terça-feira, 31 de outubro de 2017

Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017


Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017

FINADOS: A SABEDORIA DE FAZER-SE PRESENTE DIANTE DA MORTE

“Regozijai-vos e alegrai-vos, 
porque grande é vossa recompensa nos céus...” (Mt 5,12)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-12


1 – O que diz o texto?
No dia de Finados, fazemos memória e nos unimos a todas aquelas pessoas cujos rostos estão gravados em nossa mente e coração, pois foram presenças que nos sustentaram nos confortaram, nos animaram e nos impulsionaram. E podemos expressar a confiança profunda de que a vida é conduzida secretamente a um Porto de Amor definitivo, e todo pranto, impotência e fragilidade serão abraçados e sanados n’Ele.

Há tanto que agradecer a estas pessoas que, como silencioso fermento, fizeram história com Deus no interior de nossa pobre humanidade. Foram presenças inspiradoras que melhoraram uma parte do mundo e nossa gratidão às acompanha. Ditosos eles e elas, e ditosos também nós porque, na comunhão com aqueles (as) que já vivem a páscoa definitiva, somos movidos a seguir seus passos pelo caminho da vida, para sermos dispensadores humildes de felicidade, compaixão, mansidão, famintos e sedentos de justiça, de paz.

Com a morte começa a vida para sempre, no coração do Deus amor. E se a morte é capaz de nos privar do dom da vida, o “amor tem poder para nos devolvê-la”, nos afirma o bispo Balduino de Cantebery.

Ao falar da morte sempre nos sentimos impotentes, pois ela nos ultrapassa. Sabemos de sua existência, mas muitas vezes nos dá medo. E o medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a nos travar profundamente e alimentar uma angústia a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. 

Nossa sociedade tende a negar a morte, afastando-a dos nossos ambientes cotidianos, tornando-a invisível; procuramos negá-la, escondê-la, dissimulá-la; preferimos não falar dela e, mesmo quando falamos desta realidade última, a ela nos referimos com temor e tremor. O pânico e a negação são nosso pão de cada dia: a compulsão por manter-nos – ou ao menos parecer-nos – jovem, o culto à saúde e à vitalidade, a incapacidade de aceitar a fragilidade e a finitude de nossa natureza humana, deixam transparecer o medo de nos deparar com a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte me golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de minha experiência humana; ela desnuda e desvela a precariedade de minha existência. Com nada chego ao mundo e sem nada partirei dele. E a realidade é que sem aceitação da morte continuo presa à onipotência infantil que me faz fantasiar de ser imortal.

E, no entanto, a morte está aí, na volta da esquina; por ser algo seguro e certo, a morte é realidade frequente de distância, mistério e silêncio; ela me faz cruzar o umbral do desconhecido, do qual é impossível dar um passo atrás; fico paralisada frente ao desconhecido e ao irreversível. A morte põe fim ao meu estado de caminhante neste mundo, tempo no qual fui me amadurecendo e crescendo.

A experiência cristã, por outro lado, me revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável. Tira a seriedade da vida, que lhe é dada pela morte.

Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre me fala sobre aquilo que estou fazendo com a própria vida: as perdas, os sonhos não realizados, os riscos que não enfrento por medo... 

É de todos conhecido o refrão: “A morte menos temida dá mais vida”. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O diretor japonês Akira Kurosawa retrata, de maneira original, questão da morte, em seu filme Ikiru, uma obra-prima de 1952. Trata-se da história de Watanabe, um humilde burocrata japonês que descobre ter câncer de estômago e apenas mais alguns meses de vida. O câncer serve de experiência reveladora para este homem, que antes tinha vivido uma vida tão limitada e atrofiada que seus próprios funcionários o apelidaram de “a múmia”.

Depois de descobrir o diagnóstico, ele falta ao trabalho pela primeira vez em 30 anos, retira uma grande quantia de dinheiro de sua conta-corrente e tenta voltar à vida em vibrantes boates japonesas.

No meio desse ambiente devasso, ele encontra inesperadamente uma ex-funcionária que havia pedido demissão de seu escritório porque o emprego era tedioso demais: ela queria viver.

Fascinado por sua vitalidade e energia, ele a segue e implora para que ela o ensine como viver. Ela lhe disse apenas que odiava seu antigo trabalho porque se tratava de uma burocracia sem sentido. 

No novo emprego, em que faz bonecas numa fábrica de brinquedos, ela se sente inspirada e motivada a viver a partir da ideia de poder levar felicidade a muitas crianças.

Quando o burocrata revela a ela seu câncer e a proximidade da morte, ela fica horrorizada e corre para longe, emitindo apenas uma única mensagem por sobre os ombros: “Faça alguma coisa”.
Watanabe retorna, transformado, ao seu trabalho, recusa-se a ser engessado pelo ritual burocrático, quebra todas as regras e dedica o restante da vida à construção de um parque infantil, que seria aproveitado por muitas crianças, durante muitos anos. Na última cena, Watanabe, próximo da morte, está sentado em um balanço no parque. Apesar da nevasca, ele está sereno e se aproxima da morte com uma tranquilidade impressionante.

De fato, aqueles que vivem com mais intensidade são os que deixam a segurança da margem e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, superar o medo da morte é um processo longo, complexo, mas para o cristão constitui uma experiência religiosa muito profunda, que o desafia a aprofundar na consciência de si mesmo e em sua capacidade de confiar em Deus. Vencer o medo da morte é reconhecer que a vida sempre é um dom, não o resultado de meu esforço; e que, por isso mesmo, o essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.

