segunda-feira, 2 de outubro de 2017

HÁ UMA VINHA PLANTADA DENTRO DE NÓS


Leitura Orante – 27º domingo do tempo comum, 08 de outubro de 2017

HÁ UMA VINHA PLANTADA DENTRO DE NÓS

“Havia um proprietário que plantou uma vinha...” (Mt 21,33)



Texto Bíblico: Mateus 21,33-43


1 – O que diz o texto?
Segundo o relato da Criação, nós viemos da argila, do húmus... Por isso carregamos em nosso corpo os mesmos elementos físico químicos da natureza: minerais, plantas, animais... 

O universo inteiro mora, adormecido, dentro de nossos corpos. Cada ser humano carrega latente em seu íntimo toda a sabedoria do universo. O poeta americano Walt Whitman nos legou uma frase maravilhosa e emblemática sobre este tema: "Eu sou contraditório, eu sou imenso. Há multidões dentro de mim".

Há multidões dentro de nós, não só de animais, plantas, pássaros, peixes, minerais... como também de homens e mulheres de todas as etnias, os jardineiros da criação divina. Há um universo inteiro dentro do corpo, universo mais fantástico, mais colorido,  mais belo que o universo que existe do lado de fora.

E o maior desafio é, justamente, a convivência e a harmonia com todo o universo que carregamos em nosso próprio interior.

Partindo do evangelho de hoje, podemos dizer que há uma vinha em nosso interior, plantada com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina. Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.

A vinha interior é o “mundo” de nossa psique, de nossos afetos, de nossas energias, de nossa espiritualidade, de nossos sentimentos e desejos, de nossas relações básicas, quer conosco mesmos e com os outros, quer com as criaturas e com Deus. Quando todos estes dinamismos estão pacificados e integrados, cria-se um “cosmos” interior, expressão da “vinha secreta” que todos carregamos.

Esta vinha é expansiva, acolhedora, aberta a todos, compartilhando seus frutos abundantes. Ela é lugar de movimento, de encontro, de desafio, lugar provocativo e criativo..., enfim, lugar carregado de presenças. Somos a verdadeira vinha a partir da qual Deus nos encontra e se dá a conhecer; cada um de nós é autêntica vinha da eterna presença de Deus. 

Na perspectiva bíblica, a imagem da vinha nos fala de convivência, harmonia, alegria, de acolhida e da gratuidade, por ela ser dada em herança. 


2 – O que o texto diz para mim?
Os homens e as mulheres de todos os tempos e lugares trazem, como que enraizados nas fendas mais profundas de sua interioridade, sonhos de rara beleza. São desejos de convívio, de superação da dor e da solidão, sonhos de fraternidade e da harmonia... O “eu interior” é uma vinha que se desvela e se revela aos olhos encantados.Toda pessoa possui, nas profundezas de si mesma, um lugar misterioso onde a vinha se esconde, muitas vezes em meio a entulhos de feridas, traumas, rejeições.... Ela deve reencontrar a “vinha perdida”, não fora mas nas profundezas de si mesma. Há dentro dela uma vinha secreta, fechada, que precisa ser aberta.

Caminhar pelo vinha interior é uma aventura, um desafio... Essa é a peregrinação interior: ampliar o espaço da vinha para que ela seja sempre lugar da acolhida e da festa.

É nesta direção que a imagem bíblica da vinha também aponta: torná-la uma fonte de bênçãos, de comunhão com as outras pessoas e estreitamento de relações com o próprio Criador. A vinha é o lugar no qual não só existo e revelo minha verdadeira identidade, mas onde sou chamada a uma plenitude de vida, em aliança e comunhão com Deus e com todos.

No entanto, há sempre em mim uma tendência a delimitar, defender e fechar-me em minha própria vinha. Isso faço de maneira tão zelosa que nem vejo aquilo que está para além da minha vinha. São grandes os riscos de viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza atrofia a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. A própria vinha se torna uma “bolha de proteção” e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que faço.

Contemplando o cenário do meu interior vou também tomando consciência que perco o sentido da corrente da vida e de sua imensa diversidade. Esqueço a teia das interdependências e da comunhão de todos com a Fonte originária de tudo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Segundo a imagem bíblica da Vinha, quando rompo a aliança com Deus e me afasto d’Ele, ela fica estéril. Por minha atitude de arrogância e de autossuficiência, eu me faço centro e vou deixando que meus instintos de poder, vaidade, prestígio... ocupem o espaço da vinha interior. Este auto-centramento se revela como uma força de desintegração de mim mesma com minha fonte Original, como força de autodestruição e, por fim, como ruptura de comunhão com o Todo.

A “centração em mim mesma”, sem levar em conta a rede de relações que me envolve, provoca a quebra da “religação” com tudo e com todos. Este é o veneno que me corrói por dentro: a petrificação de minha interioridade, o embrutecimento de minha sensibilidade, a perda do gosto pela verdade, pelo bem e pelo belo, o extravio da ternura e da transcendência, a atrofia da comunhão com todos... 

E minha vinha interior deixa de ser fecunda e oblativa.

Deus investiu pesado no plantio e no cuidado desta vinha interior, esperando frutos saborosos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, uma leitura honesta do texto do evangelho de hoje me move a fazer-me graves perguntas: Estou produzindo em meu tempo os frutos que Deus espera de sua vinha: justiça para com os excluídos, solidariedade, compaixão para com quem sofre, a vivência do perdão...?

No entanto, quê coisas horríveis faço com a vinha interior!

Ferir minha vinha é ferir o próprio Criador, é atrofiar a vida e suas possibilidades.

Quando observo esta vinha outra verdejante, lugar da criatividade, da relação, da comunhão... e agora entulhada de lixo, de contaminação... uma sensação de violação, de sacrilégio, se manifesta em meu interior. E uma voz ecoa das profundezas de meu ser: “Que fizestes de minha vinha!”

Deus não tem por que abençoar uma vinha estéril da qual não recebe os frutos que espera. Não tem porque identificar-se com minha mediocridade, minhas incoerências, desvios e pouca fidelidade. Se não respondo às suas expectativas, Deus continuará abrindo caminhos novos para seu projeto de salvação com outras pessoas que produzam frutos de justiça.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Ampliar a vinha do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando a “vinha interior”, abrasada e iluminada pela força do Espírito, começa a romper as paredes de proteção e se conecta com a grande “vinha exterior”: lugar da missão, do compromisso, do empenho em favor do Reino. 

Não tem sentido ampliar a “vinha externa” se minha mente permanece estreita, se meu coração continua insensível, se minhas mãos estão atrofiadas, se minha criatividade sente-se bloqueada... 

Vinha ampla é convite a sonhar alto, a pensar grande..., ousar ir além, rompendo o modo rotineiro de viver.

Por isso, eu e o universo só seremos felizes quando eu for uma grande vinha, por onde o Senhor passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) . 

A vinha é a face graciosa que Deus oferece à humanidade. 

Na vinha, Deus realiza seu sonho. E fica feliz.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 21,33-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O amor é agora – fx 07 (04:12)
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: Padre Fábio de Saudades do céu
Gravadora:  Paulinas Comep

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