terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 3º Domingo da quaresma, 04 de março de 2018


Leitura Orante – 3º Domingo da quaresma, 04 de março de 2018

RELIGIÃO SEM TEMPLOS?

“Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo…” (Jo 2,15)


Texto Bíblico: João 2,13-25   


1 – O que diz o texto?
A Quaresma nos oferece os grandes sinais da vida e da mensagem de Jesus: das tentações (1º dom.) e transfiguração (2º dom.) à expulsão dos comerciantes do Templo (3º dom.).

Este terceiro sinal, vinculado com a construção do novo Templo (formado pela vida dos cristãos, unida à vida de Cristo), está no centro da mensagem de Jesus. E revela-se uma ocasião privilegiada para denunciar a tendência da religião cristã em distanciar-se da mensagem de Jesus e deixar-se contaminar pelo poder, pela riqueza, pela vaidade... Todos devemos nos empenhar em destruir muitas coisas do “velho templo” que fomos construindo ao longo da história.

João, à diferença dos outros evangelistas, situa o relato da expulsão dos comerciantes do Templo no começo do ministério de Jesus. O espaço do Templo tinha se convertido em mercado, e se encontrava dominado pelos comerciantes da religião, vendedores e sacerdotes. Com sua atitude, Jesus combate uma religião que está a serviço do “deus-dinheiro”, deixando de ser mediação de vida, de comunhão e partilha dos bens. Evidentemente, este não é o templo de Jesus, que veio chamar e convocar aqueles que não podem comprar “bois-ovelhas-pombas”. 

Jesus expulsou os mercadores-vendedores do templo porque estes expulsaram Deus de suas vidas e da realidade cotidiana; queriam ter Deus sob seu controle para se enriquecer com o sagrado.

Por que este gesto violento de Jesus para com aqueles que dominavam o templo e manipulavam Deus em favor de seus interesses? Porque, para eles, o primeiro e o intocável era “o ritual” e “o sagrado” (com todas as suas consequências). Enquanto que, para Jesus, o primeiro e o intocável, era “o humano” (a vida humana, o respeito ao humano, a dignidade de todos os seres humanos por igual). Jesus se situou do lado da vida e da felicidade dos seres humanos. De fato, as preocupações de Jesus não foram nunca nem as observâncias rituais do templo, nem a inviolabilidade do sagrado, nem a dignidade dos sacerdotes, nem os poderes da religião... As preocupações de Jesus foram: a saúde das pessoas (relatos de curas), a mesa da partilha e da inclusão (relatos de refeições), a reconstrução das relações entre os humanos (o sermão da Montanha).


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus foi um profeta leigo; não foi sacerdote, nem funcionário da religião, nem mestre da lei, nem nada parecido. Mais ainda, Jesus viveu e falou de tal maneira que logo entrou em conflito com os dirigentes da religião de seu tempo, os sacerdotes e os funcionários do Templo, que eram os representantes oficiais do “religioso” e do “sagrado”.

Se há algo que é claro e é repetido tantas vezes nos Evangelhos é que os “homens da religião” não suportaram o Evangelho de Jesus, centrado na vida e não no Templo. E não o suportaram porque eles  viram, em Jesus, um perigo e uma ameaça aos seus privilégios. Enquanto o projeto deles era defender e manter o Templo com seus ritos e normas, com suas dignidades e privilégios, com seus poderes sobre o povo, o projeto de Jesus centrava-se na cura dos enfermos, na proximidade junto aos mais pobres, aos pequenos, aos pecadores e a todo tipo de pessoas desprezadas e rejeitadas pelos dirigentes religiosos. Tudo isto é o que Jesus privilegiou, inclusive transgredindo as normas da religião, enfrentando os escribas, fariseus, os sacerdotes e atuando com violência contra aqueles que utilizavam o templo como negócio, até convertê-lo em “casa de comércio”.

O Compassivo não quer sangue, nem incenso, nem ritos...; quer compaixão, ternura, quer justiça, quer que todos vivam e vivam intensamente.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sei que em toda religião o determinante está no sagrado. No projeto de Jesus, o centro de tudo está no humano, na dignidade e na felicidade das pessoas, na vida. 

Jesus não suprimiu o sagrado, mas o deslocou do religioso ao humano. Este é o verdadeiramente sagrado para Jesus. Seu projeto não é projeto “religioso”, mas a vida humana; o central na sua vida não foi o religioso, mas o humano e a humanidade.

Por isso, Jesus prescindiu do Templo para relacionar-se com Deus. Ele se encontrava com o Pai não no espaço sagrado do Templo, nem no tempo sagrado do culto religioso, mas no espaço cotidiano do encontro com as pessoas. Seu Templo era a convivência com as pessoas, sobretudo as mais excluídas.

