terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 5º Domingo Tempo Comum, 04 de fevereiro de 2018


Leitura Orante – 5º Domingo Tempo Comum, 04 de fevereiro de 2018

CASA, LUGAR DO ENCONTRO E DO SERVIÇO

“Saindo da sinagoga, Jesus veio para casa de Simão e André, 
com Tiago e João”. (Mc 1,29)


Texto Bíblico: Marcos 1,29-39


1 – O que diz o texto?
O Evangelho de Jesus é experiência de casa, de encontro e comunhão, de palavra para todos, lugar aberto à novidade do Reino.

No relato de hoje, Jesus desloca-se da sinagoga, lugar oficial da religião judaica, à casa, onde se vive a vida cotidiana, junto aos entes mais queridos. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus. As comunidades cristãs devem recordar que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus.

O evangelho de Marcos apresenta Jesus como “tekton” (6,3), construtor (pedreiro, ferreiro, carpinteiro…), e seu ofício era construir casas. Um dia descobriu que sua missão não era construir mais casas para o sistema injusto; deslocou-se, então, para as periferias, em direção aos sem-teto e iniciou um movimento de transformação, a fim de que todos pudessem ter “casa na terra de Deus”. 

A prática de Jesus desestabiliza todos os padrões e modelos mundanos de poder, desqualificando qualquer manifestação de domínio de uns sobre os outros: inaugura-se um estilo novo no qual o “desenho circular” desloca e dá por superado o “modelo hierárquico”. Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas põe em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, invalidavam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.

Tanto Jesus como a sogra de Pedro superou uma compreensão atrofiada do sábado, porque Ele curou e ela serviu nesse dia. Ninguém precisou dizer a ela o que deveria ser feito; não aprendeu de nenhuma exegese rabínica. Ela mesma compreendeu, como mulher, o que significa estar a serviço da vida. Com gratidão, correspondeu à ação de Jesus que lhe estendeu a mão para levantá-la de sua enfermidade, precisamente no dia de sábado; seu gesto (deixar-se levantar por Jesus e servir aos outros) marcará, de agora em diante todo o evangelho de Marcos, onde as mulheres serão as protagonistas. Ela superou um tipo de religião farisaica e se vinculou a Jesus de um modo pessoal, como servidora, a “ministra” da comunidade cristã.

Quando Marcos nos apresenta a sogra de Pedro “servindo”, está nos dizendo: aqui há alguém que entrou no círculo de Jesus, que “alistou-se” no seu movimento, que respondeu ao seu convite para colocar-se aos pés dos outros e começou a “ter parte com Ele” (João 13,8).


2 – O que o texto diz para mim?
A primitiva comunidade dos seguidores e seguidoras de Jesus não começou formando uma nova religião instituída, mas uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus. “Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum... partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração” (Atos 2,44-46).

A casa deve ser escola de encontro e fraternidade. A comunicação (comum união) se celebra entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.

A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.

Para Jesus, ser “humano” é ser casa aberta e acolhedora.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitas dificuldades que tenho na vida relacional procedem justamente de minha resistência em me colocar na atitude básica de um serviço que não pede recompensas, nem exige agradecimentos... Quem busca viver assim, basta-lhe a alegria e o prazer de poder estar, como Jesus, com a mão estendida para erguer o que está prostrado sob o peso da enfermidade.

Quantas distâncias se encurtam quando se toma alguém pela mão! Quantas suspeitas se dissipam quando se toma alguém pela mão! Quantos medos são superados quando se toma alguém pela mão!...

As mãos são divinas: expressam ternura, proteção, cuidado. Para Jesus, as mãos são para isso: levantar o outro, ajudar o outro a colocar-se de pé, devolver ao outro a capacidade de dar direção à própria vida. 

Graças a muitas pessoas que se deixaram “tomar pela mão” por Jesus para “levantar-se” e “servir”, o cristianismo primitivo foi se constituindo em pequenas comunidades domésticas, reunidas nas casas, onde muitas mulheres assumiram funções eclesiais, ora como missionárias itinerantes e ora como responsáveis pelas igrejas familiares, onde presidiam a oração e a fração do pão.

Jesus quis construir sobre o mundo a nova Casa do Reino, aberta a todos, com pão, com palavra, com amor mútuo. Ele, que não teve onde reclinar a cabeça quis que todos os homens e mulheres tivessem casa, família... cem vezes mais. Assim, deixando seu trabalho de construtor, se fez “arqui-tekton” do Reino de Deus, onde todos pudessem construir suas casas em bases sólidas, começando pelos excluídos sociais: leprosos, cegos, paralíticos, coxos... Não construiu casinhas para pobres sem teto nas ladeiras e encostas da Galiléia, mas moradas com fundamentos na rocha; ou seja, ofereceu-lhes dignidade e consciência, solidariedade e desejo de viver, espírito de comunhão e partilha... para que eles mesmos pudessem criar novas moradas (construí-las e compartilhá-las).

