segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Leitura Orante – 1º domingo do Advento, 03 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  1º domingo do Advento, 03 de dezembro de 2016

ADVENTO: VIVER NA ATENÇÃO CRIATIVA

“O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (Mc 13,37)

Texto Bíblico: Marcos 13,33-37


1 – O que diz o texto?
São Gregório de Nissa afirma que “na vida cristã vamos de começo em começo, através de começos sem fim”. Recomeçar contínuo, no qual nos colocamos sempre de novo em sintonia com Aquele que plenifica nossa existência, dando sentido e inspiração ao nosso modo de ser e viver.

Estamos recomeçando mais um tempo litúrgico, sempre original e instigante; trata-se do Advento.

No evangelho, indicado para este primeiro domingo, o apelo de Jesus (“vigiai”) poderia perfeitamente ser traduzida por “estejam atentos”, “estejam despertos”.   

Por que essa insistência em viver despertos, atentos e lúcidos, como nos pede o tempo do Advento? Porque, como dizia Antony de Mello, a grande tragédia da vida não é tanto aquilo que sofremos, mas aquilo que perdemos. Perdemos muitas oportunidades porque a dispersão e a distração nos acompanham sempre. E isso é justamente o que pretende a espiritualidade do Advento: despertar.

O Advento, como “primeiro movimento”, é sempre atenção, convite a estar desperto para “fazer novas todas as coisas”. Não é promover novidade superficial, mas recuperar o novo que sempre brota a partir de nosso ser mais profundo. O Advento é tempo litúrgico da criatividade; as rotinas nos alienam, a criatividade nos faz, nos rerefaz.

A atenção vigilante nos conecta com a vida, porque nos traz ao presente. E o presente é o único lugar da vida. Graças à atenção, vivemos na consciência, acolhendo tudo a partir da lucidez e amando tudo a partir da sabedoria; nós nos sintonizamos com a corrente da vida e passamos a habitar o momento presente, deixando-nos fluir com a vida mesma. 

E, em meio a qualquer atividade, devemos acostumar a nos perguntar: “estou completamente aqui?” 

O cultivo da atenção tornará possível a saída progressiva do sono e da ignorância para poder viver na luz; tal prática continuada, não só fará com que saboreemos a vida, mas que reconheçamos e nos familiarizemos com nossa verdadeira identidade: não somos a “onda” que emerge fazendo movimentos, mas o “oceano” de onde a onda surge. Ver isto é “estar despertos”.

Cada Advento nos mostra um cenário no qual tudo brota de novo, sem estridências nem espetáculos extravagantes. É o tempo do silêncio que vai gestando algo novo, pleno de vida e de sabor; tempo que nos move e reestreia nossa vida; para isso é preciso destravar nossos sentidos para olhar, escutar, sentir, tocar, saborear tudo como se fosse à primeira vez.


2 – O que o texto diz para mim?
À luz do evangelho deste domingo, vejo que o tempo da ausência do dono da casa que partiu em viagem não é um tempo morto, mas um tempo de intensa gestação. Não é uma espera vazia, angustiante e ansiosa, provocadora de medo, mas uma espera centrada no Senhor que vem e centrada na responsabilidade que me foi confiada: serviço.

Muitos cristãos perdem a intensidade da espera; e aqueles que persistem na espera vão aprendendo a paciência da espera, mobilizando outros recursos interiores.

A vigilância consiste em viver esperando o inesperado e o surpreendente. As comunidades cristãs precisam fortalecer uma pedagogia da espera. Sabem que o Senhor chega de forma surpreendente.

A espera é sempre ativa, atenta aos sinais dos tempos e aos clamores da vida; ela busca expandir-se, pois aguarda “o novo céu e a nova terra”.

O Advento é um tempo de oportunidades únicas; e ele está carregado de sinais, elementos fora do comum, pessoas e acontecimentos pelos quais Deus interpela minha liberdade e frente aos quais é preciso tomar uma atitude. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Estou diante daquilo que posso chamar de “Kairós” (tempo oportuno carregado de inspiração). 

De vez em quando, eu deveria ter a coragem de deixar ressoar em mim esta pergunta: “Você vive ou simplesmente sobrevive?”; pois o perigo de viver adormecida ou de maneira superficial me espreita continuamente. Aqui posso recordar um texto de Henry Thoreau que se fez famoso graças ao filme “A sociedade dos poetas mortos”: “Fui aos bosques porque queria viver em plena consciência, queria viver a fundo e extrair toda a essência da vida; eliminar tudo o que não fosse a vida, para que, quando a minha morte chegasse, eu não descobrisse que não tinha vivido”.  

São Paulo também me convida a despertar de minha inconsciência para deixar-me iluminar por Cristo e assim viver em plenitude, e não como uma morta viva: “Desperta, tu que estás dormindo, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 5,14)

Muitas de minhas rotinas são manias que vou herdando, atmosferas que vou respirando, condutas que vou imitando, maneiras de ser que vou assumindo como próprias; nessa repetição do conhecido, vou me habituando a viver na apatia, na falta de sonho e de entusiasmo. A rotina me encobre me disfarça, me mascara e me anula no costumeiro, na tradição, no hábito, na repetição.

Alguém já disse que a rotina é o colchão da comodidade na qual a pessoa vai morrendo, pouco a pouco”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sei que o maior inimigo da atenção e da vigilância é a rotina e o modo de funcionar em “piloto automático”. A rotina tem a vantagem de facilitar as coisas e me confere certa sensação de segurança: move-me por caminhos trilhados nos quais tudo me torna familiar; ela é como uma roda que, de vez em quando, me move para aquilo que já sei para o já conhecido. Os hábitos permitem que eu faça muitas coisas sem precisar pensar: são feitas de uma maneira “insensata”, ou seja, sem sentido e sem discernimento.

rotinas que se impõem a mim, sobretudo para que nada se modifique, para que tudo continue como sempre; com isso não arriscar ao novo e, sobretudo, atrofia meu espírito aventureiro e criativo que me sussurra outras brisas, que me instiga a caminhar por paisagens desconhecidas e me impulsiona para horizontes inspiradores.

A rotina me instala no gesto mecânico, no movimento inconsciente, na vida sem alento, nas maneiras normótica de agir, no vazio do estancamento e na vigília adormecida; ela me converte em figueiras estéreis, me seca por dentro, me torna deserto, sem brilho nos olhos, sem vibração no coração, sem presença inspiradora nesse mundo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Estar desperta.

Estar presente no aqui e no agora.

Viver esse tempo do silêncio que vai gestando algo novo, pleno de vida e de sabor.

Viver esse tempo que me move e reestreia minha vida.

Destravar meus sentidos para olhar, escutar, sentir, tocar, saborear tudo como se fosse à primeira vez.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Marcos 13,33-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Contemplar e adorar – fx 07 (02:56)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Adriana Melo
CD: Além da última estrela
Gravadora: Paulinas Comep


Nenhum comentário:

Postar um comentário