segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 17 de dezembro de 2017


Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 17 de dezembro de 2017

O ADVENTO DESVELA NOSSA IDENTIDADE ORIGINAL

Disseram-lhe então: “Quem és? Dize-nos para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?” (Jo1,22)


Texto Bíblico: João 1,6-8.19-28


1 – O que diz o texto?
Quem és? Quem sou? Quê dizes de ti mesmo? Que digo de mim mesmo?

Às vezes, o mais evidente e o mais próximo termina sendo o que menos conhecemos.  Talvez acreditamos conhecer melhor os outros que a nós mesmos.

É possível que os enviados a João Batista tampouco pudessem dar razão de si mesmos, mas queriam saber quem era João e o que ele pensava de si mesmo. É possível que ninguém tenha ousado perguntar aos sacerdotes do Templo: “E vocês, quem são e que dizem de si mesmos?”

E, no entanto, é o Templo que se sente incomodado com a presença desse estranho homem do deserto: sem ornamentos luxuosos, vestido de pele de camelo e levando uma vida de austeridade. Mas, uma vida que por si só fala de algo diferente, de algo novo.

João, nas areias do deserto, despertava inquietações e preocupações nos sacerdotes do Templo.

Esta é a verdadeira identidade de João; uma identidade expansiva e original que, ao mesmo tempo, era expressão de sua dimensão mais profunda e o movia a ser presença provocativa junto aos outros. 

Ele foi um homem inquieto, que passou a vida buscando e preparando o ambiente para acolher uma outra presença surpreendente: “no meio de vós está aquele que vós não conheceis”.

Ao ler o evangelho deste domingo e inspirando-nos na figura de João Batista, que revela quem ele é, podemos, também nós, reservar um tempo para nos contemplar por dentro; provavelmente nos sentiremos um grande desconhecido para nós mesmos.

Nossa existência não pode ser de anonimato e indefinição. Ela exige identidade clara e bem definida.

Normalmente confundimos a identidade com certas “marcas distintivas”: o nome, a profissão, a posição social, política ou religiosa, a função...

A identidade, no entanto, é dinâmica, histórica, fecunda, aberta ao desconhecido, aventureira...; é a capacidade de ir além de si e adiante de si. É poder ser invenção contínua de si mesmo, infinita transcendência.  É ter projeto, ter futuro, sair de si...

Só transcende quem se aproxima da própria interioridade, do próprio coração.

O tempo do Advento vem ao encontro desse nosso desejo profundo e se apresenta como uma mediação para ajudar-nos nessa longa travessia em direção à própria identidade expansiva, deixando nosso estreito território e enveredando pelas terras desconhecidas do além-Jordão, onde João Batista também deixa transparecer sua verdadeira identidade: “eu sou a voz que grita no deserto”.


2 – O que o texto diz para mim?
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto-transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, desejos...

Carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz...

Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele... não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Descobrir-se a si mesmo” é ter consciência que no próprio interior há um movimento infinito de construção de si, de identidade em movimento... que se torna possível graças a um constante arrancar-se do imobilismo e da paralisia existencial, que impedem o fluxo da vida.

Só consegue aproximar-se da própria interioridade quem se desprende de defesas e projeções.

A Palavra de Deus, pronunciada sobre mim, desvela e revela a minha verdadeira e plena identidade: única, irrepetível, original. Essa identidade vai sendo gestada ao longo de minha história pessoal com os avanços e recuos, vitórias e fracassos, alegrias e sofrimentos... que vão pontilhando minha existência e constituindo esse ser único, que sou.

Vivo um contínuo chamado na vida e para a vida. A experiência de sentir que estou insatisfeita, o impulso em ativar desejos, cultivar aspirações sempre novas, procurar entender quem sou o que devo fazer o que me torna realmente feliz..., no fundo, tudo isso, é um contínuo desvelamento de minha identidade. Eu realizo minha vocação, sendo eu mesma, com meu modo de ser, minhas possibilidades, minha originalidade. Ninguém poderá realizá-la por mim. 

Ser fiel à própria identidade é ser fiel à minha vocação.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, mergulhar no “fluxo da vida”, colocar-me em movimento, caminhar para o meu próprio interior. Afinal, sou um “ser de caminho”, um ser em marcha, em contínua peregrinação. Ter identidade é viver em contato com as raízes que me sustentam. No percurso para dentro, clareia-se a visão sobre mim mesma, sobre minha originalidade e dignidade.

Há uma força de gravidade que me atrai progressivamente para a interioridade, onde Deus me espera e me acolhe, e onde encontrarei a minha própria identidade e a verdadeira paz.

“Que eu me conheça e que te conheça, Senhor! Quantas riquezas entesoura o homem em seu interior! Mas de que lhe servem se não se sondam e investigam?” (Santo Agostinho)

Quem é que pode me fazer acreditar que chego ao fim do caminho, que finalmente adquiri uma identidade definitiva? Quem pode me fazer dizer “eu sou?”.

Para a mentalidade bíblica, o ser humano é uma criação contínua, um processo permanente de “tornar-se pessoa”, passando por uma transfiguração, cada vez mais nova, de si e do mundo. O ser humano descobre a “existência” como identidade dinâmica, invenção constante de novas possibilidades de ser.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A identidade vai se desvelando à medida que do interior de cada um brota esta certeza: “Sou um tesouro, para mim e para os outros, e que não conseguia encontrar; sou um mistério da graça e do amor de Deus; sou alguém que se sentia vazia por dentro e descubro que estou habitada por Ele; sou alguém chamada, preferida de Deus; sou alguém que sente as mesmas fragilidades de todos e que, no entanto, sinto a fortaleza de Deus em mim; sou alguém que cada manhã pode desfrutar de um novo dia, posso sorrir para os demais; sou alguém que não sou a luz, mas posso ser testemunha da luz e indicar aos outros onde encontrá-la; sou alguém que ama profundamente a vida”...

Sem dar-me conta, vou encontrando verdadeiras maravilhas dentro de mim. 

E enquanto busco reencontrar-me interiormente, posso me sentir como o garimpeiro que, em meio ao cascalho e à profundidade da terra, esbarra-se com o veio de ouro.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 1,6-8.19-28
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Deus mandou Jesus – fx 09 (03:40)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Beto, Betinho e Sonia Mara
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Luan e Vanessa
CD: Dois interiores – Trio ir ao povo
Gravadora: Paulinas Comep


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