Não é a morte aquela que deve dar sentido à minha vida, mas ao contrário, só aprendendo a viver é que se aprende a morrer. Mesmo que me restasse apenas um segundo de vida, faria muito mal em pensar na morte. Seria muito mais positivo viver plenamente esse segundo. 

A fé cristã não é masoquista ou sádica quando me ensina a bem morrer. Assim me dá maior responsabilidade para com a própria vida. O teólogo Soren Kierkegaard afirma que “só a fé proporciona ao ser humano o valor e a audácia necessária para olhar a morte de frente”. Sem medos, sabendo que o Deus da vida, acolhe com amor e ternura, àqueles (as) que são “aspirados (as)” para dentro de suas entranhas misericordiosas.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para os cristãos, a morte sempre se refere à Vida e à vida; à Vida com maiúscula, junto a Deus e para sempre (que chamo Vida Eterna), e a vida de todos os dias, na qual sou chamada a ser testemunha do amor de Deus a todos os homens e mulheres deste mundo; uma vida de serviço, de compromisso, de entrega generosa para construir um mundo melhor; uma vida com sentido, para que, quando cruzar o umbral da porta desta vida, de verdade posso encontrar plenamente o que tanto buscava: o amor, a paz e o rosto bondoso de um Deus que é Amor. 

A vida se expande quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade. E a morte é o instante da expansão plena para aquele que soube dar um sentido inspirador à sua existência. 

Posso afirmar, então, com muita propriedade, que todos morremos para o interior da Vida.

A certeza de minha fé em Cristo morto e ressuscitado me ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos auto referentes na busca de segurança e imortalidade, para encontrar uma paz profunda que me permita fazer de minha vida uma oferenda gratuita em favor da vida de outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Amanhã se eu acordar fx 19 (02:44)
Autor: Irmã Miriam Kolling
Intérpretes: Irmã Miriam Kolling e Maria Diniz
CD: Tudo por causa de um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep

domingo, 29 de outubro de 2017

Leitura Orante – Todos os Santos, 1º de novembro de 2017


Leitura Orante – Todos os Santos, 1º de novembro de 2017

SANTIDADE: o DNA de Deus no coração do ser humano

 “Bem-aventurados sois vós...” (Mt 5,11)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-11


1 – O que diz o texto?
Falar de felicidade nos leva necessariamente a nos perguntar se é possível ser felizes em um mundo cheio de dores, injustiças, mortes prematuras, solidão, vida sem sentido... 

No entanto, como seres humanos não podemos renunciar à busca da felicidade. O importante é que não vivamos esta busca de uma maneira solitária, nem que nossa busca seja à custa dos outros ou à margem das grandes maiorias sofredoras. A isso não se pode chamar felicidade.

A felicidade é a busca fundamental do ser humano, o sonho da humanidade desde o começo da história. O difícil é ter sabedoria para poder reconhecer os caminhos que nos conduzem a ela.

Nesse sentido, a liturgia da festa de Todos os Santos e Santas vem nos indicar este caminho, ao apresentar o texto das Bem-aventuranças como um programa para viver a felicidade; e o motivo primeiro é porque todas elas são, na verdade, o caminho da santidade universal (acima e além de toda religião, pois elas são simples e profundamente humanas). As Bem-aventuranças são como o mapa de navegação para nossa vida; são o horizonte de sentido e o ambiente favorável para nossa santificação, entendida como empenho para viver com mais plenitude, segundo o querer de Deus.

A primeira “canonização”, pois, teve lugar quando Jesus, num determinado dia, subiu à montanha e com grande solenidade declarou felizes os pobres, os aflitos por causa do Reino, os mansos que não recorrem à violência, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os que não tem segundas-intenções no coração, os que trabalham em favor da paz, os perseguidos por causa da justiça. Todos eles(as) são declarados felizes porque são os que mais se parecem com Deus, ou seja, deixam transparecer em suas vidas a santidade d’Ele. E a felicidade está justamente na vivência do chamado universal à santidade.


2 – O que o texto diz para mim?
A santidade é, pois, um dom recebido de Deus, que alimenta na pessoa o desejo e a disposição de “sair de si mesma” para viver a experiência do amor na relação com o mesmo Deus, no encontro com os outros e no cuidado e proteção da Criação. 

“Viver a partir da santidade de Deus” representa a melhor definição da santidade cristã: reconhecer-me como quem recebe tudo de Deus, deixar-me amar e guiar por Ele, assemelhar-me a Ele para fazer carne viva em mim os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem com as pessoas.

Em outras palavras, a santidade significa viver o divino que há em mim.

Só descobrindo o que há de Deus em mim, poderei cair na conta da minha verdadeira identidade. 

Todos são santos, eu sou santa, porque meu verdadeiro ser é o que há de Deus em mim; embora a imensa maioria das pessoas não tem consciência disso ainda, não posso deixar de manifestar o que sou. Sou santo, santa pelo que Deus é em mim, não pelo que eu sou para Deus. Para Jesus, é santa a pessoa que descobre o amor que chega até ela sem mérito algum de sua parte, mas deixa-se envolver por este amor expansivo e passa a viver uma presença amorosa.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As bem-aventuranças constituem a carta magna do Reino e princípio fundamental do seguidor e seguidora de Jesus; nela aparece a visão que Jesus tinha e desejava para o ser humano. Este texto não é apenas uma normativa, uma ética, mas um modo de entender a vida humana; elas oferecem um programa de felicidade e de esperança, ou seja, elas me ensinam a ser ditosa, no desprendimento e na solidariedade, na pureza de coração e de vida, na liberdade radical, na esperança... tanto no nível pessoal como comunitário.

