domingo, 30 de dezembro de 2018

Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de janeiro de 2019


Leitura Orante – ANO NOVO, 01 de janeiro de 2019

ANO NOVO: alimentar uma esperança criativa

“Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, 
José e o recém-nascido deitado na manjedoura”. (Lc 2,16)


Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
1º de janeiro é uma data carregada de conotações profundamente humanas: início de um novo ano, o encontro dos pastores com o Menino Jesus, a maternidade divina de Maria, dia Mundial da Paz...

Ao começar o novo ano, a primeira atitude que devemos alimentar é a da gratidão: dar graças a Deus pelo dom do tempo, que é o dom da vida, o dom fundamental. O tempo é graça e tudo depende do que fazemos com ele: podemos fazer dele um tempo morto ou um tempo vivo (carregado de possibilidades, recursos, criatividade, tempo oblativo, aberto ao novo, tempo inspirado…)

O começo do ano nos convida a pensar sobre nossa forma de ativar este “grande tesouro” que é o tempo; Deus nos concede este ano para que multipliquemos a vida, enriquecendo-a de sentido, qualidade e calor humano; é uma nova oportunidade que Ele nos concede para crescer e ajudar a crescer, para alcançar uma experiência nova da vida, de encontro com Ele, com os outros, conosco mesmos. 

A festa da travessia para um Novo Ano é uma ocasião privilegiada para descobrir o quê estamos fazendo com nosso tempo. Podemos estar desperdiçando ou perdendo aquilo que nos foi dado para que vivamos com mais intensidade. Vão passando os anos e com eles as oportunidades de dar verdadeiro sentido às nossas vidas. É o momento por excelência da potencialidade de vida, tempo mágico onde as promessas começam seu caminho de realização.

Quem contempla a realidade com os olhos simples dos pastores, não faltarão ocasiões de reconhecer a criatividade de Deus em ação, a inovação do Espírito movendo corações, criando cenários novos, mais humanos, com mais profundidade, mais do Reino...

Talvez muitos se perguntam para onde vai nosso mundo, surpreendidos e preocupados pelo crescimento de fenômenos desconcertantes. Em muitos países triunfam líderes populistas, manejados por forças ocultas sem escrúpulos e marcados por discursos intolerantes, preconceituosos e julgamentos moralistas; a corrupção vai lançando raízes em todos os ambientes; os conflitos e as rupturas se acentuam; a Igreja católica é sacudida por uma grande crise de credibilidade; o sistema de valores e conhecimentos está mudando profundamente. Vivemos um momento de transição ou um colapso de uma civilização: uma metamorfose da sociedade que afeta todos os aspectos da vida, pessoal e coletiva, de toda a humanidade. Trata-se, pois, de uma crise global, embora às vezes possa parecer local ou inclusive pessoal.


2 – O que o texto diz para mim?
Como nos tempos bíblicos, também estou vivendo um “exílio”. Tanto naquele como neste contexto atual é que se revela a missão original e inspiradora dos profetas.

Como ser presença diferenciada em meio a muita gente desconcertada e desesperançada? Como alimentar esperança? Como ativar uma imaginação criativa?

Esta deve ser a marca característica dos seguidores e seguidoras de Jesus: o otimismo frente à realidade e a esperança diante daquilo que vem. Crer em um Deus que se encarna no simples e que realiza suas promessas permite começar o ano como quem estreia todas as possibilidades, inclusive abertura às possibilidades antes inexistentes. Isto é o que ocorre no tempo natalino: a irrupção de Deus no pequeno e a partir de baixo modifica radicalmente a visão atrofiada da realidade e me capacita a vislumbrar o broto germinal de uma nova história.

Por isso, sou gente carregada de esperança, pois sou n’Aquele que faz tudo novo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Para muitos pode lhes causar estranheza que a Igreja faça coincidir o primeiro dia do novo ano civil com a festa de Santa Maria, Mãe de Deus. E, no entanto, é significativo que, desde o século IV, a Igreja, depois de celebrar solenemente o Nascimento do Salvador, me motiva a começar o ano novo sob a proteção maternal de Maria, Mãe do Salvador e Mãe da humanidade.

É bom que, diante do Novo Tempo que se inicia, elevo meus olhos para Maria. Ela me acompanhará ao longo dos dias com cuidado e ternura de mãe. Ela inspirará minha fé e minha esperança.

Dia Mundial da Paz. Talvez seja uma das carências que mais afeta o ser humano de hoje, porque a ausência de paz é a prova palpável de uma falta de humanidade em todos os níveis. Não posso descobrir o que significa paz quando me vejo cercada de violências e conflitos; não posso experimentar a paz alimentando uma “cultura da indiferença” e da suspeita.