Jesus foi um piedoso israelita que teve uma forte experiência de Deus, a quem chamava Pai e que fomentava a oração não no templo, mas no monte, nos lugares solitários e silenciosos. Sua “religiosidade” não estava vinculada ao templo nem aos rituais sagrados. 

Frente ao projeto que chamava “Reinado de Deus”, Jesus foi questionando uma religião que desumanizava as pessoas. Ele mesmo foi relativizando os pilares da religião: o sábado, a “pureza” legal, o pecado, o Templo, o culto, os sacrifícios, as doutrinas... Pouco a pouco, foi colocando tudo em questão, infringindo suas normas e atacando a hipocrisia de um culto a Deus que desprezava as pessoas.

Para aqueles que veem em Jesus o novo Templo onde habita Deus, tudo é diferente. 

Quem deseja viver a fundo e encontrar-se com Deus (“os verdadeiros adoradores do Pai), não é preciso ir a um templo ou outro, frequentar uma religião ou outra. É necessário aproximar-se de Jesus, entrar em seu projeto, seguir seus passos, viver sob o impulso do seu Espírito.

Neste Novo Templo, que é Jesus, para adorar a Deus não bastam o incenso, as aclamações nem as liturgias solenes. Os verdadeiros adoradores são aqueles que vivem diante de Deus “em espírito e em verdade”. A verdadeira adoração consiste em viver com o “Espírito” de Jesus e na “Verdade” do Evangelho. Sem isto, o culto é “adoração vazia”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sempre digo que a religião é um meio (mediação) para eu me relacionar com Deus. Mas nem sempre caio na conta que a religião com seus rituais (templos, ritos, o sagrado, os sacerdotes, a normativa religiosa...) ocupam tanto espaço e alcançam tanta importância na experiência dos indivíduos e da sociedade que Deus acaba ficando deslocado da vida e desfigurado em sua imagem de Pai/Mãe de misericórdia. O que acontece, com muita frequência, é que a religião, seus ritos, suas hierarquias e suas normas, em lugar de fazer-me aproximar de Deus e fazer-me pessoa melhor, na realidade fazem é complicar minha relação com Deus e, sobretudo, dificultam minhas relações sociais, religiosas ou simplesmente humanas.

No Reino de Deus não se requer “templos”, mas corpos vivos. Estes são os santuários de Deus, onde brilha Sua presença e Seu amor, onde as pessoas vivem dignamente. 

Jesus não veio para continuar a linha religiosa tradicional. Veio para propor uma humanidade restaurada a partir do princípio da centralidade da vida das pessoas que vivem com dignidade. Sobre esta base é possível sonhar e construir outra maneira de viver e outra maneira de ser.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Neste Novo Templo, que é a vida dos seguidores e seguidoras de Jesus, não se faz discriminação alguma, nem se fomenta a desigualdade, a submissão e o medo. Não há espaços diferentes para homens e mulheres. Em Cristo já “não há varão e mulher”. Não há raças eleitas nem povos excluídos. Os únicos preferidos são os necessitados de amor e de vida. 

Necessito, sim, de igrejas e templos para celebrar e fazer memória de Jesus como Senhor, mas Ele é meu verdadeiro Templo. Os templos físicos não podem ser fronteiras que dividem o sagrado do profano, mas espaços onde vivo a sacralidade de toda a vida.

As portas do “novo Templo”, que é Jesus, estão abertas para todos; ninguém está excluído.

Podem entrar nele os pecadores, os impuros, os excluídos, os marginalizados da religião...

O Deus que habita em Jesus é de todos e para todos.

Sou também o “novo templo”, morada do Espírito, presença que alarga meu interior para que todos possam ali ter acesso.

Estar atenta e descobrir quem são os “frequentadores” do meu “templo interior”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 2,13-25   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Dois riscos – fx 05 (03:01)
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções para o sol maior
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo da quaresma, 25 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo da quaresma, 25 de fevereiro de 2018

TRANSFIGURAÇÃO: expandir a luz interior

“E foi transfigurado diante deles” (Mc 9,2)


Texto Bíblico: Marcos 9,2-10


1 – O que diz o texto?
Todos nós temos consciência que a superficialidade, o consumismo e o individualismo são as marcas de nossa sociedade atual. Marcas que nos desfiguram e nos desumanizam. Já o grande teólogo Paul Tillich (1886-1965) afirmava que “a grande tragédia do homem moderno é ter perdido a dimensão de profundidade”. Nas suas obras há um insistente apelo a reencontrar aquilo que ele chamava “a dimensão perdida”.

Este é o contrassenso humano: por uma parte, salta à vista a tendência a instalar-se na superficialidade (chamemos isso de “zona de conforto” ou simplesmente “comodidade”) e, por outra, a certeza de que somos todos habitados por um anseio que nos chama constantemente para a profundidade (chamemos isso de “nossas raízes”, “nosso ser”..., em definitiva, “nossa casa”). Entre esses dois extremos – superficialidade e profundidade – transcorrem nossa vida. 