As bem-aventuranças compartilham uma mesma visão “macro-ecumêmica”: valem para todos os seres humanos. O Deus que nelas aparece não é “confessional”, não é “patrimônio” de uma religião específica; não exige nenhum ritual de nenhuma religião, senão o “rito” da simples religião humana: a pobreza, a opção pelos pobres, a transparência de coração, a fome e sede de justiça, a luta pela paz, a perseguição como consequência do empenho em favor da Causa do Reino... Essa “religião humana básica fundamental” é a que Jesus proclama como “código de santidade universal”, para todos os santos e santos os de casa e os de fora, os do mundo “católico” e os de outras expressões religiosas...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, todo ser humano deseja ser feliz, e o desejo de felicidade é o dinamismo mais profundo que toda pessoa traz inscrita no íntimo do seu ser. Em outras palavras, a aspiração primeira que me habita é a “alegria de viver”. Por isso, atentar contra a felicidade de viver é a agressão mais grave que se pode cometer contra o ser humano.

No entanto, na experiência de fé de muitas pessoas, a imagem de “Deus” não está associada à busca da “felicidade”. De fato, são muitos os que veem em Deus um autêntico rival da própria felicidade, pois costumam relacionar Deus com a proibição de muitas coisas que lhes dão prazer e lhes fazem felizes, ou com a obrigação de fazer outras coisas que lhes são pesadas e desagradáveis. E, sobretudo, para muitos, “Deus” é uma ameaça, uma proibição constante, uma censura, um juiz implacável com o código de leis nas mãos... enfim, uma carga pesada que complica a vida, tornando-a sem sabor e sem sentido.

Além disso, muita gente vê em Deus a imposição de verdades que não compreende, a limitação da própria liberdade, a necessidade de submeter-se a poderes e autoridades que lhe causam rejeição...

E, para culminar, são muitos aqueles cuja experiência de fé é vivida de maneira negativa, alimentando culpas, acentuando os escrúpulos, fomentando divisões e conflitos internos, comportamentos de caráter obsessivo, práticas piedosas carregadas de moralismo e expiação..., e outras patologias.

É evidente que um “Deus” assim gera, nas pessoas, sentimentos de culpa, de insegurança e de medo.

Posso, então, compreender perfeitamente porque muitas pessoas prescindem de Deus em suas vidas, inclusive, recusam abertamente tudo o que se refere a Deus, à religião e aos seus representantes.

Um “Deus” que é percebido e sentido como um problema, como uma presença que entra em conflito com sua felicidade, por mais que lhes digam que Ele é bom, que os ama e que é Pai, é e será sempre um “deus” inaceitável e até insuportável. Um Deus assim não tem e nem pode ter relação alguma com a aspiração maior que elas carregam dentro de si: o desejo de ser feliz na vida. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Não é fácil passar de uma espiritualidade que fez do sofrimento e do sacrifício um lugar de redenção, de santidade, de predileção por parte de Deus, a uma espiritualidade que integra a busca da felicidade, não só como um direito humano, senão como um sinal do Reino.

Na festa de Todos os Santos e Santas sou convidada a deixar semear na terra de minha vida o anúncio mais impressionante de felicidade que Jesus me faz. Como não ficar maravilhada diante das bem-aventuranças e deixar que cada uma delas me desvele e me fale d’Ele? De fato, elas são o auto-retrato de Jesus; antes de proclamá-las, Ele as viveu na radicalidade.

A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de meu ser. 

O que me tira a energia e me torna impotente é afastar-me desse princípio vital que é o Divino em cada ser.

A santidade é luz expansiva do divino que se faz visível no “modo contemplativo” de viver.

Minha presença junto às pessoas quer ser transparência da santidade de Deus...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Faz de nós um  povo santo fx 10 (02:52)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Pais e mães em oração
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Leitura Orante – 30º domingo do tempo comum, 29 de outubro de 2017


Leitura Orante – 30º domingo do tempo comum, 29 de outubro de 2017

UM CORAÇÃO CHEIO DE DEUS E DE NOMES

“Nesses dois mandamentos se apoia toda a Lei, assim como os Profetas: 
“ama a Deus e ama o teu próximo”.

Texto Bíblico: Mateus 22,34-40


1 – O que diz o texto?
Jesus, no seu ministério em favor da vida, se depara com inúmeras perguntas; muitas delas escondiam uma pretensão de colocá-lo à prova e desmoralizá-lo diante dos outros. Desta vez aparece uma pergunta fundamental e radical: “qual é o primeiro de todos os mandamentos da Lei”?

Jesus, em primeiro lugar, responde à pergunta tal e como lhe fazem. De sua boca, o mandamento bíblico do amor recebe toda sua profundidade, não somente como compêndio da lei, mas como síntese da vida: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento”. Trata-se de amar com tudo o que existe em nosso ser, em termos de capacidade de decisão (coração), de alento vital (alma), de consciência (mente) e de força vital (forças).

