segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Leitura Orante – 1º domingo do Advento, 03 de dezembro de 2017


Leitura Orante –  1º domingo do Advento, 03 de dezembro de 2017

ADVENTO: VIVER NA ATENÇÃO CRIATIVA

“O que vos digo, digo a todos: vigiai!” (Mc 13,37)

Texto Bíblico: Marcos 13,33-37


1 – O que diz o texto?
São Gregório de Nissa afirma que “na vida cristã vamos de começo em começo, através de começos sem fim”. Recomeçar contínuo, no qual nos colocamos sempre de novo em sintonia com Aquele que plenifica nossa existência, dando sentido e inspiração ao nosso modo de ser e viver.

Estamos recomeçando mais um tempo litúrgico, sempre original e instigante; trata-se do Advento.

No evangelho, indicado para este primeiro domingo, o apelo de Jesus (“vigiai”) poderia perfeitamente ser traduzida por “estejam atentos”, “estejam despertos”.   

Por que essa insistência em viver despertos, atentos e lúcidos, como nos pede o tempo do Advento? Porque, como dizia Antony de Mello, a grande tragédia da vida não é tanto aquilo que sofremos, mas aquilo que perdemos. Perdemos muitas oportunidades porque a dispersão e a distração nos acompanham sempre. E isso é justamente o que pretende a espiritualidade do Advento: despertar.

O Advento, como “primeiro movimento”, é sempre atenção, convite a estar desperto para “fazer novas todas as coisas”. Não é promover novidade superficial, mas recuperar o novo que sempre brota a partir de nosso ser mais profundo. O Advento é tempo litúrgico da criatividade; as rotinas nos alienam, a criatividade nos faz, nos rerefaz.

A atenção vigilante nos conecta com a vida, porque nos traz ao presente. E o presente é o único lugar da vida. Graças à atenção, vivemos na consciência, acolhendo tudo a partir da lucidez e amando tudo a partir da sabedoria; nós nos sintonizamos com a corrente da vida e passamos a habitar o momento presente, deixando-nos fluir com a vida mesma. 

E, em meio a qualquer atividade, devemos acostumar a nos perguntar: “estou completamente aqui?” 

O cultivo da atenção tornará possível a saída progressiva do sono e da ignorância para poder viver na luz; tal prática continuada, não só fará com que saboreemos a vida, mas que reconheçamos e nos familiarizemos com nossa verdadeira identidade: não somos a “onda” que emerge fazendo movimentos, mas o “oceano” de onde a onda surge. Ver isto é “estar despertos”.

Cada Advento nos mostra um cenário no qual tudo brota de novo, sem estridências nem espetáculos extravagantes. É o tempo do silêncio que vai gestando algo novo, pleno de vida e de sabor; tempo que nos move e reestreia nossa vida; para isso é preciso destravar nossos sentidos para olhar, escutar, sentir, tocar, saborear tudo como se fosse à primeira vez.


2 – O que o texto diz para mim?
À luz do evangelho deste domingo, vejo que o tempo da ausência do dono da casa que partiu em viagem não é um tempo morto, mas um tempo de intensa gestação. Não é uma espera vazia, angustiante e ansiosa, provocadora de medo, mas uma espera centrada no Senhor que vem e centrada na responsabilidade que me foi confiada: serviço.

Muitos cristãos perdem a intensidade da espera; e aqueles que persistem na espera vão aprendendo a paciência da espera, mobilizando outros recursos interiores.

A vigilância consiste em viver esperando o inesperado e o surpreendente. As comunidades cristãs precisam fortalecer uma pedagogia da espera. Sabem que o Senhor chega de forma surpreendente.

A espera é sempre ativa, atenta aos sinais dos tempos e aos clamores da vida; ela busca expandir-se, pois aguarda “o novo céu e a nova terra”.

O Advento é um tempo de oportunidades únicas; e ele está carregado de sinais, elementos fora do comum, pessoas e acontecimentos pelos quais Deus interpela minha liberdade e frente aos quais é preciso tomar uma atitude. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Estou diante daquilo que posso chamar de “Kairós” (tempo oportuno carregado de inspiração). 