A boa nova da “Casa de Deus” (para todos) devia começar pelos mais pobres, excluídos, sem-teto e sem-terra, portadores de uma nova esperança de vida e casa compartilhada.

Em um mundo no qual as relações se estabeleciam através da força, da dominação, de uma maneira de exercer o poder em que o forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o que possui informação sobre o ignorante, o relato da mulher curada por Jesus, no evangelho de hoje, me introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: nele a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, do “exorcismo” da sinagoga passou às “curas” nas casas e a primeira destinatária da ação de Jesus é a sogra de Pedro, erguendo-a da cama e curando-a no dia de sábado. Ela, uma vez curada, respondeu com um gesto de serviço, em sua casa, oferecendo uma refeição a Jesus e seus companheiros, como uma ação que inaugura o primeiro ministério cristão.

Assim está Jesus sempre presente entre os seus: com uma mão estendida que a todos levanta, como um amigo próximo que infunde vida. Jesus só sabe servir, não ser servido. Por isso, a mulher curada por Ele se põe a “servir” a todos; ela foi integrada em seu grupo de seguidores (as) e pode então “servir”, construindo a comunidade de iguais que Jesus queria, rompendo com a mentalidade patriarcal. Seus seguidores e seguidoras deverão viver acolhendo-se e cuidando-se uns dos outros.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O evangelho me convida a me deslocar e me aproximar dos lugares onde estão os prostrados da vida, tomá-los pela mão e ajudá-los a levantar-se. 

Tecer o manto da solidariedade social e eclesial a partir da cotidianidade.

Ser testemunha mobilizadora numa sociedade cansada de palavras e necessitada de experiências que se façam verdade e vida.

Perceber que minha casa é prolongamento da Casa do Reino, desejada e construída por Jesus...

Encontrar sinais em minha casa que confirmam ser uma “casa cristificada”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,29-39
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Shekinah Emanuel – Fx 01 (04:23)
Autor: Padre Zezinho
Intérprete: trio ir ao povo
Coro: Trio Ir ao Povo, Adriana Melo e Ricardo Moreno 
CD: Deus nos visitou
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 4º Domingo Tempo Comum, 28 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 4º Domingo Tempo Comum, 28 de janeiro de 2018

PALAVRAS QUE DESTRAVAM A VIDA

“Cala-te e sai dele” (Mc 1,25)


Texto Bíblico: Marcos 1,21-28


1 – O que diz o texto?
O evangelho deste domingo é o primeiro ato público de Jesus: estamos num dia típico de sua vida e de sua atividade. Seu primeiro contato com as pessoas, depois do batismo e da experiência do deserto, tem lugar na sinagoga. É um sinal de que a primeira intenção de Jesus foi redirecionar a religiosidade do povo que tinha sido deformada por uma interpretação opressora da Lei. Por duas vezes no relato se faz referência ao ensinamento de Jesus, mas não se diz nada do que ensina. Fala-se de suas obras. As curas e a expulsão de demônios, entendidos como libertação, são a chave para compreender a verdadeira mensagem deste evangelho. O que Jesus faz é libertar um homem de um poder opressor, o espírito imundo. 

A Boa Notícia que Marcos anuncia é a libertação, em duas direções: da força do mal e da força opressora da Lei, explicada de uma maneira alienante pelos fariseus e letrados. As pessoas reconhecem um novo ensinamento, com autoridade, ou seja, com convicção, com coerência de vida, com profunda fé...

O ensinamento de Jesus é novo porque liberta ao mesmo tempo em que ensina. Jesus não ensina nada verbalmente: mostra-se a si mesmo. Marcos dá mais importância ao modo de falar de Jesus que ao conteúdo de seu ensinamento.

De Jesus diziam que “ensinava com autoridade” e não como os escribas e fariseus. Ele tinha a graça de conceder autoridade a cada pessoa, de devolver-lhe sua dignidade, de remeter-lhe a si mesma, de ajudá-la a conectar com seu ser profundo, com aquilo que é mais divino no próprio interior.

Ensina com autoridade quem fala a partir de sua própria experiência e quem, com seu ensinamento, “faz crescer” (a palavra “autoridade” provém do verbo latino “augere”, que significa aumentar, fazer crescer, elevar o outro…); em outras palavras, é despertar a autonomia e a autoria do outro para que ele seja capaz de dar direção à própria vida.

O critério para distinguir quando nos encontramos em presença de quem “fala com autoridade” sempre será o mesmo: sua palavra faz as pessoas crescerem em profundidade.

A “autoridade” de Jesus, portanto, está em que sua palavra e sua vida formam uma unidade plena, porque não diz nada que não esteja já fazendo; suas palavras brotavam de uma experiência profunda que confirmava com sua vida. Provava com suas obras suas palavras, vivia o que ensinava.