Amar a Deus com todo o coração é amá-lo com o que há nele: com seu lado de luz e de sombra, com seu trigo e sua cizânia, com sua terra boa e sua terra baldia...; podemos amá-lo sem medo, podemos amá-lo sem ter que esconder nossas fragilidades, pode amá-lo a partir de qualquer situação de nossa vida, pois nada do que é humano fica fora, tudo se converte em motivo para deixar-nos habitar por sua ternura amorosa. Isso significa que não teremos que esperar chegar à perfeição para poder amá-lo com todas as nossas forças, que não precisamos ter tudo resolvido dentro de nós, que não temos que ter a casa de nossa vida ordenada... mas que é Ele quem, ao entrar em nosso interior e habitá-lo, vai ordenando tudo à sua maneira e nos faz capazes de acolher e de amar os outros.

Mas, Jesus aproveita também para responder à pergunta que não lhe fora feita, mais profunda e reveladora. Jesus é mestre em fazer nova pergunta em cima de outra pergunta; Ele não perde a ocasião e aproveita das perguntas para chamar a atenção para algo mais importante.

Jesus responde, em primeiro lugar, aquilo que todos já conheciam; mas, para que não ficassem acomodados com o primeiro mandamento, acrescenta-lhes o segundo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 


2 – O que o texto diz para mim?
No fundo, Jesus veio lhes dizer que sim, que o principal é o amor a Deus, mas que o amor a Deus não era verdadeiro se não era acompanhado do amor ao próximo. Mais ainda, Jesus quis indicar que o mandamento do amor ao próximo é de igual valor e de igual importância que o mandamento do amor a Deus.

Além disso, Jesus simplificou as coisas, porque frente aos 248 preceitos e as 365 proibições reduziu tudo a dois. E com isso era suficiente: “ama a Deus e ama o teu próximo”. 

Por esta resposta eles não esperavam, mesmo dizendo-lhes que estes dois mandamentos são toda a Lei. E que com estes dois mandamentos todas as demais normas e leis são secundárias. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Certamente, não tenho a pretensão de tentar e nem de colocar Jesus à prova. Mas é possível que eu tenha medo de lhe fazer a mesma pergunta dos fariseus, pois tenho uma infinidade de leis, a maioria inúteis e sem sentido. Encantam-me a floresta de leis; basta olhar o Código de Direito Canônico e me encontrar com 1752 leis e vários Apêndices; cada Diocese e paróquia tem suas normas e leis; e se levar em consideração o Código Civil, o Código Penal e demais códigos...

Jesus é muito mais simples e direto; para Ele dois mandamentos são suficientes.

Eu também tenho medo de lhe perguntar pelo essencial, pois tenho medo de lhe perguntar sobre o amor; até me atreveria perguntar pelo amor a Deus, mas que não diga que tenho de amar o próximo “como a mim mesma”.

No entanto, no seguimento e identificação com Jesus, preciso de dois remos: o amor a Deus e o amor ao próximo. Se me falta um deles, minha fé não caminha. Não caminha se não amo a Deus com todo meu coração; tampouco caminha se não amo os outros “como a mim mesma”.

Tenho inventado mil e uma devoções e me sinto bem; criei uma infinidade de orações e me sinto merecedora do prêmio celeste; cumpro uma infinidade de ritos para pacificar minha relação com Deus. E, no entanto, sei que de nada vale todo este arsenal de coisas piedosas e rituais, se não sou capaz de amar. 

O coração que não ama é um coração de casca, estéril, seco... 

O coração que não ama é um coração vazio de Deus e dos seres humanos.

“No final do meu caminho me dirão: - E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes” (D. Pedro Casaldáliga).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o coração humano deveria ser também uma espécie de agenda onde, como diz Casaldáliga, no final da vida, quando serei interrogada sobre o amor, me bastará abrir o coração para que Deus o veja cheio de nomes. E isso será um dos sinais de que tenho vivido e amado. 

Quando amo, escrevo o nome das pessoas em meu coração. Por isso, posso  imaginar o coração de Deus cheio de nomes: o teu, o meu e o de todos. Também os daqueles a quem ninguém chama e a quem ninguém os leva em seu coração.

Quando quero saber se de verdade amo a Deus, olho se levo seu Nome em meu coração.

Quando quero saber se de verdade amo o meu próximo, me pergunto quantos nomes carrego escritos no coração. 

Quando quero saber a quantos não amo, olho o meu coração e vejo quantos nomes apaguei ou quanto nunca escrevi nele ou quantos faltam.

Ser seguidora de Jesus é encher o coração de nomes, muitos deles nunca tenho escutado e até é possível que nem sei pronunciá-los.

O seguidor, a seguidora, que entrega sua vida pela causa do Evangelho e por amor à humanidade, tem o coração cheio de nomes, inclusive aqueles que nem conhece e nem conhecerá nunca, mas que ele(ela) continua amando e continua investindo sua vida para que algum dia também eles entrem no fluxo do amor divino.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esta é a razão pela qual o “segundo mandamento” – “amarás o teu próximo como a ti mesmo” – é “semelhante ao primeiro”. Não amo por imposição, mas porque sou amor. 

No amor, nada é obrigação, tudo é dom! É certo que posso viver na superfície mais egocêntrica, ignorando e bloqueando minha realidade mais profunda. Mas, na medida em que vivo a partir dessa realidade profunda, tudo aparece unificado e harmonioso; tudo fica admiravelmente integrado: uma existência sem costuras, sem emendas, tecida e mantida no Amor fontal de Deus.

O amor unifica tudo a partir do mais profundo. 

Ele dá unidade a toda a minha atividade, por mais dispersa que ela possa parecer. 