No fundo, a superficialidade, o consumismo e o individualismo são tão somente tímidas compensações que tentam aliviar o vazio de sentido que nos habita; ao mesmo tempo se apresentam como “cantos de sereia” que nos distraem daquilo que é verdadeiramente importante: viver o que somos.

Talvez, a chamada “dimensão perdida” não seja outra coisa que a “transfiguração” de nossa verdadeira identidade. Este é o apelo do Evangelho de hoje: viver “transfigurados” a partir de nossa interioridade.

Estamos vivendo fora de nós mesmos, daí que nosso mundo interno permaneça na obscuridade. Se nos voltarmos para dentro, se nossa atenção começa a dirigir seu foco para o interior, então tudo se ilumina.

O chamado “mistério” da “Transfiguração” poderia ter sido, em sua origem, um relato de aparição do Ressuscitado. Posteriormente teria sido reelaborado para transformar-se numa declaração messiânica: Jesus, confirmado pelas Escrituras judaicas, representadas nas figuras de Moisés (“a Lei”) e Elias (“os profetas”), é apresentado como “Filho amado” de Deus. Todo Ele é transparência e luminosidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus viveu constantemente transfigurado, mas isso não se expressava externamente com espetaculares manifestações. Sua humanidade e sua divindade se revelavam cada vez que se aproximava de uma pessoa para ajudá-la a ser ela mesma. A transfiguração deixa de ser um evento para tornar-se um modo permanente de Jesus viver, pois a única luz que nele se revela é a do amor; e só quando manifesta esse amor, ilumina. Na sua humanidade deixa transparecer a luz de Deus.

A Transfiguração não está só me dizendo quem era Jesus, mas também quem sou realmente. Ela desvela também minha identidade e me faz caminhar em direção à minha própria humanidade. Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano, é transparência de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A transfiguração desencadeia um movimento interno de busca continuada e revela que o ser humano é inquieto por natureza, e será sempre assim, em seu afã de abrir-se a um horizonte cada vez  mais amplo. Todo o ser humano traz em seu interior uma faísca de luz que busca expandir-se; não falta ao seu coração a sede de eternidade. 

Transfiguração, portanto, é transformação do espaço interior. Em meio às sombras profundas, marcadas pelos traumas, feridas, experiências negativas..., encontram-se “pontos de luz”. Tenho todos os recursos necessários para ativá-los. Então, o círculo de minha luz vai se ampliando, começando pelo meu eu mais profundo; ela vai se fazendo cada vez mais extensa, iluminando toda a realidade cotidiana. Passarei, a viver como “seres transfigurados”. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a cena da Transfiguração vem me recordar que, na essência, sou luminosidade; por detrás de comportamentos com frequência sombrios, continuo sendo transparência. Isso é o que eu cristã reconheço em Jesus: Ele é o “espelho” nítido no qual vejo minha identidade profunda. E essa identidade é luz e transparência.

Não é casual que, mesmo perdida nas trevas de minha inconsciência, sinto saudades da luz. Também não é casual que, mesmo nas ações mais complicadas e questionadas, procuro justificar minha transparência. Uma e outra desvelam quem é; por isso mesmo, se tornam imprescindíveis para viver com mais intensidade. 

Minha essência é luminosa, transparente, simples, doce, verdadeira... Mas, para percebê-la, preciso me despertar. E isso implica e significa, ao mesmo tempo, viver ancorada em minha verdadeira identidade.

Para além do “ego superficial”, a transfiguração me faz acessar a um “lugar” sempre estável, sólido e permanente, onde reconheço a presença d’Aquele que é a Luz indizível.

Esse “lugar” é sempre luminosidade e transparência. E a partir dele tudo fica transfigurado. Na realidade, não é que as coisas se transfigurem, senão que, mais exatamente, vejo em tudo a Verdade, a Bondade e a Beleza daquilo que é.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Cuidar do coração, pois dele brota a luz e a vida. 

Iluminar meu caminhar com a luz que há em mim mesma.

Olhar com os olhos transfigurados e ver que por detrás das pobres aparências se escondem muitos sentimentos de bondade, de generosidade, de fidelidade e amor.

A transfiguração me fala da verdade que levo dentro de mim, mas também dos novos olhos que preciso para ver. Se eu soubesse olhar com os olhos do coração, veria a luz maravilhosa escondida no interior de cada pessoa.

Conheço as pessoas por fora. Debaixo das aparências de vulgaridade, pode se esconder um grande coração.

Transparente é um modo de ser e de agir; é a condição para eu poder ver Deus presente e atuante em tudo e em todos.

O grande desafio para viver a transparência é facilitar, no meio de minha cultura acelerada e carregada de imagens, espaços sossegados para perceber o que o Espírito vai fazendo em mim. Se não sei o que me acontece por dentro, dificilmente poderei ser presença iluminadora junto aos outros.