A intenção de Marcos é que as pessoas se façam a pergunta chave: “quem é Jesus?”. Todo o seu evangelho é revelação progressiva da personalidade e da identidade de Jesus. 

Jesus não tinha nenhum doutorado na Lei, não tinha nenhum Máster em questões do Templo; não era um perito a quem consultar sobre a lei. Jesus era Ele mesmo; seu único título era sua verdade, sua honestidade, sua bondade, sua capacidade de sanar a dor daqueles que sofriam e libertá-los dos maus espíritos que os escravizavam. Era a identidade de si mesmo, plena: a identidade entre o que dizia e fazia entre o que era e o que ensinava.

Podemos afirmar que Jesus era um “profissional da vida”, um “mestre da vida humana digna”. Não havia estudado em outra universidade a não ser a universidade da vida, do amor, da liberdade...


2 – O que o texto diz para mim?
Ao entrar na sinagoga, Jesus se volta para quem não recebia atenção. Ele faz com que o possuído pelo mau espírito se torne o centro das atenções e sua libertação é, ao mesmo tempo, prática e ensino.

O homem possuído é o símbolo de todas as pessoas despersonalizadas, impedidas de falar e agir, como sujeitos da própria vida e história. Sua vida e destino dependiam de “outros” que pensavam, falavam e agiam por elas.

Jesus vai curá-lo com sua presença e também com sua voz. Ao lhe dizer: “cala-te e sai dele”, Jesus está desatando uma vida, está devolvendo ao homem possuído o seu ser essencial. Há palavras que tem força reconstrutora, pois, não só restabelecem a saúde, mas ativam a dignidade escondida da pessoa. Dizem que há pessoas capazes de serem curados por uma voz, pelo material sonoro de uma voz determinada.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus foi o homem que movia com suas palavras.

É extraordinário perceber como as palavras ditas com cuidado e amor (pedagogia de Jesus) produzem efeitos benéficos para o ser humano. Essas palavras são bem-aventuradas, pois são capazes de fazer crescer, sustentar, edificar as pessoas para o convívio social, humano-afetivo, espiritual. São palavras que trazem luz e calor, infundem confiança e segurança.

A palavra tem força de ressurreição, é como brisa suave que ativa minhas melhores energias.

As palavras jamais deixam as coisas como estão. Elas não se limitam a transmitir uma mensagem; elas têm uma força operativa, desencadeiam um movimento... Quando me ponho a falar, algo acontece, muda alguma coisa dentro de mim e ao meu redor. Aparentemente parece que nada mudou; mas é possível que tudo tenha mudado. A palavra vai além de sua vibração sonora. Ela contribui para criar o clima, o ar que respiro... Um ambiente que me plenifica, me nutre, favorece o encontro e o compromisso e abre possibilidade de viver.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor eu sou um ser de palavras e sou também um ser de silêncio. Em meu mundo atrofio o dom de proferir palavras de vida; elas têm pouco valor e, por isso, preciso voltar a lapidá-las no silêncio, porque só o silêncio restaura a integridade de minhas palavras. Tais palavras tem força para curar, como aquela que Jesus proferiu diante do homem possuído pelo mau espírito.

Preciso receber palavras que toquem minha superfície endurecida e me libertem de tantas ataduras que não me deixam respirar com profundidade, nem olhar compassivamente, nem considerar a beleza da diversidade e a diferença.

Também busco pessoas que possam me dizer palavras para viver e sou requisitada a entregar aos outros uma palavra de vida.

Quanto aspira meu coração escutar este convite: “esteja livre...”! Esteja livre daquilo que os outros possam dizer ou pensar a meu respeito; livre do domínio das minhas compulsões; livre para amar sem defesas; livre daquilo que eu acredito saber sobre mim mesmo e sobre os outros; no fundo, estar livre para ser eu mesma, para poder entrar em uma relação nova com a realidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Seguir o evangelista Marcos. Ele foi o primeiro que escreveu o Evangelho, por isso conserva o calor dos inícios da vida cristã. É o mais conciso. Não apresenta grandes discursos de Jesus nem conta muitas parábolas. Interessa-lhe, sobretudo o cotidiano na vida pública de Jesus: sua atitude vital para com os pobres e excluídos, sua presença terapêutica, sua liberdade diante da religião, do templo, das tradições judaicas, a revelação do novo rosto de Deus, o anúncio da Boa Notícia da Salvação…

Fazer o percurso contemplativo.

Ser sincera comigo mesma.

Revisar minha conduta cristã.

Expulsar muitos “maus espíritos” interiores (ânsia de poder, riqueza, prestígio, vaidade…) que jogam ao chão minha dignidade e impede um testemunho coerente, uma verdadeira autoridade que profere palavras que fazem as pessoas crescer.