O amor é a força que pode dinamizar e unificar minha existência. Posso fazer muitas coisas, comprometer-me com mil atividades, todos os dias; no entanto, o mais importante é fazê-lo sempre da mesma maneira: com amor.

O amor estimula o que há de melhor em mim. 

Ele ilumina minha mente proporcionando clareza de pensamento e criatividade.

Dinamiza toda minha pessoa; faz crescer minhas energias; desperta minha capacidade para a busca do que é melhor; dá um novo colorido à minha vida cotidiana; capacita-me a realizar minhas atividades com mais inspiração; enraíza-me no mais profundo da vida, nessa corrente vital que flui de um Deus, que é mistério de amor. 

É por isso que o amor cura e salva.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 22,34-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O verbo é amar – Fx 11 (04:06)
Autor: Hemerson Jean
Intérprete: Hemerson Jean
CD: O meu lugar
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Leitura Orante – 29º domingo do tempo comum, 22 de outubro de 2017


Leitura Orante – 29º domingo do tempo comum, 22 de outubro de 2017

DEUS ou CÉSAR: a partir de onde e de quem nós vivemos?

“Devolvei, portanto, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21)


Texto Bíblico: Mateus 22,15-21


1 – O que diz o texto?
Jesus sempre foi presença desconcertante; sua vida desconcertava a todos; seu modo de falar e de agir, sua liberdade de espírito desconcertava, sobretudo aqueles que eram investidos de “poder religioso”. 

Os fariseus mandam seus discípulos fazerem uma pergunta maldosa a Jesus; eles não têm coragem de olhar Jesus de frente e por isso mandam outros. Duas atitudes inautênticas: aqueles que mandam, porque não tem coragem de fazer a pergunta e ouvir o que não querem; e aqueles que são “mandados”, sem personalidade própria, fazem o que os outros dizem para fazer...  

Parece que Jesus era um mestre em desativar perguntas com intencionalidade enganosa e desmascarar criativamente aqueles que urdiam armadilhas com a única finalidade de enredá-lo nelas.

Isso já ocorrera em outras situações; mas o evangelho de hoje trata de uma questão particularmente sensível para um povo dominado pelo império romano e submetido a uma agravante pressão através do pagamento escorchante dos impostos.

Aqui os fariseus revelam uma confusão de “poderes” ao dirigirem uma capciosa pergunta a Jesus sobre a licitude ou não em pagar o imposto a César. 

Mas Jesus não só desmascara a incoerência daqueles que estendem a armadilha, senão que introduz uma afirmação carregada de consequências, que transcende por completo a “anedota” do debate: “Devolvei, portanto, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”

César se impõe (imposto) pelo poder, que oprime e exclui; Deus não se impõe (não é imposto); faz-se dom, se esvazia de todo poder e se aproxima de nós, se faz comunhão. Por isso, o relacionamento entre o ser humano e Deus dá-se na esfera da mais pura liberdade, lá onde as decisões são ditadas pelo amor.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus, que não vivia a serviço do imperador de Roma, senão “buscando o Reino de Deus e sua justiça”, acrescenta uma grave advertência sobre algo que ninguém lhe perguntou: “devolvei a Deus, o que é de Deus”.

A moeda, que representa o Imperador César, tem um valor relativo, mas o ser humano tem um valor absoluto, porque é imagem e semelhança de Deus. 

A moeda traz a “imagem” de Tibério, mas o ser humano é “imagem” de Deus: pertence só a Deus. As pessoas nunca podem ser sacrificadas a nenhum poder.

Jesus não põe Deus e César no mesmo nível, senão que toma partido por Deus. 

Jesus não busca defender os interesses de Deus frente aos interesses de César, senão defender o ser humano de toda escravidão; Ele não está propondo uma dupla tarefa para os humanos, mas a única tarefa que lhe pode levar à sua plenitude: servir ao outro.

Jesus deixa muito claro que César não é Deus, mas, muitas vezes, os humanos apressam em converter a Deus em um César. É preciso ter clara consciência que Deus não é um César superior e que nem atua como César. Quando alguém atua com poder, atua como um César. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Normalmente utiliza-se a frase “devolvei a César o que é de César e a Deus, o que é de Deus” para justificar o poder. Se algo está claro no evangelho é que todo poder é nefasto porque massacra o ser humano. Ouço repetir com insistência que todo poder vem de Deus. Pois bem, segundo o Evangelho, nenhum poder pode vir de Deus, nem o político nem o religioso. Em toda organização humana, quem está à frente, está ali para servir aos outros, não para dominá-los ou submetê-los.  

Porque o que a resposta de Jesus faz é desativar por completo toda absolutização do poder. Ninguém nem nada podem atribuir a si um poder absoluto. Só Deus é Deus. 

A frase do Evangelho também foi entendida como que é preciso estar mais dependente do “César religioso” do que do “César civil”. Nenhum exercício do poder é evangélico. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Nenhum ser humano é mais que outro nem está acima do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe, não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos”. A única autoridade que Jesus admite é o serviço.

Aqui se trata de dividir atribuições, nem sequer com vantagens para Deus. Deus não compete com nenhum poder terreno, simplesmente porque Deus não atua a partir da categoria de poder. 

