quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 1º Domingo da quaresma, 18 de fevereiro de 2018



Leitura Orante – 1º Domingo da quaresma, 18 de fevereiro de 2018

DESERTO: tempo de desvelamento interior

“E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto” (Mc 1,12)


Texto Bíblico: Marcos 1,12-15


1 – O que diz o texto?
Ao iniciarmos a Quaresma, um lugar que continuamente será citado e que vai aparecer com frequência nos textos, reflexões e orações, é o “deserto”. Deserto que deve fazer parte de nossas vidas em algum momento: espaço de escura e de silêncio, de busca, de despojamento; lugar que nos faz tomar consciência das coisas essenciais que dão sentido à nossa existência; ambiente privilegiado para o encontro tu a tu com o Deus amor que nos habita, ou melhor, em Quem habitamos. Se nos abrirmos à Sua presença amorosa, caminharemos livres dos falsos absolutos que cada dia nos tenta, e nossos desertos existenciais se converterão em um jardim onde florescerá de novo a esperança. 

Num mundo em que a imagem e as redes sociais ocupam, com suas presenças, toda a nossa vida, todos os nossos lares, os espaços públicos, fazendo-nos viver a cultura da superficialidade, muitas pessoas de diferentes condições sociais e religiosas já começam a sentir a urgente necessidade de escapar de tanta solicitação externa que as oprime e alimentam o desejo de se ocupar mais decididamente com o seu mundo interior. 

Mas, se somos sinceros, adentrar-nos em nosso “eu profundo” e viver a partir de dentro é algo que não sabemos e muitas vezes até sentimos medo. É cada vez mais difícil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o mundo exterior. 

Nesse sentido, a liturgia quaresmal revela-se como uma mediação privilegiada para potencializar nossa interioridade, ou destravá-la, para que a expansão de nossa vida seja possível. Tal experiência resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez. Ela oxigena a nossa mente e implode nosso conformismo; revela-se instigadora e provocativa, fonte inspiradora que nos liberta do cárcere da rotina. Ela nos faz lembrar que somos andarilhos, deslocando-nos no traçado da existência em busca de respostas que deem sentido à nossa existência.


2 – O que o texto diz para mim?
O caminho para Deus passa pela experiência mais profunda e autêntica de si mesmo, convidando cada um a repensar como, em meio às dificuldades de cada tempo, sempre é possível o percurso em direção à própria interioridade.

Buscar o Deus que “está dentro de mim, enquanto eu estou fora” (S. Agostinho), significa entrar em relação direta com meu interior, com o que me move com o que sinto e penso; significa dissolver bloqueios afetivos já solidificados e conflitos não resolvidos; é fazer que se calem muitos ruídos parasitas e que se escute, por fim, o silêncio sonoro que brota do oculto; desentupir os condutos do coração e processar a lava ardente dos grandes desejos significa abrir os olhos para uma paisagem desconhecida.

Foi no deserto onde Jesus descobriu o que move verdadeiramente o coração do ser humano. Foi nessa situação – de solidão – onde também descobriu o que Deus ama no coração humano.

Nessa experiência de deserto Jesus tomou consciência de duas forças ou dinamismos que atuam no coração humano: um de expansão, de saída de si, de vida aberta e em sintonia com o Pai e com os outros; outro, de retração, de auto-centração, de busca de poder, prestígio, vaidade... 

Jesus viveu impulsionado pelo Espírito, mas sentiu em sua própria carne as forças do mal: “foi tentado por satanás”; satanás significa “o adversário”, a força hostil a Deus e a quem trabalha por seu reinado. Na tentação de Jesus se desvela o que há em mim de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O evangelista Marcos ressalta que o “deserto” não é só um lugar geográfico; é também o lugar que busco para me silenciar e oferecer a oportunidade para reconectar conscientemente com meu centro.