Repassar o repertório das palavras proferidas ao longo do dia: palavras que elevam que curam e que salvam...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,21-28
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Quem é esse Jesus – Fx 01 (03:38)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Quem é esse Jesus?
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 3º Domingo Tempo Comum, 21 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 3º Domingo Tempo Comum, 21 de janeiro de 2018

O HORIZONTE ALTERNATIVO DO REINO

“Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus.” (Mc 1,15)


Texto Bíblico: Marcos 1,14-20


1 – O que diz o texto?
Podemos dizer que Jesus irrompe na nossa Galiléia cotidiana como um chamado a viver de maneira alternativa, fazendo a experiência de Deus, Mistério último da vida, como uma Força que nos atrai para construir um mundo mais humano e ditoso.

Jesus não começa sua vida pública com ameaças, nem com anúncios de castigos. Começa proclamando a Boa Notícia de Deus; este anúncio original sintetiza toda sua missão: não é em vão que Marcos coloca na boca de Jesus estas primeiras palavras: “Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus.”. Trata-se da Boa Nova, ou seja, tudo aquilo que “buscamos”, na realidade, já está próximo. 

E para acolher esta Boa Nova faz-se necessária uma profunda conversão. O termo “conversão”, traduzido do grego “meta-noia” (mais além da mente), nos convida a “outro modo de pensar, de ver, de agir...” Trata-se de sair da perspectiva mental atrofiada para entrar em sintonia com aquela Presença que expande a nossa vida para além de nossos estreitos modos de viver, tanto na perspectiva pessoal quanto social.

Começa um tempo novo, uma história nova. Deus não nos deixa sozinhos frente aos nossos conflitos, sofrimentos e desafios. Quer construir, conosco e junto a nós, uma vida mais humana. Para isso, é preciso mudar a maneira de pensar e de agir; é preciso aprender a viver crendo nesta Boa Notícia. 

Isto que Jesus chama “Reino de Deus” não é uma religião. É muito mais. Vai mais além das crenças, preceitos e ritos de qualquer religião. É uma experiência fundante de Deus que resignifica tudo de maneira nova. “Reino de Deus” é o coração de sua mensagem e a paixão que animou toda sua vida


2 – O que o texto diz para mim?
O surpreendente é que Jesus nunca define o que é o Reino de Deus. Ele o encarna em suas palavras e em sua vida; é algo que irrompe, de maneira surpreendente. Posso dizer que “Reino de Deus” é a vida, tal como Deus deseja que a viva.

Se eu quero saber o que é o Reino, também devo me colocar a caminho com Jesus: Ele é o Reino. Ele foi o homem que se definiu que tinha claro qual era sua missão; por isso, me apresenta uma causa muito nobre e, com seu chamado, rompe meu estreito mundo e despertas em mim ricas possibilidades, reacendendo o que de mais nobre há em cada um e ampliando o horizonte de vida.

Para Jesus, a vida de uma pessoa vale pela causa à qual se entrega. Por isso, ao anunciar a presença do Reino do Pai, Ele desperta nas pessoas uma garra, uma vibração e um entusiasmo por esta causa tão nobre. Escutar e acolher a proclamação do Reino é uma prova de audácia e coragem, uma provocação à generosidade de cada um.

É preciso sonhar alto, ter ideal, ser uma pessoa corajosa e marcada pela esperança para poder “escutar” o apelo de Jesus; é preciso ser apaixonado (a), deixar-se empolgar, aceitar correr riscos na vida para saber o que significa “estar e fazer caminho com Ele”; é indispensável uma enorme generosidade para se dedicar incondicionalmente a uma grande causa; é preciso forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir além de si mesmo...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus não só se deixou mobilizar pelo “sonho do Reino”, mas foi também capaz de seduzir e mover outras pessoas a participarem desse mesmo sonho; sua presença inspiradora era capaz de despertar-nos outros o melhor de si mesmos e de mobilizá-los. Por isso, os primeiros discípulos deixaram-se impactar pela força do seu chamado e foram capazes de dar uma nova direção às suas vidas.

Não sei se o chamado ao seguimento foi assim tão rápido, como relata Marcos; mas, provavelmente, a forma um tanto mecânica em que ele se expressa, é uma maneira de destacar a força mobilizadora da presença e do chamado de Jesus. Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida estreita do lago de Genezaré para entrar no vasto oceano de vida proposto por Jesus.

Há um dado, um tanto quanto estranho no chamado de Jesus: parece ser um chamado que quase não tem programa. Ele afirma simplesmente: “serão pescadores de homens”. O que isto quer dizer?

Esta frase deve ser lida não no sentido quantitativo, típico dos proselitismos e da mentalidade moderna, mas num sentido mais qualitativo: “pescar homens” é extrair o melhor, a melhor versão humana de cada um, fazer emergir a autêntica qualidade humana desse mar turvo de inumanidade que somos todos.

