segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Leitura Orante – 22º domingo do tempo comum, 03 de setembro de 2017


Leitura Orante –  22º domingo do tempo comum, 03 de setembro de 2017

CAMINHO DA CRUZ, CAMINHO DO ESVAZIAMENTO DO “EGO”

“Quem quiser vir atrás de mim negue-se a si mesmo, 
carregue  sua cruz e siga-me”. (Mt 16,24)


Texto Bíblico: Mateus 16,21-27


1 – O que diz o texto?
O seguimento de Jesus implica um descentramento, um esvaziamento do “nosso próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Para poder viver o Evangelho de uma maneira inspirada, deveríamos deixar ressoar profundamente em nós essa expressão tão forte de Jesus: “renunciar a si mesmo” para poder viver com mais plenitude e transparência.

Isto não significa que Jesus tenha tomado um caminho dolorista, no qual se valoriza a dor por si mesma. Pelo contrário, Jesus vive a sabedoria da vida de onde brota a felicidade. Não vive para o “ego”, pois este busca sempre seu interesse e comodidade, mas vive ancorado naquela identidade profunda, na qual permite que a Vida flua através de si mesmo, numa atitude de aceitação ou de sintonia sábia com o Pai. 

A “renúncia a si mesmo” não é um exercício de masoquismo, não é mutilar-se, nem buscar sacrifícios, nem anular-se..., mas é descer até “o dinamismo de vida” (a força germinadora) que pulsa no próprio coração, ansioso de plenitude, de vida e de amor; é a maneira mais profunda de realização. 

“Renunciar a si mesmo” é deixar de se identificar com a tirania das mensagens de nossos pequenos “egos”, que se refletem em nossa própria linguagem e autoimagem. A imagem tornou-se uma espécie de absoluto em nossa sociedade. A ela servimos e por ela somos determinados.

“Renunciar a si mesmo” é um conselho sábio: significa despertar-se da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a comunhão com todos e com tudo e agir assim de um modo mais coerente.

A vida não deve ser corroída pela tirania do egoísmo mesquinho: vida é encontro, interação, comunhão...

Aquele que quer salvar seu “ego”,  perde a Vida, porque se isola numa estreita jaula ou se perde em um labirinto de inevitável sofrimento e, em último termo, de vazio e sem sentido. Uma existência egocentrada, embora aparentemente satisfatória para o “ego” (inclusive até “ganhar o mundo inteiro”), não pode evitar uma sensação de profunda insatisfação.

A morte do falso eu é a condição para que a verdadeira Vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós. 

Ao descobrir a armadilha desse “ego” atrofiador, ao deixar de nos identificar com ele, a primeira coisa que experimentamos é uma sensação de amplitude, onde sentimos que nosso coração se expande e descobrimos que o horizonte é, na realidade, infinito.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqui o “si mesmo” faz referência ao nosso falso “eu”, aquilo que, iludidos, acreditamos ser: o “eu” que busca poder, prestígio, riqueza... O desapego do falso eu é imprescindível para poder entrar no caminho que Jesus propõe.

Aquele que não é capaz de superar o “ego” e não deixar de se preocupar com seu individualismo (centralidade em si mesmo), frustra toda sua existência; mas, aquele que, superando o egocentrismo, descobre seu verdadeiro ser “descentrado” e atua em consequência, vivendo uma entrega aos outros, alcançará sua verdadeira plenitude humana.

Trata-se de um ponto chave do ensinamento de Jesus, ou seja, o convite a entrar na lógica do dom, do descentramento do eu, da entrega gratuita, da superação da mera reciprocidade.

É a lógica aberta pelo Reinado de Deus, que alarga o horizonte da vida humana, enriquece as possibilidades de atuação e aumenta a criatividade no serviço. A lógica do dom implica deixar-se conduzir por Deus, conhecida através de Jesus, que é entrega de vida, misericórdia, perdão, amor infinito.

Minha verdadeira identidade não é constituída pelos pequenos “egos” que acredito ser. Preciso despertar dessa ilusão e entrar em contato com meu verdadeiro Eu, meu Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar minha atividade e olhar os outros, a fim de viver em sintonia com quem sou em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Uma das manifestações da sociedade narcisista na qual o “eu” tornou-se a instituição máxima e o eixo do universo é a chamada cultura do “selfie”. Sociologicamente isso pode revelar a obsessão pelo protagonismo e pela sacralização do eu. 

O que vale na cultura do "self" é o modo como eu me apresento. Na imagem eu recrio conforme meu “self”, isto é, mostrar aquilo que acredito ser o meu "eu". A imagem precisa ser perfeita, pouco importa a maneira como ela foi feita, tampouco, as circunstâncias da construção dela. 

Preciso desvelar (tirar o véu) de meus “pequenos eus”, detectar e reconhecer seus dinamismos sombrios e atrofiadores, para poder caminhar, com mais naturalidade e leveza, para além de mim mesma. Do contrário, eles travarão minha vida de uma maneira tirânica. 

É saudável reconhecer esses “eus” e dialogar com eles, pois de outra forma eles se fixarão em mim como rigidez ou me transformarão em fanática. Rigidez e fanatismo, dureza e intolerância, legalismo e moralismo... indicam a existência de “eus” inflados que atrofiam minha existência.

A afirmação de Jesus, portanto, me faz descobrir que por detrás do “renunciar-se a si mesmo” pulsa o desejo de desprender-se do “ego desumano” para poder expandir a vida em direção a uma ousada criatividade. O caminho da fidelidade até a Cruz vai quebrando toda falsa pretensão do “ego”, expandindo minha vida na direção do serviço e da entrega radical.

Morrer “com Jesus” na Cruz é morrer ao próprio “ego”, para que o “eu oblativo” possa ressuscitar para uma vida nova.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, todos os caminhos autênticos de espiritualidade começam por um esvaziamento do ego, uma renúncia a si mesmo, não para negar-se como pessoa, mas, pelo contrário, para crescer ao recuperar a verdadeira identidade na totalidade. 

Quando “eu me perco”, me encontro, quando “meu eu diminui”, descubro que faço parte de algo maior, que pertenço a Deus. 

Por isso, “tomar a Cruz” é uma imagem que quebra e esvazia toda pretensão de autoafirmação do eu.

É um momento doloroso, pois a pessoa resiste e pode encher-se de angústias e medos ao perder o falso ponto de apoio sobre eu autônomo, impassível centrado em si mesmo. E teme o pior: perder-se, diluir-se.

Sou continuamente bombardeada de afirmações sobre a necessidade de um Eu forte e integrado.

O encontro com Cruz elimina o narcisismo, desmascara a prepotência e me devolve à vida cotidiana (tempo, casa, profissão, conversação) como o único lugar no qual posso me encontrar com a minha própria verdade. 

“Do eu descentrado ao eu enraizado no seguimento de Jesus”: este é o movimento de vida plena.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descer mais ao fundo de mim mesma e descobrir a harmonia. 

Aprender a morrer aos próprios interesses mesquinhos para que os outros vivam.

O meu verdadeiro ser é paz, é mansidão, é bondade. 

Ir mais além do meu falso ser.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 16,21-27
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O amor é agora – fx 07 (04:14)
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: Saudades do céu
Gravadora:  Paulinas Comep


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