Em todo processo de crescimento, e mais ainda nos períodos críticos do mesmo, vou me deparar com a presença dos “animais selvagens” e dos “anjos” em meu eu profundo.

É assim que nomeio as experiências que acontecem quando me adentro em meu mundo interior. 

Os “animais selvagens” são aquelas circunstâncias internas que me frustram e, sobretudo, aquele material psíquico que não reconheço ou aceito em meu interior: minhas paixões, meus traumas, minhas feridas, meus instintos, minha impotência e fragilidade... É a “sombra” que vou arrastando, e que continua me assustando enquanto não a reconheço e a abraço abertamente em sua totalidade. 

Os “anjos” são os consolos – externos e internos – que aparecem em meu caminho, em forma de paz, de luz, compreensão, de fortaleza, de amor...

“Animais selvagens e anjos” cumprem seu papel, pois me “obrigam” a avançar para minha verdade profunda, tirando-me da superfície de mim mesma, ou talvez da “zona de conforto” na qual tenho me instalado, conformando-me com uma vida “normótica” e sem criatividade.

O amadurecimento humano implica abraçar toda minha verdade, também aquela que me aparece sob disfarces temerosos, como o medo, a solidão, a tristeza, a angústia... Lidar com tais “feras” requer capacidade de olhá-las de frente, com compreensão, paciência e muito afeto. 

A espiritualidade cristã me mostra que exatamente em minhas feridas eu descubro o tesouro do meu verdadeiro “eu”, escondido no fundo de meu coração.

Tradicionalmente, fui coagida a viver uma espiritualidade que me ensinou a prender os “animais selvagens” e a levantar junto deles um edifício de “grandes ideais”.

E com isto, passo a viver constantemente com medo de que as feras pudessem fugir e me devorar.

Sei que tudo quanto eu reprimo me faz falta à minha vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendo, fica me faltando a sua força, de que tenho necessidade para o meu caminho para Deus, para eu mesma e para os outros. Sou obrigada a fugir de mim mesma, fico com medo de olhar para dentro de mim, pois poderia correr o risco de me deparar com as feras perigosas. 

Quando, graças à presença dos “anjos”, deixar de rejeitar e de resistir aos “animais selvagens”, irei tomando consciência como a luz e a fortaleza vão se expandindo em meu interior; eu me perceberei mais unificada e harmoniosa. E assim, estarei mais preparada para a “travessia” em direção à Páscoa.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, como ser humana, de tempos em tempos preciso passar por experiências de despojamento, de esvaziamento, de vulnerabilidade, de crise..., para poder suavizar meu coração e, desse modo, fazer-me mais receptiva e expansiva.

O “deserto” é o lugar das perguntas, do discernimento, da busca de profundidade, o ambiente favorável que me oferece ferramentas com as quais poder romper as bolhas que me aprisionam, impedindo-me sair para a aventura da vida.

O “deserto” me sacode e me desnuda, porque desmascara minhas falsas seguranças. Por isso, sou movida a buscar minhas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido adequadamente, é provável que no final vá poder dizer, como Kierkegaard, “eu teria me afundado se não tivesse ido ao Fundo”. Com efeito, antes ou depois, o deserto me conduzirá para o Fundo estável e sereno, me conduzirá à “casa”, à minha verdadeira identidade, à “Terra prometida”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Cuidar da interioridade quando me questiono sobre o modo como olho a vida, como atuo diante das situações, como me relaciono com os outros, como vivo minhas convicções e crenças; e, sobretudo, quando me exercito em determinadas “atividades espirituais” que podem me ajudar a desvelar o meu “eu original”, como o silêncio, os momentos de oração, o encontro com a Palavra e o com que está ao meu lado, ao redor e bem próximo...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,12-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Descer no profundo – Fx 13 (04:21)
Autor e intérprete: Padre Jorge Trevisol
Coro: Dalva Tenório, Luan , Vanessa, Suely Ferreira, Karla Fioravante, Ringo , Ricardo Moreno.
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep


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