segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Leitura Orante – 21º domingo do tempo comum, 27 de agosto de 2017


Leitura Orante –  21º domingo do tempo comum, 27 de agosto de 2017

AS PERGUNTAS INQUIETANTES QUE NOS HABITAM

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

Texto Bíblico: Mateus 16,13-20


1 – O que diz o texto?
A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas. 

Jesus é um Deus que pergunta. São inúmeras às vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o “quê buscais?” no início do evangelho de S. João, passando pelas perguntas na região de Cesaréia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, “e vós, quem dizeis que eu sou?”, até à tríplice interpelação a Pedro, “tu me amas”?

Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe de perguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundada em perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções. Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminho d’Ele, é arriscar-se n’Ele.

Jesus aproxima-se das pessoas. Não procura convencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discursos. Suas perguntas ousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e idéias preconcebidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta Jesus provoca uma radical decisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino.

Já agradecemos alguma vez pelas perguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre as vozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cada uma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porque cada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção ou de interesse, e, inclusive, algumas de desafio... Umas foram respondidas, outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saibamos respondê-las...


2 – O que o texto diz para mim?
Um cristão que nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneira vital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristã eu me defino mais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar a capacidade de me deslumbrar diante deste mundo fenomenal que sou e diante desta realidade que me circunda. 

A espiritualidade cristã reacende em mim as grandes “interrogações existenciais”:  

“Quem sou? – Quê estou fazendo? – 

Por quê estou fazendo? – Para quem estou fazendo?...”

A índole interrogatória é traço típico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, tem dose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para o futuro, para o novo. A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável. 

Não são perguntas para começar a caminhar, mas para reforçar meu espírito de aventura e mobilizar meus recursos interiores na busca do “sentido” de minha identidade e da missão que realizo.

Tais perguntas trazem à tona minhas motivações, minhas formas de agir, de amar e de sentir...

A busca é interior, o caminho é pessoal e coletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Desde o início, ainda no paraíso, Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus me busca continuamente com suas perguntas. Sou resposta a essa pergunta primordial.

Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser que pergunta. 

Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura da vida começam suas perguntas: “por quê?”... Uma infinidade de “por quês?” 

Também sou uma pergunta que faço a Deus e espero resposta. Quantas gostaria de fazê-las a Deus? Mas a resposta só virá quando o meu coração estiver preparado para escutá-la: sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.

“Sê paciente com tudo o que ainda não está resolvido em teu coração... Procura amar tuas próprias perguntas... Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz de vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, gradativamente, sem dar-te conta, possas algum dia viver as respostas” (Rainer María Rilke).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, viver à escuta das interrogações me mantém desperta no caminho. Estou habitada nas perguntas.

São as perguntas que suscitam em mim o assombro frente à riqueza da realidade, a preocupação frente o drama da humanidade, a disposição frente ao futuro..., exigindo assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostas formatadas paralisam e fecham as portas às novas possibilidades. 

As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. 

As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de aventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatia e à acomodação.

O momento é de tecer perguntas onde há mais respostas formatadas e fechadas. 

Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que me ajude a ser mais intuitiva através das perguntas que abrem acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pergunta “quem é Jesus” não pode ser respondida simplesmente com os dogmas. 

A resposta deve ser prática, brotar do chão da vida. Minha vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristo para mim. “Quê diz tua vida de mim?” 

Do esforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devo fazer minhas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas. 

A verdadeira pergunta é: “quê é, que significa Jesus Cristo em minha vida?”  Não basta dizer que creio em Jesus. É preciso me perguntar: em quê Jesus crê e quem é Jesus para mim?


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu coração se encontra diante da revelação do “eu original”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“quem sou eu para você?”).

A contemplação da pessoa de Jesus é também desvela-mento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja, revelação da verdade do eu, onde descubro os traços de minha própria fisionomia.

Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim?” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor?” 

Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor.

O encontro comigo mesma me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 16,13-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Dizem que sou missionário - Fx 05 (02:18)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ricardo Moreno
CD: Discípulos e missionários 
Gravadora:  Paulinas Comep

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