segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Leitura Orante – ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA, 20 de agosto de 2017


Leitura Orante –  ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA, 20 de agosto de 2017

VISITAÇÃO: o encontro com o outro faz saltar a vida em nosso interior

“Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, 
a criança pulou em seu ventre...” (Lc 1,41)


Texto Bíblico: Lucas 1,39-45


1 – O que diz o texto?
A festa da Assunção de Maria nos oferece uma privilegiada oportunidade para aprofundar o mistério de toda vida humana. A todos nos preocupa qual será meta de nossa existência. Para grande parte do povo católico, a festa de hoje, juntamente com a festa da Imaculada, é a festa de Maria. A Imaculada marca o começo de sua história, a Assunção marca o destino final. Entre ambos “mistérios” ocorre o transcurso de sua vida, numa contínua identificação com Deus, ao lado da vida de Jesus.

No relato do Evangelho de Lucas, indicado para a festa de hoje, há duas mulheres, Maria e Isabel, que experimentaram profundamente o dom da gratuidade, e seu lugar de carência se converteu em lugar de abundância. As duas descobriram o dinamismo curador das relações e a riqueza que os encontros pessoais revelam.

O “mistério da visitação” nos possibilita recuperar o sentido e o dinamismo de um encontro interpessoal. O encontro é uma realidade inter-humana dinâmica e, até certo ponto, tem algo de arriscado e imprevisível, derrubando todas as nossas prévias tentativas de controlá-lo. 

O evangelista Lucas nos apresenta uma visita inesperada: a visita daquela que não permanece fechada nem ensimesmada em seu mistério; a visita daquela que se sente impulsionada a sair de si mesma para colocar-se a serviço daquela que está necessitada de ajuda. 

Uma visita alegre, espontânea e gratuita, porque cheia da experiência de Deus; Maria que faz Isabel sentir a alegria de uma maternidade não esperada e Isabel que faz Maria sentir as maravilhas que Deus realizou nela. Uma visita que se expressa em dois cantos de louvor e ação de graças: “Bendita és tu que acreditaste” e “Minha alma engrandece o Senhor”.

As duas mulheres se encontram em diferentes momentos vitais: Isabel na terceira etapa de sua vida, Maria quase na primeira, entrando na segunda. Uma é estéril e anciã, a outra, jovem e virgem, ambas portadoras de uma vida maior que elas mesmas, conhecedoras do mistério que crescia em seu interior.

Devido à sua gravidez, as duas se encontram fora da norma social, do estabelecido. Isabel é idosa para poder conceber, e Maria está grávida sem estar casada.  Ambas deviam sentir não só alegria no abraço, mas também a comoção e as dúvidas: “quê vai acontecer?”, “como vamos ajeitar as coisas?”...

Elas apoiam-se mutuamente no momento no qual estão na situação que atravessam; reconhecem-se e se confirmam; estabelecem um vínculo entre elas, aceitam-se mutuamente; não se julgam nem valoram em função do que a sociedade considera correta ou incorreta; compreendem o que significa para cada uma delas que algo novo está crescendo em seu interior.

Maria não vai só servir a Isabel; ela precisa de alguém que a partir de sua experiência lhe diga: “vai em frente, que isso é de Deus”. Necessita que Isabel a confirme e a bendiga. E Isabel, por sua vez, necessita agradecer o sonho de Deus que as duas compartilham e que se tornou possível.

Isabel e Maria se convertem cada uma em comadre, em parteira da outra; a partir de seus diferentes momentos vitais, vão se ajudar a esperar e a passar o processo do “dar à luz”. Na vida nova que está se gestando nelas, no secreto anseiam em uníssono para trazer ao mundo algo de Deus que estava oculto. 

As duas sabem de espera e de dores de parto. O parto não é um fato isolado e acontece nele a contração e a relaxação, a dor e o prazer, a posse e o desprendimento, a tristeza e a alegria, o medo e a confiança.