Além disso, todo aquele que procura atuar com o poder de Deus, está se enganando. Jesus nunca defendeu o poder senão as pessoas, sobretudo àqueles que mais precisam de defesa: marginalizados, explorados, excluídos...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a única maneira de entender todo o alcance da mensagem de hoje é superar a imagem de Deus que estou arrastando há muito tempo. Deus, ao criar, não se separa da criação. A Criação é o transbordamento do coração de Deus. Não há nada que não seja de Deus, porque nada há fora d’Ele. O ser humano é o grau máximo da presença de Deus na Criação. Sou criatura de Deus, só a Ele pertenço totalmente. 

A palavra de Jesus, portanto, aponta para um modo de se viver; ou, mais exatamente, questiona sobre o “a partir de onde e de quem” eu vivo: a partir do nível do relativo (césar) ou a partir do nível profundo (Deus)?

Alimento diferente “césares” em meu coração, aos quais me faço submissa: instinto de posse, busca de poder e prestígio, consumismo, obsessão por um bem-estar material sempre maior, o espírito de competição... Quando é “césar” que determina minha vida, sua influência envenena minha relação com Deus, deforma minha verdadeira identidade e rompe minha comunhão com os outros; desumaniza-me.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Como seguidora de Jesus, devo buscar n’Ele a inspiração e o alento para viver de maneira livre e solidária.

O Deus que Jesus me revelou é o Deus que se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo. Não é o Deus do poder absoluto, nem o Deus que exige obediência e submissão àqueles que se apresentam como “representante” do divino.

O Deus de Jesus é o Deus que responde e correspondem aos anseios de respeito, dignidade e felicidade, que todos trazem inscritos no sangue de suas vidas e nos sentimentos mais autênticos e nobres. 

O Deus Misericordioso não impulsiona ninguém a desejar poderes, por mais nobres que possam parecer. Ele é o Deus que só legitima a identificação e até a fusão com o destino das vítimas deste mundo.

Esta foi a principal fonte de conflitos de Jesus com os fariseus e sacerdotes que, em nome de Deus, exerciam o poder e a dominação sobre as pessoas e sobre o mais íntimo que há em cada um: sua consciência e sua liberdade para tomar decisões na vida e expressar sua fé em Deus.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 22,15-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Escolhas – Fx 5 (04:20)
Autor: Mariani
Intérprete: Mariani
CD: Saudades do amanhã
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Leitura Orante – Aparecida, 12 de outubro de 2017


Leitura Orante –  Aparecida, 12 de outubro de 2017

APARECIDA: 
uma mulher, uma festa, uma presença inspiradora


Texto Bíblico: João 2,1-11

1 – O que diz o texto?
“A segunda postura: Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Paraíba do Sul, encontram algo inesperado: uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com Ele” (Homilia do Papa Francisco em Aparecida – 2013)

Uma festa mariana é sempre um motivo de alegria; a festa da mãe Aparecida é, para o povo brasileiro, um momento de inspiração e de profundidade. Neste dia festivo, o que se pode afirmar de mais grandioso a respeito de Maria é que ela foi uma mulher absolutamente humana; nessa humanidade devemos descobrir a grandeza de sua pessoa. Se fundamentamos sua grandeza nos brocados e indumentárias que fomos acrescentando durante séculos, estaremos minimizando seu verdadeiro ser e dando a entender que, em si mesma, Maria não é suficientemente importante, já que a valorizamos mais pelos adornos que vamos  colocando sobre ela.

Em Maria descobrimos aquilo que, na essência, todos somos. Conhecer seu verdadeiro ser é a chave para a interpretação atualizada da festa de hoje. Não devemos nos conformar em olhar Maria para ficarmos extasiados diante de sua beleza. O que descobrimos nela, devemos também descobrir em nosso próprio ser. O que importa realmente é que em Maria e em todo ser humano há um núcleo intocável que nada nem ninguém pode manchar. O que há de divino em nós será sempre imaculado. 

Tomar consciência desta realidade, seria o começo de uma nova maneira de entender a nós mesmos e de entender os outros. 

Maria é grande em sua simplicidade e não temos nada que acrescentar ao que ela foi desde o princípio. Basta olhar para o seu verdadeiro ser e sua maneira original de se fazer presente junto aos outros para, então, descobrir o que há de Deus em seu interior; isso é que sempre será puríssimo, imaculado. Se descobrimos isso nela, é para tomar consciência de que também está presente em cada um de nós.

Escutando as palavras de Maria – “Fazei tudo o que Ele vos disser!” -  nosso ouvido interior se afinará para perceber melhor o clamor dos empobrecidos e excluídos da festa da vida. É o clamor de nosso mundo.


2 – O que o texto diz para mim?
Como a imagem negra e despojada encontrada no rio Paraíba do Sul, Maria não necessita nenhum adorno. Néscio é aquele que pinta um diamante; tolo é aquele que cobre uma pérola de purpurina; fantasioso é aquele que pretende enfeitar uma rosa que acaba de se abrir pela manhã; insensato é aquele que tenta acariciar uma borboleta que acaba de sair de seu casulo. Maria é o diamante, a pérola, a rosa, a borboleta. Livre de toda indumentária, ela é mais formosa. 

De nada me servirá descobrir a pérola em Maria se não a descobrir também em mim mesma. São milhões de diamantes que habitam esta terra, embora cobertos de terra e barro. 

Contemplar Maria e deixar desvelar (tirar o véu) a nobreza humano-divina escondida em meu interior.

