terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018

A BUSCA VITAL

“Quê buscais?” (João 1,38)


Texto Bíblico: João 1,35-40 


1 – O que diz o texto?
Um dos temas importantes do quarto evangelho é o da busca-encontro de Jesus. Ao leitor atento não passa desapercebido que a primeira palavra que o autor do evangelho põe na boca de Jesus é uma pergunta: “Quê buscais?”

Na realidade, parece que no ser humano tudo começa com a busca, pois é ela que põe em marcha todo o processo existencial. No princípio, sem saber bem o quê, ele busca “estar bem”, “sentir-se melhor”... E projeta a busca “fora”, naqueles objetos, pessoas, títulos, bens, ocupações..., que poderiam satisfazer sua sensação de carência e conferir-lhe maior segurança.

Mais cedo ou mais tarde, a vida lhe mostrará que nada que está fora é capaz de “plenificá-lo”, fazendo-o suspeitar que seja preciso dirigir o olhar para o seu interior.

Quem busca, entra em um movimento inspirador, criativo, despertando os melhores recursos da própria interioridade. É a busca que dá sentido e calor à própria vida. Quem não busca, vive um processo continuo de atrofia de sua própria humanidade, pois a busca é o dinamismo que mais nos humaniza.

Viver é desafiador na medida em que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que buscas e dir-te-ei quem és”.

Jesus não chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem faz proselitismo... Ele desencadeia um movimento e o seu modo de viver a todos seduz para identificar-se com Ele e com sua proposta de vida. Aqui não se trata de adesão a um programa nem a um projeto, senão do convite a um seguimento (“vinde e vede”), no calor e intimidade de uma relação pessoal que é dirigida a cada um em particular. Para isso requer-se uma resposta sem reservas, sempre mais criativa e ousada.

João evangelista quer deixar claro que há maneiras de seguir a Jesus que não são as mais adequadas. A pergunta – “onde moras?” -  não significa querer saber o lugar ou a casa onde habita Jesus, mas buscar uma identificação com a atitude vital d’Ele. 

Poderíamos ampliar a pergunta dos discípulos de João Batista: “Mestre, onde vives, ou seja, onde estão tuas raízes; quê é que te dá Vida; quê é o que te vivifica; diga-nos onde está a Fonte, para que nós possamos permanecer enraizados, sempre bebendo dela?”

“...e permaneceram com Ele naquele dia”: é a mesma expressão que João utiliza para dizer que o Pai permanece no Filho e o Filho permanece no Pai; ou que Jesus e sua Palavra permanecem em nós e nós somos chamados a permanecer n’Ele. Permanecer enraizados somente na pessoa de Jesus e no sonho do Reino como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas vidas.

Reconhecido em sua identidade, consciente de seu lugar e missão junto ao povo de Deus, o(a) seguidor(a) de Jesus continuamente mantém “fixo seus olhos fixos n’Ele” e deixa ressoar em seu interior sua pergunta radical: “o que vocês estão buscando?” 


2 – O que o texto diz para mim?
No interior de cada um permanece aguçada a dinâmica da busca, aquela que mantém a vida de todo coração e o incita na direção do que vale, do que conta e do que é essencial. Como ser necessitado e carente, o ser humano se sente impulsionado a buscar para conseguir acalmar sua insatisfação existencial. Mas a busca não guarda relação só com a carência, senão que é, ao mesmo tempo, expressão do desejo (aspiração) que parece constituir a pessoa e que se manifesta em forma de dinamismo vital (“buscar o que quero e desejo” – Santo Inácio).

A diferença entre ambos os movimentos – o que nasce da carência e o que nasce do desejo – poderia se expressar deste modo: pelo primeiro, o ser humano busca apegar-se e apropriar-se de algo que percebe como “bom” para ele e que lhe dá segurança; no segundo, pelo contrário, o que se dá é o impulso a viver e a expressar a própria identidade profunda. 

No primeiro caso, aqui fala do ego e seus movimentos egocentrados; no segundo, de minha verdadeira identidade, enquanto Plenitude que se transborda.

O coração de cada um foi feito para encontrar a razão mais profunda do seu viver; há uma inquietude latente em seu interior que o faz peregrino do sentido. Tão fundamental como é o respirar, toda pessoa precisa assumir sua condição de navegadora do infinito. Somos todos, por natureza, eternos buscadores e garimpeiros do novo. Por isso, buscar torna-se um hábito de vida.

Uma lógica de contínua busca deve permear o coração do(a) seguidor(a) de Jesus, para aprender a viver da busca d’Ele, e da busca de todos os outros, colocando-se a serviço da vida, unicamente por amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A vida se torna mais vida na medida em que se vive para dar razão a essa busca. Uma busca que exercita o coração e o modula na sinfonia amorosa do coração de Deus. Ele é a única e completa razão da busca do coração humano.

Estar em busca é sair de meu ser atrofiado pelas preocupações individuais para me mover num horizonte maior de pré-ocupação pelo Reino; estar em busca é perguntar, é estar aberta para ser tocada pela mais profunda das graças: a gratidão diante de Deus.

Enquanto eu estiver identificada com o eu superficial (o ego perceberá como ser carente e me sentirei compelida a uma busca ansiosa daquilo que supostamente poderia completar-me). Quando eu chegar ao reconhecimento de minha verdadeira identidade, a busca deixa de ser estressante para ser repousante.

Cairei, então, na conta de que a Plenitude não é “algo” que devo alcançar ou um “prêmio” que me aguarda mais adiante; é o que já sou e sempre fui. Quando a pergunta de Jesus – “quê buscais?” ressoa em mim, aí é que descubro minha mais autêntica maneira de ser, minha originalidade, minha identidade... Na realidade, o que ando buscando é o meu “eu verdadeiro”, o “eu profundo”, a “identidade original”. A busca revela minha identidade profunda. Com outras palavras: o que busco não é diferente do que já sou. O buscador é o buscado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Ao “ver Jesus”, estarei vendo quem eu sou, pois o encontro com Ele desvela meu “eu original”. 

Senhor, quando não me identifico com o meu “eu carente”, emerge a plenitude que sou: a semente enterrada se descobre espiga transbordante.

Os dois primeiros discípulos não lhe perguntam por sua doutrina, por sua religião, mas por sua vida. E Jesus não responde com um discurso, mas com um convite à experiência de vida. 

“Vinde e vede”, disse Jesus àqueles dois buscadores. “Entrai”, vinde à “Casa”, “reconhecei-vos na Vida que sois...; Vida que continuará se expandindo, movendo-vos a uma contínua busca, pois sois habitados por uma fome e sede de Plenitude”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Ter os olhos centrados em Jesus deixando-me impactar pelo Seu modo de viver, Sua paixão pelo Reino, Sua missão, Seu chamado.

Ter um olhar límpido e transparente na tentativa de se configurar ao olhar de Jesus.

Buscar e fixar os olhos em Jesus. 

Sentir e perceber os olhos de Jesus fixos em mim.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 1,35-40 
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Quando o sol desaparece – Fx 02 - (03:27)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Quando se vive um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep




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