Como seguidora de Jesus, sou chamada a ser cúmplice do Espírito, abrindo-me totalmente à sua ação e deixando-me transfigurar por Ele. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 9,2-10
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Põe teu coração no meu – fx 06 – (03:24)
Autor e intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo
Gravadora: Paulinas Comep


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 1º Domingo da quaresma, 18 de fevereiro de 2018



Leitura Orante – 1º Domingo da quaresma, 18 de fevereiro de 2018

DESERTO: tempo de desvelamento interior

“E logo o Espírito impeliu Jesus para o deserto” (Mc 1,12)


Texto Bíblico: Marcos 1,12-15


1 – O que diz o texto?
Ao iniciarmos a Quaresma, um lugar que continuamente será citado e que vai aparecer com frequência nos textos, reflexões e orações, é o “deserto”. Deserto que deve fazer parte de nossas vidas em algum momento: espaço de escura e de silêncio, de busca, de despojamento; lugar que nos faz tomar consciência das coisas essenciais que dão sentido à nossa existência; ambiente privilegiado para o encontro tu a tu com o Deus amor que nos habita, ou melhor, em Quem habitamos. Se nos abrirmos à Sua presença amorosa, caminharemos livres dos falsos absolutos que cada dia nos tenta, e nossos desertos existenciais se converterão em um jardim onde florescerá de novo a esperança. 

Num mundo em que a imagem e as redes sociais ocupam, com suas presenças, toda a nossa vida, todos os nossos lares, os espaços públicos, fazendo-nos viver a cultura da superficialidade, muitas pessoas de diferentes condições sociais e religiosas já começam a sentir a urgente necessidade de escapar de tanta solicitação externa que as oprime e alimentam o desejo de se ocupar mais decididamente com o seu mundo interior. 

Mas, se somos sinceros, adentrar-nos em nosso “eu profundo” e viver a partir de dentro é algo que não sabemos e muitas vezes até sentimos medo. É cada vez mais difícil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o mundo exterior. 

Nesse sentido, a liturgia quaresmal revela-se como uma mediação privilegiada para potencializar nossa interioridade, ou destravá-la, para que a expansão de nossa vida seja possível. Tal experiência resgata-nos do entorpecimento e nos dá um choque de lucidez. Ela oxigena a nossa mente e implode nosso conformismo; revela-se instigadora e provocativa, fonte inspiradora que nos liberta do cárcere da rotina. Ela nos faz lembrar que somos andarilhos, deslocando-nos no traçado da existência em busca de respostas que deem sentido à nossa existência.


2 – O que o texto diz para mim?
O caminho para Deus passa pela experiência mais profunda e autêntica de si mesmo, convidando cada um a repensar como, em meio às dificuldades de cada tempo, sempre é possível o percurso em direção à própria interioridade.

Buscar o Deus que “está dentro de mim, enquanto eu estou fora” (S. Agostinho), significa entrar em relação direta com meu interior, com o que me move com o que sinto e penso; significa dissolver bloqueios afetivos já solidificados e conflitos não resolvidos; é fazer que se calem muitos ruídos parasitas e que se escute, por fim, o silêncio sonoro que brota do oculto; desentupir os condutos do coração e processar a lava ardente dos grandes desejos significa abrir os olhos para uma paisagem desconhecida.

Foi no deserto onde Jesus descobriu o que move verdadeiramente o coração do ser humano. Foi nessa situação – de solidão – onde também descobriu o que Deus ama no coração humano.

Nessa experiência de deserto Jesus tomou consciência de duas forças ou dinamismos que atuam no coração humano: um de expansão, de saída de si, de vida aberta e em sintonia com o Pai e com os outros; outro, de retração, de auto-centração, de busca de poder, prestígio, vaidade... 

Jesus viveu impulsionado pelo Espírito, mas sentiu em sua própria carne as forças do mal: “foi tentado por satanás”; satanás significa “o adversário”, a força hostil a Deus e a quem trabalha por seu reinado. Na tentação de Jesus se desvela o que há em mim de verdade ou de mentira, de luz ou de trevas, de fidelidade a Deus ou de cumplicidade com a injustiça. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O evangelista Marcos ressalta que o “deserto” não é só um lugar geográfico; é também o lugar que busco para me silenciar e oferecer a oportunidade para reconectar conscientemente com meu centro.

Em todo processo de crescimento, e mais ainda nos períodos críticos do mesmo, vou me deparar com a presença dos “animais selvagens” e dos “anjos” em meu eu profundo.

É assim que nomeio as experiências que acontecem quando me adentro em meu mundo interior. 

Os “animais selvagens” são aquelas circunstâncias internas que me frustram e, sobretudo, aquele material psíquico que não reconheço ou aceito em meu interior: minhas paixões, meus traumas, minhas feridas, meus instintos, minha impotência e fragilidade... É a “sombra” que vou arrastando, e que continua me assustando enquanto não a reconheço e a abraço abertamente em sua totalidade. 