Isso é pescar o humano” que todos carregamos dentro. No contexto atual, essa expressão tem uma enorme importância: porque é verdade que nem todos os homens desejam ser cristãos, mas, seguramente, continua sendo verdade que Deus deseja que cada um extraia de si a melhor versão possível.

O convite para “pescar homens”, que pode parecer uma expressão estranha, evoca a imagem de sair de um meio aquático e começar a respirar. Não poderíamos ver aí a possibilidade de ajudar outros em um novo nascimento, de uma saída das águas amnióticas para começar a respirar a vida do Espírito?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor apagaram-se as luzes do Natal; os Magos voltaram a seus países; Jesus foi revelado como o “Filho amado” no Batismo. Agora começa o tempo do “chamado”; agora começa o tempo do “fazer caminho com Jesus”; agora começa o “tempo do seguimento”.

Propriamente falando, Jesus não deixou como herança uma nova doutrina religiosa da qual se pode extrair alguns princípios que logo são aplicados à vida. O que Ele traz, a partir de sua experiência profética, é um novo horizonte para assumir a história, um novo paradigma para humanizar a vida, um marco para construir um mundo mais digno, justo e ditoso, a partir da confiança e da responsabilidade. 

Sua mensagem não provém do interior do sistema imperial nem da instituição do Templo. Pelo contrário, desmascara a iniquidade do Império e a conivência do Templo, sacudindo a indiferença de muitos e redefinindo as expectativas de outros. 

Jesus não é um escriba judeu, nem um sacerdote do templo de Jerusalém, nem um asceta do deserto. O específico seu não é ensinar uma nova doutrina religiosa, nem explicar a Lei de Deus, nem assegurar o culto de Israel. Jesus é um profeta itinerante, um homem a caminho, aberto às surpresas de Deus. Caminhava pela Galiléia, anunciando um acontecimento, algo que já está ocorrendo e que pede ser escutado e atendido, pois pode mudar tudo. Ele desencadeia um novo movimento humanizador, que coloca o ser humano no centro de sua missão. Ele já está experimentando isso e convida a todos a compartilhar esta experiência: Deus está comprometido com a história humana. É preciso mudar e viver tudo de maneira diferente. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O chamado de Jesus, portanto, me individualiza e me personaliza de modo irrepetível e inconfundível, confere um sentido completamente novo ao meu próprio nome. Jesus toma em suas mãos o futuro daqueles e daquelas que o acompanham: junto d’Ele vai adquirindo nova personalidade, definida pela referência a outros. 

Responder ao chamado de Jesus inaugura uma nova relação com os (as) seus (suas) seguidores (as): Ele adiante, eu atrás. O encontro com Ele atinge o núcleo de minha própria autonomia e de minha consistência pessoal, de minha vida profissional, familiar e relacional. 

Há um deslocamento de meus estreitos mares da vida e passo a respirar a imensidão de outro oceano.

Encontrar com Jesus é encontrar com o Reino de Deus. 

Jesus se põe totalmente a serviço da “causa” de Deus; Ele é inseparável de sua obra: o Reino que anuncia e que Ele faz presente.

Sou impulsionada a ser protagonista de uma história mais ditosa; sou movida a atrever a pensar e agir “fora do sistema” para entrar na lógica e na dinâmica do Reino de Deus. O Reino condensa e leva à plenitude todas as aspirações humanas.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,14-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Eu vou seguir – Fx 09 (03:24)
Autor: Fernando e Isaías
Intérprete: Beto & Betinho
Coro: Maria Luiza S. Gomes, Márcia M. C. Basso e Wilma Faggioli
CD: Beto & Betinho
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018

A BUSCA VITAL

“Quê buscais?” (João 1,38)


Texto Bíblico: João 1,35-40 


1 – O que diz o texto?
Um dos temas importantes do quarto evangelho é o da busca-encontro de Jesus. Ao leitor atento não passa desapercebido que a primeira palavra que o autor do evangelho põe na boca de Jesus é uma pergunta: “Quê buscais?”

Na realidade, parece que no ser humano tudo começa com a busca, pois é ela que põe em marcha todo o processo existencial. No princípio, sem saber bem o quê, ele busca “estar bem”, “sentir-se melhor”... E projeta a busca “fora”, naqueles objetos, pessoas, títulos, bens, ocupações..., que poderiam satisfazer sua sensação de carência e conferir-lhe maior segurança.

Mais cedo ou mais tarde, a vida lhe mostrará que nada que está fora é capaz de “plenificá-lo”, fazendo-o suspeitar que seja preciso dirigir o olhar para o seu interior.

Quem busca, entra em um movimento inspirador, criativo, despertando os melhores recursos da própria interioridade. É a busca que dá sentido e calor à própria vida. Quem não busca, vive um processo continuo de atrofia de sua própria humanidade, pois a busca é o dinamismo que mais nos humaniza.

