segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Leitura Orante – 28º domingo do tempo comum, 15 de outubro de 2017


Leitura Orante – 28º domingo do tempo comum, 15 de outubro de 2017

A PROVOCATIVA ENCRUZILHADA

“Ide para as encruzilhadas e chamai para as bodas 
todos os que encontrardes”  Mt 22,9)


Texto Bíblico: Mateus 22,1-14


1 – O que diz o texto?
Através de suas parábolas Jesus nos revela uma profunda visão contemplativa da vida; e esta Sua visão não o afasta da realidade; pelo contrário, mantém-no sempre em contato com a fragilidade da existência humana: sentou-se à mesa e comeu com os pecadores; misturou-se com os doentes e os impuros; comprometeu-se solidariamente com os mais pobres, oprimidos e excluídos de seu tempo; revelou sua presença compassiva junto aos mais fracos e sofredores, vítimas de uma estrutura social e religiosa injusta.

Jesus destruiu as categorias de puro e impuro, perfeito e imperfeito, justo e pecador... E anunciou um banquete para todos, “maus e bons”. 

Para Jesus, a experiência da fragilidade dá a conhecer a profundeza da existência humana. 

É reconhecendo-se fraco e limitado que o ser humano se abre para Deus e para os outros; é sua própria fragilidade e pobreza que o fazem sensível à escuta e acolhida do convite de Deus para participar da mesa do Reino. Este é o caminho de Deus em direção ao ser humano, e do ser humano rumo a Deus.

Para fundamentar a imagem do Deus que se deixa afetar por aqueles que estão excluídos nas encruzilhadas da vida, Jesus conta a parábola de um rei que prepara um banquete de casamento do seu filho para muitos convidados.

Como toda parábola, o ponto de inflexão está em rejeitar a oferta. Ninguém rejeita um banquete. Mas o primeiro e o segundo grupo de convidados, com o coração marcado pela ingratidão e afeiçoados aos seus bens e interesses, fazem-se de surdos diante do convite. O campo, os negócios, a violência... é mais importante que a festa da vida. 

Quando nenhum dos convidados comparece, o dono da casa ordena aos empregados: “ide para as encruzilhadas...”, para que convidem a todos, maus e bons. O importante é que haja banquete, que haja festa.

E com frequência, os mais disponíveis são precisamente aqueles que não podem fazer grandes festas. 

Os pobres e excluídos tem poucas festas, mas encanta-lhes as festas; são aqueles que mais sabem festejar.

São eles que dizem sim ao primeiro convite; são eles que não podem comprar campos, nem juntas de bois. E Deus enche a sala com todos eles.

Mas há ainda uma outra imagem surpreendente, revelada pela parábola deste domingo: os maus também são convidados para o banquete festivo. De repente, porém, a atmosfera muda mais uma vez. Entre os convidados, o rei descobre um homem sem a “roupa” apropriada para o casamento. Quando o homem não sabe responder à pergunta por que comparecera à festa sem a roupa de casamento, o senhor ordena que seja jogado lá fora na escuridão.

Todos os nossos aspectos são convidados ao banquete da completude, tantos os aspectos bons quantos os maus, mas nós também precisamos fazer algo.

Esta é uma notícia boa: tudo em nós pode alcançar a união com Deus – também nossos aspectos sombrios e maus -, mas precisamos revesti-los com a roupa do amor, precisamos oferecê-los conscientemente a Deus. Se assim não o fizermos, eles não serão transformados, mas continuarão excluídos na escuridão de nossa existência; com isso não haverá uma festa de casamento, não haverá plenitude de vida.


2 – O que o texto diz para mim?
O que a parábola está querendo me revelar é: também aquilo que faz parte do meu inconsciente, que deixo abandonado em algum ponto da minha encruzilhada interior, ou seja, tudo aquilo que em mim foi rejeitado e reprimido, também quer ser incluído e ter um lugar na mesa festiva com Deus. Toda a minha história é importante, tudo o que jamais foi experimentado e vivenciado deve ser convidado para a integração. Cada aspecto de minha vida, rico ou pobre, faz parte da minha humanidade, e tudo o que é humano é lugar de salvação; não devo negar meus desvios e fracassos, pois eles também querem contribuir para à minha verdadeira identidade em Deus. Justamente os aspectos rejeitados e excluídos de minha vida é que estão mais sensíveis ao convite à vida plena.