Em mim, algo de bom, de inocente, de imaculado, continua a dizer “sim” ao incompreensível Amor... É preciso encontrar esta dimensão interior por onde entra a vida, este lugar por onde entra o amor. É uma experiência de silêncio, uma experiência de intimidade, alguma coisa de mais profundo do que aquilo que aparento ser; existe em mim alguma coisa de mais divino e mais profundo, que é a beatitude original.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou habitada por uma realidade mais profunda que a minha resistência, um sim mais profundo que todos os meus “nãos”, uma inocência original que todos os meus medos e feridas... 

Maria é a minha verdadeira natureza, é a minha verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.

Nesse sentido digo que ela é Imaculada como referência única de uma humanidade que também é capaz de escutar Deus e de responder-lhe; ela é Imaculada porque me “desvela” que também eu posso romper as amarras que me desumaniza; ela é Imaculada porque “revela” que o ser humano é “lugar” de abertura a Deus, que é possível viver em liberdade, dialogando com os outros, a serviço da comunhão e da vida.

Porque se fez presente a Deus, Maria vai se fazendo presente na vida das pessoas de uma maneira sempre mais criativa e atenta; presença que se faz manancial de vida para os outros, tornando-se, ao mesmo tempo, amiga, irmã e mãe de todos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a presença silenciosa, original e mobilizadora de Maria desperta e ativa também em mim uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-me para estar sintonizada com a realidade e suas carências. Tal atitude me mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para minha própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar minhas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao meu redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouço penetre na minha própria vida; implicar-me afetivamente, relacionar-me com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam minhas entranhas e permanecem na memória e no coração.

Maria de Nazaré me recorda que a falta de vinho é esquecimento da fraternidade, é falta de amor e de comunhão, é ausência do Reinado de Deus na minha vida. Por outro lado, em meio a tantas carências, também se fazem visíveis os sinais do Reino: desejos de solidariedade, gente que protege a vida, homens e mulheres que buscam a Deus e se comprometem com a vida, tantas vezes ameaçada. 

Maria me atrai para a festa que nunca se acaba: compartilhar minha existência com muita gente e viver sob os impulsos do Espírito.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A festa de hoje me ajuda a ativar uma sensibilidade solidária, pois é muito frequente estar próximo e não perceber os outros, estar junto e não ter consciência dos problemas e dificuldades dos outros. 

É preciso ampliar o olhar para entrar em sintonia compromissada com a realidade carente. 

O mundo me reconhecerá pelos meus gestos de solidariedade.

Sentir tudo o que há de água depositada e parada em minha vida...

Sentir como talha de pedra, fria e rígida, me torna incapaz de mobilizar minha vida em favor da vida.

Reconhecer e agradecer  tudo o que na minha vida se parece com o vinho, que me dilata e me dá sentido de festa.

Vinho expansivo que provoca alegria, abundância, reconstrução de novas relações...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 2,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Aparecida, sou romeiro – fx 10 (03:46)
Autor: Padre Ezequiel Dal Pozzo
Intérprete: Padre Ezequiel Dal Pozzo
CD: Aparecida, Canções de amor e fé
Gravadora:  Paulinas Comep

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Leitura Orante – 28º domingo do tempo comum, 15 de outubro de 2017


Leitura Orante – 28º domingo do tempo comum, 15 de outubro de 2017

A PROVOCATIVA ENCRUZILHADA

“Ide para as encruzilhadas e chamai para as bodas 
todos os que encontrardes”  Mt 22,9)


Texto Bíblico: Mateus 22,1-14


1 – O que diz o texto?
Através de suas parábolas Jesus nos revela uma profunda visão contemplativa da vida; e esta Sua visão não o afasta da realidade; pelo contrário, mantém-no sempre em contato com a fragilidade da existência humana: sentou-se à mesa e comeu com os pecadores; misturou-se com os doentes e os impuros; comprometeu-se solidariamente com os mais pobres, oprimidos e excluídos de seu tempo; revelou sua presença compassiva junto aos mais fracos e sofredores, vítimas de uma estrutura social e religiosa injusta.

Jesus destruiu as categorias de puro e impuro, perfeito e imperfeito, justo e pecador... E anunciou um banquete para todos, “maus e bons”. 

Para Jesus, a experiência da fragilidade dá a conhecer a profundeza da existência humana. 

É reconhecendo-se fraco e limitado que o ser humano se abre para Deus e para os outros; é sua própria fragilidade e pobreza que o fazem sensível à escuta e acolhida do convite de Deus para participar da mesa do Reino. Este é o caminho de Deus em direção ao ser humano, e do ser humano rumo a Deus.

Para fundamentar a imagem do Deus que se deixa afetar por aqueles que estão excluídos nas encruzilhadas da vida, Jesus conta a parábola de um rei que prepara um banquete de casamento do seu filho para muitos convidados.

Como toda parábola, o ponto de inflexão está em rejeitar a oferta. Ninguém rejeita um banquete. Mas o primeiro e o segundo grupo de convidados, com o coração marcado pela ingratidão e afeiçoados aos seus bens e interesses, fazem-se de surdos diante do convite. O campo, os negócios, a violência... é mais importante que a festa da vida. 

Quando nenhum dos convidados comparece, o dono da casa ordena aos empregados: “ide para as encruzilhadas...”, para que convidem a todos, maus e bons. O importante é que haja banquete, que haja festa.

E com frequência, os mais disponíveis são precisamente aqueles que não podem fazer grandes festas. 

Os pobres e excluídos tem poucas festas, mas encanta-lhes as festas; são aqueles que mais sabem festejar.

São eles que dizem sim ao primeiro convite; são eles que não podem comprar campos, nem juntas de bois. E Deus enche a sala com todos eles.