Os “anjos” são os consolos – externos e internos – que aparecem em meu caminho, em forma de paz, de luz, compreensão, de fortaleza, de amor...

“Animais selvagens e anjos” cumprem seu papel, pois me “obrigam” a avançar para minha verdade profunda, tirando-me da superfície de mim mesma, ou talvez da “zona de conforto” na qual tenho me instalado, conformando-me com uma vida “normótica” e sem criatividade.

O amadurecimento humano implica abraçar toda minha verdade, também aquela que me aparece sob disfarces temerosos, como o medo, a solidão, a tristeza, a angústia... Lidar com tais “feras” requer capacidade de olhá-las de frente, com compreensão, paciência e muito afeto. 

A espiritualidade cristã me mostra que exatamente em minhas feridas eu descubro o tesouro do meu verdadeiro “eu”, escondido no fundo de meu coração.

Tradicionalmente, fui coagida a viver uma espiritualidade que me ensinou a prender os “animais selvagens” e a levantar junto deles um edifício de “grandes ideais”.

E com isto, passo a viver constantemente com medo de que as feras pudessem fugir e me devorar.

Sei que tudo quanto eu reprimo me faz falta à minha vida. Os “animais selvagens” tem muita força. Quando os prendo, fica me faltando a sua força, de que tenho necessidade para o meu caminho para Deus, para eu mesma e para os outros. Sou obrigada a fugir de mim mesma, fico com medo de olhar para dentro de mim, pois poderia correr o risco de me deparar com as feras perigosas. 

Quando, graças à presença dos “anjos”, deixar de rejeitar e de resistir aos “animais selvagens”, irei tomando consciência como a luz e a fortaleza vão se expandindo em meu interior; eu me perceberei mais unificada e harmoniosa. E assim, estarei mais preparada para a “travessia” em direção à Páscoa.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, como ser humana, de tempos em tempos preciso passar por experiências de despojamento, de esvaziamento, de vulnerabilidade, de crise..., para poder suavizar meu coração e, desse modo, fazer-me mais receptiva e expansiva.

O “deserto” é o lugar das perguntas, do discernimento, da busca de profundidade, o ambiente favorável que me oferece ferramentas com as quais poder romper as bolhas que me aprisionam, impedindo-me sair para a aventura da vida.

O “deserto” me sacode e me desnuda, porque desmascara minhas falsas seguranças. Por isso, sou movida a buscar minhas raízes mais profundas. Quando esse percurso é vivido adequadamente, é provável que no final vá poder dizer, como Kierkegaard, “eu teria me afundado se não tivesse ido ao Fundo”. Com efeito, antes ou depois, o deserto me conduzirá para o Fundo estável e sereno, me conduzirá à “casa”, à minha verdadeira identidade, à “Terra prometida”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Cuidar da interioridade quando me questiono sobre o modo como olho a vida, como atuo diante das situações, como me relaciono com os outros, como vivo minhas convicções e crenças; e, sobretudo, quando me exercito em determinadas “atividades espirituais” que podem me ajudar a desvelar o meu “eu original”, como o silêncio, os momentos de oração, o encontro com a Palavra e o com que está ao meu lado, ao redor e bem próximo...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,12-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Descer no profundo – Fx 13 (04:21)
Autor e intérprete: Padre Jorge Trevisol
Coro: Dalva Tenório, Luan , Vanessa, Suely Ferreira, Karla Fioravante, Ringo , Ricardo Moreno.
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 4ª feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2018


Leitura Orante – 4ª feira de Cinzas, 13 de fevereiro de 2018

A VIDA QUE RESSURGE DAS CINZAS

“Tu, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17)

Texto Bíblico: Mateus 6,1-6.16-18


1 – O que diz o texto?
Outra Quaresma que chega! E alguém pode, com certo ar de rotina, multiplicar referências ao deserto, ao jejum, à esmola e à oração, com o risco da regularidade de tudo o que, na vida, é habitual, com a tranquila cadência do ano litúrgico, com a normalidade da passagem das estações.  

No entanto, a quaresma litúrgica, que nos é dada como tempo para voltar ao essencial, ou seja, ao Evangelho, é tempo pedagógico e terapêutico para preparar as entranhas e mobilizar o nosso coração frente o acontecimento central de nossa fé, a Páscoa. Tempo que provoca uma sacudida em nossa apatia, em nosso andar por inércia...

Antes de empreender o caminho quaresmal, antes de querer fazer a travessia do deserto, é necessário inclinar um pouco a cabeça e receber o perfume de nossas cinzas. Tal e como Jesus nos recomenda no Evangelho de hoje, não se trata de desfigurar nosso rosto, mas de nos deixar transfigurar.

As “cinzas” são o símbolo daquilo que morreu e foi reduzido à sua expressão mínima. 