Não são as contendas internacionais, por muito danosas que sejam que impedem os seres humanos alcançar sua plenitude. Os grandes conflitos têm sua origem em meus próprios conflitos internos; meu coração está carregado de maledicências, julgamentos, legalismos, moralismos e imposições sobre os outros...

O medo daquele que pensa, crê, sente e ama de maneira diferente aumenta as distâncias, cria muros e bolhas de proteção que dão uma falsa sensação de segurança e paz. Nunca se investiu tanto em segurança e, no entanto, a cultura da paz está cada vez mais esvaziada.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a paz não é uma realidade que posso buscar com um cantil. A paz será sempre a consequência de relações verdadeiramente humanas, entre todas as pessoas. Se não existe uma autêntica qualidade humana não pode haver uma verdadeira paz, nem entre as pessoas nem entre as nações.

O primeiro passo na busca da paz deve ser dado por mim, caminhando em direção ao meu próprio interior. Se não consigo uma harmonia interior, se não descubro meu verdadeiro ser e o assumo como a realidade fundamental em mim, nem terei paz nem a poderei levar aos outros. Este processo de maturação pessoal é o fundamento de toda verdadeira paz. Uma autêntica paz interior se reflete em todas as minhas relações humanas, começando pelos mais próximos.

Quando perco o caminho da interioridade, permaneço na superficialidade de mim mesma; ali não há húmus onde enraizar a paz; é da superficialidade de mim mesma que brotam os julgamentos, a indiferença, a atrofia da comunhão, o extravio da ternura, a segregação..., constituindo o ambiente favorável para todo tipo de rupturas, conflitos, frieza nos relacionamentos...

É preciso, como os pastores, entrar na Gruta interior para encontrar Aquele que é o Príncipe da Paz; aproximar desta Criança significa ativar todos os recursos pacíficos que carrego dentro de mim.

Ah se eu recuperasse o sentido do “shalon” judaico! Nessa palavra se encontra condensado todo o significado verdadeiro da paz. A palavra “paz” hoje, tem conotações exclusivamente negativas: ausência de guerra, ausência de conflitos, de intrigas, etc... Mas, a expressão “shalom” se refere às realidades positivas; dizer “Shalom” significa manifestar um desejo de que Deus conceda a cada um tudo o que necessita para ser autenticamente humana incluída a presença mesma de Deus no interior de cada um.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na raiz bíblica do termo “shalon” está a ideia de “algo completo, inteiro”.  A paz pertence à plenitude, à completude, enquanto a violência está do lado da falta, da carência, do incompleto. 

Paz reflete harmonia consigo boas relações com os outros, aliança com Deus, enquanto a violência infecciona os relacionamentos, contamina a convivência, quebra as relações, exclui os mais fracos...

Este é o desafio diante do Novo Ano que se inicia: devo primar por construir “ambientes de paz”: paz que vem do alto, que brota do interior e aquece os corações, plenifica as relações e se expande, tal como perfume, em todas as direções. 

Paz é aspiração congênita do ser humano. O coração humano foi feito para a paz e anseia a convivência harmoniosa com Deus, com o cosmos, com os semelhantes. É processo interminável.

Aprender a amar, preocupar-se com os outros, vibrar com a diferença, entrar em harmonia não só com as outras pessoas, mas com toda a criação é a autêntica preparação para a paz. Quem ama não cria conflitos e fica encantado quando todos tenham acesso aos melhores recursos na própria interioridade.

Reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar juntos...

Recordar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando em mim ao longo da vida.

Feliz Ano cheio de Deus!


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Canto de paz – fx 05
Autor: Valdomiro Pires e Emmanuel santos
Interprete: Emmanuel 
Coro: Paulinho Campos, Ricardo Moreno, Yara Negrete, Claudia Ferrete, Vera Veríssimo
CD: Canto de paz - Emmanuel
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:37

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 30 de dezembro de 2018


Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 30 de dezembro de 2018

ESPAÇO FAMILIAR: tempo de enraizamento
                 mística do encontro no cotidiano

“Jesus desceu com eles a Nazaré e lhes era obediente.” (Lc 2,51)



Texto Bíblico: Lucas 2,41-52


1 – O que diz o texto?
Nazaré é a escola do Filho de Maria, rodeado de gente comum, com sua paisagem natal, sua linguagem, seu modo pessoal de ser e viver, sua conduta, sua fé...

Na “vida oculta em Nazaré” encontramos os “nomes” e “verbos” nos quais Deus falou em Jesus e onde continua nos falando hoje. Ali Ele se faz “um entre tantos”, vizinho com os vizinhos, trabalhando com os que trabalhavam, acolhendo a vida cotidiana em toda sua riqueza e limitação. Ele é “o filho do carpinteiro”.