De vez em quando, eu deveria ter a coragem de deixar ressoar em mim esta pergunta: “Você vive ou simplesmente sobrevive?”; pois o perigo de viver adormecida ou de maneira superficial me espreita continuamente. Aqui posso recordar um texto de Henry Thoreau que se fez famoso graças ao filme “A sociedade dos poetas mortos”: “Fui aos bosques porque queria viver em plena consciência, queria viver a fundo e extrair toda a essência da vida; eliminar tudo o que não fosse a vida, para que, quando a minha morte chegasse, eu não descobrisse que não tinha vivido”.  

São Paulo também me convida a despertar de minha inconsciência para deixar-me iluminar por Cristo e assim viver em plenitude, e não como uma morta viva: “Desperta, tu que estás dormindo, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará” (Ef 5,14)

Muitas de minhas rotinas são manias que vou herdando, atmosferas que vou respirando, condutas que vou imitando, maneiras de ser que vou assumindo como próprias; nessa repetição do conhecido, vou me habituando a viver na apatia, na falta de sonho e de entusiasmo. A rotina me encobre me disfarça, me mascara e me anula no costumeiro, na tradição, no hábito, na repetição.

Alguém já disse que a rotina é o colchão da comodidade na qual a pessoa vai morrendo, pouco a pouco”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sei que o maior inimigo da atenção e da vigilância é a rotina e o modo de funcionar em “piloto automático”. A rotina tem a vantagem de facilitar as coisas e me confere certa sensação de segurança: move-me por caminhos trilhados nos quais tudo me torna familiar; ela é como uma roda que, de vez em quando, me move para aquilo que já sei para o já conhecido. Os hábitos permitem que eu faça muitas coisas sem precisar pensar: são feitas de uma maneira “insensata”, ou seja, sem sentido e sem discernimento.

rotinas que se impõem a mim, sobretudo para que nada se modifique, para que tudo continue como sempre; com isso não arriscar ao novo e, sobretudo, atrofia meu espírito aventureiro e criativo que me sussurra outras brisas, que me instiga a caminhar por paisagens desconhecidas e me impulsiona para horizontes inspiradores.

A rotina me instala no gesto mecânico, no movimento inconsciente, na vida sem alento, nas maneiras normótica de agir, no vazio do estancamento e na vigília adormecida; ela me converte em figueiras estéreis, me seca por dentro, me torna deserto, sem brilho nos olhos, sem vibração no coração, sem presença inspiradora nesse mundo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Estar desperta.

Estar presente no aqui e no agora.

Viver esse tempo do silêncio que vai gestando algo novo, pleno de vida e de sabor.

Viver esse tempo que me move e reestreia minha vida.

Destravar meus sentidos para olhar, escutar, sentir, tocar, saborear tudo como se fosse à primeira vez.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Marcos 13,33-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Contemplar e adorar – fx 07 (02:56)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Adriana Melo
CD: Além da última estrela
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 21 de novembro de 2017

Leitura Orante – Jesus Cristo - Rei do Universo, 26 de novembro de 2017


Leitura Orante – Jesus Cristo - Rei do Universo, 26 de novembro de 2017

REALEZA QUE SE REVELA NO SERVIÇO

“...toda vez que fizestes isso a um desses meus irmãos menores, a mim o fizestes” 


Texto Bíblico: Mateus 25,31-46


1 – O que diz o texto?
Rei, título inapropriado para Aquele que tocou leprosos, que preferiu a companhia dos excluídos e não dos poderosos do povo, que lavou os pés dos seus discípulos, que não tinha riqueza nem poder...

Segundo o relato de Mateus, quando chegar o momento supremo, a hora da verdade definitiva, a única coisa que ficará de pé, o que somente será levado em conta como critério de salvação ou perdição, não vai ser nem a piedade, nem a religiosidade, nem as práticas espirituais, nem a fé, nem mesmo o que cada pessoa tiver feito ou deixado de fazer para com Deus; o que vai ser considerado é apenas uma coisa, a saber: o que cada um tiver feito ou deixado de fazer para com os seres humanos.

