segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Leitura Orante – 23º domingo do tempo comum, 10 de setembro de 2017

Leitura Orante –  23º domingo do tempo comum, 10 de setembro de 2017

VIVER RELAÇÕES COMUNITÁRIAS SADIAS E RECONSTRUTORAS

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, 
ali estou eu, no meio deles”. (Mt 18,20)


Texto Bíblico: Mateus 18,15-20


1 – O que diz o texto?
Tudo na vida gira em torno das relações: com Deus, consigo mesmo, com os outros, com a natureza. Isso é especialmente verdadeiro numa comunidade cristã. Famílias saudáveis, grupos saudáveis, igrejas saudáveis, vidas saudáveis, ambientes saudáveis... falam de relações saudáveis. 

No capítulo 18, Mateus recolhe uma série de afirmações de Jesus sobre a comunidade dos seus seguidores. É a primeira vez que se emprega o termo “irmão” para designar os membros da comunidade cristã. É preciso notar que o texto de hoje é continuação da parábola da ovelha perdida, que termina com a frase: “Assim vosso Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum destes pequeninos”. 

No evangelho de hoje é muito relevante a preocupação pela vida interna da comunidade; o texto nos adverte que não se pode partir de uma comunidade de perfeitos, mas de uma comunidade de irmãos, que reconhecem suas fragilidades e precisam do apoio mútuo para superar seus limites e erros. As rupturas nas relações podem surgir em qualquer momento, mas o importante é estar preparado para superá-las.

Jesus Cristo não só revelou a verdadeira identidade de Deus, cuja essência é relacional (cerne da doutrina cristã da Trindade), mas mostrou que o caminho para a transformação pessoal consiste, também, numa correta e justa vivência na relação com os outros. 

De fato, a pessoa humana não se pode realizar sem os outros. Realiza-se quando, livre e voluntariamente, conhece e é conhecida, ama e é amada, compreende e é compreendida. Precisamente, a reciprocidade das relações é a que permite integrar a igualdade e a diferença, a identidade pessoal e a identidade do outro, buscando chegar à comunhão e à unidade.

Humanamente falando, nem sempre nós nos damos conta, mas o foco em torno do qual gira toda a existência humana está na capacidade de nos relacionar e de nos comunicar. As relações humanas são o centro de tudo. A essência última de todas as ansiedades humanas manifesta-se como um problema de relações: com os pais, com os filhos, com os companheiros de trabalho, com os amigos, com os vizinhos, com os irmãos de comunidade, com as diversas culturas, raças, grupos étnicos, etc...

O papa Francisco continuamente nos apela a passar da “cultura da indiferença” à “cultura do encontro”; sua intenção é desmascarar a indiferença que prevalece em todos nós, a superficialidade das relações, e buscar um encontro verdadeiro e profundo com o outro.


2 – O que o texto diz para mim?
Relacionar-se é a grande e única finalidade da vida do ser humano: encontrar-se, viver em sociedade, colaborar, construir amizades, amores, conhecer gente...; tudo está condicionado pela potencialidade e pela capacidade de relacionar-se. 

“No princípio era a relação”, afirmava o filósofo Martin Buber. De fato, a pessoa existe graças à relação e para a relação; cresce na relação e em vista da relação; amadurece e se humaniza na relação.

Mas é na relação que emergem minhas riquezas e minhas pobrezas humanas. Todos temos limites, bloqueios que fragilizam os laços comunitários. É importante aceitar que existem tais limites, aprender a reconhecê-los, ajudando mutuamente a superá-los e acolhendo aquilo que me convida a ser mais criativa audaz e valente. 