Para Jesus, Nazaré é um tempo de aprendizagem: olha, escuta, observa tudo o que acontece nesta escola do cotidiano. Exercício de preparação diante das urgências do Reino. “Tempo de enraizamento...”.

Jesus conheceu a dor real do povo, na escola do Pai, que é a escola da vida humana, em contato com as necessidades dos mais pobres e excluídos, em solidariedade laboral. Assim aprendeu a ser humano, ouvindo os gritos dos homens e mulheres de seu entorno, expulsos, oprimidos, como ovelhas sem pastor. Não teve que entrar no lugar da exclusão a partir de fora: cresceu ali dentro.

Na escola da vida, comum e cotidiana, Jesus também foi aprendiz. 

O artesão de Nazaré nos ensina o valor das coisas cotidianas quando são feitas com dedicação e carinho.

Nesta “ocultação”, estava assumindo a condição da imensa maioria dos mortais deste mundo, dos homens e mulheres “comuns”, daqueles que vão trabalhar ou estão sem emprego, daqueles que precisam “ganhar a vida”, porque na vida não encontram seu lar, daqueles que são pura estatística...

Aprender é consequência básica da dinâmica da Encarnação. Lucas confirma:
“Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e diante dos homens”. (Lc 2,52)

Portanto, Jesus viveu a vida como um processo lento e progressivo, a partir da própria condição humana no meio do povo e em vista do Reino de Deus, graças a uma criatividade transformadora.



2 – O que o texto diz para mim?
Foi no cotidiano familiar que Ele aprendeu, aos poucos, a ampliar seus horizontes, seus interlocutores e o sentido de sua missão. É a vida cotidiana que me revela que Jesus foi uma pessoa nitidamente humana e humanizante, que vivenciou um processo de maturação, de releitura de suas tradições e assimilação do novo, até chegar à proposta original da Boa-Nova.

Foi no cotidiano que Jesus viveu a “mística do encontro”: viveu intensamente, em primeiro lugar, o encontro com o Pai, conhecendo e realizando Sua Vontade; foi em Nazaré que aprendeu a valorizar e a saborear o encontro com todas as pessoas. Encontros humanizadores que O humanizaram.

Na sua vida em Nazaré Jesus me convida a entrar na sua casa para aprender d’Ele e com Ele os valores próprios de uma família. É difícil compreender a “normalidade” da vida de Jesus; parece até que o Reino não tinha exigências sobre a sua vida. 

Identificando-se com a vida de todo mundo mostrava que a salvação não consistia em coisas extraordinárias e em gestos fantásticos, mas na “adoração do Pai em espírito e verdade”. Jesus passou praticamente toda sua Vida nesta humilde condição; viveu desapercebido como Messias. Pois o Reino se revela no pequeno, no anônimo e não no espetacular, no grandioso. Ele está misteriosamente se realizando em mim..



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Nazaré é o sinal da “epifania” de Deus nas pequenas coisas, é o sinal da palavra divina escondida nas vestes humildes da vida simples, é o sinal do sorriso de Deus que se faz visível nos espaços comunitários.

Tanto em Nazaré quanto na vida pública, Jesus me comunica uma profunda união com o Pai, vivendo uma oração confiante e de entrega.

Jesus sente quando o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos” e saberá discernir, nesses sinais, a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começará, então, uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.

No espaço familiar, em Nazaré, Jesus se revela, a todos, como presença inspiradora neste momento em que as transformações são rápidas e exigem de mim maturidade, aprendizado, diálogo, novas expressões de fé... Um dos desafios da espiritualidade atual é motivar a viver a vida em profundidade, apesar da aridez do deserto do cotidiano.

O ritmo da sociedade atual e, sobretudo, o culto à novidade, ao efêmero, ao superficial, ao consumismo, pede de mim que recupere a dimensão de profundidade em minha vida cotidiana.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o chamado universal à santidade me faz confiar profundamente na vida cotidiana, ou seja, no dia-a-dia da vida familiar, no exercício da profissão, nas relações da vida social, nas decisões éticas, na ação cidadã, no campo dos direitos humanos,  da economia, na presença ativa da política, no mundo da cultura, no cuidado e preservação da vida, no diálogo com os meios de comunicação..., como “lugares agraciados” de encontro com Deus e manifestações explícitas de compromisso cristão.

Custa-me muito descobrir a “espiritualidade da vida familiar cotidiana”, a vida de cada dia me parece sem sentido, sem muito destaque e sem muitos fatos extraordinários; tenho ainda muito que aprender da vida cotidiana do artesão de Nazaré.

Precisamente a vida cotidiana é o lugar privilegiado para descobrir Deus (“por onde passa meu Senhor”), sentir o sabor da Sua presença que permanece. Os lugares cotidianos são “lugares sagrados” de encontro com o Senhor da Vida.