A fundamentação está no fato de que Jesus se identifica com cada ser humano, de maneira especial com aquele que mais sofre vítima da violência, da exclusão, da pobreza, da humilhação... Essa identificação e essa fusão de Jesus com os humanos (“foi a mim que o fizestes”) é tão forte e tão decisiva que, no momento do encontro definitivo com Ele, o critério para entrar no Reino não é o que cada pessoa fez ou deixou de fazer “para” Deus, mas o que ela fez ou deixou de fazer “para” os seus semelhantes que cruzaram o seu caminho e que clamaram por uma presença solidária e compassiva.

Na parábola do “juízo final” não é casual que os casos ali mencionados são as situações mais baixas, mais humilhantes e as que mais detestamos de acordo com o que neste mundo se considera necessário para ser uma pessoa de sucesso e que goza de uma vida cômoda e digna: a comida, o vestuário, a saúde, a liberdade e a legalidade de quem não é um estrangeiro ou um imigrante “sem documentos”. Essa lista de situações extremas refere-se à realidade de sofrimento e exclusão. E Jesus assume como sua a dor de cada ser humano, pois, mediante sua Encarnação, Ele se identificou e se fundiu com o mais basicamente humano, com aquilo que é comum a todos os seres humanos, sem nenhuma distinção.


2 – O que o texto diz para mim?
O senhorio de Jesus foi à do amor incondicional, do compromisso com os mais pobres e sofredores, da liberdade e da justiça, da solidariedade e da misericórdia...

Com sua palavra e sua vida Ele afirmou que “não veio para ser servido, mas para servir”. Por isso, assumiu uma posição crítica frente a todo poder desumanizador. 

A festa de “Cristo Rei”, que encerra o Ano Litúrgico, pode ser ocasião propícia para “transgredir” minha concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem as custa da exploração dos seus súditos.

Jesus nunca se proclamou rei; o que Ele fez foi colocar-se a serviço total do Reino, de forma que este foi o centro mesmo de sua pregação e de sua vida, a Causa pela qual estava apaixonado e pela qual deu sua vida. Importa, pois, honrar a verdadeira identidade de Jesus: Ele não foi rei, nem quis ser nunca, por mais que alguns cristãos creem que o chamando assim prestam-lhe as devidas honras. A melhor honra que devo prestar a Jesus é prolongar seu modo de ser e de viver. É preciso voltar a Jesus e sua Causa.

Se Jesus não foi rei historicamente, nem se chamou rei, nem deixou que lhe chamasse assim, recusou e se retirou quando queriam fazê-lo rei, tem sentido que eu o aclame com esse título? Por quê?

Jesus é Rei porque deixa transparecer sua “realeza”: o que é mais real, mais humano e divino, a sua verdade, seu ser verdadeiro... no mais profundo de si mesmo. Realeza que se visibilizava no encontro com o outro. A partir de seu ser verdadeiro, Jesus destravava e ativava a realeza escondida em cada um.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Preciso deixar ressoar em meu “eu profundo” as palavras duras do Rei Eterno: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Centrada em mim mesma e separada dos outros, vou alimentando uma espécie de ego (força diabólica: força que divide).  Todo “ego” é possessivo e manifesta-se como um desejo insaciável de acumular, possuir, não compartilhar... O ego exacerbado quer controlar o seu mundo: pessoas, acontecimentos e natureza. Ele compara-se com os outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pela riqueza. É isso que os tornam invejosos, ciumentos e ressentidos em relação aos outros. Também é isso que os tornam hipócritas, dominados pela duplicidade e pela desonestidade.

Esse ego centrado em si próprio não confia em ninguém a não ser em si mesmo; ele não ama ninguém e quando “ama” é para atender apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros, vivendo uma situação infernal. 

A salvação da humanidade está, pois, em ajudar aos excluídos do mundo a viver uma vida mais humana e digna. A perdição, pelo contrário, está na indiferença diante do sofrimento. Este é o grito de Jesus a toda a humanidade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, toda parábola desperta ressonância e causa impacto no meu ser profundo; não é um relato periférico e neutro; escutar ou ler uma parábola é sentir-se implicado nela ou, em outras palavras, toda parábola deixa transparecer minha real identidade; por isso, a parábola do “juízo final” pode também ser lida em “chave de interioridade”: o que em mim está excluído, faminto, desamparado, exilado, preso... e que precisa ser integrado e iluminado? 

Mas a luz da parábola desvela meu eu interior e deixa transparecer também meus pontos nutrientes, iluminantes... que serão fonte de salvação para as dimensões do meu ser profundo que ainda permanecem na sombra da não aceitação.