Viver é desafiador na medida em que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que buscas e dir-te-ei quem és”.

Jesus não chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem faz proselitismo... Ele desencadeia um movimento e o seu modo de viver a todos seduz para identificar-se com Ele e com sua proposta de vida. Aqui não se trata de adesão a um programa nem a um projeto, senão do convite a um seguimento (“vinde e vede”), no calor e intimidade de uma relação pessoal que é dirigida a cada um em particular. Para isso requer-se uma resposta sem reservas, sempre mais criativa e ousada.

João evangelista quer deixar claro que há maneiras de seguir a Jesus que não são as mais adequadas. A pergunta – “onde moras?” -  não significa querer saber o lugar ou a casa onde habita Jesus, mas buscar uma identificação com a atitude vital d’Ele. 

Poderíamos ampliar a pergunta dos discípulos de João Batista: “Mestre, onde vives, ou seja, onde estão tuas raízes; quê é que te dá Vida; quê é o que te vivifica; diga-nos onde está a Fonte, para que nós possamos permanecer enraizados, sempre bebendo dela?”

“...e permaneceram com Ele naquele dia”: é a mesma expressão que João utiliza para dizer que o Pai permanece no Filho e o Filho permanece no Pai; ou que Jesus e sua Palavra permanecem em nós e nós somos chamados a permanecer n’Ele. Permanecer enraizados somente na pessoa de Jesus e no sonho do Reino como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas vidas.

Reconhecido em sua identidade, consciente de seu lugar e missão junto ao povo de Deus, o(a) seguidor(a) de Jesus continuamente mantém “fixo seus olhos fixos n’Ele” e deixa ressoar em seu interior sua pergunta radical: “o que vocês estão buscando?” 


2 – O que o texto diz para mim?
No interior de cada um permanece aguçada a dinâmica da busca, aquela que mantém a vida de todo coração e o incita na direção do que vale, do que conta e do que é essencial. Como ser necessitado e carente, o ser humano se sente impulsionado a buscar para conseguir acalmar sua insatisfação existencial. Mas a busca não guarda relação só com a carência, senão que é, ao mesmo tempo, expressão do desejo (aspiração) que parece constituir a pessoa e que se manifesta em forma de dinamismo vital (“buscar o que quero e desejo” – Santo Inácio).

A diferença entre ambos os movimentos – o que nasce da carência e o que nasce do desejo – poderia se expressar deste modo: pelo primeiro, o ser humano busca apegar-se e apropriar-se de algo que percebe como “bom” para ele e que lhe dá segurança; no segundo, pelo contrário, o que se dá é o impulso a viver e a expressar a própria identidade profunda. 

No primeiro caso, aqui fala do ego e seus movimentos egocentrados; no segundo, de minha verdadeira identidade, enquanto Plenitude que se transborda.

O coração de cada um foi feito para encontrar a razão mais profunda do seu viver; há uma inquietude latente em seu interior que o faz peregrino do sentido. Tão fundamental como é o respirar, toda pessoa precisa assumir sua condição de navegadora do infinito. Somos todos, por natureza, eternos buscadores e garimpeiros do novo. Por isso, buscar torna-se um hábito de vida.

Uma lógica de contínua busca deve permear o coração do(a) seguidor(a) de Jesus, para aprender a viver da busca d’Ele, e da busca de todos os outros, colocando-se a serviço da vida, unicamente por amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A vida se torna mais vida na medida em que se vive para dar razão a essa busca. Uma busca que exercita o coração e o modula na sinfonia amorosa do coração de Deus. Ele é a única e completa razão da busca do coração humano.

Estar em busca é sair de meu ser atrofiado pelas preocupações individuais para me mover num horizonte maior de pré-ocupação pelo Reino; estar em busca é perguntar, é estar aberta para ser tocada pela mais profunda das graças: a gratidão diante de Deus.

Enquanto eu estiver identificada com o eu superficial (o ego perceberá como ser carente e me sentirei compelida a uma busca ansiosa daquilo que supostamente poderia completar-me). Quando eu chegar ao reconhecimento de minha verdadeira identidade, a busca deixa de ser estressante para ser repousante.

Cairei, então, na conta de que a Plenitude não é “algo” que devo alcançar ou um “prêmio” que me aguarda mais adiante; é o que já sou e sempre fui. Quando a pergunta de Jesus – “quê buscais?” ressoa em mim, aí é que descubro minha mais autêntica maneira de ser, minha originalidade, minha identidade... Na realidade, o que ando buscando é o meu “eu verdadeiro”, o “eu profundo”, a “identidade original”. A busca revela minha identidade profunda. Com outras palavras: o que busco não é diferente do que já sou. O buscador é o buscado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Ao “ver Jesus”, estarei vendo quem eu sou, pois o encontro com Ele desvela meu “eu original”. 