Encontrar a Deus no cotidiano significa que é preciso viver em um contexto vital no qual cada um se sinta estimulado a tomar decisões, a assumir responsabilidades, grandes e pequenas, a cuidar pessoalmente dos processos concretos da vida de cada dia.

É vital descobrir se minha vida cotidiana é egocêntrica ou excêntrica, se tem a marca da “cultura do encontro” ou da “cultura da indiferença”, se a missão de minha vida me projeta para o compromisso com o outro, se tenho paixão pelo Evangelho encarnado nos ambientes onde me faço presente cotidianamente.

A realidade cotidiana da minha Nazaré é o lugar onde sou chamada a viver a espiritualidade cristã e a deixar-me conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana e a assumir o risco da história. Ser seguidora de Jesus, inserida no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo tê-Lo como inspiração de vida: suas palavras, suas ações, sua relação com o Pai e com os outros...



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A espiritualidade cristã é a espiritualidade do cotidiano, que conserva sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico.

É a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais.

É a espiritualidade que faz descobrir, escondida no cotidiano, uma Presença absoluta que me envolve.

É a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e cotidiano da vida...

É a espiritualidade que projeta a vida a cada instante; abre espaço à ação do Espírito para que Ele me expanda, me alargue e me impulsione em direção a uma nova humanização.

A vida cotidiana exige não apenas fidelidade, mas também amor, gratuidade. É o lugar que inspira a viver encontros  com a marca da surpresa, da acolhida do diferente, do respeito ao outro...



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,41-52
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Família vale mais
Autor: Padre Ezequiel Dal Pozzo
Interprete: Padre Ezequiel Dal Pozzo
CD: Jesus, Maria e José – minha família vossa é
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:45

sábado, 22 de dezembro de 2018

Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2018


Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2018

NASCIMENTO DE JESUS: Deus se deixa encontrar nas periferias

“Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, 
pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7)


Texto Bíblico: Lucas 2,1-14   


1 – O que diz o texto?
No Natal celebramos esta realidade: Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao encontro do ser humano como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. Deixemo-nos surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou nossa vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de nós mesmos.

Se Deus correu o risco de encarnar-se, de nascer pobremente e crescer como salvação a partir da exclusão deste mundo, já não há excluídos para Ele, ninguém fica fora d’Ele. E o lugar principal para a festa é ali onde Ele aparece: nos “aforas”, onde não há lugar, onde tudo parece esgotar-se e é condenado a crescer em meio às ameaças e às intempéries das situações humanas.

Jesus, em Belém, encontrou o seu lugar: nas periferias. A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.

Jesus se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que foram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar. Na Gruta, Jesus teve sua preferência e escolheu o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se fazem donos dos lugares.


2 – O que o texto diz para mim?
Um “lugar” é sempre mais do que um simples lugar. A geografia de cada “lugar” revela lembranças, referências, ansiedades, medos, saudades...; cada “lugar” guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vidas, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências... Na verdade, o “lugar geográfico” se confunde com o “lugar interior”. É no lugar geográfico que o lugar do coração encontra seu suporte e seu repouso. Quando digo: “não tenho lugar”, “estou sem lugar”, “tenho medo deste lugar”...quer significar que o coração não encontrou no lugar geográfico o seu lugar próprio.

O Natal me convida a imaginar lugares em movimento, lugares de encontro, de desafio, lugares provocativos e criativos..., enfim, lugares carregados de presença.

Celebrar o Natal implica um contínuo êxodo do “lugar estreito e dispersivo” ao “lugar expansivo e unificador”; ali vivo uma permanente travessia dos “meus lugares rotineiros e auto referenciais” para os “amplos lugares cristificados”.

A travessia para a Gruta é um risco, é um salto para outro “lugar”, é deixar-se afetar por este “outro lugar”: lugar iluminado por uma Presença despojada de poder, de riqueza, de prestígio...

O mistério do Nascimento é profundamente “espacial”:  um lugar vital, dramático, que questiona, ilumina, vitaliza e carrega de sentido os lugares cotidianos. Ele me ajuda a ter acesso a um “lugar inspirador”, um polo de referência e de atração, onde me sinto acolhida, integrada e pacificada na “presença”  d’Aquele que, na Gruta, assume e ilumina todos os lugares, sobretudo dos mais excluídos.

A Gruta de Belém é o espelho dessa experiência originária que transforma o “caos” cotidiano em “cosmos” e que, somando-se a outras experiências semelhantes, ativa o modo original de ser e de estar no mundo. Entrar no espaço do Nascimento de Jesus configura e ordena de modo novo e diferente, os lugares por onde transito.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sei que o espaço faz parte do ar que respiro em nível fisiológico e biológico, como faz parte das minhas experiências interiores. No entanto, vivo um tempo de confusão de “lugares”, consequência de uma confusão interior. Minha sociedade parece estar indo à deriva porque não sabe mais reconhecer “espaços diferentes e vitais”, porque tudo se torna igual e os lugares não falam mais, pois carecem de sentido e se revelam como lugares vazios. Os espaços são violados, os “lugares sagrados” são profanados, os “ambientes” carregados de sentido e de história já não revelam mais nada...