Ser Rei sem tomar o poder, sem exercê-lo com a força das armas, sem a pressão da justiça legal, sem prestígio, sem riqueza... 

Esta é a tarefa da nova humanidade, a promessa de um Reino do conhecimento verdadeiro, da igualdade e da justiça, da fraternidade e não violência..., para que todos sejam reis, no sentido radical da palavra.

O meu verdadeiro eu está enterrado por baixo do meu ego ou falso eu. Segundo a parábola deste domingo, a pessoa “torna-se bendita de meu Pai” na entrega e no descentramento. Porque só assim deixa transparecer a realeza original, aquela que se identifica com a realeza d’Aquele que viveu para servir.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Evitar que o ego me domine e determine minha vida.

Desvelar e desmascará-lo com todas as suas maquinações e duplicidades.

Ser uma pessoa esvaziada do ego para transformar-me e transformar a realidade.

Ser solidária com a fragilidade e, o que é mais profundo, me fundir com a fragilidade dos outros.

Estar consciente de minha realeza e compreender minha verdade mais profunda. Até que isso não ocorra, viverei como mendigos, tratando de apropriar-me e de identificar-me com tudo aquilo que possa conferir certa sensação de identidade e de segurança. No entanto, ao compreender o que sou tudo se ilumina: o suposto “mendigo” se descobre “rei”.       


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,31-46
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Senhor da minha vida – fx 07 (04:06)
Autor: Emmanuel
Intérprete: Emmanuel
CD: Ao meu irmão 
Gravadora: Paulinas Comep


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017


Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017

QUEM TEM MEDO DO DEUS DE JESUS?

“Eu tive medo e fui esconder teu talento na terra” (Mt 25,25)

Texto Bíblico: Mateus 25,14-30


1 – O que diz o texto?
A liturgia deste domingo nos propõe uma parábola que pode ser facilmente mal interpretada; ou pior ainda, fomentar a autocobrança e o perfeccionismo. E, como consequência, os sentimentos de culpa, de impotência, de fracasso...

No campo específico da espiritualidade cristã, uma leitura deturpada da parábola dos “talentos” pode conduzir a uma religiosidade perigosa por vários motivos: supõe a imagem de um Deus como um patrão que exige um cumprimento das suas ordens até os mínimos detalhes, sem admitir nenhum fracasso; fomenta a ideia do mérito e, com isso, uma religião mercantilista; alimenta um perfeccionismo – busca de um “ideal de perfeição” -, que gera muito sofrimento e farisaísmo; estimula a competitividade para ver quem consegue um “prêmio maior”... Em definitiva, aqui nos encontramos diante de uma parábola potencialmente perigosa. 

Como ler esta parábola para poder recuperar sua mensagem genuína e, ao mesmo tempo, evitar os riscos que o próprio relato deixa transparecer?

Em primeiro lugar, coerente com a própria mensagem evangélica, só nos cabe ler a parábola como palavra de sabedoria e não como código moral; deve ser entendida a partir da gratuidade e não a partir da ideia do mérito e da recompensa. Tudo é dom e somos felizes na medida em que permitimos que esse dom se manifeste em e através de nós.

Também é importante que levemos em conta a situação concreta em que Jesus vivia quando falava em parábolas. Ele viveu situações muito conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumos sacerdotes, os mestres da lei. Mateus coloca esta parábola dos talentos em um momento de máxima tensão e enfrentamento de Jesus com os fariseus; concretamente, com o “Deus” dos fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante e justiceiro. Aqui, nesta instigante parábola, Jesus desmascara a falsa imagem de Deus dos fariseus, que torna a vida pesada e marcada pelo medo. É como se Ele dissesse: “Meu Pai não é assim; Ele é fonte de amor, de misericórdia e só deseja que as pessoas vivam felizes, sem medo”.

Nesse sentido, é sumamente útil aprofundar e conhecer o verdadeiro sentido da parábola dos talentos.