Só posso me tornar plena em Deus quando lhe ofereço minhas fraquezas, limitações e fragilidades. Tudo aquilo que escondo de Deus fará falta na minha humanização. Se não aceito os aspectos abandonados e excluídos nas esquinas e encruzilhadas da minha existência, atravesso a vida apenas com metade daquilo que sou: um ser humano que apenas quer revelar seu lado positivo. Quando me encontro assim, sinto que nada pode fluir, porque algo me falta.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Essa força terapêutica da parábola me transmite uma grande esperança: tudo o que compõe minha história, rica e pobre, positiva e negativa, compõe minha vida; nada deve ser rejeitado e nem julgado; tudo deve ser acolhido e tudo deve ser oferecido ao Senhor da festa.

Toda a minha vida, todo o meu ser, tudo o que carrego em meu interior, bom e mau, quer ser transformado pelo Espírito e pelo amor de Deus; só assim, aquela imagem original que Ele tem de cada um pode se revelar e brilhar em qualquer circunstância de minha vida.

Posso, então, afirmar que a vida está nas encruzilhadas de minha existência; afirmando de outro modo: as encruzilhadas estão também carregadas de vida. É das encruzilhadas existências que pode me surpreender com o surgimento do novo. É ali que o convite à plenitude de vida ressoa com mais intensidade.

Minha razão, meu “eu perfeccionista”, meu “ego inflado”, minhas afeições desordenadas... não se deixam impactar pelo convite para a festa da vida. Estão seguros de si, atrofiados e petrificados em seus mundos...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o Deus que Jesus revelou mostra o seu rosto na proximidade e na reconciliação para com todos. Ele não tem vergonha de se aproximar e de se misturar com a pobreza e a fragilidade dos seus filhos e filhas; Deus encontra-se mergulhado no humano, acolhe tudo e plenifica tudo (inclusive a fragilidade). Ele se apresenta como um “Deus errante”, que corre ao encontro daquele que está perdido. 

O Deus de Jesus não age do mesmo modo que o “deus dos fariseus”. Ele não faz comparações entre uns e outros; não coloca os impuros em situação de desvantagem. Ele é o Deus “festeiro”, que sempre propõe a “mesa da inclusão” a todos os seus filhos e filhas.

Jesus põe no centro de seu anúncio a indigência, a fragilidade, o limite... e não a perfeição, a pureza... Ele sabia que a pessoa consciente de suas fragilidades e pobrezas é mais disponível e aberta à Graça de Deus. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É provável que as pessoas, às quais o texto se refere originalmente, tenham sido aquelas que viviam fora de Jerusalém, em meio a um mundo de pobreza e exclusão. 

Tal situação as impedia participar de qualquer festa. Mas se entendo a parábola em chave de interioridade, como motivação para meu caminho em direção a uma vida maior, posso afirmar: o chamado a uma vida em profundidade pode ficar ofuscado pelo ego fechado e superficial.

O apego aos bens e aos negócios podem me impedir de escolher o caminho da vida expansiva; uma vida bem-sucedida é o maior inimigo da transformação. Quem se acomoda no sucesso não prosseguirá em sua caminhada interior e ficará parado em sua imaturidade humana. Quem confia demais em seus próprios negócios ou em seu sucesso pode romper o vínculo com o coração e renegar seu verdadeiro eu.

O perigo está em ter ouvidos para os cantos das sereias, e não para o convite que vem do mais profundo de meu ser, que me chama a uma plenitude humana. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 22,1-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Fragilidade Fx 5 (04:15)
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Ringo, Caio Flavio, Silvinha Araujo, Angela Márcia
CD: Amor, mística e angústia
Gravadora:  Paulinas Comep

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