisas se transfigurem, senão que, mais exatamente, vejo em tudo a Verdade, a Bondade e a Beleza daquilo que é.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Cuidar do coração, pois dele brota a luz e a vida. 

Iluminar meu caminhar com a luz que há em mim mesma.

Olhar com os olhos transfigurados e ver que por detrás das pobres aparências se escondem muitos sentimentos de bondade, de generosidade, de fidelidade e amor.

A transfiguração me fala da verdade que levo dentro de mim, mas também dos novos olhos que preciso para ver. Se eu soubesse olhar com os olhos do coração, veria a luz maravilhosa escondida no interior de cada pessoa.

Conheço as pessoas por fora. Debaixo das aparências de vulgaridade, pode se esconder um grande coração.

Transparente é um modo de ser e de agir; é a condição para eu poder ver Deus presente e atuante em tudo e em todos.

O grande desafio para viver a transparência é facilitar, no meio de minha cultura acelerada e carregada de imagens, espaços sossegados para perceber o que o Espírito vai fazendo em mim. Se não sei o que me acontece por dentro, dificilmente poderei ser presença iluminadora junto aos outros.

Como seguidora de Jesus, sou chamada a ser cúmplice do Espírito, abrindo-me totalmente à sua ação e deixando-me transfigurar por Ele. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 9,2-10
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Põe teu coração no meu – fx 06 – (03:24)
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo
Gravadora: Paulinas Comep


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