Senhor, quando não me identifico com o meu “eu carente”, emerge a plenitude que sou: a semente enterrada se descobre espiga transbordante.

Os dois primeiros discípulos não lhe perguntam por sua doutrina, por sua religião, mas por sua vida. E Jesus não responde com um discurso, mas com um convite à experiência de vida. 

“Vinde e vede”, disse Jesus àqueles dois buscadores. “Entrai”, vinde à “Casa”, “reconhecei-vos na Vida que sois...; Vida que continuará se expandindo, movendo-vos a uma contínua busca, pois sois habitados por uma fome e sede de Plenitude”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Ter os olhos centrados em Jesus deixando-me impactar pelo Seu modo de viver, Sua paixão pelo Reino, Sua missão, Seu chamado.

Ter um olhar límpido e transparente na tentativa de se configurar ao olhar de Jesus.

Buscar e fixar os olhos em Jesus. 

Sentir e perceber os olhos de Jesus fixos em mim.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 1,35-40 
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Quando o sol desaparece – Fx 02 - (03:27)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Quando se vive um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Leitura Orante – Epifania, 7 de janeiro de 2018


Leitura Orante – Epifania, 7 de janeiro de 2018

EPIFANIA: caminho da transparência interior

“A  estrela  que tinham visto surgir começou a guiá-los até que, tendo chegado sobre o lugar onde estava o menino, se deteve.” (Mt 2,9)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
Teilhard de Chardin, paleontólogo jesuíta, manifestou repetidas vezes, o desejo de que a solenidade da Epifania mudasse de nome, ou ao menos de prefixo. A solenidade de hoje deveria denominar-se “diáfana” em lugar de “Epifania”, para ressaltar que festejamos o dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo se revela em plena transparência, como fundamento de tudo e de todos, fonte e fim, alfa e ômega. 

Teilhard não vê o relato dos Magos como uma “verdade fotográfica”, mas como uma verdade que nos ilumina sobre Aquele que enche o universo com sua presença dinâmica, sobre Aquele que dá sentido à nossa história, tornando-a “diáfana” (transparente).

Porque, neste mistério, não se trata propriamente de uma repentina irrupção de quem é o Salvador, senão muito mais de uma misteriosa e silenciosa “diáfana”, mediante a qual o recém-nascido em Belém deixa “transparecer” o verdadeiro rosto do Deus misericordioso e compassivo. Nele, Deus se humaniza para também desvelar (tirar o véu) e deixar transparecer a verdadeira e divina identidade de cada ser humano, escondida na interioridade de cada um.

Nosso eu profundo é habitado por “Magos” e “Herodes”: impulsos de vida e impulsos de morte, busca da verdade interior e busca do poder, caminho de “saída de si” e caminho de “auto-centramento”... O Nascimento de Jesus desvela e ilumina nosso interior e nos coloca diante deste desafio: qual dos dois dinamismos nós alimentamos? Qual caminho marca a nossa vida? O caminho dos Magos ou o medo de Herodes?

Continua acontecendo atualmente às famosas peregrinações que levam a Meca, a Santiago de Compostela, a Jerusalém, a Roma..., mas, na verdade, segundo o evangelho de hoje, a primeira e mais importante de todas é a peregrinação dos Magos que vão até Jesus, guiados pelo canto e pelo chamado de sua Estrela (a Estrela de Deus, a Estrela de cada um).

Os Magos consultavam os astros do céu para compreender o caminho da humanidade na terra.  Examinando os céus, descobriram uma estrela brilhante como nenhuma outra. E ficaram fascinados com o seu fulgor. Deixaram-se conduzir por inquietações e buscas, talvez não oficialmente “religiosas”, mas sim profundamente humanas, que pulsam no interior de cada pessoa; perguntaram, comunicaram o que tinham visto, seguiram adiante em tempos de obscuridade e, como recompensa de sua busca, “encontraram o Menino com Maria sua mãe”. 


2 – O que o texto diz para mim?
Foi assim a longa jornada dos Magos, seguindo o caminho que a luz da estrela lhes indicava. E ao final de longa peregrinação chegaram ao lugar procurado.

Eles, então, ficaram iluminados, não pela luz da estrela, mas pela luz da criança, pois é na simplicidade e pobreza dela que resplandece a Luz de Deus.

Os Magos retornaram, depois, a seus países, agora convertidos em portadores da Nova Luz. O encontro com o Senhor os transformou. Todo encontro com Jesus era e é um encontro que transforma radicalmente. Alguns encontros são fundantes, são como uma pedra angular sobre a qual posso começar a construir algo novo; outros encontros reavivam e ativam os fundamentos de minha vida.