Esse é o primeiro sintoma de uma visão humana desastrosa e desastrada. Na insignificância e no achatamento dos espaços está o primeiro e mais grave esmagamento do pensamento e da consciência, a ruptura das relações sociais, a indiferença para com o lugar do outro que é diferente, frieza ecológica e o definhamento das experiências religiosas.

Descer ao lugar da Gruta para encontrar uma Criança desperta em mim um novo “olhar” para perceber, com mais nitidez e intensidade, os lugares por onde transito uma nova disposição para dar sentido e valor aos lugares cotidianos, um olhar solidário para perceber o lugar do outro, uma nova sensibilidade para “ver” a Presença d’Aquele que ocupa todos os lugares.

Não é comum prestar atenção ao lugar ocupado pelo outro, sobretudo o outro que pensa e sente diferente; é normal perceber, delimitar, defender e fechar-se no próprio lugar. Isso se faz de maneira tão zelosa que nem se vê aquilo que está para além do próprio lugar. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgente. O próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o profeta Isaías me recomenda ampliar o “lugar interior”: “Alarga o espaço de tua tenda, estende sem medo tuas lonas, alonga tuas cordas, finca bem tuas estacas” (Isaías 54,2). Um “lugar sagrado” que nasce do coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade...

Ampliar os espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando os “espaços interiores”, abrasados e iluminados pelo Nascimento de Jesus, começam a romper as paredes e se encarnam em “lugares exteriores”, marcados pela beleza e encantamento: lugar familiar, lugar celebrativo, lugar social, lugar de convivência, lugar de trabalho...  lugar nobre que só tem sentido quando carregado de presenças. 

Só quem transita com liberdade pelos “lugares interiores” será capaz de ir ao encontro dos outros e entrar em sintonia com eles. O “lugar externo” é o prolongamento do lugar percorrido e saboreado internamente. Não tem sentido ampliar os lugares externos se minha mente permanece estreita, se meu coração continua insensível, se minhas mãos estão atrofiadas, se minha criatividade sente-se bloqueada...

Lugar amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se, ousar ir além, lançar por terra meu modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos para ir ao encontro dos “novos lugares” dos excluídos e marginalizados.

Preciso me levantar cotidianamente de meus “lugares”: há sempre um “lugar ferido” que me espera, um “ambiente atrofiado” a ser curado, um “espaço” excluído a ser visitado... 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É o ser humano mesmo o verdadeiro lugar a partir do qual Deus se encontra e se dá a conhecer; cada pessoa é o autêntico lugar da eterna presença de Deus.

O melhor presente: “uma cesta natalina” repleta de sensibilidade, tolerância, compreensão, alegria, acolhida, proximidade, generosidade, solidariedade... 

Este é o verdadeiro Natal: que, em Jesus, nossos espaços cotidianos sejam incubadores de encontros humanizadores, foco de reconhecimento da dignidade de todas as pessoas.
                                                                       

Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,1-14   
Um Santo Natal a todos.
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Noite Feliz - cantada
Autor: F. Gruber
Interprete: Coral Eco
Regente: Maestro Teruo Yoshida 
CD: Boas Festas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:14

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Leitura Orante – 4° Domingo do Advento, 23 de dezembro de 2018


Leitura Orante – 4° Domingo do Advento, 23 de dezembro de 2018

ADVENTO: TEMPO DAS MULHERES

“Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou em seu ventre...” (Lc 1,41)


Texto Bíblico: Lucas 1,39-45


1 – O que diz o texto?
Os sinais da quarta Semana do Advento nos devolvem à beleza do pequeno, à humildade do cotidiano, à simplicidade dos encontros. No mistério da Visitação, uma simples saudação, essa experiência universal de acolhida do outro, desencadeia uma torrente de comunicação entre duas mulheres grávidas que se enchem de júbilo, bendizem e se alegram juntas enquanto a vida cresce em suas entranhas.

No encontro entre Maria e Isabel a comunicação abarca, com igual intensidade, tanto a dimensão corporal como a que se expressa em palavras. Nesse clima de confiança total acontece o diálogo entre elas. Duas mulheres que compartilham um segredo que não são capazes de entrever em toda sua imensidade, carregada de transcendentais consequências. E nessa efusão de duas pessoas simples, unidas pelo sangue e sobretudo pela fé, se reconhecem partícipes de uma história que as ultrapassa. Encantadas, agradecidas, maravilhadas, expressam os sentimentos de seu coração no louvor a Deus. “Minh’alma engrandece o Senhor” é a primeira mensagem do Magnificat com que nos evangeliza aquela jovem simples de Nazaré que guardava em seu coração todas as coisas que iam acontecendo.