Essa é a nossa garantia: aquilo que passa pelo fogo, é necessariamente renovado. 

Animar-nos, neste tempo de travessia, a acender o fogo para converter em cinza tudo o que é caduco e ultrapassado em nós; e ao nos ver rodeados de cinzas, sentir-nos-emos esvaziados de nossas falsas seguranças e ilusões, de nossa prepotência e auto-centramento.  

Das cinzas surgirá a oportunidade de uma nova vida, mais aberta e expansiva; as folhas caídas darão lugar ao novo broto e isto implica atrever-nos a viver com mais intensidade e criatividade, fazendo a dura travessia em direção ao novo que nos humaniza.


2 – O que o texto diz para mim?
O deserto como atitude de silêncio, de esvaziamento e de solidão carregada de presença, para não viver de atração em atração, na feira das vaidades.

A oração como busca do Deus compassivo, dificultada pela cultura da superficialidade; isso implica uma escuta verdadeira da Palavra e uma sintonia profunda com Aquele que sempre se revelou Mestre e Guia.

A esmola como amor compassivo, que se expressa não em dar o supérfluo, mas fazer-se presença junto àqueles que mais precisam.

O jejum como resposta austera a um mundo que constantemente excita os apetites.

A conversão como saída da acomodação, deslocando-se em direção a uma vida mais comprometida com a justiça evangélica, ou seja, “ajustar-se” ao modo de ser e de agir de Jesus.

No Evangelho que abre o tempo da Quaresma, Jesus me convida a praticar de coração as disciplinas espirituais da oração, do jejum e da esmola. Soa estranho falar de “disciplinas” em pleno séc. XXI.

Mas a palavra “disciplina” vem da mesma raiz de “discípulo”. Poderia defini-la como um modo de proceder, proposta por um mestre a seu discípulo para crescer e amadurecer em diferentes aspectos de sua vida. Há disciplinas desportivas, artísticas, científicas... A partir da ótica cristã, ser discípulo de Jesus é segui-lo, escutá-lo, amá-lo e viver as “disciplinas” que me propõe.

O problema é que as “disciplinas quaresmais” estão muito desgastadas na Igreja porque foram transformadas em leis e obrigações, impostas aos fiéis à força. 

Disfarçadas como penitências, se apresentavam como imprescindíveis para obter o perdão de Deus. Mas posso redescobrir seu sentido a partir da liberdade e do amor. 

Assim verei que são um presente e uma oportunidade privilegiada para mim, não para merecer o amor de Deus (pois Ele ama a todos incondicionalmente), mas para celebrar o amor de Deus. Para poder agradecer seu amor, quero ser mais livre, mais justa, mais amorosa.

Nesta perspectiva, as três disciplinas espirituais da Quaresma (oração, jejum e esmola) encontram sua relação com as três dimensões do amor: a Deus, ao próximo e a si mesmo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A oração me ajuda a amar a Deus e a entrar em sintonia com Sua vontade. A vivência da oração e de todas as disciplinas associadas a ela, como o silêncio, a solidão, a reflexão, a meditação bíblica, a contemplação, a participação na liturgia da comunidade, a leitura de um livro espiritual, me prepara e me ajudam a entrar no fluxo da ação amorosa de Deus, no mais profundo de meu ser. 

Quando oro, conheço e amo mais a Deus, intuo sua passagem em meu dia-a-dia, alimento minha vida interior, sou menos superficial, me fixo mais nos dons que Ele me concede, dou graças por estar rodeada de tanta beleza, mesmo em meio a uma terrível situação, alimento compaixão com aqueles que sofrem, sou mais consciente de minha fragilidade e, ao mesmo tempo, de minha maravilhosa dignidade de filha e filhos de Deus. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Esmola: a palavra “esmola” soa mal. Dá ideia de resto, de poder de quem tem sobre o nada de outros.

O termo “esmola” deriva do grego “eleéo”, “ter piedade”, cuja forma imperativa “eleéson” figura no “kyrie” do ato penitencial da celebração eucarística. Antes que eu possa ter piedade dos outros é Deus que teve piedade de mim. Precisamente porque brota da piedade divina e se modela sobre ela, a esmola não se reduz a um gesto de ordem apenas material: ela manifesta “um ato que indica o fazer-se companheiro de viagem de quantos se encontram em dificuldade”, participando na sua situação, com ternura. O sentido não está em dar coisas, mas fazer-se dom, oferecer algo de si, importante, significativo. Tem a ver com abertura de coração, sensibilidade e olhos abertos. É resultado de uma atenção permanente e ativa, que vai ao encontro do outro, que toma iniciativa, que se comove. É um estímulo a superar o assistencialismo, que mantém as diferenças, sustenta a dependência e não promove a cidadania. 