2 – O que o texto diz para mim?
Normalmente, costuma-se explicar esta parábola dizendo que Deus dá a cada pessoa uma quantidade determinada de talentos, divinos e humanos, dos quais terá de prestar contas a Ele, até o último centavo, no dia do Juízo Final. Quando se interpreta a parábola dessa maneira, o Deus que aí aparece é uma ameaça insuportável; ao considerar a parábola como uma exortação à uma “vida perfeita”, falsifica-se o sentido autêntico da mesma. O que está em questão aqui é a “imagem” de Deus que todos trazemos.

O indivíduo que recebeu um só talento está convencido de que o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colhe onde não semeou e ajunta onde não espalhou”. Esse indivíduo tem uma ideia terrível de Deus. E por isso, como é natural, “tem medo”; e o medo o leva a “esconder o talento debaixo da terra”. Isso, precisamente, foi sua perdição. O medo paralisa, ou seja, torna as pessoas estéreis.

No fundo, Jesus está dizendo o seguinte: “o Deus que ameaça com a exigência da prestação de contas até o último centavo, é um Deus que bloqueia e anula as pessoas, os grupos, as comunidades”.

Por isso, é urgente acabar com a imagem do Deus que ameaça que não liberta nem cura, que amarra e não deixa a pessoa viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
De fato, a presença de Deus na vida e na história de muitas pessoas é vivida secretamente sob as vestes do temor e do medo. Um “Deus” que me pedirá contas no juízo, onde terei de responder pelo mau uso de meus dons; um “Deus” que me castiga com desgraças, por causa de meus fracassos; um “Deus” interesseiro, um senhor severo que impõe obrigações duras e dificulta minha entrada no banquete; um “deus-patrão” que me prende com contratos e cobranças; um “Deus” que é um constante perigo, causador do Grande Medo que me paralisa. 

Crer em um Deus que pede conta até o último centavo é o mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vida amarga e pesada. Sem a superação cotidiana dos medos, minha experiência de Deus estará comprometida, perderá sua força me fará menos humana.

O ser humano tem uma tendência a alimentar o perfeccionismo e a leitura da parábola dos talentos só viriam confirmar essa tendência. De fato, o conceito de perfeição cristaliza-se em mim desde a infância, a partir de experiências não integradas, de sentimentos de culpabilidade, e que acaba me identificando, no plano pessoal, como não ter defeitos, não ter fragilidades, não ter nenhuma falha ou pecado. Trata-se de um modo fechado de viver dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o “perfeccionista” está convencido de que somente será amado por Deus e pelos outros se for perfeito. A grave consequência disso é que estaria pervertendo a mensagem de Jesus, centrada radicalmente na gratuidade, na compaixão e no amor.

Custa-me reconhecer Jesus como autor da “parábola dos talentos”. Mas, em todo caso, não posso perder de vista que se trata de uma parábola, e que a leitura tampouco pode ser literal.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para relacionar-me humanamente com o Deus que Jesus me revelou, o mais urgente que devo fazer é quebrar as “falsas imagens” d’Ele que carrego em minha consciência, em minha intimidade mais secreta. E a primeira e principal imagem falsa é que Deus é uma ameaça da qual devo me proteger.

Deus é fonte da Vida, ou melhor, o próprio Dom, o “talento” que se dá generosamente em tudo. Ao conectar com minha verdadeira identidade, eu me descubro n’Ela, não como uma presença separada, mas como meu núcleo mais íntimo e profundo.

Essa descoberta é a fonte de minha ação; estou permitindo que o “talento” – o Dom, a Graça, Deus..., possa viver em mim; deixar “Deus ser Deus em minha vida”.

Tal vivência sempre dará fruto abundante. Mas o fruto não é algo conquistado, que antes me faltara e me é dado agora em forma de prêmio ou recompensa – para engordar o ego -; o “prêmio” não é outro que a descoberta daquilo que sou e o prazer de viver isso. O “talento” que me é presenteado é a descoberta da plenitude que sempre fui.

Finalmente, aquele que não faz frutificar o talento fala também de mim mesma, quando permaneço na ignorância de quem sou e, desse modo, “perco” a vida, fechada – o talento enterrado – em minha pequena couraça narcisista. Isso significa não deixar o talento expandir e permanecerei nas trevas de mim mesma perdida na confusão e no sofrimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Mais uma vez, não se trata de uma ameaça e, menos ainda, de um castigo: é um apelo que me chama a despertar, para que eu saia das crenças tóxicas que envenenam a mente e o coração, não me deixam amadurecer no nível humano e espiritual e me privam do prazer de viver o Dom (Talento) que me habita.