O evangelho da Visitação nos convida a contemplar como Maria saiu de sua casa e empreendeu apressadamente uma viagem; viagem que é metáfora de todas as viagens da existência humana. Maria disse “fiat” a Deus, pôs-se a caminho e foi renovando cada dia de sua vida esse arriscado e confiado “sim”. Advento, tempo de espera no qual Maria é protagonista, guardando um segredo que afetará a todos nós. O que a move a sair é um grande projeto que vem do alto. Assim ela nos revela que não se pode viver sem mistério, sem paixão; que o mistério nos deslumbra nos supera e nos dinamiza.

Em Isabel, podemos admirar como se une o assombro por uma maternidade inesperada com a ação do Espírito atuando sobre sua esterilidade. Seu assombro e exaltação ecoam com a alegria e a dança da criança que carrega em suas entranhas. Isabel, a mais velha, se inclina diante de Maria, a mais jovem, num abraço e num beijo acolhedor. As duas são portadoras de mistério; estão profundamente marcadas pela comoção. Nelas tudo é surpresa, vibração e alegria.


2 – O que o texto diz para mim?
Isabel e Maria não só se acolhem e se animam, mas se acompanham e se ajudam. O acompanhamento entre ambas se converte em fonte de bênçãos. 

Maria descobre que não se encontra sozinha; há uma mulher que lhe acompanha.

Ela quer compartilhar sua experiência de mulher (e futura mãe) com outra mulher, sua “prima” Isabel, a mãe do Batista.  Maria vai ao encontro de Isabel para sentir o apoio na figura de uma mulher madura, mas cheia de vida e de futuro. Não se dirige ao Templo nem ao sacerdote... Os homens de então não são capazes de entender o que está acontecendo nestas duas mulheres, pois estão preocupados com outras coisas. Maria precisa dizer para outra mulher, para celebrar com ela “a maravilha que Deus estava realizando nela”. Toda a história da esperança humana, a humanidade inteira se condensa em duas mulheres.

Ambas, tocadas pelo Espírito, seguem sua própria evolução: cada uma tem sua gravidez, e isto requer cuidado, proteção, equilíbrio...

Assim, as duas unidas caminharão em direção a um maravilhoso futuro desconhecido. O novo precisa companhia, unir mãos e corações, mentes, forças e pés. Cada uma com seu segredo dentro de si, presente em suas entranhas. As duas com uma forte convicção: foram visitadas pela misericórdia de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em nome do filho que dança no seu ventre e tomando a palavra dos grandes sábios da Antiga Aliança, como encarnação da esperança do povo israelita que aguardou este momento durante séculos, Isabel canta a grandeza da mãe do Messias: “Bendita tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o senhor lhe prometeu”.

Esta é voz de benção, ou seja, de graça criadora e abundância. Esta é a benção e a bem-aventurança que dirigem a Maria todos os “esperantes” do Antigo Testamento. Esperaram longos séculos, dirigidos, animados, pela voz dos profetas. Agora podem sentir-se satisfeitos. Chegou o cumprimento e assim o confirma, em nome de todos, Isabel, mulher israelita, mãe profética.

É verdade que as bênçãos eram comunicadas pelos sacerdotes. No entanto, Isabel bendiz Maria em sua plena juventude e grávida de Deus. Bendiz o fruto de suas entranhas. Só esta mulher que engendrou em sua velhice, assumindo a voz do profeta que carrega em sua entranha, pode entender e receber a mãe messiânica, proclamando sobre ela a grande voz do cumprimento dos tempos. Estou no centro da oração mais querida dos cristãos católicos (depois do Pai-Nosso), que é a Ave Maria.

Maria recebe agradecida as palavras de benção e lhe responde dando graças a Deus com o Magnificat.

Advento é o tempo das mulheres, ou seja, daquelas que tem uma surpresa a oferecer, pondo-se a serviço do amor de Deus que levam em seus ventres, amor que as envolve e as transcende, fazendo-as servidoras da vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a cena da Visitação me situa em um espaço intenso de mulheres. É como se, ao chegar o momento culminante da revelação, os varões passassem a segundo plano. Certamente, realizaram e em algum sentido continuam realizando funções socialmente importantes: fazem negócios, servem como sacerdotes no templo, estudam e explicam o sentido da lei como escribas, definem e encarnam a pureza do povo eleito como os fariseus...

Esses e outros ofícios de varões foram e são valiosos; mas ao chegar à plenitude dos tempos acabam se tornando secundários, pois Deus não precisa de sacerdotes, nem de fariseus, nem escribas, como os antigos. O cuidado da vida e a vida mesma do Messias de Deus, como futuro salvador da humanidade, está em mãos de mulheres.