Senhor, a esmola me provoca à solidariedade e ao espírito de compaixão, me move ao serviço, à presença-qualidade, ao voluntariado, à prática do bem e da justiça.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Finalmente, o jejum me leva a amar mais a mim mesma. Há muitos tipos de jejum, desde aquele que busca fins terapêuticos até políticos (Gandhi) ou solidários. O desafio do jejum espiritual é que, para ser efetivo, necessito encontrar uma razão nobre... 

Para muitos, o jejum clássico da comida continuará sendo um grande meio, mas para outros o jejum difícil e preciso será, por exemplo, desconectar-se um pouco das redes sociais, livrar-se de um vício ou afeto desordenado, controlar a língua e não falar mal dos outros, recuperar tempos de silêncio... 

Em definitiva, o jejum e a abstinência me levam à autoestima e a ser “senhora de si” e são sinônimos de desintoxicar-se, desconectar-se, desapegar-se, desprender-se... Ou seja, fazer tudo o que me leva a ser pessoa mais equilibrada, autônoma e livre, que tem mais tempo para amar a Deus e ao próximo. 

Fazer jejum para despertar outras fomes: de justiça, de partilha, de compaixão...

Da cabeça aos pés, perfumar-me com aroma da humildade. 

Toda a aventura para a Páscoa começará com este gesto de inclinar a cabeça e me conduzirá, com o Mestre, a me colocar aos pés dos outros para lavá-los com a água pura do meu coração e cingida, como Ele, com a toalha do serviço humilde.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 6,1-6.16-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Deus mandou Jesus – Fx 09 – (03:40)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérpretes: Grupo ir ao povo – Beto, Betinho e Sonia Mara
CD: Trio ir ao povo – Dois interiores
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Luan e Vanessa
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Leitura Orante – 6º Domingo Tempo Comum, 11 de fevereiro de 2018


Leitura Orante – 6º Domingo Tempo Comum, 11 de fevereiro de 2018

CONTÁGIOS QUE SALVAM

Jesus, compadecido, estendendo a mão, tocou-o e disse-lhe: 
“Quero, sê purificado”. (Mc 1,41)


Texto Bíblico: Marcos 1,40-45


1 – O que diz o texto?
Como as narrações anteriores do evangelista Marcos, também a deste domingo é concebida como um desvelamento da personalidade de Jesus. Autoridade e compaixão: dois atributos de Deus que Jesus deixa transparecer no encontro com as pessoas, sobretudo as enfermas e excluídas; são as feições divinas que se visibilizam no agir de Jesus. 

Além disso, Marcos quer também revelar a superioridade de Jesus em relação à Lei. Ele não depende da Lei para fazer o bem às pessoas ou para reintegrar o ser humano no convívio social e religioso. Pois, a Lei é (e deveria ser sempre) para o bem das pessoas; se Ele pode curar alguém pela “autoridade”, não é preciso primeiro consultar os guardiões da Lei. Basta que, depois da cura, o leproso ofereça o sacrifício de agradecimento a Deus, conforme o rito religioso costumeiro.

No relato do evangelho de hoje pode-se descobrir uma cumplicidade entre o leproso e Jesus. Os dois vão mais além da Lei: um por necessidade imperiosa, o outro por convicção profunda.

O leproso, através de seu gesto ousado de se aproximar de Jesus, sabia também que sua vida – e sua libertação da marginalidade – não dependiam do Templo e dos sacerdotes, pois estes só constatavam a cura ou a permanência da doença em seu corpo. Os sacerdotes eram impotentes: não podiam restabelecer a vida.

Diante disso, o leproso toma uma atitude radical: não vai ao sacerdote, e sim a Jesus. Ao invés de ficar à distância e gritar sua marginalização, aproxima-se de Jesus, joelha-se diante dele e pede: “se queres, tens o poder de curar-me”. Reconhece que o poder da cura (que o tira da marginalidade) não vem da religião dos sacerdotes, e sim de Jesus, fonte de libertação e vida. Viola a lei para ser curado.

O leproso, dentro de sua necessidade, reconheceu que o "querer" é de Deus. A súplica que brota do seu coração toca o centro do coração compassivo de Jesus. Esta escuta direciona a ação terapêutica d'Ele. A lição do coração de Jesus é única: o encontro de dois “quereres” que faz surgir nova vida.

Jesus, terapeuta compassivo do Espírito, revela uma presença que mobiliza o leproso a deixar emergir o Deus que habitava nele. E para isso necessita dar um passo a mais: através de suas mãos, estabelece com o enfermo um contato sana dor, libera as fontes do amor que permaneciam ocultas e obstruídas. Sua ferida se converterá para ele no lugar da experiência de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus não duvida em transgredir a lei quando a vida está em perigo; mesmo sabendo que Ele se fazia “impuro” ao tocar no leproso, atreve-se ao risco do contágio. O motivo de sua atuação é só uma: a compaixão. Frente à situação de extrema exclusão, Jesus experimenta compaixão que faz brotar nele uma resposta amorosa; nascendo de suas entranhas e vencendo as normas rituais, a compaixão se transforma em uma palavra eficaz que devolve a vida ao homem enfermo e marginalizado.