Hoje também estou vendo sinais. Em minha vida sempre há alguma estrela que me guia até Belém.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Posso me assustar e permanecer paralisada, olhando as estrelas, mas os sinais não me são dados para ficar pasmada, mas para me deixar interpelar e responder. Algumas vezes me convidarão à interioridade e outras me mobilizarão a fazer caminho, mas sempre me tirando da acomodação e me abrindo horizontes. Os sinais me comprometem e me dinamizam. Preciso ler e interpretar para onde as “estrelas”, que aparecem no horizonte da vida, me conduzem. 

Esta é a Grande Peregrinação que os profetas haviam prometido como um caminho que leva para a Nova Jerusalém da Paz e da vida. Mas, segundo o evangelho de Mateus, essa Peregrinação da Luz não leva a Jerusalém (cidade dominada pelo Rei Herodes e pelos sacerdotes cúmplices da morte), mas a Belém, que é a “Casa do Pão”, a “Casa da Lua”, pois alimenta e ilumina homens e mulheres que, na noite da existência, buscam um sentido para a própria vida. Por isso, uma peregrinação que continua sempre aberta.

Esta é também a minha peregrinação em direção à minha Belém interior; a vida mesma é entendida como caminho de desvelamento de minha verdadeira identidade e de descoberta da minha própria verdade (o que é mais divino em mim). No encontro com Aquele que é a Luz e que ilumina todo ser humano, ativa-se a “faísca de luz” que levo em meu coração. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Epifania não é só hoje, Epifania é sempre, é minha vida. 

Senhor, frente ao Rei Herodes e frente a todos os Reis e Sacerdotes do poder estabelecido, que só buscam o domínio sobre os outros (que são capazes de matar, porque não tem outra riqueza), emergem, no relato de Mateus, os “magos”, que realizam o caminho de iniciação, que os leva à verdade de sua própria vida, a verdade do Deus dos pobres, a verdade de Belém.

Todos somos “magos”, homens e mulheres que buscam a Deus, em gratuidade, em reverência, em constante surpresa... Por isso, desde a Idade Média, os Magos aparecem como sinal de reverência amorosa, no caminho de iniciação que tenho de fazer para o encontro de minha verdade original. 

A Estrela dos magos é o mesmo Jesus, cuja luz brotou em Belém, para iluminar, a partir dali, a todos os homens e mulheres. Por isso, os magos me ajudam a descobrir Aquele que é a Luz, para que, a partir do encontro com Ele, eu mesma seja luz, seja Cristo, feita Epifania (manifestação) e diáfana (transparência) de Deus na terra. Somos os “magos”, milhares de homens e mulheres de luz, estrelas de Deus espalhadas pela imensidão do universo do Criador.

O presente dos magos (ouro, incenso e mirra) é minha própria vida, que se faz dom de Deus, para mim mesma e para os demais. Sou ouro, o de maior valor, mas não em forma de capital monetário para comprar e vender, mas como beleza da vida que se faz dom-presente para ser compartilhado. Sou incenso, o melhor odor do Natal, o perfume mais precioso, para exalar santidade, amor, compaixão… em meio a um ambiente fétido de morte e exclusão. Sou mirra, unguento do amor, como o que usavam os noivos, unguento da vida com o qual se despedia dos mortos, esperando a ressurreição.  

Minha vida mesma é um presente de que venho oferecer a Deus e aos outros, no transcurso da noite luminosa de minha existência, dirigida para Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Epifania, portanto, é a festa da “estrela de Deus”, que não só ilumina o caminho da humanidade; ela é a grande Festa de Iniciação, de “descobrimento da própria luz”, ou seja, da Luz do Deus de Jesus em minha própria vida. 

Por isso, no sentido mais profundo, sou “phosphoros” (fósforo) ou “phosphorantes”, portadora de luz, lamparina de Deus neste mundo envolto em trevas; sou uma estrela de Deus no imenso mar de constelações. Sou luz de Deus, porque Deus é minha luz, a lâmpada de sete luzes que é a única Luz de verdade em minha existência.

O relato dos Magos me convida a ir ao encontro do ano novo por outro caminho. 

Transitar por um caminho novo é que deveria caracterizar o começo deste novo ano. E esta mudança de estratégia deveria ser criativa, buscando alternativas desconhecidas e novas para enfrentar os desafios que a realidade na qual vivo me apresenta. A criatividade não está em dizer ou fazer coisas raras ou extraordinárias, mas em saber dizer e fazer o mesmo com outra motivação, com outra inspiração, de maneira que o resultado seja sempre melhor.

Sou chamada a reler muitas vezes minha vida, à luz das experiências que tive, e tomar consciência de que cada encontro me vai configurando, até chegar a uma identificação mais profunda com Jesus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Estrelas me contam Fx 13 – (02:34)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj e Gina Almeida
CD: De volta para o meu interior
Gravadora: Paulinas Comep