A gestão das relações interpessoais exige equilíbrio e sabedoria. A partir das limitações e fragilidades também posso me encontrar com os outros. Preciso de sabedoria para aceitar a realidade, acolhê-la e cuidá-la, para ir transformando por dentro. Não posso me conformar com a mediocridade da comunidade. Toda a comunidade é impelida a um “mais” que brota do modo de proceder e viver de Jesus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O sentido da comunidade cristã, portanto, é de ajuda mútua. “Ajudar” pede um coração magnânimo, grandeza de sonhos, de ânimo e de desejo; mas, ao mesmo tempo ela me convida à humildade, ou seja, abrir-me às necessidades do outro, descer ao nível do outro, renunciando meus próprios critérios, modos fechados de viver... 

“Ajudar” não vai na linha do impor, senão do propor. Trata-se, isso sim, de propor com qualidade, com firmeza, com proximidade, com compromisso pessoal. Isso requer presença gratuita, desinteressada, centrada no bem da outra pessoa, sem criar dependências, mas fazendo o outro crescer em liberdade.

A comunidade deve ser sacramento (sinal) de salvação para todos. Atualmente não tenho consciência dessa responsabilidade. Passo friamente pelos outros. Sigo fechada em meu egoísmo, inclusive na vivência religiosa. A falha mais letal de meu tempo é a indiferença. Martin Descalzo a chamou “a perfeição do egoísmo”. Outro a define como “homicídio virtual”. Seguramente é hoje o pecado mais difundido nas comunidades cristãs.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a comunidade é o lugar da “correção fraterna”; e o critério para a correção não é a lei, mas a presença de Jesus que está no meio da comunidade. Quando a correção é feita a partir da lei, assumo a posição de juiz, rompo a comunhão, crio categorias de pessoas (perfeitas e imperfeitas) e caio no legalismo e moralismo.

Todos devem “corrigir-se” mutuamente, tendo os olhos fixos em Jesus; no seguimento de Jesus ninguém chega à “perfeição” a ponto de poder corrigir os outros. Por isso, a correção fraterna é um estilo de vida que não se limita aos erros e fracassos; ela implica em ativar mutuamente os dons e capacidades que ainda não puderam se expressar. A presença de Jesus no meio da comunidade é sempre horizonte inspirador para que todos cresçam na identificação com Ele. 

Nesse processo de crescimentos os ritmos são diferentes para cada pessoa; não se trata de nivelar a todos, mas de respeitar os processos, as circunstâncias, as condições de cada seguidor, seguidora de Jesus. A correção significa, então, estima e confiança no outro, pois ele é muito maior que suas falhas.

Educada pela misericórdia de Deus, sou chamada a exercer o ofício da “correção fraterna”, para que a comunidade possa se revestir sempre mais do modo de ser e proceder de Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A correção fraterna, pois, não é tarefa fácil; e isto por duas razões: em primeiro lugar, aquele que corrige pode humilhar àquele que é corrigido, querendo realçar sua superioridade moral. Aqui tenho que recordar as palavras de Jesus: como pretendes tirar o cisco do olho do teu irmão se tens uma trave no teu? 

Em segundo lugar, aquele que é corrigido pode rejeitar a correção por falta de humildade. Diante dessas duas razões necessita-se de um grau de maturidade humana que não é fácil de alcançar. 

O importante não é a norma concreta, mas o espírito que a inspira.

Onde reina a competência desleal, devo anunciar a lealdade.

Onde reina o empenho em colocar-se acima dos outros, devo anunciar a igualdade. 

Onde reina o afã da vaidade e da aparência, devo anunciar o serviço.

Onde reina a dificuldade nas relações mútuas, devo querer ser presença de acolhida.

Onde custa solicitar favores, devo querer estar disponível àqueles que clamam por  ajuda.

Onde reina a exploração, devo anunciar a solidariedade e a luta contra a injustiça.

Onde reina a indolência, a inibição, devo anunciar e viver iniciativas em favor da vida...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 18,15-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Caminho traçado – fx 10 (03:23)
Autor: Maninho
Intérprete: Maninho
CD: Maninho – Papel dobrado
Gravadora:  Paulinas Comep


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