Também a Igreja hoje deve viver “em tempo de “parto”, pois carrega em seu ventre Alguém maior que ela mesma; ela só poderá “dar à luz” a Deus na história da humanidade se renunciar às suas grandezas externas, feitas de riquezas e privilégios, de honras e poderes...” e revestir-se da simplicidade, da ternura e da acolhida amorosa. Para isso, ela precisa pôr-se a caminho, para visitar e dialogar com Isabel e com outras mulheres, e aprender com elas o que significa estar a serviço da vida, que a ultrapassa sempre.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Este ícone da Visitação desvela o modo original de ser e de agir de toda a comunidade eclesial; há diversidades de serviços que a caracterizam, mas todos são convidados a reconhecer, a servir, a celebrar as maravilhas que Deus continuamente realiza em tudo e em todo.

É um ícone dinâmico que me lança a “sair apressadamente” ao encontro do outro, com quem tenho um parentesco, na consciência de que faço parte de uma mesma humanidade.

A vida cristã de meus dias precisa voltar à Visitação, reviver a “cultura do encontro” e buscar inspiração nas protagonistas no evangelho deste domingo. A vida cristã necessita Visitação para ser mais vida e mais cristã, para deixar seguranças, cuidar e acompanhar a vida que há nela e nas “periferias existenciais”, ali onde o novo está germinando, para espanto e surpresa de todos.

Com a Visitação me chega memória agradecida, paixão comprometida e esperança dinamizadora de um possível presente fecundo. A Visitação é um foco criativo de espiritualidade.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,39-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Visitação – fx 03 (07:14)
Autor: José Acácio Santana
Interprete: Coral Acorde coração
CD: Natividade, Natal – oratório de Natal
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Leitura Orante – 3° Domingo do Advento, 16 de dezembro de 2018



Leitura Orante – 3° Domingo do Advento, 16 de dezembro de 2018

ADVENTO: travessia... para a solidariedade

“Quem tiver duas túnicas, compartilhe com aquele que não tem” (Lc 3,11)


Texto Bíblico: Lucas 3,10-18


1 – O que diz o texto?
Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e intolerâncias, que constituem o atual momento histórico, queremos, neste Advento, dar vez a um brado de esperança e expressar a fé no futuro da nossa vida. A esperança tem raízes na eternidade, mas ela se alimenta de pequenas coisas; nos despojados gestos ela floresce e aponta para um sentido novo. É preciso um coração contemplativo para captar o “mistério” que nos envolve.

A esperança, como força transformadora da realidade, inclui uma clara tomada de decisões de dirigir as energias vitais para ir ao encontro daquilo que é imprescindível para a vida.

Por isso, em um mundo de muita injustiça social, onde milhões de pessoas vivem em condições de pobreza extremas e submergidas em círculos de violência, a esperança se apresenta a nós como uma força capaz de despertar nossa consciência adormecida e assumir nossa responsabilidade. A esperança é sempre inquieta e mobilizadora, é impulso que nos faz desejar e buscar uma mudança decisiva que favoreça instaurar um mundo mais humanizador, abrindo-nos a um “mais além” que já está próximo.

Mesmo diante dos profundos dilemas internos e sociais, achamos possível ser e viver de outro modo inventar e reinventar opções, criar novas saídas... e, sem cessar, sonhar com o “mais” e o “melhor”.

Afinal, somos seres de “travessia”... 

Essa “travessia” não é apenas geográfica; trata-se de uma experiência que requer a atitude de “saída de si” para ir ao outro como diferente; e isso implica “passar” para o seu lugar, aprender a ver o mundo a partir de sua perspectiva, deixar-nos questionar e desinstalar-nos por ele, tão despojado da condição de pessoa. 

Ir ao encontro do outro só é possível a partir do cultivo da sensibilidade, entendida como o movimento afetivo necessário para olhar e sentir a verdade na realidade de quem sofre. Não se trata de “dar coisas”, mas deixar-nos “afetar cordialmente” pela dor do outro.


2 – O que o texto diz para mim?
Neste 3° domingo do Advento, o apelo à mudança, na voz de João Batista, se torna mais concreto. 

“O que devemos fazer”? Tal pergunta é uma prova da sinceridade daqueles que se aproximavam de João. Com três pinceladas o Batista enfatiza a necessidade de mudar a maneira de pensar e de agir: é preciso abrir-se à alteridade até chegar a partilhar com outros, é preciso sair do estreito círculo do “meu” para que a escravidão do possuir abra passagem à liberdade de preferir o bem maior da relação; ativar a alegria de saber que uma túnica sobrante abriga agora o corpo de um irmão; a economia deve estar a serviço da vida e de todas as pessoas; reacender o impulso a ser “pacifista ativo”, defendendo e protegendo os pobres e indefesos.

