segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Leitura Orante – 2º domingo do Advento, 10 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  2º domingo do Advento, 10 de dezembro de 2016

ADVENTO: as vozes que fazem a diferença

“Voz clamando no deserto” (Mc 1,3)

Texto Bíblico: Marcos 1,1-8


1 – O que diz o texto?
A “voz clamando no deserto” é a do profeta vestido pobremente, que nos prepara um coração compassivo e reconciliado. Aquele que saltou de alegria no ventre de sua mãe diante da voz da jovem de Nazaré, nos rompe, com sua voz, a surdez do coração e nos força a abrir os olhos para ver, de maneira nova e diferente, Aquele que sempre se aproxima.

O Batista é só uma voz; não é a Palavra. Mas não é uma voz qualquer, não é mais uma voz entre tantas outras; é a voz que faz a diferença: ela desvela e revela. Desvela a dureza do coração daqueles que não se abrem à novidade do Deus que “continuamente vem em sua direção”; revela a presença d’Aquele que com sua Palavra destrava a voz dos sem voz, ativando e despertando a dignidade escondida sob o peso das “vozes que desumanizam”, sejam elas políticas ou religiosas.

O tempo litúrgico do Advento nos possibilita renovar uma atitude tão escassa e tão necessária em nossa cultura: escuta das vozes frágeis do nosso entorno; são as vozes dos tristes, dos deprimidos, dos cansados e tantas outras vozes que se encontram nas margens sociais e religiosas. Essa escuta nos conduz à voz frágil d’Aquele menino Deus que sempre quer nascer onde há necessidade de mudança, de busca, de melhora, de um novo começo. 

Mas o Advento também nos faz mais sensíveis para captar as vozes frágeis de nossa interioridade; elas querem se expressar, mas não encontram ambiente favorável, devido aos ruídos e sons estridentes que nos ensurdecem.



2 – O que o texto diz para mim?
Advento é um tempo que se revela como uma espécie de respiro, um tempo para que eu possa me distanciar do conflito de ideias, interesses e especulações que acabam por alterar a tranquilidade e a paz de meu interior. Este é um tempo sagrado e um tempo de silêncio, muito necessários para o momento em que vivo. Um silêncio que não é isolamento, mas capacidade de escuta; algo assim como desconectar o auricular, no qual permanentemente soam as músicas “interesseiras”, para escutar as músicas ambientais; um silêncio que não é só ausência de palavras, mas ocasião para dar a possibilidade a palavras diferentes e novas; um silêncio que é superação do palavreado crônico que me esvazia por dentro.

“Endireitar as estradas interiores” é apaixonante, pois me situa no caminho de uma humanização mais verdadeira e profunda e dilata meu coração. Sou advento; cuidar, pois, de minha vida interior!


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Dentro de mim há muitos sentimentos reprimidos, experiências bloqueadas, vivências rejeitadas, pensamentos atrofiados... buscando uma oportunidade para se fazerem ouvir; são “vozes caladas”, “vozes que clamam no deserto interior”, procurando encontrar gretas de minha existência por onde respirar. É preciso criar silêncio para ouvi-las, dialogar com elas e assim poder restabelecer um equilíbrio eco biológico interior.

Há um rumor em minha interioridade, e disso tenho medo, pois desvela minha real identidade. O pensador Pascal dizia que “a infelicidade do ser humano vem de uma só coisa, que é não saber permanecer quieto em seu quarto”. Verdadeiramente há um rumor de vigor e de vida no coração, como a melodia da fonte na aridez do deserto, que é capaz de pacificar meu espaço interior. Há um momento em que uma frágil voz sem palavras me alcança no ponto mais vivo e original de minha existência.

É o rumor que brota da provocação de uma palavra escutada como aquela de João Batista: “preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” É a estrada mesma da vida que passa pelos meandros do coração. Por ali transita o Espírito de Deus, que ora grita, ora sussurra, dependendo da minha sintonia ou não com sua presença.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sentada às margens das estradas ou de um riacho silencioso de minha vida, posso atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer, através do murmúrio das águas, “vozes novas” que me  incitam a peregrinar em direção às regiões desconhecidas do meu próprio interior. Só assim, poderei vislumbrar o outro lado e tocar as raízes mais profundas que dão sentido e consistência ao meu viver. 

Estou mergulhada num mundo de vozes; um “vozerio” me cerca: vozes que me levam à morte, vozes que me chamam à vida; vozes contaminadas pelo egoísmo, adulteradas pelo medo, deturpadas pela impureza, e vozes que são o eco do paraíso convidando para a festa, comunicando paz, convocando à comunhão... É possível que as vozes do egoísmo, do orgulho e da ambição tentem se disfarçar em voz do Batista, a fim de arrastar-me para o vazio e a ruína. 

Mas o Espírito não fala por ruídos, e sim pelo silêncio; não fala pela força dos pulmões, e sim pelo vento suave de sua voz inconfundível.

Para escutá-la, requer-se interioridade e atenção aos sinais de sua presença: pode ser a voz de um irmão pedindo socorro; pode ser a linguagem de um acontecimento alegre ou triste; pode ser uma palavra lida ou proclamada; pode ser uma inspiração misteriosa captada no silêncio... 



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sinto a ressonância da voz do Espírito na oração, na atividade, ao ver um noticiário, ao dar um abraço, ao ler um livro, ao ouvir uma canção, ao contemplar um quadro, fazendo um passeio, escutando alguém que me fala de sua vida...; sua presença ressoa na história e na imaginação convidando-me a sonhar um futuro melhor; sua atuação ressoa nos encontros humanos, reconstruindo os laços rompidos; sob seu impulso ganham consistência, em cada ser vivente, as atitudes que me levam a viver com mais plenitude: compaixão, justiça, verdade, amor...

No silencioso sussurro de Sua voz toda realidade interior fica abençoada: os sentimentos contraditórios, os dinamismos opostos... Ele “desce” para encontrar e despertar minha vida atrofiada. Com seu toque, uma identidade nova ressurge: não serei mais estrangeira, nem inimiga de mim mesma. Sua presença dá calor e sabor à minha existência.

Na arte do discernimento das vozes, o importante é, através da escuta interior, perceber de onde vem e para onde me conduz cada voz que ressoa em mim. Se ela me conduz para o outro, para o serviço, para o Reino... é clara manifestação da voz do Mestre.

Isto dá uma profundidade especial ao meu caminhar, me desvela uma riqueza humana escondida em meu interior, me dá uma alma de poeta, capaz de dar nome ao mistério. 



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Marcos 1,1-8
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: No silêncio deste dia – fx 11 (03:02)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de Ti
Gravadora: Paulinas Comep


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