No meu interior, Deus me chama me convida a pôr em movimento toda a capacidade de admiração e me ensina a ler e interpretar Sua presença em todas as coisas.

Experimentar, desde já, a presença do Senhor tal como Ela é, evitando todas as suas falsas imagens.

Sentir diante de sua presença, o ser acolhida, desafiada e com uma nobre missão a realizar.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,14-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: A parábola dos talentos – Fx 8 (04:25)
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Frei Luiz Turra, Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfouri
CD: O fascínio das parábolas do Reino
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Leitura Orante – 32º domingo do tempo comum, 12 de novembro de 2017


Leitura Orante – 32º domingo do tempo comum, 12 de novembro de 2017

O AZEITE DA VIDA QUE SE CONSOME ILUMINANDO

“As prudentes, levaram frascos de azeite além de suas lâmpadas” (Mt 25,4)


Texto Bíblico: Mateus 25,1-13  


1 – O que diz o texto?
A “chave de leitura” da parábola “das dez virgens” está na falta de azeite para que as lâmpadas possam permanecer acesas. O relato é tirado da vida cotidiana. Depois de um ano ou mais de noivado, celebrava-se a festa de casamento, que consistia em conduzir a noiva à casa do noivo, onde acontecia o banquete. Esta cerimônia não tinha um caráter religioso. O noivo, acompanhado de seus amigos e parentes, ia à casa da noiva para buscá-la e conduzi-la à sua própria casa; na casa da noiva, encontravam-se suas amigas que a acompanhariam no trajeto e participariam da festa. Todos estes rituais começavam com o pôr do sol e avançavam noite adentro daí a necessidade das lâmpadas para poder caminhar.

A importância do relato não está no noivo, nem na noiva, nem sequer nas acompanhantes. O que o relato destaca é a luz. A luz é mais importante porque o que determina a entrada no banquete é que as jovens tenham as lâmpadas acesas. Uma acompanhante sem luz não tinha como fazer parte no cortejo nupcial. 

Pois bem, para que uma lamparina consiga iluminar é preciso ter azeite. Aqui está o ponto chave. O importante é a luz, mas o que é preciso para alimentá-la é o azeite.

Que é o azeite que alimenta a lamparina?

São as reservas insondáveis de potencialidades criativas, de recursos inspiradores, de dinamismos vitais, de forças latentes, de energias sadias, de desejos oblativos...  presentes nas profundezas do coração humano, e que o impulsionam a viver em sintonia com tudo o que acontece ao seu redor; o azeite é constituído pelas riquezas do próprio ser, as beatitudes originais, as intuições, os valores... que alimentam a autonomia, a autoria, a criatividade, a iniciativa, o espírito de busca, a capacidade de sonhar... Trata-se do “tesouro do ser”, conservado em sua mensagem essencial, e que pode tornar-se a energia que alimenta a luz da vida, a sabedoria da própria existência; o azeite é tudo aquilo que é nutriente, fecundo, iluminante... e que se expressa como contínua fonte de renovação; azeite é vida interior expansiva que se revela e que se consome nos encontros, na interação e na comunhão com os outros...; em resumo, azeite é o que há de mais divino no interior de cada um, que precisa ser descoberto, reconhecido 
e ativado para tornar-se luz.


2 – O que o texto diz para mim?
Os textos destes últimos domingos do ano litúrgico me convidam a velar, a estar preparada, a viver desperta. Deus não me espera no final do caminho para me submeter a um juízo; não, Deus está em mim a todos os instantes de minha vida, inspirando-me, para que eu possa viver com mais plenitude e sentido. 

Interpretar a parábola deste domingo no sentido de que devo estar preparada para o dia da morte é falsificar o evangelho. Esperar passivamente uma vinda futura de Jesus não tem sentido, pois Ele já disse a seus discípulos: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

A parábola não está centrada no fim, mas na inutilidade de uma espera que não é acompanhada de uma atitude de amor e de serviço. As lâmpadas devem estar sempre acesas; se eu esperar para prepará-las no último momento, perderei a oportunidade de entrar para a festa de casamento.