Mas há ainda uma outra imagem surpreendente, revelada pela parábola deste domingo: os maus também são convidados para o banquete festivo. De repente, porém, a atmosfera muda mais uma vez. Entre os convidados, o rei descobre um homem sem a “roupa” apropriada para o casamento. Quando o homem não sabe responder à pergunta por que comparecera à festa sem a roupa de casamento, o senhor ordena que seja jogado lá fora na escuridão.

Todos os nossos aspectos são convidados ao banquete da completude, tantos os aspectos bons quantos os maus, mas nós também precisamos fazer algo.

Esta é uma notícia boa: tudo em nós pode alcançar a união com Deus – também nossos aspectos sombrios e maus -, mas precisamos revesti-los com a roupa do amor, precisamos oferecê-los conscientemente a Deus. Se assim não o fizermos, eles não serão transformados, mas continuarão excluídos na escuridão de nossa existência; com isso não haverá uma festa de casamento, não haverá plenitude de vida.


2 – O que o texto diz para mim?
O que a parábola está querendo me revelar é: também aquilo que faz parte do meu inconsciente, que deixo abandonado em algum ponto da minha encruzilhada interior, ou seja, tudo aquilo que em mim foi rejeitado e reprimido, também quer ser incluído e ter um lugar na mesa festiva com Deus. Toda a minha história é importante, tudo o que jamais foi experimentado e vivenciado deve ser convidado para a integração. Cada aspecto de minha vida, rico ou pobre, faz parte da minha humanidade, e tudo o que é humano é lugar de salvação; não devo negar meus desvios e fracassos, pois eles também querem contribuir para à minha verdadeira identidade em Deus. Justamente os aspectos rejeitados e excluídos de minha vida é que estão mais sensíveis ao convite à vida plena.

Só posso me tornar plena em Deus quando lhe ofereço minhas fraquezas, limitações e fragilidades. Tudo aquilo que escondo de Deus fará falta na minha humanização. Se não aceito os aspectos abandonados e excluídos nas esquinas e encruzilhadas da minha existência, atravesso a vida apenas com metade daquilo que sou: um ser humano que apenas quer revelar seu lado positivo. Quando me encontro assim, sinto que nada pode fluir, porque algo me falta.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Essa força terapêutica da parábola me transmite uma grande esperança: tudo o que compõe minha história, rica e pobre, positiva e negativa, compõe minha vida; nada deve ser rejeitado e nem julgado; tudo deve ser acolhido e tudo deve ser oferecido ao Senhor da festa.

Toda a minha vida, todo o meu ser, tudo o que carrego em meu interior, bom e mau, quer ser transformado pelo Espírito e pelo amor de Deus; só assim, aquela imagem original que Ele tem de cada um pode se revelar e brilhar em qualquer circunstância de minha vida.

Posso, então, afirmar que a vida está nas encruzilhadas de minha existência; afirmando de outro modo: as encruzilhadas estão também carregadas de vida. É das encruzilhadas existências que pode me surpreender com o surgimento do novo. É ali que o convite à plenitude de vida ressoa com mais intensidade.

Minha razão, meu “eu perfeccionista”, meu “ego inflado”, minhas afeições desordenadas... não se deixam impactar pelo convite para a festa da vida. Estão seguros de si, atrofiados e petrificados em seus mundos...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o Deus que Jesus revelou mostra o seu rosto na proximidade e na reconciliação para com todos. Ele não tem vergonha de se aproximar e de se misturar com a pobreza e a fragilidade dos seus filhos e filhas; Deus encontra-se mergulhado no humano, acolhe tudo e plenifica tudo (inclusive a fragilidade). Ele se apresenta como um “Deus errante”, que corre ao encontro daquele que está perdido. 

O Deus de Jesus não age do mesmo modo que o “deus dos fariseus”. Ele não faz comparações entre uns e outros; não coloca os impuros em situação de desvantagem. Ele é o Deus “festeiro”, que sempre propõe a “mesa da inclusão” a todos os seus filhos e filhas.

Jesus põe no centro de seu anúncio a indigência, a fragilidade, o limite... e não a perfeição, a pureza... Ele sabia que a pessoa consciente de suas fragilidades e pobrezas é mais disponível e aberta à Graça de Deus. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É provável que as pessoas, às quais o texto se refere originalmente, tenham sido aquelas que viviam fora de Jerusalém, em meio a um mundo de pobreza e exclusão. 

Tal situação as impedia participar de qualquer festa. Mas se entendo a parábola em chave de interioridade, como motivação para meu caminho em direção a uma vida maior, posso afirmar: o chamado a uma vida em profundidade pode ficar ofuscado pelo ego fechado e superficial.

O apego aos bens e aos negócios podem me impedir de escolher o caminho da vida expansiva; uma vida bem-sucedida é o maior inimigo da transformação. Quem se acomoda no sucesso não prosseguirá em sua caminhada interior e ficará parado em sua imaturidade humana. Quem confia demais em seus próprios negócios ou em seu sucesso pode romper o vínculo com o coração e renegar seu verdadeiro eu.

O perigo está em ter ouvidos para os cantos das sereias, e não para o convite que vem do mais profundo de meu ser, que me chama a uma plenitude humana. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 22,1-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Fragilidade Fx 5 (04:15)
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Ringo, Caio Flavio, Silvinha Araujo, Angela Márcia
CD: Amor, mística e angústia
Gravadora:  Paulinas Comep