Isto que as parteiras mencionam como momentos do parto, do “dar à luz”, são momentos de nossa vida, de nossos encontros. Todos nos reconhecemos aí. Somos parteiros uns dos outros, e necessitamos cuidar desses processos cotidianos onde a vida do Espírito se manifesta como luz da vida.


2 – O que o texto diz para mim?
À sombra do encontro entre Maria e Isabel e contemplando o modo de visitar e de ser visitada, agradeço o tecido relacional que configura minha vida. É um tempo para orar os encontros, para considerar aqueles que precisam continuar alimentando e aqueles que se romperam e que querem reparar.

Agradecer os encontros que nutrem minha vida. Trazer ao coração as pessoas significativas que me fizeram provar o sabor do amor em mim e seus bons efeitos. 

Recolher agradecidamente os pequenos gestos de amor, de carinho, de escuta, de confiança, de paciência... que tiveram para comigo.

Há visitas que não significam muito: só servem para matar o tempo e “jogar conversa fora”. E há visitas que despertam vida, que faz saltar a vida divina que carrego dentro de mim.

As relações que me constituem são os tecidos pelo qual circulam minha abertura a Deus e por onde cresço em humanidade, acolhendo e sendo acolhida pelos outros.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo em um mundo hiperconectado, em contato permanente e presente, ao mesmo tempo, em todos os lugares. O mundo, minha vida, se converteu num “chat” contínuo. No entanto, em meio a este “chat” universal, a conversação emudeceu; a maior parte de minhas “conversações” tornaram-se prisioneiras das telas (celulares, tablets, smartphones, internet). Corro o risco de reduzir a comunicação à conexão. Banalizam-se os conteúdos da conversa, mas também são amputadas dimensões fundamentais da experiência da comunicação, sobretudo a presença física. Sem essa presença, sem o encontro pessoal, não é possível o diálogo e a verdadeira comunicação. Este empobrecimento da comunicação vivente com o outro, ou a atrofia e medo de um face a face, é sinal claro de uma profunda desumanização.

Por isso, sou ser carente de “mais visitações”. Visitações que despertem minhas possibilidades e sonhos, visitações que me façam saltar de alegria, visitações que me ajudem a reconhecer as maravilhas que Deus realiza em mim e nos outros.

Isabel e Maria se fazem valer mutuamente e despertam o melhor que há em cada uma. Viveram uma história de agradecimento e de libertação, se encontraram a partir da alma, a partir do mais profundo de si mesmas e se ofereceram mutuamente palavras amigas, palavras de encorajamento e de sabedoria.

Elas me ajudam a me perguntar: 

Quê tipo de história relacional quero viver? 

Uma história a partir do ego ou a partir interioridade? 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Porque “assumiu” Deus em sua vida, Maria foi “assumida” totalmente por Deus; ela deixou Deus ser grande na sua vida; por isso, Deus a engrandeceu plenamente.

Realiza-se, portanto, em Maria a situação final, já dentro da história, situação prometida a toda humanidade: “ser um dia de Deus e para Deus”; Maria o é desde o início (imaculada) até o final (assunção), através de uma fidelidade de toda a sua vida.

Senhor, sei que o encontro definitivo em Deus só acontece quando preencho de sentido os “encontros” com aqueles(as) que cruzam minha vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Posso planificá-la preparando estratégias.

Posso acolhê-la cheio de expectativa.

Posso me mostrar desejosa, segura... 

Posso ser uma casa sempre aberta: “entrada franca”.

Casa, lugar do lava-pés, do mandamento novo, da amizade, da visitação...

Casa, lugar de unção-acolhida, serviço e cuidado...

Casa, lugar da gestação de novas vidas, da experiência de nascimentos permanentes...

De repente, algo inesperado acontece, na outra pessoa, ou em mim mesma, ou no contexto, convertendo aquele encontro numa situação única e original, afetando meu viver ou meu eu profundo.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 1,39-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     

Sugestão:
Música: Odogitria Pan Haghia – fx 12 (03:35)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj 
CD: Quando Deus se calou
Gravadora:  Paulinas Comep



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