A ideia que muitas vezes tenho de uma vida futura esvazia a vida presente até o ponto de reduzi-la a uma incômoda “sala de espera”. A preocupação pelo “mais além” me impede assumir com mais intensidade o tempo que me cabe viver. A vida presente tem pleno sentido por si mesma. O que projeto para o futuro já está acontecendo aqui e agora, e está ao meu alcance; aqui e agora posso viver a eternidade, já que posso me conectar com o que há de Deus em mim; aqui e agora posso alcançar minha plenitude, porque sendo morada de Deus, tenho tudo ao alcance da mão.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Só quem vive a partir das raízes do próprio ser, só quem tem acesso à própria interioridade, descobre a presença do azeite que pode ser ativado para dar um novo significado e sentido à própria vida. É isso que a parábola do evangelho de hoje me alerta: é preciso estar desperta e sintonizada com o azeite interior para poder alimentar a luz da vida e corresponder às vozes surpreendentes que vão surgindo. 

“No meio da noite ouviu-se um grito: eis que chega o noivo! Saí ao seu encontro”

É uma convocação urgente a sair do sono da distração e da trivialidade que talvez me tenha aprisionada, durante muito tempo, àquilo que é acessório e que me provoca a viver à espera do essencial, atraída por um impulso que me move por dentro, ou seja, o desejo de vida plena.

Com os distraídos não se pode ir muito longe; dizendo melhor; distraídos são os que vivem do momento e não pensam no depois. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pelas luzes artificiais, os distraídos perdem a direção da fonte provedora de azeite em seu interior; dormem e acordam sem luz em suas vidas... Quem anda distraído, disperso e surfando na superfície de si mesmo, acaba perdendo as grandes oportunidades que a vida lhe oferece.

Por isso, ser “sensata” é viver com sentido, atenta e desperta às surpresas da vida. 

Para quem está desperto, sua vida interior torna-se uma fonte inesgotável de energia, de dinamismo e criatividade.

Assim se entende porque as jovens prudentes não compartilham o azeite com as imprudentes. 

Não se trata de egoísmo: é que a lâmpada não pode arder com o azeite da outra. A chama, à qual se refere a parábola, não pode ser acesa com o azeite comprada ou emprestada. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sei que o azeite só ilumina quando se consome. Minha vida revela pleno sentido e alcança seu fim quando desapareço, consumindo-me no serviço aos outros.

Quando a chama da vida está acesa, crescem em mim a consciência de que sou luz na medida em que me gasto na nobre missão de iluminar meu entorno, até chegar a ser cera derretida.

Vivo imersa num oceano de luz; carrego dentro a força da luz. Ela sempre está aí, disponível; basta abrir-me a ela com a disposição de acolhê-la e de fazer as transformações que ela inspira.

A Luz é força fecundante, princípio ativo, condição indispensável para que haja vida.

Sou luz quando expando meu verdadeiro ser, ou seja, quando transcendo e vou mais além, desbloqueando as ricas possibilidades e recursos presentes em meu interior.

O que há de luz em meu interior pode chegar aos outros através das obras. Toda ação realizada com amor e compaixão, é luz.

Encantam-me os cristãos antenados que, cada dia, alimentam sua fé, sua esperança com pequenas coisas, com pequenos detalhes e gestos de amor carregados de luz; cada dia, aprofundam um pouco mais na experiência do Evangelho, mantendo sempre suas lâmpadas acesas, atentos à passagem e às pegadas de Deus por suas vidas; e, sobretudo, carregam sempre reservas de azeite para acolher com alegria a chegada surpresa d’Aquele que sempre está vindo ao seu encontro.

Encantam-me os cristãos comprometidos que sabem que o azeite se consome, a fé se debilita, a esperança se apaga e amor atrofia quando não são alimentados com o azeite sempre novo em reserva nos seus corações.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descobrir o meu próprio azeite original em meu interior.

Fornecer luz para iluminar os meus passos.

Iluminar também os outros, ativando neles a luz ainda escondida.

Inspirar minha vida a ser presença que ilumina.

Toda a vida se move de dentro para fora. Azeite que se consome na nobre missão de iluminar.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,1-13  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Ilumina, ilumina - fx 05 (03:50)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: 12 Sucessos
Gravadora: Paulinas Comep