A compaixão era já um dos atributos de Deus no Antigo Testamento. Jesus a faz sua em toda sua trajetória humana. É uma demonstração de que para chegar ao divino não é preciso destruir o humano. A compaixão é a forma mais humana de manifestar amor. Quando alguém sente como seu o sofrimento do outro é quando, de verdade, se fez próximo dele.

A compaixão, que toma conta do coração de Jesus, é fruto do corajoso deslocamento para a margem, para a necessidade do outro. Sua autoridade é sempre percebida como garantia e sustento da vida, pois ela é carregada de compaixão e não de poder. Só tem "autoridade" quem garante a vida e a recupera em todas as circunstâncias. A vida do outro é a razão única da autoridade compassiva.

O outro, sua necessidade e sofrimento, será sempre a alavanca que gera no coração humano a compreensão e o exercício da autoridade como verdadeiro serviço.

Só a compaixão desloca cada um para o lugar do outro. Só a compaixão ilumina a realidade do sofrimento do outro. Só a compaixão move na direção da oferta do outro.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
De acordo com o sistema religioso vigente, ao tocar um leproso, Jesus torna-se impuro: torna-se leproso e fonte de contaminação; torna-se marginalizado e não poderá mais entrar publicamente numa cidade: deverá permanecer fora, em lugares desertos, como os marginalizados. O Filho de Deus foi morar com os excluídos. Aqui o evangelho de Marcos mostra quem é Jesus: é aquele que rompe os esquemas fechados de uma religião elitista e segregadora, indo habitar entre os banidos do convívio social.

A cura do leproso me revela também que há outros contágios muito piores que desumanizam: preconceito, intolerância, indiferença, suspeita...

Continuo presa à ideia de que a impureza contagia, mas o evangelho me está dizendo que a pureza, o amor, a liberdade, a saúde, a alegria de viver..., também podem contagiar. Com sua presença inspiradora Jesus contagia compaixão, bondade, acolhida... Por isso, contágios que salvam e libertam.

Este passo eu teria que dar se de verdade quero ser seguidora de Jesus. No entanto, continuo justificando muitos casos de marginalização sob o pretexto de me permanecer pura. 

Quantas leis, civis e religiosas, deveriam transgredir hoje para ajudar todos os marginalizados a se reintegrarem na sociedade e na Igreja, possibilitando-lhes se sentirem como seres humanos!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
O significado original do verbo “tocar” vai além de um simples e rápido contato: expressa outros sentidos: atar, enlaçar, envolver... Muito mais coerente com a maneira de atuar de Jesus.

Quer dizer que Ele não só tocou o enfermo por um instante, mas que manteve essa postura durante certo tempo. 

Senhor, tendo em conta o perigo do contágio que a lepra representava, pode compreender o profundo significado do gesto, suficiente, por si mesmo, para fazer patente a atitude vital de Jesus. Não só demonstra que está acima da Lei quando se trata do bem de um homem, senão que assume o risco de contrair a lepra e tornar-se impuro também ele.

Ao tocá-lo, Jesus destravou a fonte originante da vida do leproso. Não só desapareceu a enfermidade, senão que é reconstruída em sua plena condição humana e reintegrada em seu ambiente social e religioso. 

De fato, o homem, até então marginalizado, encontrou a reintegração e aproveitou-a para contar o que lhe acontecera. Mas Jesus foi ocupar o lugar do leproso, excluído para os “lugares desertos”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O Evangelho indica que Jesus “estendeu a mão, tocou no leproso...” 

O contato é sinônimo de calor, afeto, atenção, presença e ternura. Também expressa reconhecimento e segurança. 

Preciso tocar e ser tocada para viver uma espiritualidade que se enraíze em minhas mãos.

O leproso se abre diante de Jesus que o toca. 

Quê poder tem minhas mãos quando as estendo cheias de bênçãos!...

Quê força sanadora quando aprendo a tocar com ternura, a tocar despertando essa vida profunda debaixo da pele!...

Sou um pouco como o leproso e posso me reconhecer em seu desejo de cura e de abundância de vida. 

Posso também ser como Jesus para os outros, quando meu olhar está livre de preconceitos, minhas mãos se estendem para quebrar distâncias e minha voz é capaz de tocar com calor a vida profunda e escondida dos outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,40-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Cura-me Senhor e serei curado
Autor: Frei Luiz Turra 
Solo: Maria Diniz
Coro: Idalina Miraci, Terezinha Reghellin, Maria do Carmo Diniz, Frei Luiz Turra, Luciano Baldasso e Fabio Cadorin
CD: Cura-me Senhor e serei curado
Gravadora: Paulinas Comep