terça-feira, 31 de outubro de 2017

Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017


Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017

FINADOS: A SABEDORIA DE FAZER-SE PRESENTE DIANTE DA MORTE

“Regozijai-vos e alegrai-vos, 
porque grande é vossa recompensa nos céus...” (Mt 5,12)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-12


1 – O que diz o texto?
No dia de Finados, fazemos memória e nos unimos a todas aquelas pessoas cujos rostos estão gravados em nossa mente e coração, pois foram presenças que nos sustentaram nos confortaram, nos animaram e nos impulsionaram. E podemos expressar a confiança profunda de que a vida é conduzida secretamente a um Porto de Amor definitivo, e todo pranto, impotência e fragilidade serão abraçados e sanados n’Ele.

Há tanto que agradecer a estas pessoas que, como silencioso fermento, fizeram história com Deus no interior de nossa pobre humanidade. Foram presenças inspiradoras que melhoraram uma parte do mundo e nossa gratidão às acompanha. Ditosos eles e elas, e ditosos também nós porque, na comunhão com aqueles (as) que já vivem a páscoa definitiva, somos movidos a seguir seus passos pelo caminho da vida, para sermos dispensadores humildes de felicidade, compaixão, mansidão, famintos e sedentos de justiça, de paz.

Com a morte começa a vida para sempre, no coração do Deus amor. E se a morte é capaz de nos privar do dom da vida, o “amor tem poder para nos devolvê-la”, nos afirma o bispo Balduino de Cantebery.

Ao falar da morte sempre nos sentimos impotentes, pois ela nos ultrapassa. Sabemos de sua existência, mas muitas vezes nos dá medo. E o medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a nos travar profundamente e alimentar uma angústia a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. 

Nossa sociedade tende a negar a morte, afastando-a dos nossos ambientes cotidianos, tornando-a invisível; procuramos negá-la, escondê-la, dissimulá-la; preferimos não falar dela e, mesmo quando falamos desta realidade última, a ela nos referimos com temor e tremor. O pânico e a negação são nosso pão de cada dia: a compulsão por manter-nos – ou ao menos parecer-nos – jovem, o culto à saúde e à vitalidade, a incapacidade de aceitar a fragilidade e a finitude de nossa natureza humana, deixam transparecer o medo de nos deparar com a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte me golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de minha experiência humana; ela desnuda e desvela a precariedade de minha existência. Com nada chego ao mundo e sem nada partirei dele. E a realidade é que sem aceitação da morte continuo presa à onipotência infantil que me faz fantasiar de ser imortal.

E, no entanto, a morte está aí, na volta da esquina; por ser algo seguro e certo, a morte é realidade frequente de distância, mistério e silêncio; ela me faz cruzar o umbral do desconhecido, do qual é impossível dar um passo atrás; fico paralisada frente ao desconhecido e ao irreversível. A morte põe fim ao meu estado de caminhante neste mundo, tempo no qual fui me amadurecendo e crescendo.

A experiência cristã, por outro lado, me revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável. Tira a seriedade da vida, que lhe é dada pela morte.

Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre me fala sobre aquilo que estou fazendo com a própria vida: as perdas, os sonhos não realizados, os riscos que não enfrento por medo... 

É de todos conhecido o refrão: “A morte menos temida dá mais vida”. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O diretor japonês Akira Kurosawa retrata, de maneira original, questão da morte, em seu filme Ikiru, uma obra-prima de 1952. Trata-se da história de Watanabe, um humilde burocrata japonês que descobre ter câncer de estômago e apenas mais alguns meses de vida. O câncer serve de experiência reveladora para este homem, que antes tinha vivido uma vida tão limitada e atrofiada que seus próprios funcionários o apelidaram de “a múmia”.

Depois de descobrir o diagnóstico, ele falta ao trabalho pela primeira vez em 30 anos, retira uma grande quantia de dinheiro de sua conta-corrente e tenta voltar à vida em vibrantes boates japonesas.

No meio desse ambiente devasso, ele encontra inesperadamente uma ex-funcionária que havia pedido demissão de seu escritório porque o emprego era tedioso demais: ela queria viver.

Fascinado por sua vitalidade e energia, ele a segue e implora para que ela o ensine como viver. Ela lhe disse apenas que odiava seu antigo trabalho porque se tratava de uma burocracia sem sentido. 

No novo emprego, em que faz bonecas numa fábrica de brinquedos, ela se sente inspirada e motivada a viver a partir da ideia de poder levar felicidade a muitas crianças.

Quando o burocrata revela a ela seu câncer e a proximidade da morte, ela fica horrorizada e corre para longe, emitindo apenas uma única mensagem por sobre os ombros: “Faça alguma coisa”.
Watanabe retorna, transformado, ao seu trabalho, recusa-se a ser engessado pelo ritual burocrático, quebra todas as regras e dedica o restante da vida à construção de um parque infantil, que seria aproveitado por muitas crianças, durante muitos anos. Na última cena, Watanabe, próximo da morte, está sentado em um balanço no parque. Apesar da nevasca, ele está sereno e se aproxima da morte com uma tranquilidade impressionante.

De fato, aqueles que vivem com mais intensidade são os que deixam a segurança da margem e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, superar o medo da morte é um processo longo, complexo, mas para o cristão constitui uma experiência religiosa muito profunda, que o desafia a aprofundar na consciência de si mesmo e em sua capacidade de confiar em Deus. Vencer o medo da morte é reconhecer que a vida sempre é um dom, não o resultado de meu esforço; e que, por isso mesmo, o essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.

Não é a morte aquela que deve dar sentido à minha vida, mas ao contrário, só aprendendo a viver é que se aprende a morrer. Mesmo que me restasse apenas um segundo de vida, faria muito mal em pensar na morte. Seria muito mais positivo viver plenamente esse segundo. 

A fé cristã não é masoquista ou sádica quando me ensina a bem morrer. Assim me dá maior responsabilidade para com a própria vida. O teólogo Soren Kierkegaard afirma que “só a fé proporciona ao ser humano o valor e a audácia necessária para olhar a morte de frente”. Sem medos, sabendo que o Deus da vida, acolhe com amor e ternura, àqueles (as) que são “aspirados (as)” para dentro de suas entranhas misericordiosas.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para os cristãos, a morte sempre se refere à Vida e à vida; à Vida com maiúscula, junto a Deus e para sempre (que chamo Vida Eterna), e a vida de todos os dias, na qual sou chamada a ser testemunha do amor de Deus a todos os homens e mulheres deste mundo; uma vida de serviço, de compromisso, de entrega generosa para construir um mundo melhor; uma vida com sentido, para que, quando cruzar o umbral da porta desta vida, de verdade posso encontrar plenamente o que tanto buscava: o amor, a paz e o rosto bondoso de um Deus que é Amor. 

A vida se expande quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade. E a morte é o instante da expansão plena para aquele que soube dar um sentido inspirador à sua existência. 

Posso afirmar, então, com muita propriedade, que todos morremos para o interior da Vida.

A certeza de minha fé em Cristo morto e ressuscitado me ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos auto referentes na busca de segurança e imortalidade, para encontrar uma paz profunda que me permita fazer de minha vida uma oferenda gratuita em favor da vida de outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Amanhã se eu acordar fx 19 (02:44)
Autor: Irmã Miriam Kolling
Intérpretes: Irmã Miriam Kolling e Maria Diniz
CD: Tudo por causa de um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep

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