segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017


Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017

QUEM TEM MEDO DO DEUS DE JESUS?

“Eu tive medo e fui esconder teu talento na terra” (Mt 25,25)

Texto Bíblico: Mateus 25,14-30


1 – O que diz o texto?
A liturgia deste domingo nos propõe uma parábola que pode ser facilmente mal interpretada; ou pior ainda, fomentar a autocobrança e o perfeccionismo. E, como consequência, os sentimentos de culpa, de impotência, de fracasso...

No campo específico da espiritualidade cristã, uma leitura deturpada da parábola dos “talentos” pode conduzir a uma religiosidade perigosa por vários motivos: supõe a imagem de um Deus como um patrão que exige um cumprimento das suas ordens até os mínimos detalhes, sem admitir nenhum fracasso; fomenta a ideia do mérito e, com isso, uma religião mercantilista; alimenta um perfeccionismo – busca de um “ideal de perfeição” -, que gera muito sofrimento e farisaísmo; estimula a competitividade para ver quem consegue um “prêmio maior”... Em definitiva, aqui nos encontramos diante de uma parábola potencialmente perigosa. 

Como ler esta parábola para poder recuperar sua mensagem genuína e, ao mesmo tempo, evitar os riscos que o próprio relato deixa transparecer?

Em primeiro lugar, coerente com a própria mensagem evangélica, só nos cabe ler a parábola como palavra de sabedoria e não como código moral; deve ser entendida a partir da gratuidade e não a partir da ideia do mérito e da recompensa. Tudo é dom e somos felizes na medida em que permitimos que esse dom se manifeste em e através de nós.

Também é importante que levemos em conta a situação concreta em que Jesus vivia quando falava em parábolas. Ele viveu situações muito conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumos sacerdotes, os mestres da lei. Mateus coloca esta parábola dos talentos em um momento de máxima tensão e enfrentamento de Jesus com os fariseus; concretamente, com o “Deus” dos fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante e justiceiro. Aqui, nesta instigante parábola, Jesus desmascara a falsa imagem de Deus dos fariseus, que torna a vida pesada e marcada pelo medo. É como se Ele dissesse: “Meu Pai não é assim; Ele é fonte de amor, de misericórdia e só deseja que as pessoas vivam felizes, sem medo”.

Nesse sentido, é sumamente útil aprofundar e conhecer o verdadeiro sentido da parábola dos talentos.


2 – O que o texto diz para mim?
Normalmente, costuma-se explicar esta parábola dizendo que Deus dá a cada pessoa uma quantidade determinada de talentos, divinos e humanos, dos quais terá de prestar contas a Ele, até o último centavo, no dia do Juízo Final. Quando se interpreta a parábola dessa maneira, o Deus que aí aparece é uma ameaça insuportável; ao considerar a parábola como uma exortação à uma “vida perfeita”, falsifica-se o sentido autêntico da mesma. O que está em questão aqui é a “imagem” de Deus que todos trazemos.

O indivíduo que recebeu um só talento está convencido de que o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colhe onde não semeou e ajunta onde não espalhou”. Esse indivíduo tem uma ideia terrível de Deus. E por isso, como é natural, “tem medo”; e o medo o leva a “esconder o talento debaixo da terra”. Isso, precisamente, foi sua perdição. O medo paralisa, ou seja, torna as pessoas estéreis.

No fundo, Jesus está dizendo o seguinte: “o Deus que ameaça com a exigência da prestação de contas até o último centavo, é um Deus que bloqueia e anula as pessoas, os grupos, as comunidades”.

Por isso, é urgente acabar com a imagem do Deus que ameaça que não liberta nem cura, que amarra e não deixa a pessoa viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
De fato, a presença de Deus na vida e na história de muitas pessoas é vivida secretamente sob as vestes do temor e do medo. Um “Deus” que me pedirá contas no juízo, onde terei de responder pelo mau uso de meus dons; um “Deus” que me castiga com desgraças, por causa de meus fracassos; um “Deus” interesseiro, um senhor severo que impõe obrigações duras e dificulta minha entrada no banquete; um “deus-patrão” que me prende com contratos e cobranças; um “Deus” que é um constante perigo, causador do Grande Medo que me paralisa. 

Crer em um Deus que pede conta até o último centavo é o mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vida amarga e pesada. Sem a superação cotidiana dos medos, minha experiência de Deus estará comprometida, perderá sua força me fará menos humana.

O ser humano tem uma tendência a alimentar o perfeccionismo e a leitura da parábola dos talentos só viriam confirmar essa tendência. De fato, o conceito de perfeição cristaliza-se em mim desde a infância, a partir de experiências não integradas, de sentimentos de culpabilidade, e que acaba me identificando, no plano pessoal, como não ter defeitos, não ter fragilidades, não ter nenhuma falha ou pecado. Trata-se de um modo fechado de viver dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o “perfeccionista” está convencido de que somente será amado por Deus e pelos outros se for perfeito. A grave consequência disso é que estaria pervertendo a mensagem de Jesus, centrada radicalmente na gratuidade, na compaixão e no amor.

Custa-me reconhecer Jesus como autor da “parábola dos talentos”. Mas, em todo caso, não posso perder de vista que se trata de uma parábola, e que a leitura tampouco pode ser literal.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para relacionar-me humanamente com o Deus que Jesus me revelou, o mais urgente que devo fazer é quebrar as “falsas imagens” d’Ele que carrego em minha consciência, em minha intimidade mais secreta. E a primeira e principal imagem falsa é que Deus é uma ameaça da qual devo me proteger.

Deus é fonte da Vida, ou melhor, o próprio Dom, o “talento” que se dá generosamente em tudo. Ao conectar com minha verdadeira identidade, eu me descubro n’Ela, não como uma presença separada, mas como meu núcleo mais íntimo e profundo.

Essa descoberta é a fonte de minha ação; estou permitindo que o “talento” – o Dom, a Graça, Deus..., possa viver em mim; deixar “Deus ser Deus em minha vida”.

Tal vivência sempre dará fruto abundante. Mas o fruto não é algo conquistado, que antes me faltara e me é dado agora em forma de prêmio ou recompensa – para engordar o ego -; o “prêmio” não é outro que a descoberta daquilo que sou e o prazer de viver isso. O “talento” que me é presenteado é a descoberta da plenitude que sempre fui.

Finalmente, aquele que não faz frutificar o talento fala também de mim mesma, quando permaneço na ignorância de quem sou e, desse modo, “perco” a vida, fechada – o talento enterrado – em minha pequena couraça narcisista. Isso significa não deixar o talento expandir e permanecerei nas trevas de mim mesma perdida na confusão e no sofrimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Mais uma vez, não se trata de uma ameaça e, menos ainda, de um castigo: é um apelo que me chama a despertar, para que eu saia das crenças tóxicas que envenenam a mente e o coração, não me deixam amadurecer no nível humano e espiritual e me privam do prazer de viver o Dom (Talento) que me habita.

No meu interior, Deus me chama me convida a pôr em movimento toda a capacidade de admiração e me ensina a ler e interpretar Sua presença em todas as coisas.

Experimentar, desde já, a presença do Senhor tal como Ela é, evitando todas as suas falsas imagens.

Sentir diante de sua presença, o ser acolhida, desafiada e com uma nobre missão a realizar.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,14-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: A parábola dos talentos – Fx 8 (04:25)
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Frei Luiz Turra, Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfouri
CD: O fascínio das parábolas do Reino
Gravadora: Paulinas Comep

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