Encontro me aqui diante da razão ética originária que não se baseia tanto numa compreensão da realidade, mas na compaixão com a pessoa do “outro”, excluído, pobre, dominado, marginalizado...

Lucas apresenta a mensagem de João Batista a partir de uma perspectiva ética, que pode e deve aplicar-se a todos os povos. Deixa de lado os aspectos exclusivamente religiosos (confessionais) de sua mensagem e o condensa em um programa ético de deveres sociais, que se aplicam primeiramente a todos os homens e mulheres e logo a dois grupos especiais: os publicanos e os soldados.

Esta é uma mensagem muito simples. Não precisa reuniões episcopais, nem conselhos de países, nem comissões internacionais. É uma mensagem imediata e próxima, de comunhão humana, pacífica, generosa. É uma mensagem que crê no ser humano. Não se trata de “matar” os publicanos e os soldados, mas de descobrir que também eles são humanos, iniciando a grande revolução da igualdade e partilha de bens. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Esta é a moral natural de João Batista. Este é para Lucas o ponto de partida para chegar ao evangelho. Jesus vai além (é gratuidade). Mas, para chegar a Jesus é preciso passar por João Batista.

A resposta de João Batista não é teoria vazia. É através de gestos e ações concretas de justiça, respeito, solidariedade, partilha e coerência cristã que se vai construindo um tecido social mais digno de filhos e filhas de Deus, realizando as transformações radicais e profundas que as pessoas e a sociedade tanto necessitam. Frente a diferentes públicos, João não faz alusão nenhuma à religião; o que ele pede a todos é melhorar a convivência humana.

O envolvimento com o “outro” me conduz à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para partilhar e receber e a uma imensa felicidade.

A “sensibilidade solidária” suscita em mim um desejo novo que articula um novo horizonte de sentido à minha vida e gera um horizonte de utopia e de esperança por um mundo justo e fraterno. A solidariedade é a não violência em ação; é a fonte de todas as qualidades espirituais: a capacidade de perdão, a acolhida compassiva, a tolerância e todas as demais virtudes.

Além disso, é a que de fato dá sentido às minhas atividades cotidianas e as torna construtivas.

A solidariedade permeia e resinifica, assim, toda a minha existência. Não é um evento, um ato isolado. Ela torna oblativa à vida em suas diferentes expressões, fermenta o cotidiano de minha existência, infunde sentido e razão de ser àquilo que sou e faço.

Nas experiências de “convivência” com os pobres adquiro os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade... Eles têm um jeito de me trazer de volta para o essencial da vida. Eles são uma fonte de esperança, uma fonte de autenticidade. Eles se tornam meus amigos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor é urgente “reinventar” a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclusão do dia-a-dia.

Na criação da “nova comunidade” dos seguidores de Jesus, a partilha substitui a acumulação e a abertura aos outros se apresenta como alternativa às relações interpessoais de opressão e exclusão; aqui está configurada uma das propostas mestras na proclamação do Reino de Deus.

Com meus gestos solidários me  mobilizo e me aproximo do Senhor que chega. Neste dia Deus discernirá entre o trigo e a palha que existem em minha conduta.

Vivo a cultura da “palha”,  que me força permanecer na superficialidade, na aparência, na exterioridade da vida, impedindo-me perceber o trigo presente em minha interioridade. 

Vivo, muitas vezes, imersa em meio a tanta palha que me afoga e me incapacita viver a cultura do encontro solidário. De fato, a cultura da superficialidade, da aparência, da vaidade... são as marcas de minha sociedade atual; marcas que me desfiguram e me desumanizam.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Só quem sai de si em direção ao outro, através de gestos solidários, é capaz de peneirar a palha para deixar emergir o trigo de vida que carrega dentro.

Somente a “sensibilidade solidária” será capaz de fazer a pessoa retornar à sua casa, ao centro, ao seu eu profundo; só ela ativará os recursos consistentes, os pontos de luz, o trigo que carrega dentro.

O ego não ama ninguém além de si mesmo, atendendo apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros. Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-se de toda dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida. Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar. 

Finalmente, acaba-se por criar uma dura cortiça que defende e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo àquilo que não seja sua própria realidade. É uma espécie de "embriaguez" na qual a alteridade desaparece.

A verdadeira riqueza é investir numa única fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de si, o do encontro solidário em favor dos mais pobres e desfavorecidos.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 3,10-18
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Voz e luz – fx 14 (03:42)
Autor: Pe. Jorge Trevisol  e Pe. Gustavo Balbinot
Interprete: Pe. Jorge Trevisol
CD: Mistério, amor e sentido
Gravadora: Paulinas Comep